segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

NATAL DA TERRA – E TERRA DO NATAL


Haverá aí alguém capaz de juntar numa única e vasta plataforma todos os Natais: os de inspiração popular, os da paleta gótica de um Fra Angelico, os da primorosa Escola Flamenga, onde o Menino nasce num salão real, com as cortinas de cambraia a abrir-lhe a alcova. Estarão lá também os estonteantes néons de feira, os pingentes de sininhos, bolinas, extra-terrestes pendurados nas espiguilhas, os das árvores de plástico cromado, enfim, toda a gama de produtos com que se entretém o vulgo. E todos eles sobrevoados pela abóbada colossal do Gloria in Excelsis Deo.
Como um único episódio dá miríades de novelas!
Mas é para a descoberta desse sentido último, que durante nove madrugadas, sem interrupções,  servem as Missas do Parto.
No modesto templo que habito, descobriu-se o que vemos todos os dias  - e todos os dias pisamos na romagem da vida. É o Natal da Terra, ecologista sem tese, tremendo e singelo como o chão que nos tem. O Natal sem cortinas de fumo e sem ferrolho nas portas: é o Natal aberto, livro inescrito onde até os analfabetos sabem ler. Em síntese, este ano temos seguido, pela mão de Teilhard de Chardin,  a viagem dos nove meses em que se operou a gestação do Menino no seio da jovem Maria de Nazaré.
          Não é fácil (bem pelo contrário) “partir o pão aos pequeninos” – na mimosa expressão do clássico Pe. Manuel Bernardes - traduzir o génio criador, telúrico e místico, ao mesmo tempo, daquele que fez da matéria a incarnação do espírito, a sua rampa de lançamento para o vértice da convergência de quanto existe, a sua cosmogénese, em que todos os elementos convergem naquele que  é o Alfa e o Omega da História.  Mais concretamente, o parto das missas nesta estância rural consiste em reconhecer que, afinal, a única espiritualidade possível é a que começa no mais íntimo da terra e sobe até aos confins sem fim do Autor Supremo.
               Cito o Pe.Teilhard de Chardin, o homem dos desertos  e dos mares, das nervuras vegetais e dos microssistemas povoados de todo o mistério das espécies:
“Tempera-te na matéria, Filho da Terra,
banha-te nas suas camadas ardentes, porque ela é a fonte e a juventude da tua vida… Ah! Tu pensavas poder prescindir da matéria, porque o pensamento se acendeu em ti. Tu esperavas estar tanto mais vizinho do espírito, quanto mais meticulosamente desprezasses aquilo que te toca, mais divino quanto mais vivesses na ideia pura, angélica, separada do corpo, hostil teu ao próprio corpo… Pois bem, quase morreste de fome”.
Concretamente: é a partir do natural que chegamos ao espiritual e ao sobrenatural, apreciando e defendendo o ambiente, a atmosfera, o ar que respiramos, a flor que acariciamos, os frutos que comemos. A natureza concentra o gérmen de toda a ascese e de toda a mística,  isto é, de toda a ascensão do ser humano até ao Ser Divino.
A mensagem de Teilhard de Chardin não encontra melhor tradução e sentido como no nascimento dessa Criança que nasceu colada à terra e que mais tarde, já adulto, tudo quanto ensinou bebia a inspiração primeira nos trigais, nos vinhedos, nos pomares, nos lagos e rios da sua pátria. Não precisou de recorrer a silogismos pretensiosos ou a tratados teológicos. A vida nele era a filosofia e a teologia essenciais. Identificado com Teilhard de Chardin está o corajoso testemunho do Papa Francisco na sua encíclica Laudato Si.
É esta a mensagem do presépio. Bem longe, tanto da sofisticação ornamental como da doutrinação oficial e dos rituais folclóricos. É esta, também, a Eucaristia  vivida entre nós durante nove dias, em homenagem à ´Mãe Terra, à Mãe-Vida, Senhora do Parto!

