quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

UMA “CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA” NO FUNCHAL


Este 25 de Janeiro sai-me do computador como um poliedro de muitos rostos. Tem tanto de sério e diletante, como de sarcástico e chocarreiro. Consonante e contraditório, ao mesmo tempo.
Começo pelo tom “grave e sério”. Está na ordem do dia falar de normativos constitucionais, inconstitucionalidades, tribunais constitucionais, numa palavra , invocar  a Lei Fundamental do Estado-Nação, a Constituição. Sempre as houve, desde as constituições monárquicas  às liberais, desde as totalitaristas às republicanas, cada qual com o seu figurino próprio ao serviço da ideologia ou dos interesses dominantes. De todas, porém, a mais original e anacrónica  será aquela que deu à luz o título deste escrito: A Constituição Dogmática. Quem me lê neste momento conhece, de certeza, a máscara e o ADN do (des)qualificativo Dogmático. O dogma não se discute, não admite perguntas nem respostas, não tem apelo nem agravo. É o “status”: inflexível, inamovível, sem olhos, sem ouvidos, sem alma e sem coração. É a esfinge no deserto do pensamento, além da qual ninguém pode passar, sob pena de condenação à pena capital. São seus parentes menores as constituições dos regimes fascistas, as constituições estalinistas, enfim, as ditaduras. Todas fabricadas pelos humanos mortais.
Mas as Constituições Dogmáticas são “gente fina”. São do outro mundo. Procedem dos oráculos divinos, de lá onde mora o Eterno e  Supremo Juiz da História. E o seu fiel depositário é um só, mesmo sem procuração reconhecida:  a Religião - melhor talvez, as religiões. No caso vertente, a Igreja. E, para  nós,  a Católica. Seus delegados e juízes, dotados de infalibilidade dogmática, são os “ministros hierárquicos”, mais deístas que Deus, mais papistas que o Papa. Pela Constituição Dogmática da Igreja, foi excomungado o Patriarca Miguel Cerulário, em 1054 (há quase mil anos!) e, com ele, a Igreja Ortodoxa, desde então separada de Roma. Pela Constituição Dogmática, em 1431, foi queimada viva na fogueira uma jovem francesa, Jeanne d’Arc, por defender o seu povo. Ainda pela Constituição Dogmática foi excomungado, em 1521, Martinho Lutero e, por tal sentença, proliferaram na Europa e no mundo as doutrinas protestantes. E pela mesma Dogmática Constituição têm sido ostracizados, reduzidos ao silêncio, encarcerados no próprio país, muitos pregoeiros da Verdade, lídimos cultores da Sabedoria, teólogos eminentes, mártires anónimos, sobre cujo féretro a mesma Constituição Dogmática manda rezar ofícios sagrados, que mais não são que cínicos impropérios repugnantes perante a barra da Justiça autêntica, seja ela humana, seja ela divina.
Perguntar-me-ão por que andas e bolandas venho eu, hoje mesmo,  com este tão estranho arrazoado.
É que hoje é 25 de Janeiro.Com recheio gordo de 4 “pratos”.   Às companheiras e companheiros viajantes dos  “blog’s”  proponho que descubram  as consonâncias e as dissonâncias, os sabores e dissabores da ementa:
1)    O “JM” (forma sincopada, semi-amputada do ex-“Jornal da Madeira”) tem propagandeado “No Seminário diocesano, três dias de actualização do clero sobre a Constituição Dogmática da Igreja” à luz do Vaticano II. Ouso sublinhar que, para a Madeira, podia ser “do Vaticano I”.
2)    Hoje encerra-se o Oitavário para a Unidade das Igrejas Cristãs, iniciativa centenária de um pastor protestante e depois adoptada pelo Vaticano, conducente ao respeito pelos diferentes credos e instituições inspiradas na fé do mesmo Cristo.
3)    Hoje evoca-se a conversão de Paulo de Tarso que, de feroz perseguidor dos cristãos, passou a defensor incansável de Cristo, coração  aberto para todos, gregos ou romanos, judeus ou pagãos.
4)    O Papa Francisco, na entrevista ao El País (a que fiz referência anteontem) acaba de verberar o clericalismo autoritário, desenraizado da vida, castrador da Verdade Total – a Verdade que é participada por  todos e por cada um dos humanos.
E a pergunta é:
Que sentido faz  hastear na diocese do Funchal a bandeira de uma “Constituição Dogmática” ? Ou: como pode compaginar-se o “prato nº1” com os outros três que se lhe seguem?... Dará em congestão, de certeza. Ou em reacção nuclear.
Poderia reproduzir aqui um extenso rol de citações bíblicas e doutrinais sobre a ilusão em que navegam certos “príncipes da Igreja”,  desactualizados, dogmáticos medievais, julgando-se seguros por terem uma mitra na cabeça, um báculo dourado na mão e um código canónico aos pés. Prefiro apenas procurar resposta a estoutra pergunta:  Porque é que nenhum artista sacro, desde os clássicos aos modernos, se atreveu  a representar Jesus Cristo com o mesmo toque de estilista: mitra filigranada na testa, báculo na mão e cordão  de  ouro ao peito?...
Como Saulo, outrora no caminho de Damasco, capital da Síria, desejo e empenho-me todos os dias para que caiam as escamas do obscurantismo  que ainda nos turvam a luz dos olhos. Dos meus. Dos nossos.

