sábado, 19 de novembro de 2016

CRISTO…MONÁRQUICO (?)


Sim ou não? Aceitam-se respostas.
Para a maior parte dos crentes e não crentes, o título deste sábado, véspera de domingo, provocará de imediato comentários assim: Desta vez o SENSO perdeu o senso e o consenso. E eu vos garanto que não. Prova do que vos afianço é o dia de amanhã, domingo, em que por tudo quanto é nicho de culto católico se levanta, airosa e triunfal, a bandeira do “Dia de Cristo-Rei”!  A Igreja quis firmar claramente a nobreza da Coroa Real na cabeça do seu Fundador, situando-a no encerramento do ano religioso, como chave de ouro de toda a arquitectura cultual dos 365 ou 366 dias. Amanhã, é o última fase do Ano Litúrgico. No domingo seguinte, 27 de Novembro, abre-se um novo ciclo, o Advento. Não deixa de ser curioso e assumidamente semântico este contraste: a trajectória cultual começa com um Cristo-sem abrigo e termina com um Cristo-Rei e Imperador!
Terá muitas e contraditórias interpretações o Estatuto Real atribuído ao Nazareno (Ele próprio o confirmou diante de Pilatos), mas o que importa aqui indagar é a investidura que lhe foi dada pelos auto-proclamados representantes exclusivos do “Mestre da Galileia”.
Partindo dos imponentes pontificais das grandes catedrais, adornados de vermelhas alfaias revestidas de ouro e prata, a que se adereçam umas barras de seda fina bordadas a renda da mais requintada “lingerie” , logo nos apercebemos que a homenagem a J:Cristo goza de toda a grandeza da entronização real, rivalizando com o luxoso  protocolo das cortes imperiais. Aliás, desde o século IV, com a Paz dada aos cristãos pelo Imperador Constantino de Roma, os titulares dos cargos eclesiásticos copiaram (e até ultrapassaram) os figurinos monárquicos, os baldaquinos, os enxovais, os anéis e a tríplice coroa cravejada de pedras preciosas,  que os Papas cognominaram de “Tiara Pontifícia”. Era o tempo em que a Igreja, Império e Reino  de Deus entre os homens, pertencia ao grémio dos reinos deste mundo, em aberrante contradição com o seu Fundador, que definiu sem sombra de ambiguidade: “O Meu Reino não é deste mundo”.
Hoje é dia de ser militante do verdadeiro reino que tem apenas duas vestes: Justiça e Verdade. Dispenso-me, pois, de refazer o historial de uma Igreja que manietou, violentou e torturou a identidade de Jesus, desfigurando-lhe a face, o corpo e o espírito.  De Alguém que “não tinha uma pedra onde reclinar a cabeça”, livre, lutador, doador da própria vida, os usurpadores sem escrúpulo transformaram-no num prisioneiro extático, ajoujado de cordões de ouro, amarraram-no com cinturões de diamante, puseram-lhe na mão o pesado ceptro dos poderosos, fecharam-no num oratório transparente e rodearam-no de um cartaz comicieiro onde ficou escrito: “Ecce Homo”, eis o Homem, eis o Rei!!!
Não estou exagerando, não. Só me rompem as orelhas e me estremecem os sentidos  os verrinosos alexandrinos de Guerra Junqueiro, em 1887:  Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz/ Que andais pelo universo, há mil e tantos anos/ Exibindo, explorando o corpo de Jesus.
Séculos passados, ainda hoje permanecem marcas bem salientes dessa maquiavélica mistificação, a maior das quais, como tantas vezes tenho dito, reside no Estado do Vaticano – uma estepe  pantanosa, onde  se engendrou o parto quase-incestuoso entre os dois poderes, os dois reinos – o de Deus e o do Mundo - não se sabendo onde acaba um e começa o outro. O Vaticano como está - plasmado à moda de um Estado, com um Rei, Secretários, Embaixadores -  apresenta-se como contra-testemunho do seu Fundador. A maior prova da redescoberta de Cristo e da sua Identidade estará na renúncia do Vaticano ao privilégio mundano de Estado. Por outras palavras, que o Papa abdicasse do híbrido estatuto de Chefe de Estado.  Chegará Francisco Papa a tempo de reconstruir o verdadeiro reino que, sendo aqui, não é daqui?... Mas – Àqui d’El Rei! – lá se vão os Secretários, os Núncios-Embaixadores em todo o mundo, lá se vão as comendas,  os  palácios, os brasões-de-armas, as comitivas…
Aceita-me, ó Cristo – a mim e a quantos me acompanham – como voluntários militantes, alistados  no programa constitucional do Teu Reino, não o da Monarquia que os homens fabricaram, mas o do chão seguro da Justiça e da Verdade!