19.Dez.16
Martins Júnior


sábado, 17 de dezembro de 2016

A PAPADA MAIS GOSTOSA DO MUNDO --- Uma espécie de conto de natal


“Era uma vez”…  Podia  começar assim  a lengalenga de hoje, tal como nos contos  de fadas e duendes. Mas não. Vou começar pelo “Foi uma vez”! O espanto da exclamação significa  um facto verídico e  o apreço  da sagacidade popular.
         E lá ai a história, que bem podia apresentar-se como um conto de natal, tão diferente porque, aposto, talvez nunca ninguém  contou outro igual.
         Era o malfadado tempo da colonia na Madeira, tempos duros de escravidão a que eram submetidos os pobres camponeses, os “caseiros”. Entregavam ao senhorio metade da produção agrícola, pagavam galinhas  pelo chão da palhota, a que chamavam casa. O mais típico e requintado, neste caso, era a obrigatoriedade implacável de levar ao senhorio a papada do porco que eventualmente fosse criado no terreno. A papada era considerada a parte nobre e mais gostosa do bicho e, por isso, direito austero do amo. O caseiro e os seus numerosos filhos bem desejavam em vão provar a cobiçada goela do suíno. E o  pai logo atalhou sem respirar fôlego  : “Ninguém lhe toque, o sr. administrador do concelho, que é o nosso,  mete a gente na cadeia”  
Falta completar o cenário com esta notícia: A matança do porco era obrigatoriamente e religiosamente o “Dia do Ó”, o 18 de Dezembro, nem antes nem depois, sob pena de sanção superior.
         Aqui começa a trama, o argumento do filme.

         José era um miúdo franzino, o mais novo   de uma família de doze. A face e os olhos denunciavam um adolescente imaginativo e perspicaz.  “Pai, este ano vai-se comer a papada do porquinho da festa.  “Deus te livre, cala-me prá í essa boca, diabos te levem” – intimou-lhe o pai. “O sr. amo ainda manda prender a gente todos”.  O rapaz, vencido mas não convencido, afastou-se, resmungando para o inditoso porco: “Vais ver, vais ver”.
Três meses volvidos, vem o nosso José, ousado e lampeiro, chega-se ao pai: “Olhe, este ano mata-se o bicho uma semana antes do ‘Dia do Ó’. Vai-se ao chiqueiro, tira-se  a porca  (afinal, era porca), veja lá: já não se aguenta em pé com as treze arrobas que tem em cima do lombo. Tá gorda demais. Ah, e sou eu que vou levar a papada à casa do sr. amo, lá na vila. Ele até pode-me dar dois tostões para a festa”.
Dito e feito. Os irmãos a postos, o pai ansioso por salgar a carne para o ano inteiro e  da  gordura fariam banha. Feita a queima de pinheiro, o pobre ‘chico’ fica opado, cortam-lhe a papada e na tarde desse dia lá vai o rapazito, “pernas para que vos quero ”, mas sempre com o coração aos saltos, não fosse o senhorio apanhar-lhe  a marosca.
