terça-feira, 1 de novembro de 2016

SEGUNDO ANDAMENTO DA PARTITURA 120 – A Marcha continua!

          

           É o amor pátrio – daquela “Pátria do Autor”  a quem  Álvares de Nóbrega dedicou o  emblemático soneto  de Machico – é essa alavanca que me pega na mão para tocar, mesmo ao de leve, no monumento vivo de um percurso de 120 anos de existência.  Diante dos olhos, vejo passar essa criança, nascida em 1896, pressinto as crises de crescimento inerentes ao próprio processo biológico, os altos-e-baixos , os entusiasmos frementes e os hiatos depressivos em toda a sua marcha.
         Prosseguindo a transição, ontem iniciada, da idade madura dos 60 anos, em 1956,  para o vértice do centésimo vigésimo aniversário  em 2016, declaro e atesto ter sido testemunha ocular e participante atento
da segunda metade do percurso,  os triunfos e os revezes que apontavam para uma segunda vida, uma reencarnação da primeira, até alcançar a renovada juventude dos primeiros anos. Entre os alvores de esperança, a BMM conheceu, desde 1961, a criação de novas centralidades paroquiais – de uma passou para quatro, em Machico – o que proporcionou novas hipóteses de levar cultura e ânimo às populações imersas na mais ancestral ruralidade. Entre os revezes, contou com  a guerra colonial que, a par de outros prejuízos maiores, levou para terras africanas elementos jovens já iniciados na arte dos sons. Novo sopro de alvorada, revigorou de vitalidade a nossa aniversariante, em Abril de 74. Onze anos depois, em 1985, viu estoicamente arder a própria casa e, mais doloroso, viu desfeito em cinzas o seu sonho de altitude quando, com a casa, ficaram também calcinados os instrumentos musicais. Mas não se deixou amortalhar com as chamas. Pelo contrário, outra chama se ergueu no seu seio, rumo ao futuro.
         E assim alcançou o pico alto do centenário, acrescido hoje com mais 20 primaveras em flor.
         O espírito aberto e democrático da nossa Banda bem pode espelhar-se neste breve tríptico histórico: a “Phylarmónica de Machico”  que saudou o regime monárquico na visita de D. Carlos I à Madeira, foi a mesma que fez brilhar o Hino Nacional para o “Presidente do regime da Ditadura”, Craveiro Lopes - 1955 - em Machico  e  para os “Presidentes da Democracia”,  Jorge Sampaio  em 1998 e Cavaco Silva em 2008, nesta sede do concelho.  Prova inequívoca e mais tocante para quem escreve estas linhas foi a abertura incondicional para com  a Ribeira Seca, a Banda Municipal de Machico atendeu sempre ao requerido pela população local  e marcou   sempre uma presença prestigiante nas festas do Amparo e do Senhor. O Povo não esquece!