19.Nov.16

Martins Júnior

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

RECONHECIMENTO E EXALTAÇÃO

Sei bem que não terá a “dignidade” exigida para encher uma página que se quer ampla e abrangente. Mas não será menos verdade que o nobre sentimento da gratidão preenche as fendas abertas no itinerário do quotidiano. Mais do que isso: é este óleo puro de oliveira que desentorpece a máquina social, urdida de trocas mútuas da sã convivialidade
Querem estas palavras traduzir o meu maior reconhecimento pelas saudações com que muitas amigas e amigos tiveram a gentileza de acompanhar o meu 78º aniversário. Seria de uma tremenda injustiça se o não fizesse. “Saravá” – Bem hajam! Entretanto, permitam que aqui acrescente os principais destinatários das vossas saudações: os pais. Em dia de anos, são eles, pai e mãe, que merecem o aplauso original, porque foram eles que nos fizeram.  Nós apenas demos corpo e alma ao amor daquele homem e daquela mulher que nos puseram no mundo.
            Por outro lado, quero ser o portador das congratulações extensivas a todos quantos nesse mesmo dia incarnam o renovado milagre da Criação Primeira. Serão milhares, talvez milhões. Estendendo os braços ao seu encontro, vejo-os em tantos continentes, em tantas profissões, com ferramentas tão distintas nas mãos. Quando digo ferramentas, digo hipóteses de construção desta faixa da história que nos coube sedimentar por sobre o grande edifício em que somos inquilinos de passagem. Nesta subida, feita de glórias e fracassos,  aproximando-me do vértice – porque a vida é sempre a subir, nunca a descer – concluo que o mais importante não é deixar um grande nome, imobilizar-se num monumento ou alcançar o sol que a todos alumia. Não. O mais importante e único é viver em plenitude o momento, a hora, a hipótese. Quer tenhamos 10 ou 20 anos – viver literalmente a juventude – 30 ou 40 – galvanizar as baterias da criatividade e da ternura -  ou 60, 70 ou 80 - a glória maior é  reproduzir, diria mesmo, “engravidar” o instante, a hora, a oportunidade para recriar o mundo que nos foi dado. É o nosso único episódio em cena. Vivê-lo intensamente, correndo riscos, bebendo mágoas e contratempos, mas sempre exaltando a “ode triunfal” da Vida, que hoje é nossa, amanhã de outros. Esta Vida – a única que conta, como capital e  passaporte  para uma outra que não nos compete decifrar. Por isso, a Vida, seja qual for a meta etária,  nunca envelhece. Renova-se. Transfigura-se.
É  com esta chama acesa que devolvo todas as saudações gentilmente oferecidas, no dia de ontem.
……………..
A gravura que encima o presente agradecimento conjunto tem por objectivo lembrar alguém que pertence ao 16º de Novembro – José Saramago – a quem tive a honra de abraçar em sua casa por ocasião do seu  aniversário, em 2009. Após a tentativa de encontrá-lo no remanso de Tias, Lanzarote, fui informado “in loco” de que, nesse mesmo dia, estava em Madrid. Sem demora, voei atá à Rua da Madeira, onde o nosso Nobel estava em audiência, desde manhã, com editores nacionais e estrangeiros. Visivelmente cansado, mas sempre de uma lucidez penetrante, conversámos sobre Portugal, a Madeira, a justiça social, a Fé, a Igreja, novos planos de escrita, em suma, um fim de tarde pleno, um dos tais instantes que preenchem uma Vida. Recordo-o hoje, este magnífico “escorpião”,  com particular emoção, porque foi o seu último aniversário, aos 86 anos. Depois, só o acompanhei na marcha dolorosa, sim, mas gloriosa, rumo à Cidade Nossa, Inultrapassável, no Alto de São João,  em de Junho de 2010.
Peço à sua filha,  Violante Matos, expressão viva e lídima continuadora do espírito libertador do seu Pai, e à sua eterna musa e companheira Pilar Del Rio, aceitem as minhas saudações e sentimentos do 16 de Novembro, sempre memorável. Mais presente e celebrado será, entre 2016 e 2017, nas comemorações do tricentenário do Lançamento da Primeira Pedra da Basílica do Mosteiro de Mafra, em que será apresentada a reedição especial do seu inigualável “Memorial do Convento”.
Ele, o maior do nosso 16º Novembro!
Não subiremos tão alto no seu voo de Águia Real, mas cada um de nós, manejando,  não já a pena mas a ferramenta braçal e intelectual - o martelo, o leme, o livro, o bisturi -  cada um de nós escreverá no seu dia-a--dia o Evangelho da Vida e a Memória Futura. 
   