         - Senhor amo, meu pai mandou-me trazer a sua papada”. Abre, nervoso, a cesta e joga para o mesão da cozinha o pesado tributo, com um estrondo que assustou o próprio dono da casa. “ Então, seu fedelho, nem sequer  tiras o barrete  ao teu senhorio?”.
         Tremendo de medo, atira o boné ao chão. E o latagão, sentado à secretária velha,  desconfia e indaga com o pequeno: “Mas, como é isto? Ainda falta uma semana para o “Dia do Ó”.
         - Ah, sr. amo  (e dobra-se todo), esqueci-me de dizer que  meu pai tinha a porca doente e matou hoje de manhã, prá gente aproveitar alguma coisa..
         - Seu malandro  - levanta-se irado o homem, mais opado que a porca do caseiro. Vou-te mandar já para o calabouço.
         O pequeno treme, treme, ajoelha-se diante do administrador e chora como uma  pecadora arrependida.
         - Desaparece com isso daqui. Então tu vens  matar-me com carne gangrenada? Vou-te matar aqui dentro.  E a seguir vem o teu pai.
Enquanto o senhorão vociferava, o miúdo aperta  com as mãos a apetecida papada dentro da cesta e, ao último berro autoritário, fisgou-se porta fora, meteu-se pela ribeira que lhe encharcava as pernas. Enfim, chegou a casa. E antes que o pai lhe perguntasse pelo sr. amo, o rapaz abre a cesta de vime, como se fosse a maior bola de ouro  do mundo. “Eu não lhe disse, pai, que este ano a papada era cá da gente. Pronto, tá aí.!
O aldeão sexagenário, temente ao senhorio como se  teme a Deus, baixou a cabeça, cruzou os braços, boquiaberto: “Nunca pensei que fizesses isto, meu filho. Agora é que vão ser elas”.
“Elas” ficariam para outro dia. Mas nessa hora houve festa em casa, comeu-se a papada e até a lenha  da cozinha ria-se estrepitosamente na lareira,  porque o pequeno José tinha enganado o justiceiro  dos camponeses, os espezinhados  de outrora, pobres servos da gleba, seus avós e tetravós.
Foi um Natal diferente, vitorioso, com folias, machetes  e cantigas ao desafio, porque o José, o elo mais fraco, tinha quebrado a cerviz ao senhorio: “Ele já comeu papadas a mais, gesticulava. E a gente aqui em casa, nunca lhe metemos o dente. Vamos comer e beber e dar graças ao Menino Jesus por esta oferta”!
O que se passou depois não vem ao caso. O certo é que, não obstante a pequena fraude do José,  sempre ficaria na história a lição de que o mais frágil pode ganhar ao mais forte, o mais pequeno pode derrubar o gigante, como David a Golias. Nesse dia, José, o mocinho, tornou-se o rei da casa.

