terça-feira, 17 de janeiro de 2017

JARDIM ZOOLÓGICO TRANSFORMADO EM CATEDRAL

Desçamos hoje à terra, acarinhemos os “amigos fiéis”, os que nos guardam, os que nos alimentam, os que nos inspiram, os que nos cantam  e, por vezes, desencantam. Mais concretamente, vamos ao “zoocampus” mais próximo da nossa residência. E, se possível, convidemo-los a caminhar em pacífica romaria até ao adro da igreja dos Prazeres, ou da Sé de Lisboa ou até à colunata de Bernini,  na Praça de São Pedro de Roma.
Porque hoje é dia de Santo Antão.
É dia de sacralizar o reino animal, desde aqueles que ganharam a nossa estimação até aos que se atiçam à nossa sombra. É bucólico, romântico e divertido ver o hissope de água benta debruçar-se carinhosamente sobre os nossos “peluchos” vivos, trazidos com ternura maior nos braços dos seus donos.
Porque é dia de Santo Antão.
E o patriarca dos monges dos séculos III e IV da nossa era, Santo Antão, é o seu Pai Natal abençoado, trazendo ao pé do cajado em cruz um porquinho bem papudo ou um coelhinho matreiro. É um mimo de sensibilidade criativa o ritual de orações e jaculatórias  que lhe são dirigidas neste dia. Cito algumas delas, colhidas textualmente:
Santo Antão interceda junto a Deus para curar o meu cachorro Bento que está sofrendo com problemas na coluna. Que Bento fique bom e volte a andar. Amen. (Renata).
Santo Antão proteja os ‘meus filhos de quatro patas´, o Cacau, o Pitty, o Tandy e o Sansão, porque algum vizinho maldoso está colocando veneno para matá-los. (Anónimo).
Santo Antão, ajuda meu cão Frederico a ter vida melhor, ficar dentro da casa da minha irmã. Amen. (Elisete)
O que, porém, poucos crentes conhecem é a evolução do seu venerando ícone, bonacheirão e pródigo em deslizar  a mão nos  macios pelos do seu lulu. É que a génese da devoção ao Santo Abade tem uma narrativa estranha e diametralmente oposta aos rituais com que hoje  nos sensibilizamos tanto. A sublimação das nossas crenças tem destes contornos – e o hagiológio cristão medieval  mostra-os amplamente – ao ponto de inverter por completo a versão original e traduzi-la numa veste contrária, mas edificante.
É o caso de Santo Antão.  Filho de gente nobre, tendo herdado lautas riquezas, conheceu os prazeres mundanos, mas um dia decidiu distribuí-las pelos pobres e refugiou-se no deserto, onde passou o resto da sua vida, em  mortificações, penitências e orações, sempre espicaçado por remorsos antigos, que lhe devoravam a paz e o sono. Sentia  o demo a rondá-lo, dia e noite, e ao qual se opunha veementemente  com o antídoto dos cilícios e místicas asceses. Mas o demónio, cada vez que era derrotado, redobrava os ataques. ”Enviava-lhe animais selvagens enquanto estava em vigílias nocturnas e em plena noite todas as hienas no deserto saíam das tocas e rodeavam-no. Tendo-o no centro abriam as fauces e ameaçavam mordê-lo.
Sucintamente, são estas as narrativas primitivas.  E  as imagens por que é representado o nosso Santo Abade estão configuradas nos animais que traz na fímbria do velho hábito de eremita. Portanto, os animais foram para Santo Antão as visões disformes, macabras, dos demónios, seus perseguidores.
Mas o milagre da crença popular  e a criatividade imaginativa dos devotos, ao longo dos séculos, trocaram as bolas ao “demónio”. De tal forma que os animais, antes perturbadores e furibundos, transformaram-se em protegidos e amados de Santo Antão. A força da tradição e a sua metamorfose  ao serviço da sublimação das tendências. Curioso e simpático o rio que transporta os sedimentos de outrora!
 E assim se transformou o zoo numa imensa catedral.  Nesta deriva positiva ( e  descontadas certas ridículas superstições como as que acima citei) hoje  é sacralizada a natureza, é exaltada a ecologia, é respeitado o código dos direitos  dos animais, companheiros de viagem em toda a história do homem sobre a terra.