25.Jan.17

Martins Júnior

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

OS CAVALEIROS DA CRISE – uma abordagem de Jorge Bergoglio, Papa



Andamos por aí a navegar – terra, mar e ar. E quem não se sentiu, alguma vez, metido nas encruzilhadas das ondas, no redemoinho dos ventos, no descampado de múltiplas rotas entrecortadas?... Aí é que se põe à prova o discernimento do navegante, a sua capacidade de análise perante a confusão circundante.
É esta a hora e é este o tempo em que vivemos. Acontecimentos fortuitos agarram-nos nessa onda de embates e contradições tais que nos deixam encostados ao “Beco do Fala-Só”. Em todos os continentes e em todas as estruturas, quer as de índole social, confessional ou política, de entre as quais ressalta a inevitável ‘tragicomédia’ do presidente eleito dos EUA. E foi precisamente na hora em que Trump tomava posse, sexta-feira pp., que em Roma dois jornalistas do El País, António Caño e Pablo Ordaz, entrevistavam em Roma o Papa Francisco, cujo comentário  não podia ser mais certeiro e abrangente: “O  perigo é que em tempos de crise busquemos um salvador”.
Certeiro e abrangente!  Basta percorrer, mesmo de levante, o curso da história para nos apercebermos desta  inelutável  fatalidade. Todos procuram um líder  a quem chamam  carismático, seja um guerreiro armado, seja um bezerro de ouro, um arcanjo extraterrestre - seja lá o que for – e entronizam, como o salvador predestinado,   no altar da pátria. Nalguns casos, com pleno sucesso colectivo, noutros com o amargo embuste, devastador de gerações. Pensemos num rancoroso Dracon da Antiga Grécia, reconstituamos um execrável Nero de Roma, rebobinemos o filme de uma ‘Santa’ Inquisição, de um Robespierre da Revolução Francesa,  um Stalin da URSS, um Hitler, um Franco de Espanha, um providencial ‘Salazar´.  Todos ídolos imaculados, todos salvadores da pátria. E eu  acrescento: todos Cavaleiros da Crise. Porque, com  a  aparente generosidade de destruí-la, a crise,  todos a montam e  expropriam até ao tutano  a sensibilidade mórbida de um povo sem norte. É então que  da massa informe do povo nascem as serpentes devoradoras, os ditadores sem alma que, em vez de paz,  pão e liberdade, atulham de vermes e  munições o estômago de quem lhes entregou o poder..
 O nosso arguto Bergoglio, perito na diplomacia que também exercera como núncio-embaixador do Vaticano, apazigua os ânimos com um  indeciso “Vamos esperar para ver”. Mas essa condescendente expectativa não anula o ímpeto das multidões que em todo o mundo protestam, não por aquilo que eventualmente Trump vai fazer, mas frontalmente por aquilo  que ousou dizer contra a  liberdade, contra  a solidariedade entre as nações, contra a dignidade da Mulher, enfim, contra a própria humanidade.
   Aqui chego ao essencial da presente reflexão. Por mais milagreiros e sedutores que sejam os “salvadores da pátria” é preciso, é urgente, que os olhos do povo não adormeçam nem se hipnotizem. É seu dever e é seu direito inalienável seguir atentamente os passos de quem o conduz, permanecer vigilante a  cada salto e a cada sobressalto, por mais exuberantes e auspiciosos que nos pareçam. Os salvadores da pátria não podem andar à solta. Porque a ambição e o poder não têm freio.
Já senti e exprimi, por este meio, o ideal de uma sociedade normal, onde não sejam precisos nem mártires nem heróis. Até na Igreja. Jean-François Bouthors, antes do conclave de 2013, escreveu: “O próximo Papa não deverá ser necessariamente um homem providencial, porque a Igreja não precisa de ídolos”.  E acrescenta:  “Enquanto perdurar a ilusão  de esperarmos do Papa um milagre salvador, a Igreja será incapaz de reencontrar o dinamismo da sua missão”.
Em todos os tempos e em todas as instituições, a normalidade social, tal como a soberania, reside no Povo. Quando esclarecido, vigilante e dinâmico, é ele o Salvador da Pátria.