 17.Dez.16
Martins Júnior



quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

“VIRGEM DO PARTO, OH MARIA


Alvíssaras pelo parto de Jesus!... Eis-nos transfigurados, em bucólica levitação, levados pela tradição, pelos avós e bisavós, que lá de longe, muito  longe, um longe invisível, vêm sentar-se à nossa mesa nesta estância aconchegada do Natal. Bom é passar o facho luminoso das antigas gerações para que a ponte da história não se quebre, muito menos por nossa causa. Não se sabe, porém, por que nesga de originalidade anteciparam a folia para o dia 15, quando manda a tradição que seja o dia 16 de Dezembro: os nove dias ininterruptos, como ininterrupta foi a gestação do Menino até à hora em que nasceu.
Falei em folia. E é assim mesmo. Saem à rua os pandeiros e as castanholas, os búzios fazem o solo cavo, ao som das violas, rajões e acordeões. Os sinos acordam mais cedo, depois de passar uma noite em claro para não deixar o sol sair antes do seu lamiré precursor. A romaria enche a noite de artifício luminoso (nalguns casos, até, de ribombo foguetório) e tira os vizinhos da cama… vamos prá festa, prá romaria. E o templo da Virgem do Parto enche-se de fiéis à tradição. Só não sei se a Parturiente fica sossegada com tamanho alvoroço, alegremente regado com um fundinho de “macia” caseira. É o Povo, na sua genuína, intrínseca demonstração de renovada vitalidade campestre, quase bíblica.
E por tratar-se de um recanto singular, intimista, mas aberto a quem  vier por bem, estranha-se  a devassa publicitária com  que se estardalhaça aos quatro ventos  um gesto comunitário que só vive e sobrevive pelo calor humano, pleno de verdade identitária do agregado que o constrói. Choca-me quando  ouço falar que os governos ilhéus já servem no menu turístico as “Missas do Parto”, artificiando-as, deformando-as, amputando-lhes os direitos de autor e consumidor de um Povo que nada  no ritual tradicional, seu, muito seu, como o peixe na água.
Entendo e sinto – porque é nessa praia que também mergulho nesta quadra, embora de formato próprio do lugar  onde habito – sim, entendo que há certas manifestações que deveriam deixar ficar-se no seu figurino endémico, que, como usa dizer-se, “não são para vender”, mas para viver, sobretudo quando têm a ver com a crença e a religiosidade de quem com elas se identifica.
Assim, parece-me puxado pelos cotovelos esse projecto de candidatar a património imaterial da humanidade as “Missas do Parto”. Respeito, mas confesso que sentir-me-ia muito mal ziguezaguear num palco “para inglês ver”, quando é no chão, ombro a ombro, coração a coração, no boca-a-boca das cantigas que dá gosto em participar. Ali, dentro ou fora do templo, ninguém é espectador, todos são intervenientes na fala, na prece e no canto. E se vamos pelo “exquis” (desculpem mais este galicismo) e pelo folclore da coisa, então candidate-se o arraial do Bom Jesus da Ponta Delgada, onde as pessoas pernoitam bem aguadas debaixo das latadas. Ou a Festa dos Milagres. Ou da Piedade. Ou da Fátima. Há um núcleo dinamizador em todas essas devoções que não se deve deixar estragar, nem sequer macular com interesses mercantis e outros afins.  É que, por este andar  (longe de mim  ofender o pudor de quem quer que seja) qualquer dia o porco vai reclamar que a sua matança também tem pés para entrar na Unesco e exigir  tão cobiçado galardão. É original, é típico, é tradição ( Credo, Abrenuntio!)
Têm graça as “Missas do Parto”, mais que não fosse porque unem as pessoas do lugar e realizam a osmose entre o sagrado e o profano. Os pagãos também o faziam com os seus deuses, desde tempos imemoriais. Tudo o que concorre para juntar o colectivo no mesmo abraço de festa, tudo é bom e inofensivo. Desde que não se incomodem as fleugmáticas nuvens da noite com estampidos anti-natalícios que sobressaltam os humanos que se sentem tranquilos nos “braços de Morfeu”.
Deixem em paz a “Virgem do Parto”.
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No próximo dia, rir-me-ei convosco por um episódio verídico, mas hilariante, que pertence ao corpo da Festa e revela a sagacidade popular em tornear o nó górdio com que os grandes deste mundo teimam em “sangrar” os mais pequenos.