         A evocação do 120º aniversário, cujo programa encerra neste dia,  alcançou um brilhantismo e uma simbologia, de todo assinaláveis, a começar pelo convite às Bandas de Santana e Câmara de Lobos para actuar no concerto comemorativo, revelando-se Machico como coração da música, abraçando em comum os  dois polos distantes, a norte e a sul da ilha.
         A Banda é estimada e amada pelas gentes de Machico. Os intercâmbios que tem realizado com outras instituições congéneres  catapultam o seu timbre dentro e fora da Região.  Aguardamos que se dissolva, quanto antes, o bloqueio – vexatório para a instituição eclesiástica, - que tem reduzido a centenária colectividade à condição de proscrito, refugiado expulso da sua pátria natal.
         A excelente exposição patente no átrio da Câmara Municipal faz perdurar as comemorações e revela que a criança de 1896 está viva e promissora.  A sua vitalidade está bem expressa nos talentosos jovens executantes, entre os quais o autor do Hino do 120º aniversário. Ao Director Manuel Spínola e ao Maestro Nuno Santos, o mais que se  deseja é que nunca as mãos lhes doam nem a coragem  esmoreça.
          O estado de alma com que termino esta partitura,  desde  30 de Outubro até 1 de Novembro, é dirigida muito afectivamente  ao Director, o veterano sempre vigilante e o sustentáculo da perene juventude da BMM, mimado por todos pelo carinhoso diminutivo de “Manelhinho”.  Ei-lo:
         Há setenta anos e mais, guardo na retina o antigo Maestro e Dirigente José da Costa Miranda, verdadeiro ícone do projecto musical deste concelho, consignado à Banda. Estou a vê-lo, caminhando à frente dos músicos de então, rumo ao histórico coreto da vila de Machico.  Pois bem,  Prof. Manuel Spínola.  Hoje ao vê-lo descer a rampa que dá para o palco das festas, trazendo atrás um vistoso grupo de jovens com os respectivos instrumentos, só me veio ao pensamento a postura dedicada e distinta do Maestro  Costa Miranda, de há setenta anos. Comovi-me no meu íntimo e disse: Cá está a primavera renovada!
         Daqui a setenta e mais anos, outro Costa Miranda e outro Manuel Spínola percorrerão as ruas desta cidade, à frente de novos rebentos musicais, projectando em todo o vale de Machico este pregão: “ A Banda está viva, eternamente renascida” !
Valeu a pena – dizemos nós !