17.Jan.17
Martins Júnior
  

domingo, 15 de janeiro de 2017

REQUERIMENTO LIMINARMENTE INDEFERIDO: Pedido ou Provocação?


É este um apontamento que me perseguiu em toda a quadra natalícia. E porque é hoje,  dia do Santo Amaro,  que na tradição madeirense se queimam os últimos cartuxos das estrelinhas saltitantes, ainda chego a tempo de deixar cair no chão da “lapinha” esta reflexão, tão estranha quanto evidente.
Coincidentemente, duas notícias, ainda frescas da véspera, vieram chamar-me à liça. A primeira tem a ver com o elucidativo trabalho que uma ilustre  investigadora da nossa Universidade acaba de dar a conhecer  sobre o bullying nas escolas da RAM, concluindo que 10% dos alunos são vítimas desse tipo de violência. O segundo caso, mais trágico e repugnante, foi o assassinato, a sangue frio,  de um homem na pacata freguesia do Monte, sob o olhar protector da Santa Padroeira. Para bálsamo dos crentes, ouviu-se a petição: “Que Nossa Senhora da Paz que tem aqui o seu monumento conceda a paz aos residentes nesta paróquia”.
Paz…Paz… Paz… e outra vez Paz! Foi o refrão -  saudação e  oração - que mais encheu os dias, as horas, os cerimoniais litúrgicos do Natal e Ano Novo. “Os anjos anunciam e trazem a Paz… Os profetas garantem a Paz à chegada do Messias… Ele é o Príncipe da Paz”. E clamorosas voam em reboada  instintivas preces: “Senhor dá-nos a Paz, Virgem dá-nos a Paz”!
É a estas frases desarticuladas que eu chamo Requerimento liminarmente indeferido. Por mais estranho que nos pareça,  tal pedido não passa de um falacioso atestado de inimputabilidade, em que toda a responsabilidade pessoal ou colectiva é atrevidamente descartada. Atira-se para a estratosfera da Divindade aquilo que é trabalho exclusivamente nosso. Respeito todas as versões ou opiniões divergentes daquela que, após ponderada reflexão,  tentarei apresentar.
Começo, desde logo, por formular a mais comezinha das perguntas: Qual é o pai e qual é a mãe que não desejam que todos os filhos se entendam e vivam pacificamente como irmãos?... Nenhum, seguramente. Mas esse desiderato só é possível se os descendentes, os herdeiros, fizerem por isso. Podem os progenitores impetrar aos filhos que vivam em paz, mas de nada servirão o seu apelo, a sua oração, talvez as suas lágrimas, se neles persistir uma reiterada recusa de entendimento mútuo.
Em linguagem antropomórfica, apliquemos esta evidência à relação entre o homem e Deus, entre o  mundo e o Supremo Ordenador do Universo. Depressa chegaremos à conclusão de que é Deus quem nos pede insistentemente:  “Pela vossa saúde, entendam-se. Pela felicidade vossa e minha, façam o favor de construir a Paz”. Essa é a  nossa tarefa. De mais ninguém.  Só por requintada hipocrisia e por oportunista desvio psíquico de transfert se endossa para o invisível aquilo que só nós, visivelmente, podemos elaborar. Daqui, não será difícil admitir que Deus – porque respeita a liberdade do ser humano – reconhece-se impotente perante os conflitos pessoais, a violência doméstica, as cenas de bullying, as guerras entre as religiões e entre as nações. Mantenho a convicção de que certas preces e práticas litúrgicas mais não são que uma fuga à responsabilidade pessoal e colectiva.
Porque a Paz não se dá de graça. Não é um pó mágico a custo zero. A Paz paga-se. E a factura chama-se mentalidade, educação, sensibilidade vicinal, visibilidade social, mundividência do presente e do futuro. E sobretudo, renúncia: aos megalómanos complexos de superioridade, à avidez de mesquinhos interesses, ao gesto tribal, à palavra desbragada, selvagem. Perguntem ao novo inquilino da Casa Branca se será capaz de abandonar, por imperativo religioso,  essa asquerosa boçalidade de reeditar, na fronteira com o México, o vergonhoso Muro da vergonha, abatido, em 1989, pelo braço do Homem e  não pelas asas dos  anjos de Belém.
A prosseguir esta corajosa incursão, seria um filão transbordante de considerandos dinamizadores.  Fico-me por aqui, esperando ter contribuído para o desanuviamento ideológico com que a inércia comodista, disfarçada de crença e tradição, nos tem amputado a autonomia de pensamento e acção, conducente à nossa quota de responsabilização pelo mundo em que vivemos. Cada cidadão é um monumento da Paz.
“Natal é sempre que o Homem quiser”.