  15.Dez-16

Martins Júnior

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

DOIS PORTUGUESES DO MUNDO E OS JORNAIS DE BAIRRO


O meu olhar desta terça-feira vale tanto como o seu contrário. No colorido estádio das opiniões, todas as bolas e todos os chutos valem, mesmo que não acertem no alvo. Cada qual é árbitro de si próprio. Foi neste relativismo, sempre discutível,  que anteontem me atirei ao relvado, timidamente, com a alegoria do presépio e da manjedoura transplantados para o rectângulo onde vinte e dois “pastorinhos” e três “reis magos” correram, lavraram, espernearam até mais não poder.
Mas hoje, a timidez deu lugar à coragem. A curiosidade  - ou a atenção - que me dispensaram os amigos, companheiros ‘blogers’, incitou-me ao desabafo que pensava curtir só comigo mesmo. E lá vai,  sem mais preâmbulos:
Foi ontem Dia Grande para todo mundo português. Porque dois portugueses encheram o mundo inteiro de prestígio e de esperança: António Guterres e Cristiano Ronaldo. Um, CR,  guardou, pela quarta vez, na mão e no bolso o merecido esférico de melhor futebolista do planeta  O outro, após longa caminhada entre os excluídos e  exilados, subiu ao topo do mundo para tentar transformar as lavas da guerra  no ouro da paz. Um saiu do chão da pobreza e alcançou as galas do “Jetset”. O outro, oriundo dos divãs do bem-estar  e das cátedras da Faculdade, desceu aos antros da miséria humana, “sujando as mãos na lama da pobreza”, como um dia se dirigiu corajosamente Francisco Papa aos seus correligionários.
Numa escala de valores, qual deles o maior?!
É aí que salta o vigor, senão mesmo a cegueira, do relativismo. Cada qual tem a sua escala. Na geoestratégia dos tempos que correm, um dos ‘galardoados’  tem o “rectângulo verde” como  se fosse o mundo todo. O outro tem por  seu rectângulo de acção o mundo inteiro, de todas latitudes e longitudes,  com a “missão impossível” da quadratura do círculo.
Os jornais generalistas de Portugal Continental, consoante o seu padrão valorativo, deram o destaque in contornável às duas personalidades, puxando para primeira página a feliz notícia, com  registo fotográfico assinalável. É da mais elementar interpretação jornalística inserir na primeira página os valores fundamentantes do respectivo periódico. Porque é no rosto, mais que nos interiores,  que se define a publicação e é com esse impacto visual  que pretende formatar a opinião pública.
Sem mais comentários - que os deixo a quem quiser desenvolver o caso – devo dizer que foi com repugnante surpresa que avistei os nossos dois jornais diários, cada vez mais iguais, apagarem liminarmente da primeira página o actual Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, na cerimónia do Juramento Solene, em Nova York, com a presença do Presidente da República e do Primeiro Ministro de Portugal, ao lado dos representantes de todos os países membros.  
Foi Nietzsche quem teorizou que ”o importante não é o acontecimento mas a sua interpretação”.  Pelos vistos, aqui não é Portugal. Como madeirense e português, sinto-me lesado e envergonhado.  Mas se acaso querem puxar pelo bairrismo ilhéu, relevando os que fizeram bem à Madeira – mais que só por isso não fosse – a memória escasseou aos publicitários, esquecendo-se que foi o Primeiro Ministro António Guterres,  quem perdoou aos madeirenses a colossal dívida de 110 milhões de contos, (550 milhões de euros) numa época de crise fatal para as finanças regionais.
O que mais conforta é saber, como Charles Péguy, que “o jornal de ontem já é  mais velho que a ‘Odisseia’ de Homero”.

         13.Dez.16
         Martins Júnior


domingo, 11 de dezembro de 2016

DIZ-ME ONDE TENS O PRESÉPIO… E EU DIR-TE-EI QUEM ÉS

                                              