         23.Jan.17

         Martins Júnior

sábado, 21 de janeiro de 2017

“GUERRA E PAZ” – Um filme a rodar outra vez nos nossos ecrãs


Com armas se faz a guerra e com armas se a desfaz. Com suor se planta a paz e com menos se a destrói. Lado a lado,  caminham connosco, comem e dormem connosco, os arrasadores  demónios do apocalipse e os anjos recolectores do paraíso terreal. Talvez que a única nesga de Paz só exista na fronteira entre as duas insanáveis litigantes , fronteira essa que somos nós, o íntimo de cada um de nós.
No último fim-de-semana julgo ter provado à evidência que Deus não tem mão na paz ou na guerra. É assunto que Lhe passa ao lado. Qualquer requerimento ou prece que Lhe fizerem são liminarmente rejeitados por incompetência primária. A competência e a decisão do litígio é tarefa exclusiva, intransmissível, dos agentes humanos. Remeto, pois, a demonstração para o ‘Blog’ de 15.01.17,  por onde se conclui que misturar Deus com as guerrilhas dos homens assume os contornos de provocação abominável, senão mesmo de blasfémia sem perdão. Bem discernia Francisco de Assis quando a si mesmo se definia como “Instrumento da Paz”.
Não serão precisos altos silogismos  para vermos e sentirmos que a Paz não é o lago inerte, pantanoso e mudo das charnecas. Nem o jardim das flores silentes dos cemitérios. Porquê?... É que ela transporta aos ombros aquele  virulento escorpião  que encontrou moribundo na picada e que, a qualquer momento, inocula sadicamente o veneno fatal nas costas de quem o socorreu. A guerra tem os seus genes congelados em potência, prontos a retalhar, destruir, matar impiedosamente.
Aí, a Paz tem de organizar os seus militantes, tem de fabricar no laboratório da história  os antídotos eficazes para opor-se ao esquadrão facínora. É neste terreno prático, (diremos, lógico-dedutivo) que a Paz toma a veste de Oposição, conceito que ultrapassa as oposições profissionalizadas, essas também, fabricantes do armamento sectário que mina os acessos à Paz verdadeira. Quão difícil é respirar com segurança o ar puro do conforto  familiar, social, psíquico, afectivo, extasiante! Da breve análise dos acontecimentos passados, a Paz não é mais que o curto intervalo entre duas guerras, algo efémero como os quinze minutos no meio de um combate desportivo de noventa minutos. Privilégio único desta geração europeia foi o ter vivido sem guerras fronteiriças  desde 1945. Há 72 anos, portanto, a Europa enterrou o machado de guerra que dividia os seus territórios, reunidos desde então sob o grande pavilhão de uma Comunidade, com estigmas é verdade, mas não armada e aberta ao mundo.
Eu disse: foi  o privilégio. Mas, a partir de ontem, tudo indica que o “intermezzo” da Paz  terá terminado. As imprecações vindas da Mátria da Democracia, as ameaças tribais, atiçadas pelo régulo das cavernas contra a União das Nações Europeias – e contra o Planeta, em geral  - fazem tocar a rebate as trombetas das milícias da Paz para barrar as hordas da nova barbárie americana, capitaneada pela repelente armadura do esquadrão trumpista. Pela amostra do primeiro dia, a Europa  –  nós, aqui e agora – tem de organizar-se  para poder defender-se, não apenas dos terroristas  islâmicos, mas dos jhiadistas americanos de Trump.
Sem maiores análises, começamos a entender aquele antigo aviso das civilizações greco-romanas:  Si vis pacem, para bellum  - “Se queres a Paz, prepara-te para a guerra”.  Paradoxal, mas incontestável. Resta saber que tipo de  arsenal bélico será o mais eficaz.  Paulo de Tarso propôs um dia as “Armas da Luz”, em cujos paióis se guardam o conhecimento, a inteligência, o diálogo, enfim, a estratégia convincente. As manifestações que  pelo mundo inteiro se têm multiplicado contra o “novo perigo americano” de Trump  oxalá configurem uma  pista poderosa e consequente para alcançar a dolorosa montanha da Paz e da Razão.
“Guerra e Paz”, intitulou Tolstoi o seu melhor romance.
“Guerra e Paz”, mais que romance, é o guião deste filme do Homem sobre a Terra, a narrativa de cada um de nós. Quando chegará o dia em que se invertam os factores e  que a guerra seja apenas um breve intervalo entre as longas, intermináveis e produtivas jornadas de Felicidade?!
É esse o nosso trabalho.