15.Jan.17

Martins Júnior        

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

OS PORQUÊS?... Episódios marcantes de uma história, ainda por contar


Tendo acompanhado os passos da última viagem de Mário Soares e sendo-lhe tributados  os dias ímpares deste SENSO &CONSENSO, é  caso para indagar sobre  os motivos de tão intensa   dedicação. Todavia, mais do que as palavras e emoções descritas durante a semana inteira, importa chamar à colação os factos mais determinantes neste processo de homenagem. Que interesses e motivações estarão na sua génese?
É nos meandros da memória que vamos encontrá-los. Além da indesmentível grandeza de estadista, nacional e internacionalmente reconhecida e justamente alcandorada, emergem atitudes que, circunscritas embora a territórios insulares de menores dimensões, fazem crescer a estatura cívica e humanista de Mário Soares. É da nossa ilha que estou a falar.
Nenhum outro governante foi tão maltratado pelos madeirenses (representados no governo regional) como o foi  Mário Soares. Os corifeus do regime ditatorial PPD  da Madeira instrumentalizaram, por mais de uma vez, um punhado de arruaceiros “jagunços” para insultar o Primeiro-Ministro, chegando ao ponto de  agredi-lo com objectos humilhantes, atirados de longe como nos pré-históricos cortejos do carnaval madeirense. No entanto, nenhum outro governante, nem os do PPD, foi tão generoso e democrático para com a Região.  Lembro-me da consulta que Mário Soares fez a todos as forças políticas, recebendo-as, uma a  uma,  e aceitando sugestões para o  Programa do seu Governo. Aí manifestou-nos o seu interesse “no prosseguimento do diálogo entre a UDP e o próprio governo”. Isto em 1976. Lembro-me também das volumosas transferências financeiras enviadas para a Região  nos governos de Soares, sem nunca exigir contrapartidas, como as que fez o Primeiro Ministro Cavaco Silva, em 1986, de que resultou o leonino contrato  “Protocolo de Reequilíbrio Financeiro”, que deixou as Câmaras na penúria. E, mais tarde, foi ainda um Chefe do Governo PS, António Guterres, que em 1999  perdoou a dívida da Madeira, no montante de 110 milhões de contos (550 milhões de euros).
Compulsivos argumentos factuais para que os madeirenses estejam gratos a Mário Soares!
A título pessoal, a minha presença quase anónima nas exéquias do Fundador da Democracia em Portugal tornou-se um imperativo de emoção e gratidão. Recolho, entre tantos, apenas três eloquentes momentos, desconhecidos da opinião pública. O primeiro e o segundo aconteceram, quer na Assembleia Regional,  quer na Câmara de Machico, estando, como independente, na ala da UDP e do PS, o que só por si revela a abrangência democrática de Mário Soares.
Celebrava-se com pompa e circunstância o dia da Autonomia, 1 de Julho de 1988, com sessão solene no Salão Nobre da Assembleia, presidida pelo então Presidente da República, Mário Soares, recheada ademais pelo colosso dos membros do Conselho das Comunidades Madeirenses, todos eles escolhidos a-dedo pelo governo regional.  