quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

A PRIMEIRA E MAIOR VITÓRIA DA AUTONOMIA POPULAR MADEIRENSE

Soube-se há menos de uma hora que houve um filme proibido na Madeira. Soube-se também que  a entrevista ao seu realizador fora cortada pela direcção do órgão publicitário do governo regional, embora sob a capa de diário da diocese – o então Jornal da Madeira. Corria o ano de 1978. Leonel de Brito acabara de rodar na ilha o documentário intitulado “Colonia e Vilões”. Desde então, alguém escondeu-o e enterrou-o, antes ainda de ver a luz do dia na terra que lhe deu corpo. Foram precisos quarenta anos para que  a Madeira pudesse ver em plena liberdade o mais completo Dicionário Cinematográfico sobre a sua História de seiscentos anos. Aconteceu hoje no Teatro Municipal Baltazar Dias.
Com efeito, “Colonia e Vilões”, não obstante focalizado na grande luta dos caseiros pela emancipação das suas terras das mãos dos senhorios, desdobra diante do espectador o vasto painel da evolução sócio-político-cultural da ilha. Desde o Achamento, povoamento, divisão territorial e administrativa, desenvolvimento agrícola e económico, com maior incidência nas culturas da cana sacarina e do vinho, o esclavagismo, o obscurantismo, a religião, a libertação pós-25 de Abril, manietada pelo concubinato igreja-governo, enfim, ver “Colonia e Vilões” é guardar em disco rígido a síntese enciclopédica do terro que habitamos.
Mais do que isso. Este precioso documentário condensa o maior grito de revolta e de conquista de sucessivas gerações que durante séculos foram estranguladas pelo contrato de colonia – esse “leonino contrato”, como alguém lhe chamou – em que o camponês, a sua família, mulher e filhos, o seu pobre casebre se consubstanciavam com a terra-escrava do senhorio. Pode bem afiançar-se que a extinção do regime da colonia foi a maior afirmação da autonomia popular do madeirense, visto que aí foi ele, todo inteiro – corpo, mentalidade, família, ambiente – deu o ‘xeque-mate’ à prepotência fascista e totalitária que trazia amarrado o povo português. Mais importante foi esta vitória global que as autonomias administrativas reivindicadas nos gabinetes oficiais que só serviam os seus prestidigitadores, sucedâneos herdeiros dos antigos ditadores, como aconteceu aqui na Madeira. Na luta dos caseiros ilhéus  foram eles os protagonistas, primeiro vencidos e depois vencedores, porque o Decreto Legislativo Regional nº 13/77/M, de 18 de Outubro (Extinção do regime de Colonia)  só se tornou possível pela força porfiada e justa diante das instâncias superiores até chegar ao Parlamento Regional.
O povo viu o resultado da sua luta. Por isso, cantava e sentia que “o Povo unido jamais será vencido”. O campesinato descobriu que não era mais o “vilão”, “trapo-de-corsa” do senhorio, mas alguém que tinha o poder de ordenar e obrigar os deputados a escrever leis justas.
Hoje, no Teatro Municipal, tudo isto perpassou diante dos nossos olhos, complementado pelo debate e troca de ideias que se lhe seguiram. Notícia feliz foi a de sabermos que o filme será apresentado em DVD na próxima Feira do Livro do Funchal pelo próprio Leonel de Brito já que, desta vez, imprevistos problemas de saúde não lho permitiram.
As melhores felicitações aos promotores de tão oportuna iniciativa do Centro de Estudos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em conexão com a sua congénere na Madeira.
E fica-nos no ouvido “uma frase batida” (como diria SG gigante) que os caseiros criaram e passaram de boca em boca: “A terra é de Deus e o fruto é de quem trabalha”.

15.Fev.18

Martins Júnior

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

CARNAVAIS HÁ MUITOS. O NOSSO TAMBÉM!

                                                 


Pelo sonho é que vamos - disse ele, o jovem sonhador Sebastião da Gama. E pelo carnaval também – dizemos nós durante estes fugazes três dias de saudável catarse.
Porque carnavais há muitos. Como os chapéus.   Desejável até seria que fossem tantos quantos as cabeças, os troncos e membros de cada folião que habita dentro de cada um de nós, marchantes-à-força nos ‘sambódromos’ da vida. Precisamente por isso, os corsos carnavalescos não deveriam obedecer a figurinos estandardizados e a estereótipos importados. A originalidade criativa e a identificação com a idiossincrasia popular de cada lugar é que têm prioridade sobre qualquer outra imitação, por mais envernizada e emplumada que se apresente.