01.Nov.16
Martins Júnior  
        

    

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

PRIMEIRO ANDAMENTO DE UMA MARCHA CENTENÁRIA

Pela primeira vez, componho a minha partitura em prosa que, de tão longa e farta, começa hoje, 31 de Outubro, e alcança o clímax amanhã, 1 de Novembro. Porque a melodia que trago nos dedos é feita, primeiro com vagidos de criança recém-nascida, repercutindo-se, depois,  de encosta a encosta, por todo o vale de Machico, adolescente, jovem, adulta e bela..          É dela,  dessa criança de outrora, hoje aniversariante com 120 cerejas rubras e, com elas, 120 velas em cima de um saboroso bolo centenário, que tentarei desenhar o meu convívio convosco, particularmente, com as gentes da Terra de Tristão Vaz.
Foi em 1896. Nesta noite, que não de bruxas, mas de sereias saídas da velha baía, adivinhava-se o parto sonoro que amanhã, Dia dos Santos Todos do Mundo, viria sobredoirar a silhueta da nossa paisagem, desde o alto das montanhas até ao seio fundo da “extensa ribeira preguiçosa,  alisando pelo meio alvos penedos”,  conforme vaticinara , um século antes, o “Nosso Camões”, Francisco Álvares de Nóbrega.
Nasceu num  bercinho pobre, cheirando à plaina dos carpinteiros, ao labor esforçado de pedreiros, à tenda de sapateiros, aos campos verdes dos camponeses. Não obstante a raiz  quase proletária dos seus genes, teve nome real e a bênção da monarquia imperial. Rei de Portugal e dos Algarves, foi D. Carlos I o padrinho-patrono e, mais tarde, aquando da visita de Suas Majestades ao Funchal, em 31 de Julho de 1901, foi a  “criança”, de cinco anos apenas, saudar clangorosamente os soberanos Monarcas à capital do Arquipélago.
         Cresceu ao ritmo das muitas convulsões que culminaram na implantação da República Constitucional, em 1910,   substituindo então o seu passaporte inicial de sobrenome real pela autóctone matriz municipal.  Tempos adversos se lhe seguiram, os da I Guerra Mundial,  sem  nunca lhe esmorecer o ânimo de semear abadas de alegria não só na freguesia, mas em todo o concelho e fora dele. Assistiu à ditadura nascente de 1931, vestindo a farda de sargento deportado, com o qual garantiu a consistência do seu crescimento evolutivo na construção do edifício cultural da sua terra natal.
         Atravessou os dias tempestuosos da “Revolução do Leite”, em 1936, mas aguentou-se já adulta com 40 anos de idade, caldeada na alma de machiquense ilustre e conceituada no panorama musical de toda a Madeira. A II Guerra Mundial  fê-lo passar as privações comuns aos demais portugueses que, embora  mantendo-se à distância,  indirectamente sofreram as consequências. Nada, porém, travou a marcha que iniciara em 1896.
         Em 1956, no ‘tornado’ que assolou Machico rural e urbano, manteve-se, atento e seguro, no posto cimeiro da sua missão de garantir o povo mais firme e aguerrido perante as adversidades, tal como sucedera com os seus antepassados na tragédia de 8 de Outubro de 1803, que todos os anos evocava em acordes plangentes ao longo das ruas de Machico.
         E assim perfez os 60 anos de existência.
         Nesta alegoria breve, está plasmada meia-idade da nossa Banda, que começou com o garboso título de   “Phylarmónica D. Carlos I” e, desde 1910, tomou a designação que ainda hoje ostenta, “Banda Municipal de Machico”.  Os seus primeiros executantes eram oriundos da classe operária que, após um dia de trabalho árduo, aplicavam as “mãos calosas” na arte dos deuses, sem os apoios de hoje, comprando eles próprios os seus  instrumentos e as fardas da colectividade. Esforço porfiado e nobre em tempos recuados de mais de 100 anos! Os dirigentes, quase sempre autodidactas, conheceram  nos primeiros anos da década de 30 o saber técnico e a experiência artística de militares que o governo da ditadura deportou para a Madeira. Males que vieram por bem – para a ascensão da nossa Banda.
         Os 60 anos seguintes, desde 1956 até 2016,  terão amanhã, 1 de Novembro,  a consagração final  do esforço e da sensibilidade de Machico,  gente de outrora igual à gente de agora,  ao longo de um trajecto venerável, comprovando que nunca será vã a entrega de alguém a um sonho, por vezes, utópico, mas que terá no futuro a florescência e a beleza que nutrem a alma das nações.  