21.Jan.17
Martins Júnior    


   

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

“BLACK & WHITE” – REQUIEM POR UMA CASA QUE FOI BRANCA!


Chegada a manhã de 20 de Janeiro, morreram as noites brancas. Começa  o dia negro de luto transitório. O verde das pradarias foi esmagado pela ‘buldózer’ que tudo seca e amarelece até à raiz dos cabelos.
O avejão das cavernas remotas reveste-se de couraças marteladas e com o ferro em brasa  no bico pontiagudo destrói as pontes, vomita  nos rios e aquíferos  das nascentes  e, em vez das sebes floridas entre pátrias, faz emergir tremendos muros de betão ciclópico.
Não será mais América abraçando todo o mundo. Será o planeta enfardado, agrilhoado nos ’bunkers’ do Capitólio.
Nos portões da Casa Branca não haverá mais o riso das crianças nem a ternura de uns olhos repousantes de Mulher  nem os braços de um Homem do tamanho do mundo, tocando os dois hemisférios no coração de quem lhe bate à porta. Só restará um robot disforme de granadas nos punhos,  monstruoso produto do bronze  fundido em falências repetidas e barras de ouro, cheirando ao sangue, suor e lágrimas de vítimas anónimas.
Não mais se ouvirão os pássaros nos jardins circundante porque , apavorados, terão fugido para longe. E ninguém mais caminhará seguro nas alamedas copadas.
Virá o tempo em que já não serão precisos talibãs  da Al-Qaeda  para abater a  majestosa arquitectura da Casa Branca. Ela implodirá às mãos do próprio inquilino, derrubado pelo justo clamor das multidões traídas.
Adeus Casa Branca.
Só foste Branca quando habitada pela família migrante, negra de pele, mas de coração feito de todas as cores do arco-íris.
Adeus Casa Branca.
Ficarás agora de luto pesado, nos alçados e nas janelas,  quando aí entrar um branco de cor ausente.
Até aquele dia em que as auroras boreais possam voar até  à Pátria de todos os povos, construída nos alicerces da Declaração Universal dos Direitos Humanos.        