No meu discurso foquei especificamente o despudor da relação Igreja-Governo, através do “Jornal da Madeira” que, com a cara eclesiástica, servia de exclusivo panfleto do PPD, a que ajuntei o testemunho que pessoalmente colhera entre os emigrantes, aquando das visitas que empreendi a Venezuela e Austrália. E fi-lo nos seguintes termos: “Este governo madeirense usa os emigrantes como arma de arremesso político, porque apenas favorece os barões da emigração e despreza o emigrante comum quando, na Madeira, precisa dos serviços da administração pública regional”. Os gritos, os apupos desmiolados transformaram aquele Salão Nobre numa selva enraivecida e tão tresloucada que me impediram de continuar. Passados alguns minutos de barafunda tribal, o já falecido  Dr. Nélio Mendonça, então presidente do Parlamento, repôs o silêncio no recinto, atitude que muito me surpreendeu, dado que a praxis ordinária era deixar correr o mar dos tubarões enquanto usava da palavra. Tempos depois, na audiência que me concedeu em Belém, Mário Soares desvendou o enigma, dizendo: “Perante a anarquia geral, enquanto o meu amigo falava, fiquei atónito e disse ao ouvido do presidente da Assembleia: ou o senhor põe  isto na ordem ou então levanto---me eu a fazê-lo”.  Fiquei esclarecido. E sentidamente reconhecido.
Noutra altura, era eu presidente da Câmara e, passando por Machico, avisou-me, em tom solidário, o Dr. Mário Soares, diante dos presentes. “Aguente-se, padre”!... Ele bem sabia o que teria de passar a única câmara da oposição na ilha da Madeira, face à prepotência da governação regional. Serviu-me de alento e coragem a  premonitória recomendação, cuja sonoridade ainda guardo bem viva e definida.
Em 10 de Junho de 1995, Dia de Portugal e das Comunidades, teve o Dr. Mário Soares a gentileza e a “ousadia” de atribuir-me as insígnias de comendador, um ofício que sempre abjurei, mas resolvi, enfim, aceitar, sabendo a simbologia cívica e  moral que tal gesto significava nessa crucial conjuntura. E fez questão de ser ele próprio a impor-me a condecoração na cidade do Porto. Caiu o Carmo, caiu a Trindade, caiu a Quinta Vigia e caiu, imaginem, o Paço Episcopal. Contra Mário Soares e contra mim. Basta ler o Jornal da Madeira da primeira quinzena de Junho. O mais original e que revela a servidão eclesiástica ao governo foi a homilia do bispo Teodoro Faria na Festa de Santo Amaro, logo seguida de queixa formal da diocese ao “Conselho das Ordens Honoríficas”, acusando Belém de “violar a Concordata entre Portugal e a Santa Sé, pelo facto de comunicar a dita nomeação ao contemplado, designando-o como  Reverendo Padre José Martins Júnior” . É um tratado de esquizofrenia “humano-divina” o que vem publicado no JM, de 15.VI.95. Vale a pena olhar a “beleza” daquele sacro linguado!... Hoje, ao reler essa enormidade, reconheço e afirmo, alto e bom som, aquilo que na altura o pudor não mo consentia dizer: A Igreja diocesana tem sido a barriga de aluguer do governo regional. Oxalá desista de sê-lo,  num futuro próximo. E definitivamente.
A Igreja, cordeirinho imolado no altar da Quinta Vigia, seguiu o “Voto de Protesto e Condenação” que o PPD/PSD aprovou contra a condecoração  no Parlamento Regional em 8 de Junho, revéspera do Dia de Portugal.  (Ler DN, 8.VI.95).
Entretanto, Mário Soares prosseguiu, seguro e sereno, a sua marcha, enquanto a caravana insular ficou no velho estaleiro do calhau roliço.
O quanto, quanto tinha eu para contar nesta nau onde me coube embarcar  no oceano da vida... Fico-me por aqui, transcrevendo em epigrafe a simpatia e a afectividade com que o  Dr. Mário Soares tratou este ilhéu, agora quase octogenário e que ficaram gravadas no Livro de Honra do Município de Machico em 1997.
Retribuo-lhe com os cravos vermelhos que carinhosamente deixei na sua tumba!

13.Jan.17
Martins Júnior



quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

"É A VOSSA HORA"!