         31.Out.16
         Martins Júnior

          

sábado, 29 de outubro de 2016

ONDE SE FALA DE PICA-MIOLOS, BURACOS E TRAMBOLHÕES…

         
         De sábado para domingo, são tantas as propostas de evasão e entretenimento abertas por aí fora, que nem há folga para ementas pesadas na nossa mesa de leitura. E hoje não fugirei ao protocolo vadio, porque descontraído, de fim-de-semana. “Surfando” (está na moda) ao de leve e ao sabor das ondas superficiais, distraio-me, hoje - distrair-se pode significar concentrar-se -   nos buracos  e buraquinhos, quase sempre atribulações e trambolhões, que não nos deixam prosseguir o viajar normal dos planos traçados. “Guerras do alecrim e da manjerona”, diria António José Silva, “O Judeu”,   ou a comédia  “Quem tem farelos”, do fundador do teatro português, Gil Vicente. Levem, pois,  à conta de uma conversa sobre tragédias da treta o que trago hoje à colação.
         Quanto mais alto é o cargo e mais determinante o estatuto de quem dirige a locomotiva, mais lhe caem na frente estes escolhos imprevisíveis que se atravessam como pica-miolos irritantes, desestabilizadores. Falo, por exemplo, da política e da religião. Tento pôr-me na pele dos timoneiros de um país, de um continente, do mundo todo, quiçá, e avaliar a sobretaxa de paciência que devem carregar aos ombros para engolir ad nauseam  sapos, trapos, cacos que, na expressão do nosso comediante Raul Solnado, “não matam, mas desmoralizam”.
         Planeia um Primeiro Ministro a viagem, faz-se ao largo e logo na primeira ilhota, há um oficial que promete uns “tabefes” a um qualquer marinheiro de canoa e lá está o comandante à pega, até ver-se obrigado a mandar o colega  borda-fora.  Mais adiante, um tripulante de confiança apanha boleia para ir ver o europeu de futebol e – pronto! – querem que o rapaz vá p’rás Selvagens. Adeus plano de viagem, adeus rumo, adeus bússola… Eis senão quando aparece um moço de bordo com um canudo falso de novas e velhas universidades e, a seguir, mais outro. O comandante tem de arribar e atirar à praia mais dois náufragos por não saberem nadar. Lá se foi o diário de viagem. O homem nem tempo tem de se coçar. Só faltava esta:  o caixeiro-viajante mete os pés ao casco – arre burro! – e teima em não apresentar o vale da mercearia com os trocos que ganha. O melhor que faz o arrais do barco é “fugir para ilha”… de Cuba! Ou mandá-lo às almas do Tribunal Constitucional. E o projecto , outra vez ao ar! Os que exigem a demissão do ministro não pediram, a tempo,  a cabeça nem do Primeiro nem do Segundo  jardineiro DrDrDrDr… da relva!
         Se a barcaça for o planeta, então  o caso muda de tamanho e brado. Vejo o Papa, “vindo do fim do mundo” para erguer o princípio de um outro mundo novo e logo de entrada acha um velho cardeal, travestido de raça Rottweiler, que lhe vai  às canelas para fazer tombar o septuagenário argentino. Depois, há um “pastorzinho  alemão”, bispo caloiro em folha, e constrói para si uma mansão salomónica de 30 milhões de euros. E o pobre Francisco, que se recusou a viver sumptuosamente  no Palácio do Vaticano, tem de aturar um “badameco” desses, candidato em nome de Cristo a príncipe germânico… Dá, mais adiante, com o nariz num cardeal americano, num bispo irlandês, num padre impecável de gola e batina, muitos e muitos,  metidos em crimes de pedofilia… e o Papa Santo entra em parafuso e já não acha o missal onde tinha desenhado o divino plano para um mundo novo, um mundo melhor. Mais ridículo, ainda, é quando lhe trazem um testamento para decidir se as cinzas ficam na terra, no mar ou no ar. Muito tem de suportar para não mandar tudo às urtigas! Também só faltava esta: o sr. Robert Sarah, cardeal-arcebispo africano da Guiné Equatorial que quer à tripa-força a missa com o celebrante de costas para o povo, como há 60, 100, 200 anos. E tem o desplante de afirmar que a igualdade de género (homem-mulher) tem feito mais estrago no mundo  que os ataques do Estado Islâmico!!!
         Quem pode seguir caminho com tanto buraco na estrada, tantos ratos-de-esgoto bem vestidos, tantos pica-miolos de picareta em punho?!...
         De minimis non curat praetor  - dizia-me alguém, aquando da minha passagem à frente do município de Machico. “O pretor (governante romano) não deve ocupar-se de coisas mínimas”, acidentais, transitórias. Que não são propriamente  “mínimas” as questões eclesiásticas que mencionei.  
Mas não é fácil. Muita força e persistência terão de ganhar os líderes, para não perder nem a bússola nem o horizonte dos seus ideais.
         Afinal, comecei por distrair-me e acabei por concentrar-me. Assim fica.
         29.Out.16
         Martins Júnior  