19.Jan.17

Martins Júnior

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

JARDIM ZOOLÓGICO TRANSFORMADO EM CATEDRAL

Desçamos hoje à terra, acarinhemos os “amigos fiéis”, os que nos guardam, os que nos alimentam, os que nos inspiram, os que nos cantam  e, por vezes, desencantam. Mais concretamente, vamos ao “zoocampus” mais próximo da nossa residência. E, se possível, convidemo-los a caminhar em pacífica romaria até ao adro da igreja dos Prazeres, ou da Sé de Lisboa ou até à colunata de Bernini,  na Praça de São Pedro de Roma.
Porque hoje é dia de Santo Antão.
É dia de sacralizar o reino animal, desde aqueles que ganharam a nossa estimação até aos que se atiçam à nossa sombra. É bucólico, romântico e divertido ver o hissope de água benta debruçar-se carinhosamente sobre os nossos “peluchos” vivos, trazidos com ternura maior nos braços dos seus donos.
Porque é dia de Santo Antão.
E o patriarca dos monges dos séculos III e IV da nossa era, Santo Antão, é o seu Pai Natal abençoado, trazendo ao pé do cajado em cruz um porquinho bem papudo ou um coelhinho matreiro. É um mimo de sensibilidade criativa o ritual de orações e jaculatórias  que lhe são dirigidas neste dia. Cito algumas delas, colhidas textualmente:
Santo Antão interceda junto a Deus para curar o meu cachorro Bento que está sofrendo com problemas na coluna. Que Bento fique bom e volte a andar. Amen. (Renata).
Santo Antão proteja os ‘meus filhos de quatro patas´, o Cacau, o Pitty, o Tandy e o Sansão, porque algum vizinho maldoso está colocando veneno para matá-los. (Anónimo).
Santo Antão, ajuda meu cão Frederico a ter vida melhor, ficar dentro da casa da minha irmã. Amen. (Elisete)
O que, porém, poucos crentes conhecem é a evolução do seu venerando ícone, bonacheirão e pródigo em deslizar  a mão nos  macios pelos do seu lulu. É que a génese da devoção ao Santo Abade tem uma narrativa estranha e diametralmente oposta aos rituais com que hoje  nos sensibilizamos tanto. A sublimação das nossas crenças tem destes contornos – e o hagiológio cristão medieval  mostra-os amplamente – ao ponto de inverter por completo a versão original e traduzi-la numa veste contrária, mas edificante.
É o caso de Santo Antão.  Filho de gente nobre, tendo herdado lautas riquezas, conheceu os prazeres mundanos, mas um dia decidiu distribuí-las pelos pobres e refugiou-se no deserto, onde passou o resto da sua vida, em  mortificações, penitências e orações, sempre espicaçado por remorsos antigos, que lhe devoravam a paz e o sono. Sentia  o demo a rondá-lo, dia e noite, e ao qual se opunha veementemente  com o antídoto dos cilícios e místicas asceses. Mas o demónio, cada vez que era derrotado, redobrava os ataques. ”Enviava-lhe animais selvagens enquanto estava em vigílias nocturnas e em plena noite todas as hienas no deserto saíam das tocas e rodeavam-no. Tendo-o no centro abriam as fauces e ameaçavam mordê-lo.
Sucintamente, são estas as narrativas primitivas.  E  as imagens por que é representado o nosso Santo Abade estão configuradas nos animais que traz na fímbria do velho hábito de eremita. Portanto, os animais foram para Santo Antão as visões disformes, macabras, dos demónios, seus perseguidores.
Mas o milagre da crença popular  e a criatividade imaginativa dos devotos, ao longo dos séculos, trocaram as bolas ao “demónio”. De tal forma que os animais, antes perturbadores e furibundos, transformaram-se em protegidos e amados de Santo Antão. A força da tradição e a sua metamorfose  ao serviço da sublimação das tendências. Curioso e simpático o rio que transporta os sedimentos de outrora!
 E assim se transformou o zoo numa imensa catedral.  Nesta deriva positiva ( e  descontadas certas ridículas superstições como as que acima citei) hoje  é sacralizada a natureza, é exaltada a ecologia, é respeitado o código dos direitos  dos animais, companheiros de viagem em toda a história do homem sobre a terra.