Podia começar assim o teatrinho de feira que nesta semana “azucrinou-me” (não vem no dicionário erudito, mas está no expressivo glossário do povo), repito, “azucrinou-me” os ouvidos, os olhos, a cabeça, ao ponto de ter que fechar as bocas das rádios e as bocarras dos televisores. Até tenho a impressão que ninguém em Portugal se lembrou mais do presépio. O presépio estava na “segunda circular”.. Desde o alvor da aurora ao negrume da noite, era bola-bola-bola. Veio-me à ponta dos cabelos a profissão de fé do devotíssimo Artur Semedo, de há décadas; “A minha religião é o Benfica”.
         Arrisco-me a desiludir quem me lê, ao trazer a esta mesa - já adivinham – os futebóis. Levem à conta de rábula revisteira esta jocosa elucubração. Mas não vejo outra maneira mais eficaz de livrar-me da mais supina e vazia mediocridade com que me obrigam a pagar a factura do meu áudio.visual.
A avaliar pelo que  nos serviram durante horas sem conto, o presépio de muita gente esteve na Luz. A manjedoura brilhava pela originalidade: de tipo rectangular, enorme, onde os fanáticos esperavam deitar o menino. Em vez da vaca e do burro, lá estavam, de sentinela ao portão, a águia e o leão. Receosos que  fisgassem os pobres bichos, os xerifes arregimentaram umas centenas de “gorilas” que, à frente do grosso imprevisível, sustinham “o gado” (aqui cito  a tirada satírica do nosso Eça) assemelhando-se menos a uma legião de fãs ordeiros e felizes e mais às  hordas bárbaras  marchando  contra as muralhas  do Coliseu de Roma. Nem faltaram os três reis que, sendo de primeira água, vinham pintados de preto. Os pastores corriam desenfreados para a manjedoura, ora para um lado, ora para outro, enquanto o coro infernal de 63.500 anjinhos caídos da abóbada vermelha faziam estremecer o céu e a terra com brados e esgares à mistura com aleives às mães dos três reis, imperadores da arena.
         A cena não podia funcionar sem os profetas-exegetas, juízes de fora ou “treinadores de bancada” – cada tribuna tem os seus comentadores residentes – para medir a pontinha do dedo-à-bola ou bola-no-dedo,  a distância milimétrica entre a bota e a perdigota, enfim, a palha e a chama que vão alimentar mais unas semanas, até que venha outra.
         Enfim, deixo à livre inspiração de cada qual armar ou imaginar estes fanáticos presépios, sendo certo que cada terra tem o seu (fuso e uso), conforme as circunstâncias, desde o mais galáctico campeão até ao mais irrisório clube de bairro.
         O que nesta rábula incompleta pretendo comentar é a deturpação de valores, o sufoco inflacionário de uma actividade que, estando vocacionada para o culto de uma saúde holística da sociedade, se transformou no seu oposto. Ressalvo aqui dois votos positivos, civilizacionais, expressos por alguém, ainda antes do famoso “derby”: Que no fim do jogo, os dois treinadores dêem um ao outro  um amistoso aperto de mão (não sei se aconteceu)  e que nenhum adepto perca a serenidade e o equilíbrio psicológico, sabendo que, seja qual o resultado, ele não nos  vai resolver nenhum problema nosso nem vai interferir no dia-a-dia das nossas vidas. O sol voltará a nascer sempre, com vitória ou com derrota.
         E da minha parte: Que se construa dentro da lapa de cada coração e de cada mentalidade o presépio invisível de um Mundo Novo!

         11.Dez.16

         Martins Júnior    

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

QUEM É O DONO DO NATAL ? QUEM É O SEU BENEFICIÁRIO ?