17.Nov.16
Martins Júnior

terça-feira, 15 de novembro de 2016

DECRETO-LEI: A CANÇÃO NÃO SE DEFINE --- AMA-SE!


Já está na rua o decreto
Em vigor antes de promulgado:
Proibido escrever em todo o lado
Do mais solene ao mais secreto
Sobre quem morre a cantar

Não lhe manches o poema
Não perturbes as pausas longas
Nem lhe mudes a canção

Oh a canção hipnótica  lunar
Essa
Leva-a contigo aonde tu quiseres
Semeia-a lá onde a terra acaba e o céu começa
Perfuma o ar que respiras
Deita-a na tua cama
Aconchega-te os lençóis dos seus versos
E abraça-a, ama-a
Como que ama “Suzanne”
Como quem amou “Marianne”

Acordarás com a canção à tua mesa
Bebe-lhe o sumo
Despe-a inteira
Como quem beija como quem reza
Come-lhe cerejas e tâmaras, rebentos de oliveira.

Oh a canção hipnótica lunar
Por onde desces ao cavername do génesis
Por onde  sobes ao  nirvana
Do intangível Hossana
Do sacrossanto “Halleluiah”

Oh  violino doce de Canção cigana
Segue-a na voz do sonâmbulo vidente
“E dança  dança  até ao fim do amor”
Quanto mais  frio mais quente

Deixa-a entrar e sair
A canção luminosa
“Pela fenda do pardieiro” onde ela mora

E canta o “longo tempo de espera”
So long
“Porque chegou a hora de rir e chorar
E chorar e rir sobre tudo à tua volta”

Com  a  Canção
Estás “pronto a morrer”
Está pronto a viver

À sombra do chapéu
Do romeiro hebreu
Dorme e sonha e canta e grita
Com  o octogenário-criança
Nos braços da terra- mãe
Hydra  Westmount Jerusalém
Saudosa  inalcançada Terra Prometida

15.Nov.16
Martins Júnior

domingo, 13 de novembro de 2016

“TÁBUAS QUE SENTEM E CANTAM”