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

DO MEDO da morte À ESPERANÇA da imortalidade – Com RAQUEL VARELA em Machico


Deixei-me ficar, esta semana, em Machico, tantas foram as ofertas, caídas como prendas outonais  no terreiro da nossa casa comum. Prendas culturais, na ribalta do teatro, nos colóquios da história e da psicologia, na academia dos sons, desde os concertos de órgão até aos metais da Banda Municipal que, desde domingo p.f. até ao 1º de Novembro,  festejará uma brilhante longevidade de 120 marchas de aniversário, associando-se-lhe os acordes solidários das Bandas de Santana e Câmara de Lobos. Expressivas manifestações de descentralização cultural e de autonomia criativa,  a que outras se seguirão, entre as quais o título que encima o presente texto.
 “Amor, determinação, acção – eis a trilogia do sucesso”. Assim começa o concerto a-quatro-mãos, cuja partitura vem monitorizada naquele sonho “DO MEDO À ESPERANÇA”, que António Coimbra Matos e Raquel Varela magnificamente compuseram. Ele, psiquiatra, de vasta e abalizada experiência na área da Psicanálise. Ela, historiadora e investigadora do Instituto de História Contemporânea na Universidade Nova de Lisboa, professora convidada de várias universidades estrangeiras, autora de uma rica e densa bibliografia sobre a realidade actual e, entre outros segmentos de actividade, participante no recente programa da RTP3, “O Último Apaga a Luz”, à sexta-feira.
Estará connosco, no  Solar do Ribeirinho, 2 de Novembro, às 19H.
Toda a obra de Raquel Varela é um voo em espiral, explosão de optimismo realista, umas vezes carregado de doloroso dramatismo, porque radicado no chão frio e duro da contraditória condição humana do nosso tempo, outras vezes clamoroso e entusiasta, roçando a Utopia, de Tomas Mann e de Fernando Pessoa. Corajosamente, Raquel Varela obriga-nos a “cair na real”, sem peias nem meias-tintas, para de seguida, em mútua cooperação – “construção de relações, a chave de tudo” – levar-nos a construir soluções e pistas em direcção ao futuro. Um pensamento forte: “É preciso mudar de vida para mudar a vida. Na psicanálise como na vida, instalar uma nova relação para fruir de uma nova vida”.
O livro, sob a forma de diálogo em crescendo, associo-o à Grande Enciclopédia do Saber, do Sentir e do Agir, tal a amplitude dos espaços históricos que abarca e os testemunhos “ao vivo” de ontem e de hoje. Cervantes (A estrada é sempre melhor que a estalagem) Rosseau (O normal no homem é o do ‘bom selvagem’ que não tem medo da liberdade, do lazer e do prazer) Rosa Luxemburgo (Quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem) e a antítese entre “Édipo culpado e Ulisses dedicado, por amor”.
O amor, o trabalho, a família, a empresa, a luta, a informação, a frustração,  o burnout, enfim, é a vida toda  e o mundo todo que perpassam diante de nós, impelindo-nos a caminhar porfiadamente face ao futuro, porque “a emancipação de um povo é de conquista, não de oferta”.
Ao “beber de um só fôlego” a mensagem DO MEDO À ESPERANÇA, acudiram-me à memória “As Lições de Abismo” do sociólogo brasileiro Gustavo Corção e a “Summa Theológica”, de São Tomás de Aquino, a qual, no caso vertente, tomaria a designação de “Summa Vitalis”, o tratado da Vida.
Desisto de fazer mais citações, porque de cada uma que fizer,  outras nascerão,  mais belas e arrebatadoras, porque todas as linhas dessa enorme arquitectura dirigem-se a esta ogiva fundamental: “A vida é festa; ou não é vida. A dança do trabalho e do amor. E a psicanálise e a família são, por excelência, parte nobre do texto e do contexto da vida em festa”.
Interrompo esta ouverture  em tom maior, porque o concerto total será na próxima quarta-feira, 2 de Novembro, às 19H, no inspirador Solar do Ribeirinho. Coincidentemente, é o Dia de Finados. Talvez a maior mensagem seja a da “imortalidade simbólica”, expressa na conclusão de Coimbra de Matos: “Lidamos com a consciência da morte, acrescentando algo ao conhecimento, encanto e conforto do mundo, transmitindo às novas gerações um legado cultural. Com isto tornamo-nos, de certo modo, imortais”.    
Bem-vinda a Machico, Raquel Varela!

27.Out.16
Martins Júnior



terça-feira, 25 de outubro de 2016

SEMINÁRIO DE PSICOLOGIA: A INTERVENÇÃO EM MULTIPLOS CONTEXTOS - um Sábado cheio em Machico