17.Jan.17
Martins Júnior
  

domingo, 15 de janeiro de 2017

REQUERIMENTO LIMINARMENTE INDEFERIDO: Pedido ou Provocação?


É este um apontamento que me perseguiu em toda a quadra natalícia. E porque é hoje,  dia do Santo Amaro,  que na tradição madeirense se queimam os últimos cartuxos das estrelinhas saltitantes, ainda chego a tempo de deixar cair no chão da “lapinha” esta reflexão, tão estranha quanto evidente.
Coincidentemente, duas notícias, ainda frescas da véspera, vieram chamar-me à liça. A primeira tem a ver com o elucidativo trabalho que uma ilustre  investigadora da nossa Universidade acaba de dar a conhecer  sobre o bullying nas escolas da RAM, concluindo que 10% dos alunos são vítimas desse tipo de violência. O segundo caso, mais trágico e repugnante, foi o assassinato, a sangue frio,  de um homem na pacata freguesia do Monte, sob o olhar protector da Santa Padroeira. Para bálsamo dos crentes, ouviu-se a petição: “Que Nossa Senhora da Paz que tem aqui o seu monumento conceda a paz aos residentes nesta paróquia”.
Paz…Paz… Paz… e outra vez Paz! Foi o refrão -  saudação e  oração - que mais encheu os dias, as horas, os cerimoniais litúrgicos do Natal e Ano Novo. “Os anjos anunciam e trazem a Paz… Os profetas garantem a Paz à chegada do Messias… Ele é o Príncipe da Paz”. E clamorosas voam em reboada  instintivas preces: “Senhor dá-nos a Paz, Virgem dá-nos a Paz”!
É a estas frases desarticuladas que eu chamo Requerimento liminarmente indeferido. Por mais estranho que nos pareça,  tal pedido não passa de um falacioso atestado de inimputabilidade, em que toda a responsabilidade pessoal ou colectiva é atrevidamente descartada. Atira-se para a estratosfera da Divindade aquilo que é trabalho exclusivamente nosso. Respeito todas as versões ou opiniões divergentes daquela que, após ponderada reflexão,  tentarei apresentar.
Começo, desde logo, por formular a mais comezinha das perguntas: Qual é o pai e qual é a mãe que não desejam que todos os filhos se entendam e vivam pacificamente como irmãos?... Nenhum, seguramente. Mas esse desiderato só é possível se os descendentes, os herdeiros, fizerem por isso. Podem os progenitores impetrar aos filhos que vivam em paz, mas de nada servirão o seu apelo, a sua oração, talvez as suas lágrimas, se neles persistir uma reiterada recusa de entendimento mútuo.
Em linguagem antropomórfica, apliquemos esta evidência à relação entre o homem e Deus, entre o  mundo e o Supremo Ordenador do Universo. Depressa chegaremos à conclusão de que é Deus quem nos pede insistentemente:  “Pela vossa saúde, entendam-se. Pela felicidade vossa e minha, façam o favor de construir a Paz”. Essa é a  nossa tarefa. De mais ninguém.  Só por requintada hipocrisia e por oportunista desvio psíquico de transfert se endossa para o invisível aquilo que só nós, visivelmente, podemos elaborar. Daqui, não será difícil admitir que Deus – porque respeita a liberdade do ser humano – reconhece-se impotente perante os conflitos pessoais, a violência doméstica, as cenas de bullying, as guerras entre as religiões e entre as nações. Mantenho a convicção de que certas preces e práticas litúrgicas mais não são que uma fuga à responsabilidade pessoal e colectiva.
Porque a Paz não se dá de graça. Não é um pó mágico a custo zero. A Paz paga-se. E a factura chama-se mentalidade, educação, sensibilidade vicinal, visibilidade social, mundividência do presente e do futuro. E sobretudo, renúncia: aos megalómanos complexos de superioridade, à avidez de mesquinhos interesses, ao gesto tribal, à palavra desbragada, selvagem. Perguntem ao novo inquilino da Casa Branca se será capaz de abandonar, por imperativo religioso,  essa asquerosa boçalidade de reeditar, na fronteira com o México, o vergonhoso Muro da vergonha, abatido, em 1989, pelo braço do Homem e  não pelas asas dos  anjos de Belém.
A prosseguir esta corajosa incursão, seria um filão transbordante de considerandos dinamizadores.  Fico-me por aqui, esperando ter contribuído para o desanuviamento ideológico com que a inércia comodista, disfarçada de crença e tradição, nos tem amputado a autonomia de pensamento e acção, conducente à nossa quota de responsabilização pelo mundo em que vivemos. Cada cidadão é um monumento da Paz.
“Natal é sempre que o Homem quiser”.