Hoje, domingo,  as teclas do computador pedem-me sonoridades domingueiras, a preceito e cheias da cor do plenilúnio que ilumina  estas noites de outono. Nem sempre é fácil encontrar no pronto-a-vestir dos “dias ímpares” o fino  figurino de fim-de-semana. Mas achei-o, ontem e hoje, aqui tão perto. Nas mãos, imaginem, e nos dedos de gente nossa, do campo à cidade. Nas tábuas que vieram do pinho manso, do plátano, do vinhático oloroso descido das montanhas.
Para muitos, seria de esperar um evento nobre, vistoso, importado das Américas ou das ilhas longínquas. Não. E já desvendo o segredo: foi num chão acolhedor, cheirando ao néctar do “sercial”, da “malvasia”, do “terrantês” ilhéu. Estou a transpor para o pequeno mostrador das vossas casas o “Encontro de Tunas Madeirenses”, em boa hora recuperado. Foi no Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato, ontem e hoje.  
 Permitam-me observar que, agradecendo embora aos artistas convidados do exterior, estes formaram a moldura da paisagem que mais me tocou: os cordofones - bandolins, bândolas, bandoloncelos, “guitarrones” – dedilhados por mãos  nossas, num abraço inter-geracional  e inter-laboral, desde estudantes a operários, desde adolescentes a adultos. Perante o friso multiforme que ali desfilou – Gaula, Ribeira Brava, Ponta do Sol, Câmara de Lobos, Funchal, Camacha, Faial – senti-me embarcado num enorme bandolim, a Madeira, vogando no Atlântico do sonho, tendo por vela uma extensa partitura desfraldada ao vento.
Para quem lida com esta massa, facilmente interpreta a soma de esforços, de empenhamento, de entusiasmos e pausas sentidas, “Da Capo”. E sobretudo o rio musical que serpenteia por entre tantas freguesias da nossa terra. Dir-se-ia  que há um espírito alado que enforma e une distâncias, idades e profissões nesta nau chamada Madeira. Aos responsáveis, aos executantes, aos seus familiares-suporte indispensável desta “aventura”, os maiores aplausos e parabéns. A “arte dos deuses” faz crescer os humanos.
Aproveito este momento para dedicar a toda a “Nobre Turma das Tunas”, a saudação que , em 1987, dediquei à “T.C.M. -Tuna de Câmara de Machico” (sublinho, “de câmara”)  sediada na Ribeira Seca, por ocasião do IV aniversário da sua fundação.  
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TÁBUAS QUE SENTEM E CANTAM

Arranca da montanha o Lenhador
A tábua verde e rude sem feição
Que tanto dá prao seio de tambor
Como dará prá nau do meu caixão.

Mas o milagre da Mãe-Terra
Fez o milagre-virgem deste abraço:
Da lenha ardendo em seiva
Fundida em cordas de aço
Fez este coração …e este braço.

Já não sabe a suor
Já não se ouve o machado
Agora é valsa em tom maior
É sinfonia, “allegro”, é amor, é fado.

Veias de lume, o lenhador
Sonoras mãos, o carpinteiro
Génio do som, o compositor
Tão longe e belo foi vosso roteiro
Até encontrar a foz sem fim
Na concha frágil dos meus dedos
E na ternura breve deste bandolim…

Tábuas que sentem…
Tábuas que choram…
Tábuas que cantam…
Sentem o palpitar de corações
Choram saudades e nocturnas paixões
Cantam “núpcias” e glórias de Nações.

Bem-vindos, hoje, à nossa mesa
Brindando no mais fino cristal desta alegria:
Jamais há-de morrer o fulgor desta Beleza
E a tábua-pauta da Festa deste Dia
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13.Nov.16
Martins Júnior