Vinte e dois de Outubro, sábado cheio de Machico à procura de si mesmo. Que disse eu?... De Machico?... Mais, muito mais.. Foi um sábado pleno de cada homem e  de cada mulher à descoberta do seu mundo.
         Já me referi na última conversa convosco à obra de arte, sonhada pelo Criador – o efémero e frágil ser humano – em constante confronto dialéctico com o seu Autor, no percurso atribulado da História. Foi a prodigiosa saga cénica da peça “OPUS”.
         Antes disso, porém, passou-se todo o dia a mergulhar nos fundos marinhos, sem termo, da psicologia humana, entre dois polos: o da antiga Grécia, a do filósofo Sócrates (“Gnóti sè autón”- conhece-te a ti próprio) - , e a definição do homem-em-situação (“O homem é aquilo que é, mais a sua circunstância”). A circunstância do lugar, da génese, do temperamento e do carácter, da relação com o outro.
         Este longo e abissal roteiro aconteceu no “Seminário de Psicologia”, desde a manhã até à tarde do último sábado, para os mais de cem participantes, professores, alunos, educadores, que encheram  o nosso  “Forum”. Dou a mão à palmatória pelo cepticismo com que encarei a iniciativa. Nunca pensei que as jovens psicólogas de Machico fossem capazes de tamanho feito. Está visto e comprovado que a descentralização da cultura terá de ser sempre tarefa dos que habitam as periferias  da capital. Esta é a primeira lição.
          Quem compulsar o Programa verá que se tratou de um manual enciclopédico que abarcou matérias tão distintas, na área da Psicologia, destacando-se o melindroso âmbito da “Psicologia Forense e as Perícias Psicológicas”,  na esclarecedora exposição inicial, da responsabilidade do Prof. Dr. Rui Abrunhosa Gonçalves. da Universidade do Minho. Ao mesmo nível, o estudo da “Violência Doméstica, após 20 anos de investigação”, da Prof. Dra. Marlene Matos, da mesma Universidade, desvendou-nos os meandros labirínticos de um sub-mundo cada vez mais a descoberto nos nossos dias, gerador  de chagas sociais, tantas vezes insanáveis e destruidoras de uma sociedade presente e futura, que se pretende feliz e harmoniosa. “A Importância de uma Abordagem  Muitidisciplinar em Saúde Mental, ou a interdependência entre Psicologia e Psiquiatria”, uma dissertação de índole académica, a cargo da Dra. Carla Spínola, médica psiquiatra do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, abriu-nos as muitas variáveis por que se pautam os nossos comportamentos, confirmando o velho axioma de que “não há doenças, há doentes”.
         Duas classes profissionais estiveram em foco, com o tal “saber de experiência feito” – a do Subcomissário Adelino Camacho, sobre a “Importância da figura do Psicólogo na PSP” e a da Dra. Filipa Oliveira, da UMa, trazendo à colação o síndroma “Bournot” nos profissionais da Educação, ou seja, o depauperamento psíquica do docente, devido à intensividade do espinhoso cargo de ensinar, um drama tão ignorado quanto menosprezado por utentes e responsáveis públicos.
Testemunhos experienciais, ao vivo, completaram um dia inteiro que passou tão rápido, como se de uma hora se tratasse. Neste “item”, atrevi-me a observar que, na grande constelação dos educadores, deveriam figurar os animadores sócio-culturais e religiosos das diversas comunidades locais (ninguém apareceu) visto que, por inerência indissociável da sua acção pastoral, deveriam ali estar, para ouvir, mais que para falar, pois  o saudável crescimento psicossomático do ser humano  - “alma sã em corpo são“ - deve alicerçar-se em conhecimentos científicos e não  em mitos e mèzinhas devocionais.
Bravo, jovens psicólogas que, com o apoio da PSICAF ( Serviço de Psicologia e Avaliação Forense) e da Câmara Municipal de Machico, levastes a cabo tão prestimosa iniciativa, reveladora de um autêntico serviço público!
Queria eu terminar com esta saudação positiva e reconfortante.
Mas não posso. Por dois motivos. 
Primeiro, ao abrir ontem a imprensa diária deparo-me com uma machadada no grande feito de sábado passado: a Secretaria Regional da Educação  retira  os  psicólogos de quatro escolas, deixando dois mil alunos sem apoio. Comentários, para quê? Tome-se  nota: os tripulantes remam para a frente, os comandantes puxam para trás!  Segunda decepção: estranhei a ausência de um representante do governo num acontecimento que primariamente lhe impende. Afinal, mais tarde soube-se particularmente  que  foi convidado, mas recusou porque do Programa não constava a sua intervenção. Arranjem-lhe um pedopsiquiatra, depressa!
Aos organizadores, entusiasticamente  recomendo e aguardo a cereja em cima do bolo: o II Seminário de Psicologia em 2017.

25.Out.16

Martins Júnior

domingo, 23 de outubro de 2016

ACONTECEU TEATRO EM MACHICO – Quando o “blasfemo” se torna sublime e verdadeiro!