  
        A minha saudação de hoje tem tanto de ternura como de inquietação, senão mesmo de indignação. Num recanto do presépio, de todos os presépios do mundo, dei comigo a pensar nas duas perguntas em epígrafe. Sim, na roda gigante em que se balanceiam, como autómatos teledirigidos, milhares de homens e mulheres atirados para o maranhão das euforias cruzadas da época, bati à minha própria porta para saber  quem é, afinal, o dono  e, da mesma feita, quem é o beneficiário de iure et de factu deste Natal, de todos os Natais. Deixei passar a  turbamulta de notáveis, doadores oficiais das festas, os pelotões de fazedores de luz aos borbotões, os hipercamiões abarrotados de mercadoria sofisticada. Ao fim de tudo, apurei a vista interior e vislumbrei que o grande autor e o maior destinatário deste “maremagnum” de vaidades anda por aí - um ser frágil, indefeso, sujeito aos empurrões da multidão. O autêntico dono do Natal é esse “pequenino-grande ser”, chamado Criança!
         Não vejo quem se lhe possa comparar. O relato puro e seco do momento histórico inicial assim o diz. Quer se acredite ou não  que o Menino de Belém é o Deus personificado, quer se admita ou não a virgindade daquela Mãe Maria, um monumento indestrutível ali se impõe: a Criança! Toda a grandura excelsa e toda a colossal ressonância que varre o universo, desde então até hoje e sempre, estão nos braços de uma Criança que, não obstante a sua fragilidade genética, segura silenciosamente os gonzos do tempo passado, presente e futuro, tal como Hércules  sustentando as mitológicas colunas do mundo.
Insisto na titularidade de “dono e destinatário de todos os Natais” – a Criança - porque o “Príncipe da Paz”, o portentoso Messias Prometido poderia  ter surgido  no pico sebastianista da mais alta montanha, aureolado do mais fino diamante real. Mas, oh decepção tremenda: reduziu-se a um débil recém-nascido, para mais, rejeitado por todos os proprietários da cidade. Mais incisivo que o aspecto físico daquele bebé, o que fala mais alto é a sua simbologia gritante.
Com efeito, a Criança não passava, naquela época,  de mero episódio descartável, sob qualquer pretexto. Confira-se o Salmo 136, por onde se vêem a indiferença e a crueldade com que eram tratadas as crianças. “Feliz e bem-aventurado será  aquele que agarrar nas tuas crianças de peito e a as espedaçar contra uma rocha”. A Criança, pois, objecto de vingança pela derrota dos judeus frente ao povo vizinho, como testemunha o “santo” Rei David. É conhecida a tristemente famosa Rocha Tarpeia, na Antiga Roma, de onde eram atiradas as crianças deficientes, a par dos criminosos de lesa-pátria.
A Criança, sobre a qual se construiu o mundo futuro! O nascimento em Belém veio reabilitar definitivamente a Criança para a história, veio colocá-la na centralidade de todos os Natais e de todos os tempos. Aqui se inscreve a minha ternura dinâmica. E aqui, também, a minha indignação pela indiferença com que são tratados os que ensaiam os primeiros passos da vida. Sem pretender dramatizar os cenários, ouso denunciar com veemência os atentados à Criança e ao seu saudável crescimento evolutivo, seja  o cortejo esquálido das crianças refugiadas, seja o nauseabundo poço da pedofilia, seja ainda a prepotência de ampliar turmas e cortar escolas sem atender ao superior interesse dos utentes.
Perante tais abusos, apetece mandar arrastar para outra “rocha tarpeia” a prosápia hipócrita de iluminações feéricas ou as parentes balonas das armas de guerra e transformá-las em berços de afectos e alcovas de luz para o advento do verdadeiro Natal. Uma saudação muito emotiva para com os pais e encarregados de educação, professores, vigilantes, assistentes dos estabelecimentos de ensino.  Alto e bom som, proclamo que sois vós os autênticos construtores  do presépio original. São as vossas mãos que, dia-a-dia, vão levantando os degraus e a beleza das “lapinhas” humanas, aquelas que exclusivamente interessam ao mundo.
Que nunca se acabem, ao longo de todo o ano, os acordes felizes da Tuna Infanto-juvenil do Centro Cívico da Ribeira Seca, como  documenta a gravura, na abertura do presépio que as autarquias de Machico construíram no centro da cidade.  

“Cantai Crianças nesta Festa do Povo
Cantai Crianças p’ra fazer um Mundo Novo”.

09.Dez-16
Martins Júnior

        