Cada vida tem o seu pico de glória. E cada morte também.
Mas entre uma e outra estala, como lousa tumular,  a inexorável incógnita: “Desse brilho meteórico, o que é que ficou”?

Sic transit gloria mundi  –  era o ritual da sagração dos Papas: “Assim passa a gloria do mundo”, enquanto o cardeal ajudante incendiava uma trança de estopa branca sobre uma salva de ouro.

Rolou a pedra derradeira sobre o monumento encimado por três jactos luminosos traduzidos simplesmente em três palavras: “FAMÍLIA BARROSO SOARES”.
O Apartamento da “Rua João Soares”, ao Campo Grande, transladou-se para o jardim das memórias que tem por estranho título: “CEMITÉRIO DOS PRAZERES”.

Fechar-se-ão as páginas do  Livro dos Pesares, secar-se-ão os rios de tinta nas rotativas dos jornais, apagar-se-ão os holofotes dos emissores televisivos.

E de tudo, tudo,   que restará, enfim?...  O silêncio?... A pedra marmórea e fria?... As  rosas amarelas, as rosas e os cravos vermelhos  emurchecidos e mudos, como órfãos abandonados,  curtidos de saudade?...

Heróis, sábios, génios e artistas – cada pátria tem os seus. Acompanhando Mário Soares, seguiram o mesmo trilho Daniel Serrão, Zygmunt Baum, Akbar Hachémi  Rahsandjani,. E logo antes,  Leonard Cohen.

De que valeu a pena tê-los, se deles restou apenas  a memória, que um dia será longínqua e que “se esfuma como a brancura da espuma que morre na areia”? …

Mas valeu a pena!
Porque deles ficará para sempre o grito -  canto e  mandato:
“Sede vós  e fazei  dos vossos filhos – novos “Serrão”, novos “Zygmunt”, novos “Rafsandjani”, novos “Cohen”, novos “Soares”.
"Agora é a vossa Hora". 
A tua Hora!
Para tanto, basta que “ponhas tudo quanto és no mínimo que fizeres”!

11.Dez.17
Martins Júnior  


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

VELÓRIO E VIGÍLIA


A multidão passa. E olha. Comenta.
E a multidão volta a passar e a olhar e a lamentar.
Eu entro. Não olho nem passo. Eu fico.  À escuta.
E mesmo cá de fora, fiquei lá dentro.
Sem passar e sem olhar. Só a ouvi-lo.
A minha câmara ardente
Arde de silêncio e de perpétua escuta.
E canto.

9.Jan.17
Martins Júnior

sábado, 7 de janeiro de 2017

CÂNTICO À VIDA!


          Hoje, ficarei de pé, só a ouvi-lo!
          Como há 25 anos.  Ele e eu, sempre de pé!
          E isso me basta. Porque é isso que ele espera.