Foi ontem mesmo. E eu não posso conter a alma escaldante que, durante uma hora cheia,  dois talentosos protagonistas – Bruno Esteves e Rui Pinheiro - abriram, cavaram, dilaceraram, sacudiram  e, por fim, libertaram o espírito e a sensibilidade de quantos ali se encontravam.
Aconteceu teatro, ouro do mais fino quilate em terras de Tristão Vaz.
O título  sintético – “OPUS” – define a profundidade e a extensão da grande Aventura Cósmica urdida e guardada no punho da uma mão fechada, umas vezes em assombros de eloquência, outras de forma hermética e outras, ainda, povoada de um humor quase negro, a roçar o blasfemo. Um trabalho  similar ao de Hércules, da mitologia grega,  ou ao de um Sansão, no texto bíblico! Partilho convosco esta interpretação da “OPUS”.
O guião abarca, em toda a sua latitude, a história  do momento decisivo da Criação, o turbilhão tempestuoso do percurso do Homem dentro da Obra criada  (“Opus”)   – o passado, o presente e o futuro -  num entrosamento denso, mas subtilmente comunicativo, que exige do espectador uma intuição expectante, uma cumplicidade alucinante que nem é possível tracejar a respiração.
Tudo isto num cenário possessivo, sem adereços nem especial guarda-fato, pelo contrário com duas peças, apenas, de vestuário exterior, as mesmas desde a primeira à última cena, enfim, uma economia de motivos e, ao mesmo tempo, uma transfiguração  repentina, quase absurda, da mesma indumentária, arrastando a plateia para os muitos planos imaginários para onde os protagonistas nos querem transportar.
Ideologicamente, a “OPUS” é a denúncia do sufoco tumular em que a humanidade transformou a sublime epopeia da Criação, ao ponto de arrepender-se o próprio  Criador de ter accionado o Big-Bang originário de todos as galáxias, de todos os planetas, sobretudo o planeta Terra, com tudo o que ele contém. O epílogo tremendo, expresso no paroxismo da pergunta final com que termina a “OPUS”, resume o suplício sem retorno da Divindade, perante o desconcerto que os homens fizeram de um mundo harmonioso. E a pergunta, arrasadora como um ferro em brasa, é esta: “Tudo o que sucedeu foi por Minha culpa ou foi por vossa néscia culpa”?
Nesta interpelação que, por vezes tem assomos de veemente imprecação e libelo acusatório, estão envolvidos os governantes,  os eclesiásticos, o Vaticano e os capitalistas, para quem “Deus é o dinheiro”, todos os sabotadores do verdadeiro progresso. Mas o grito avassalador daquela apóstrofe sobe de tom e amarra-nos ao poste, quando o “Criador” desce do palco e aponta,  junto de  nós, espectadores: “E não terá sido pela tua própria culpa, pela tua acção, omissão e pelo teu silêncio”?!
Respigo, de cor, algumas dessas corrosivas acusações: “O número dos mortos assassinados em Meu Nome, nas Cruzadas, ultrapassa o dos Kmmer’s vermelhos e do “holocausto” ... “Achas que a Inquisição acabou? Não. Apenas mudou de pele”… “A heresia de hoje pode ser a ortodoxia de amanhã” … Estremecedora e genialmente bem conseguida  é a cena da  crucifixão do Filho, quando entra em palco o agente de seguros e oferece-se para fazer um seguro de vida ao Crucificado, “com direito a ressurreição garantida e a oferta de um sudário com a imagem do morto”…  Medonho e acusativo! Até com o Crucificado fazem negócio.
O historiador e latinista  Paul Vyne, a propósito da reedição das obras do filósofo Platão e do poeta épico Virgílio, recomenda-os à nossa leitura, com este cartão de sábio: “Os clássicos ensinam a fazermos perguntas a nós próprios”.
O mesmo pode, seguramente, afiançar-se da magnífica obra “OPUS”.  Nota máxima para o grupo cénico de Idanha-a-Nova!