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

DERROTADO “COM A AJUDA DE DEUS” --- ou --- O TIRO PELA CULATRA

    
    Se tem um “tempinho” livre nesta azáfama da Festa anunciada, então fiquemos juntos, rindo com a sátira da vida e  aprendendo ou castigando os costumeiros abusos a que nos afeiçoamos, sem dar por isso. É este um caso-tipo do velho adágio ridendo castigo mores.
         No último apontamento que aqui deixei, pretendi apenas recolocar o Natal na sua matriz primeira, ou seja, o almejado sonho de um mundo novo, justo – diferentemente da sua redução pura e simples ao folclore consumista dos licores, dos foguetes, da carne de “vinha d’alhos”. Hoje, situo-me no lado oposto da cena. Se ontem estranhei a deformação do Natal nas mais alienantes manifestações profanas, agora divirto-me com o uso e abuso da crendice rasteira, não menos alienante, que se apresenta sob o nome de Deus. Quem me trouxe a risada mefistofélica do dia foi o jornal “Le Monde”, na análise às eleições de domingo passado, na Áustria. Quando se temia a eleição do primeiro neonazi, um jovem, herdeiro do despotismo  hitleriano, eis que os austríacos colocam no trono um ecologista, para mais,  septuagenário. Até aqui, tudo bem, nada a opor nem  a contar. A contar, essa sim, é a nota transcrita pelo matutino francês que passo a citar:
         “O FPO, partido do candidato  da extrema direita, Norbert Hofer, cometeu um erro, ao instrumentalizar a religião. O seu slogan ‘COM A AJUDA DE DEUS’ causou o pânico nas pessoas. Foram  numerosos os que apoiaram o ecologista Van der Bellen, por causa disso”.
           Que grande Povo este! Fosse entre nós – e somos testemunhas disso – caía água benta como chuva e, com ela, uma enxurrada de votantes, vivos e defuntos. Mas passemos adiante. Porque o que me fez rir, de um gozo intraduzível, é que o tiro saiu pela culatra. E mais: confirmei a convicção do abuso satânico e, ainda por cima, indisfarçado com que o populistas manipuladores  da opinião pública fazem do nome de Deus.
         E não apenas, na política. Resumindo: aquele padre que teve o desplante de atribuir os recentes terramotos na Itália aos gays e afins, como castigo de Deus!  Ou o sobrevivente do recente desastre aéreo quando disse agradecer a Deus que lhe segurou a vida. E os outros, as vítimas inocentes, foi Deus que lhes ceifou o mesmo direito à vida?... Cuidado e  “tento na língua” e na consciência!...  A superstição, que é outra forma de abuso, entrou no linguajar quotidiano, em expressões  mecânicas, tais como: “O exame  vai correr bem, se Deus quiser. Vai dar chuva (ou sol) se Deus quiser. Até amanhã, se Deus quiser”.
E se o homem não quiser?... Ou  o movimento das galáxias?... Quanto desastre, quanta crueldade, quanto acidente e, sobretudo, guerras, conflitos, doenças até, que nada têm a ver com Deus!... Foi isto mesmo  que observei à nossa diva fadista Amália Rodrigues, no Porto Santo, aquando das filmagens das “Ilhas Encantadas”, de Carlos Villardebô, já lá vão mais de cinquenta anos. Ao despedirmo-nos no hotel, onde o nosso Grupo Folclórico actuava, Amália repetia religiosamente “Até amanhã, se Deus quiser”. À minha observação, respondeu: “Sabe, padre, isto é um hábito desde pequena e não consigo desfazer-me dele”.  O dever de respeitar (e respeito-o) não nos inibe o direito de pensar e ganhar conclusões lógicas, filosóficas, teológicas, mais respeitadores que os “slogans”  da extrema direita austríaca: “Com a Ajuda de Deus”.
         O automatismo gratuito e ofensivo chega ao cúmulo de trocar a sequência temporal dos acontecimentos, como o daquele futebolista que, após o jogo de que a sua equipa saiu vitoriosa, desabafou, extasiado: ”Tive sorte. Marquei aquele golo, se Deus quiser”. Assim mesmo.
         Rindo e pensando. Esta crónica, ao ritmo do pulsar dos dias, serve-me de conclusão: ao mesmo tempo que se esconde e esquece a grande mensagem natalícia sob as roupagens do consumismo efémero, da mesma forma se censura a banalização da Divindade em assuntos que têm exclusivamente a ver com a nossa responsabilidade individual e colectiva. Mais que não seja, tenhamos cuidado com as palavras para não nos acontecer o que sucedeu  aos neonazis  austríacos: Perderam “Com a Ajuda de Deus”…

07.Dez.16

         Martins Júnior