            07.Jan.17

           Martins Júnior

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

“NA BÉSPA DUI REISES” – Uma certa anatomia dos natais


Se  acontecimentos  há em que o mito se confunde com a realidade, é na composição do Natal  que se consuma essa estranha e romântica simbiose. Com efeito, de tudo quanto enternece e anima a sensibilidade popular, nada é seguro, sob a perspectiva histórica. A começar pela data: o 25 de Dezembro não passa de mera convenção, a partir do século IV,  plagiada das Saturnalia, as festas romanas dedicadas ao deus Sol, cujo pico coincidia com o dia mais longo do astro-rei, requalificando-o os cristãos com o nascimento daquele que foi designado como  “Sol Justitiae”, Cristo-o Sol da Justiça. Não é por acaso que nas igrejas orientais, o Natal é celebrado em 6 de Janeiro. Depois, o requinte meteorológico de “uma noite fria”, quando, segundo alguns exegetas, eram as noites cálidas a característica original daqueles territórios.  Pelo meio, a vaca e o burrinho, que o próprio Ratzinger, enquanto Papa Bento XVI, se encarregou de neutralizar no seu livro “JESUS”, afirmando que do registo evangélico não consta nenhum vestígio de gado  bovino ou asinino. Mais enigmático é o “exército de anjos celestes” – aberrante contradição – logo um “exército” para saudar e apadrinhar o “Príncipe da Paz”!!!
Mas é com isto que se pinta o cenário do Natal. Tirem do presépio estes adereços e verão que os turistas “voyeuristas” (nós e os outros) passarão pela “lapinha” como gato sobre brasas, dirão mesmo “que graça tem aquilo”?... Pois, “Aquilo” é o que mais importa. “Aquilo” é a força nuclear que agitou a sociedade de então e tentou mobilizar as civilizações  futuras! “Aquilo” , o Invisível, que poucos procuram ver.
Curiosa é a tradição dos Reis, nomenclatura que os evangelistas nunca mencionam, mas tão-só os “Magos, vindos do Oriente”. Cientistas ou astrónomos ou astrólogos, os Magos terão sido  conduzidos por uma estrela, que alguns investigadores identificam como um cometa e a tradição pintou-os da cor das três “raças” primárias então conhecidas, branco, preto e amarelo, simbolizando a adesão universal à mensagem de Belém. Esta tradição só começou a sistematizar-se culturalmente a partir do século VIII. Neste “item”, não será despiciendo assinalar a contradição cronológica entre a colagem dos Magos ao estábulo onde nascera o Menino e a vingança de Herodes, “rei” de Jerusalém quando se viu ludibriado pelos próprios Magos que não voltaram ao palácio para dar informes sobre a exacta localização do “recém-nascido rei dos judeus”. Herodes mandou matar todas as crianças “de dois anos para baixo”, significando com isto que os Magos só terão encontrado Jesus dois anos depois de nascer. E encontraram-no não no estábulo mas “em sua casa”. (Mt.-2,11).
A todo este design romântico e fluido chega o poeta e místico Francisco de Assis , que em 1223 (séc.XIII) cria e  inaugura, pela primeira vez, na cidade italiana de Créccio, a simulação de um presépio, a qual se tem perpetuado até aos nossos dias, enriquecida pela fértil imaginação popular, com adereços miniaturais de toda a espécie de motivos autóctones, desde o coreto e  a banda de música, as vindimas e as ceifas, a matança do porquinho, o lenhador autómato a rachar os troncos, a igrejinha, as levadas, enfim, a vida anímica de um povo.
O cortejo real dos Magos caiu na simpatia das classes “superiores”, nomeadamente da Igreja e do Estado. A primeira promoveu o acontecimento, outorgando-se a si mesma o privilégio da hegemonia do poder espiritual sobre o temporal - os reis curvam-se diante do Menino, como seus fiéis vassalos – e mais tarde acumulou os dois poderes na cátedra da Roma Pontifícia. Os Estados, por seu turno, reclamam para os seus titulares o estatuto de paridade com os altos dignitários eclesiásticos, por terem prestado a homenagem iniciática  ao Fundador da Igreja e, daí, à sua propagação no mundo de então. Cada instituição, por labirintos exclusivos e até imperceptíveis, tenta canalizar ao seu domínio o ouro e o incenso da romagem dos “Três Reis do Oriente”, daí tirando os  melhores proventos.  A este propósito cai-me debaixo dos olhos a reportagem do El Mundo, onde se lê: “O Governo de Carles Puigdemont convocou as entidades organizadores da tradicional Cavalgada dos Reis Magos  de Vic (Barcelona), com transmissão na TV3, para transformá-la numa mega-manifestação política a favor da independência da Catalunha”.  As próprias crianças, às centenas, transportarão amanhã bandeirinhas catalãs pelas ruas de Vic, tendo-se esgotado todo o “stock” nas lojas da cidade. Porque é a noite e o dia dos Reis. E eu acrescento, dos “reisinhos”,  de cada “reizinho” do seu burgo ou do seu bairro, do seu partido, da sua capoeira.
Por isso, mais do que as grandes encenações de palco, prefiro nesta noite a alegria pura, descontraída e feliz de cada povo, de cada sítio, de cada família, com os cantares tradicionais, os votos alicorados de um novo ano, as “favas” do bolo-rei, os rajões e as concertinas,  tudo envolto  num beijo de saúde e num abraço de libertação. Porque, hoje, Rei é o Povo!

05.Jan.16

      Martins Júnior