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

AI, POVO, POVO … QUE LAVAS NO RIO…


Em dia de S. Martinho, as pessoas querem tudo, menos linguado de escrita. Porque festa é festa! Mas se por aqui hoje é assim, noutras paragens o cenário é outro: multidões em pânico, outras em raiva incontida, outras ainda prontas a avançar contra os muros, com risco da própria vida
.        Quem viu o Dia Seguinte à eleição do supermilionário americano,  não conseguiu ficar sereno, impassível, perante o desespero de milhares de gente  apinhada em várias cidades, protestando com veemência contra a opção democrática pelo actual líder. Parece que, de repente,  todo o Povo acordou, enfim, aturdido aos gritos, como que dizendo: “Mas como foi possível chegar a isto?... Talvez que entre a multidão houvesse algum abstencionista. A comunicação social informou que muitos americanos, dando crédito às sondagens, excusaram-se de votar. Hillary tinha a vitória garantida.
         Afinal, foi um retundo revés. Certamente bateram no peito e disseram-se intimamente: “O que eu fiz! O que nós fizemos, com a nossa abstenção”! Mas já era tarde demais. Desolada, envergonhada, caída ficou a Estátua da Liberdade. À espera que um dia alguém a erga e lhe restitua o brilho da Vitória.
         Não só nas cidades americanas, mas também em Londres, na votação do Brexit. A população demitiu-se do referendo e o SIM ganhou. Estava desunido o Reino Unido. Movimentações, muitas e ameaçadoras, agitaram a paz fleugmática dos ingleses e o fantasma  da independência da Escócia voltou a alçar-se  em pleno espaço. Com a fundada, embora frágil, expectativa de que estava segura a pertença da Inglaterra ao compromisso europeu, ficaram na praça, na praia, no divã.  E agora? Cuidados redobrados, juras de indignação e protesto. Tarde demais! Resta-lhes a esperança do poder judicial que manda levar ao Parlamento o resultado do referendo, para ratificação em plenário.
O Povo é sempre o mesmo em toda a parte. Na Colômbia, as cúpulas do poder político e das FARC’s  selaram a Paz definitiva, pondo termo a 52 anos de atrocidades mútuas. No entanto – surpresa das surpresas – o referendo, que  se esperava positivo, acabou negativo. Motivo: todos tinham por adquirido o Acordo de Paz, previamente assinado pelas autoridades. E não foram votar. Perderam. Tarde demais!
Sem mais comentários. Lá e cá maus fados há. Aprenderemos a lição?... Enquanto isso, faço minhas (e adapto-as) as palavras do grande poeta Homem de Mello para a voz de Amália, dirigindo-se ao Povo português, também ao Povo ilhéu, enfim, ao Povo universal:

Povo que lavas no rio
E talhas com o teu machado
As tábuas do teu caixão

Não do “meu”, mas do “teu”.
Quantas vezes são as próprias pessoas que talham as tábuas do seu caixão!...
Construamos berços de sonhos e pontes de esperança. A sério! E enquanto é tempo!