15.Jan.17

Martins Júnior        

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

OS PORQUÊS?... Episódios marcantes de uma história, ainda por contar


Tendo acompanhado os passos da última viagem de Mário Soares e sendo-lhe tributados  os dias ímpares deste SENSO &CONSENSO, é  caso para indagar sobre  os motivos de tão intensa   dedicação. Todavia, mais do que as palavras e emoções descritas durante a semana inteira, importa chamar à colação os factos mais determinantes neste processo de homenagem. Que interesses e motivações estarão na sua génese?
É nos meandros da memória que vamos encontrá-los. Além da indesmentível grandeza de estadista, nacional e internacionalmente reconhecida e justamente alcandorada, emergem atitudes que, circunscritas embora a territórios insulares de menores dimensões, fazem crescer a estatura cívica e humanista de Mário Soares. É da nossa ilha que estou a falar.
Nenhum outro governante foi tão maltratado pelos madeirenses (representados no governo regional) como o foi  Mário Soares. Os corifeus do regime ditatorial PPD  da Madeira instrumentalizaram, por mais de uma vez, um punhado de arruaceiros “jagunços” para insultar o Primeiro-Ministro, chegando ao ponto de  agredi-lo com objectos humilhantes, atirados de longe como nos pré-históricos cortejos do carnaval madeirense. No entanto, nenhum outro governante, nem os do PPD, foi tão generoso e democrático para com a Região.  Lembro-me da consulta que Mário Soares fez a todos as forças políticas, recebendo-as, uma a  uma,  e aceitando sugestões para o  Programa do seu Governo. Aí manifestou-nos o seu interesse “no prosseguimento do diálogo entre a UDP e o próprio governo”. Isto em 1976. Lembro-me também das volumosas transferências financeiras enviadas para a Região  nos governos de Soares, sem nunca exigir contrapartidas, como as que fez o Primeiro Ministro Cavaco Silva, em 1986, de que resultou o leonino contrato  “Protocolo de Reequilíbrio Financeiro”, que deixou as Câmaras na penúria. E, mais tarde, foi ainda um Chefe do Governo PS, António Guterres, que em 1999  perdoou a dívida da Madeira, no montante de 110 milhões de contos (550 milhões de euros).
Compulsivos argumentos factuais para que os madeirenses estejam gratos a Mário Soares!
A título pessoal, a minha presença quase anónima nas exéquias do Fundador da Democracia em Portugal tornou-se um imperativo de emoção e gratidão. Recolho, entre tantos, apenas três eloquentes momentos, desconhecidos da opinião pública. O primeiro e o segundo aconteceram, quer na Assembleia Regional,  quer na Câmara de Machico, estando, como independente, na ala da UDP e do PS, o que só por si revela a abrangência democrática de Mário Soares.
Celebrava-se com pompa e circunstância o dia da Autonomia, 1 de Julho de 1988, com sessão solene no Salão Nobre da Assembleia, presidida pelo então Presidente da República, Mário Soares, recheada ademais pelo colosso dos membros do Conselho das Comunidades Madeirenses, todos eles escolhidos a-dedo pelo governo regional.  