23.Out.16
Martins Júnior

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

183 VELAS EM CIMA DO BOLO DE DINAMITE – recordando Nobel, o benemérito Mecenas da Humanidade



Quem seria capaz de provar desse bolo?
E quem teria fôlego de apagar uma só vela que fosse, suspeitando que ela lhe rebentasse nos olhos?
No entanto, está meio mundo – e talvez mais -  dependurado no pavio dessa vela e na farinha desse bolo. Não pensem que venho hoje decifrar algum enigma da espionagem clássica, tipo de Sherlock Holmes, ou servir à vossa mesa algum episódio de um estranho “thriller”.
Não. Venho apenas partilhar convosco uma data assinalável: o 183º aniversário de Alfred Nobel, sim, o mesmo que criou o generoso, o prestimoso, o glorioso Prémio Nobel, o cobiçado troféu com o respectivo montante, para o qual se dirigem os olhos da fina-flor dos criadores mundiais. O que, decerto, muita gente desconhece é o “pai da criança”, de tão fenomenal e milionária criança. Inscrevam no vosso catálogo das “Curiosidades” esta prosa que hoje vos trago.
Quem foi Alfredo NOBEL?... Um químico sueco, filho de químico, autodidacta, aventureiro, excêntrico, visionário, idealista profundo, ateu e panteísta. Supermilionário!  E supermilionário, porquê?... Por ter inventado a dinamite. Esse, o seu troféu vitorioso, a sua bandeira mortífera “em prol da Humanidade”! O sucesso financeiro da família Nobel teve o apogeu na guerra da Crimeia (1854-1856) vendendo à Rússia minas submarinas e explosivos militares. Com o fim da guerra, sobreveio-lhe a falência, Percorre, então, a Europa e tenta vender a patente aos banqueiros que, aterrorizados com o  anúncio publicitário  (“o invento é capaz de  destruir o mundo todo”) voltam-lhe as costas. Quem o apoia é o imperador francês Napoleão, a troco de uma avultada fortuna.
No fim da vida, em San Remo, Itália, e a sugestão da mulher, faz a decisiva e histórica doação – orçada em 40 milhões de francos – em testamento datado de 27 de Novembro de 1895 e aberto em 30 de Dezembro de 1896, ano da sua morte.  Inextrincável contradição: ele, “um pacifista, poeta incarnado num homem de negócios”, diz o escritor sueco Gustav  Cellstrom.  E que negócio? – o vil fabricante de armamento! No entanto, no seu testamento deixa todos os rendimentos da imensa fortuna “para serem aplicados na manutenção de cinco prémios anuais destinados a recompensar os benfeitores da Humanidade,  o espírito e a paz nas suas mais sublimes expressões”.
Ficar-me-ia por aqui, deixando campo aberto a quem me acompanha por este meio. Sintetizo a minha ( e nossa, poderei dizer) estupefacção na seguinte exclamação de um seu biógrafo: “Ele, que no século XIX fora o maior inimigo do género humano, esfacelando-o com os seus terríveis explosivos, acaba por mostrar-se o seu maior amigo”!
Dá que pensar esta constatação quase desconhecida, de tão pouco lembrada. Teria sido arrebatado o químico sueco, já perto de morrer, por um inelutável rebate de consciência e tentado remediar com volumoso cheque bancário os crimes humanitários que cometeu com o fabrico de  armas assassinas?
Tenho para mim que muitos dos laureados, sobretudo com o Prémio Nobel da Paz, sentirão  escorrer ainda nas mãos vestígios do sangue de milhares de vítimas tombadas - no passado, no presente e no futuro – pelos fabricantes de armamento.
E o meu pensamento discorre e aperta-se-me perante tantos magnatas das finanças que, por descargo de consciência ou ambição de fama, apresentam-se como Mecenas da Humanidade, com doações e fundações que mais não são que o ressarcimento (tardio demais!) pela exploração danosa e cruel que infligiram às gerações anteriores.  Em vez de generosas caridades de hoje, não seria  melhor ter pago o justo salário e as necessárias indemnizações àqueles que directamente trabalharam para tamanhas fortunas?... Lembro-me aqui do nosso arguto Almeida Garrett: “Quantos pobres serão precisos para fazer um rico”?...
Em todo o caso, cantemos os parabéns sobre as 183 velas do aniversário de Alfredo Nobel. E de todos os Gulbenkian’s, Champalimaud’s, Rockefeller’s, que os há em todo o mundo. Para bem da Humanidade. Maior bem, contudo,  seria o da “Justiça na hora” – e não ao retardador. Só leis justas farão o mundo justo. Aqui e agora!

21.Out.16
Martins Júnior