11.Nov.16
Martins Júnior

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

DO TROMBONE… AO TRUMPETE


Os metais foram os tais, os principais, os triunfais, quando hoje, já de madrugada, foi  anunciado o 45º Presidente dos EUA. Em notas garrafais soltou-se a marcha apoteótica da vitória. Erecto, polvilhado, estava ali o homem, ao mesmo tempo, promotor e  coroado, no trono do “Imperador” do mundo, com uma moldura soando ao ouro-capital e à élite do ‘glamour’ americano.
Houve soluços na outra margem, a bolsa emagreceu nas bancas internacionais, houve até quem, de garrote na garganta,  ficasse a gritar pragas inomináveis contra a escultura de pedra dura que ali estava, sem culpa nenhuma. Sublinho: sem culpa nenhuma. O homem não assaltou o trono. Se lá estava, alguém o colocou. Foi o povo, não a maioria dos votantes, mas a grã--lei eleitoral do país. Por isso, a tudo quanto se queira atirar ao “Imperador”, ele responderá: “ Falem com o povo que me pôs aqui”. O que se lhe poderá  assacar serão, quando muito,  os métodos, a ferramenta, talvez os truques ou as trocas (a haver) que utilizou para que o pusessem lá. E a ferramenta foi o trombone. “Põe a boca no trombone e já ganhaste” – é ditado que corre na praça. Foi o que o homem fez. Saíu por aí fora e, de arena em arena, foi assoprando o trombone, de onde saíram toneladas de betão para a muralha no México, cuspidelas sobre a mulher do próximo (e as dos últimos), granadas explosivas contra africanos e hispânicos, tira-dentes para a boca de emigrantes famintos e com direito à vida. Apressou-se, alcoviteira, a sócia mais recente e defendeu o marido, “que ele só falou, mas não fez”, isto é, que o homem só tinha língua e o marido da adversária tinha mais qualquer coisa – estas as principais trombadas e peixeiradas que o trombone botou por quanto é canto. E não é que o zé-povo gostou?!”…
Levou-o aos ombros  para o trono e trocou-lhe o trombone pelo trompete, o rei da filarmónica. E assim se ergueu o Homem-Trumpete.
A ameaça, o insulto, o berro, a falácia  e o ouro-milionário – os pistões do instrumento - resultaram. Por mais incrível que pareça, até os brancos americanos mais pobres puseram o Trumpete em pé de altar. Devem ter ficado satisfeitos quando ouviram a grande nova: que iam perder  o Serviço Nacional de Saúde, o “Obamacare”, criado por Barack…   É curioso e bem esclarecedor saber que, entre os parabéns diplomáticos (leia-se: ‘mafiosos, forçados parabéns’)  dos chefes das nações, uma voz austera, a do ministro da Justiça alemão, esboçou um espontâneo “louco”… um louco a dirigir uma superpotência! Para nós, madeirenses, nada que se estranhe. Tivemos um “trumposo”  exemplar durante 40 anos, com os mesmos tiques e com o mesmo trombone sem vergonha!
Creiam que não me apetece continuar este “Jornal do Incrível”. Como tanta gente, estou atónito e, sem tomar partido nem pelos republicanos nem por democratas, pergunto-me: Como é possível votar num candidato que se apresenta assim numa campanha eleitoral?... Mas parece que o povo gosta. Gosta de ser chicoteado, enganado. O (falso) discurso contra o sistema não explica tudo. A (falsa) defesa do proteccionismo nacionalista também não. Viver aqui e agora não se compadece com o fechar-se sobre si próprio, olhar só para o seu umbigo, ainda que o umbigo se chame freguesia, região ou nação. Somos cidadãos do mundo!
Não é por acaso que, à semelhança de Putin, viesse a ultra-direitista Marine Le Pen, da Front Nacional, rejubilar-se eufórica pela vitória de Trump. Apesar do comportamento da EU (culpa dos governantes nacionais acocorados) partilho da inquietação de Frans Timmermans, vice-presidente da CE, esta manhã: “Pela primeira  vez em trinta anos, eu verdadeiramente acredito que o projecto europeu pode falhar”.  Voltaremos ao ante-1945?
Foi sintomático ouvir da boca do recém-eleito Trump esta piedosa jaculatória, num vagido de cordeiro virgem: “Eu quero unir todos os americanos, democratas e republicanos”. Mas não foi o mesmo senhor que na véspera protestou, com juba de leão feroz, que “se não ganhasse as eleições, não reconheceria os resultados”?...
Respondendo a um amigo que, a propósito do livro de Chomsky, citado no ‘Blog’ anterior, me advertia que o autor estaria exagerando, pois eu apenas declaro e vaticino: Oxalá Trump não venha confirmar as teses de Chomsky: “Quem governa (ou desgoverna, digo eu) o mundo”? O futuro o dirá.
Terminemos este episódio do “Incrível”, de trompete em punho sobre a notícia do dia: “Hoje, o mapa da América é pintado a vermelho”. De que vermelho estão a falar? Ironia das ironias!  