No meu discurso foquei especificamente o despudor da relação Igreja-Governo, através do “Jornal da Madeira” que, com a cara eclesiástica, servia de exclusivo panfleto do PPD, a que ajuntei o testemunho que pessoalmente colhera entre os emigrantes, aquando das visitas que empreendi a Venezuela e Austrália. E fi-lo nos seguintes termos: “Este governo madeirense usa os emigrantes como arma de arremesso político, porque apenas favorece os barões da emigração e despreza o emigrante comum quando, na Madeira, precisa dos serviços da administração pública regional”. Os gritos, os apupos desmiolados transformaram aquele Salão Nobre numa selva enraivecida e tão tresloucada que me impediram de continuar. Passados alguns minutos de barafunda tribal, o já falecido  Dr. Nélio Mendonça, então presidente do Parlamento, repôs o silêncio no recinto, atitude que muito me surpreendeu, dado que a praxis ordinária era deixar correr o mar dos tubarões enquanto usava da palavra. Tempos depois, na audiência que me concedeu em Belém, Mário Soares desvendou o enigma, dizendo: “Perante a anarquia geral, enquanto o meu amigo falava, fiquei atónito e disse ao ouvido do presidente da Assembleia: ou o senhor põe  isto na ordem ou então levanto---me eu a fazê-lo”.  Fiquei esclarecido. E sentidamente reconhecido.
Noutra altura, era eu presidente da Câmara e, passando por Machico, avisou-me, em tom solidário, o Dr. Mário Soares, diante dos presentes. “Aguente-se, padre”!... Ele bem sabia o que teria de passar a única câmara da oposição na ilha da Madeira, face à prepotência da governação regional. Serviu-me de alento e coragem a  premonitória recomendação, cuja sonoridade ainda guardo bem viva e definida.
Em 10 de Junho de 1995, Dia de Portugal e das Comunidades, teve o Dr. Mário Soares a gentileza e a “ousadia” de atribuir-me as insígnias de comendador, um ofício que sempre abjurei, mas resolvi, enfim, aceitar, sabendo a simbologia cívica e  moral que tal gesto significava nessa crucial conjuntura. E fez questão de ser ele próprio a impor-me a condecoração na cidade do Porto. Caiu o Carmo, caiu a Trindade, caiu a Quinta Vigia e caiu, imaginem, o Paço Episcopal. Contra Mário Soares e contra mim. Basta ler o Jornal da Madeira da primeira quinzena de Junho. O mais original e que revela a servidão eclesiástica ao governo foi a homilia do bispo Teodoro Faria na Festa de Santo Amaro, logo seguida de queixa formal da diocese ao “Conselho das Ordens Honoríficas”, acusando Belém de “violar a Concordata entre Portugal e a Santa Sé, pelo facto de comunicar a dita nomeação ao contemplado, designando-o como  Reverendo Padre José Martins Júnior” . É um tratado de esquizofrenia “humano-divina” o que vem publicado no JM, de 15.VI.95. Vale a pena olhar a “beleza” daquele sacro linguado!... Hoje, ao reler essa enormidade, reconheço e afirmo, alto e bom som, aquilo que na altura o pudor não mo consentia dizer: A Igreja diocesana tem sido a barriga de aluguer do governo regional. Oxalá desista de sê-lo,  num futuro próximo. E definitivamente.
A Igreja, cordeirinho imolado no altar da Quinta Vigia, seguiu o “Voto de Protesto e Condenação” que o PPD/PSD aprovou contra a condecoração  no Parlamento Regional em 8 de Junho, revéspera do Dia de Portugal.  (Ler DN, 8.VI.95).
Entretanto, Mário Soares prosseguiu, seguro e sereno, a sua marcha, enquanto a caravana insular ficou no velho estaleiro do calhau roliço.
O quanto, quanto tinha eu para contar nesta nau onde me coube embarcar  no oceano da vida... Fico-me por aqui, transcrevendo em epigrafe a simpatia e a afectividade com que o  Dr. Mário Soares tratou este ilhéu, agora quase octogenário e que ficaram gravadas no Livro de Honra do Município de Machico em 1997.
Retribuo-lhe com os cravos vermelhos que carinhosamente deixei na sua tumba!

13.Jan.17
Martins Júnior