09.Nov.16
Martins Júnior


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

NÓS – A MAIORIA - MARIONETAS VÍTIMAS DA MICROCEFALIA DE UMA MINORIA


Tem andado o mundo todo em alerta vermelho, suspenso das eleições de amanhã, nos EUA. E com justificada razão. Não vou terçar armas no duelo dos dois candidatos, porque sobejas têm sido as mensagens informantes sobre tão momentoso acontecimento. Daqui de longe, sem direito a voto, num invisível ponto do mapa, também me preocupo. Mas por razões maiores.
No labirinto do nosso dia-a-dia, afadigamo-nos, corremos, disputamos, fabricamos problemas, esgaçamo-nos até à exaustão pelo nosso quinhão, pelo nosso clube, pela nossa bandeira e então,  quando chegam à nossa beira as urnas de voto, o formigueiro das gentes não descansa, faz rego na casca das árvores, empenha anéis e dedos, argolas e braços, tripa e coração, como se o nosso candidato fosse o maior, como se o nosso partido fosse a salvação do mundo, entronizada na urna.
Magra ilusão, miopia infantil, coisa de pobre!
Dei comigo a pensar e a pesar o logro em que andamos alegremente levados  e  ludibriados. Mas… quem somos nós? Quem nos comanda? Não seremos nós marionetas inconscientes a abanar, a abanar, como essas pás eólicas, singulares e altaneiras,  telecomandadas desde a Holanda?... É este peso que me despe o cérebro e ri-se de mim, ri-se de nós. Afinal, o planeta redondo é redondamente comido à mesa de uns magnatas fartos de estômago, mas mirrados de cabeça atacada pelo “Zika”. São eles a microcefalia qualificada que, com um piparote enfadonho, faz abalar o mundo. Antes, nas arenas subtis da Guerra Fria, estavam as nações sob a espada de Dâmocles nas mãos da América e da Rússia. A economia, o armamento, a ideologia de Estado, a segurança mundial estavam suspensos desse fio mortal que girava entre Moscovo e Washington. Novos focos – poucos -  foram ganhando altura e assento,  sobretudo, as economias emergentes da Índia e da China.  E a incógnita potência, deslocalizada, que chega do Oriente  e  circula, com fome e sede,  nas veias do organismo europeu!  Até a própria Europa, que se apresentou como a sentinela vigilante do Velho Continente, tornou-se uma torre de comando, não para defender, mas  para controlar, à distância, as finanças e a vida dos países, entre estes, os mais indefesos e, por vezes, ingénuos. Que ingénuos, cobardes e  acocorados foram os governantes!
A este propósito, sugiro me acompanhem na leitura do arguto analista da política mundial, Noam Chomsky, através das impressivas páginas do livro que tem por título “QUEM GOVERNA O MUNDO “?
Por muito que esteja a nossa cerca vigiada e o nosso seguro em dia, a verdade é que um espirro nos EUA pode varrer, como um tufão, os povos mais longínquos.Basta lembrar o tenebroso "Lehman Brothers" e os escombros a que reduziu a banca exterior. Vivemos comparados à pacífica Itália, abençoada pela vizinha bênção papal, mas atreita à fúria subterrânea do vulcão iminente. Daí que nos afecte o voto americano, lá longe. Os alemães, estariam eles   cientes dos futuros massacres infligidos ao mundo  quando votaram Hitler? A mesma pergunta  a quem, de  boa  fé, votou no tão ascético quanto cruel Salazar?  E os americanos  já terão feito contas ao futuro – o seu e o nosso -   na hora de votar Hillary ou Trump?... Nem de propósito, hoje o El Mundo transcrevia uma afirmação de Putin: “Se Trump ganhar serão melhores as relações entre Rússia e América”… Sem comentários.
Não vamos perder o sono. Mas não esqueçamos que é uma pequena tribo infectada pelo vírus do “Zika”  que comanda o planeta. É a microcefalia  congénita de uma minoria que contamina e é capaz de matar a grande maioria da humanidade. E é por isso que nos ocupa e preocupa o voto de amanhã nos EUA.
A solução para passarmos “Do Medo à Esperança” é a capacitação de cada país e de cada cidadão em unir-se para ganharmos o direito ao sol que nasce para todos. E não apenas para a microcefalia hereditária.

07.Nov.16

Martins Júnior