Certos desfiles dão-nos a impressão de que os protagonistas são os espectadores e não os actores. Tudo é feito para fora (por isso se lhes dá o nome de forasteiros) em vez de assumir-se como uma emanação telúrica de um povo, da sua capacidade estético-satírica. Aprecio imenso os cortejos de cada terra, os endémicos, ricos dessa produtividade singular, diversa de todas as outras. Costuma dizer-se  que em 1500 colonizámos o Brasil; agora é o Brasil que nos coloniza a todos com novelas. E com  carnavais, acrescento eu. Até nas próprias músicas, tiradas à fotocopiadora. Enfim, cada um “abana o capacete” como quer. É a liberdade que se aparenta, mesmo que se a não tenha.  
Pela nossa parte, CCCS-RS, Centro Cívico-Cultural e Social da Ribeira Seca, apresentámos música e letra originais, (tentando um ‘mix’ entre os ritmos-samba e a vivência local Machico/Madeira) com uma dedicatória muito nossa: Homenagem ao grande artista, cantautor MAX, no 1º centenário do seu nascimento que ora se festeja. Juntou-se o refrão à voz do próprio MAX, Rei do Carnaval, interpretado cenicamente na plataforma rolante. Jovens e adultos deram corpo à ideia que marcou todo o cortejo, pelo humor, frescura e simplicidade.


Aqui ficam alguns excertos mais representativos, com agradecimentos à Câmara Municipal, promotora do evento, e aos vários colaboradores particulares. Domingo próximo, o CCCS-RS estará no Santo da Serra, assinalando desde logo a gentileza da Casa do Povo local.  

13.Fev.18
Martins Júnior

   

domingo, 11 de fevereiro de 2018

O MAIS ESPLENDOROSO DE TODOS OS CORTEJOS


Que se encantem os mortais  ou que se danem, tanto faz, com as efémeras lantejoulas pingadas das plumas todas de todos os sambódromos,
Que se atordoem ou se estalem, tanto faz,  com as peles retesadas dos tambores em marcha universal,
E mesmo que rompam  os céus europeus ou mordam os buracos de ozono, tanto faz, os troféus do futsal, que merecem o nosso aplauso,
Prefiro ficar-me, entre absorto e visionário, ao ver o mesmo lençol materno unir dois irmãos desavindos há mais de meio século. Nada mais decisivo brilhou agora no planeta, nada mais empolgante que ver desfilar nos Jogos Olímpicos de Inverno, em PyeongChong,  as duas Coreias – a do Norte e a do Sul – sob a mesma bandeira. A grandeza do gesto cresce cada vez mais na proporção inversa dos resultados finais, sejam eles quais forem.  Porque o pódio da vitória já foi alcançado:  a convergência em pacífica ogiva de dois braços do mesmo corpo, separados até agora pelas mortíferas ogivas nucleares.
Enquanto na Europa cristã e ocidental, matriz de todas as civilizações do mundo, o desporto resvala para conflitos fratricidas, o ‘milagre’ pode acontecer nas remotas paragens asiáticas: o mesmo desporto  é  bandeira de paz entre duas, entre muitas guerras. Tão límpida como as brancas pistas de gelo foi esta alvorada em PyeongChong que até serviu para nela se revelar a mancha negra do representante de Trump.
  Acreditei no aperto de mão de Barack Obama a Raul de Castro, aquando do funeral de Mandela, no estádio de Soccer City, Joanesburgo. Como acreditei no passo mútuo em frente, o de Juan Manuel Santos  e o do comandante “Timochenko” das FARC, para a paz na Colômbia.
E agora acredito que o gelo das pistas de PyeongChang  será o início do degelo de ódios antigos – ódios gémeos – que, cedo ou tarde, tornar-se-ão  sol olímpico da Paz sobre a Terra. O que os sumptuosos salões dos Congressos Internacionais não fizeram – fá-lo-ão  as paisagens de neve das Coreias Unidas.

11.Fev.18
Martins Júnior

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

O EMINENTÍSSIMO E CLEMENTÍSSIMO CARNAVAL DO CARDEAL

                                                               

Ninguém levou a mal o Cardeal. Ele também direito ao seu Carnaval. E é assim:
Um homem e uma mulher – um caso exemplar de casal católico romano -  acordam de manhã, juntos. Vão à missa, juntos. Trocam dois beijinhos à porta da igreja. Almoçam, juntos. Preparam o jantar, juntos. E juntos ceiam um chá de frutos vermelhos, à luz das velas  onde fumegam cios de amor romântico. Mas à noite, encomendam-se às almas e, de repente, lá vem o fantasma das trevas: “Amanhã, vamos comungar, amor. E não podemos fazer amor, juntos.  Somos mais que frade e freira, somos dois irmãos. Chama-se o Cardeal que, sendo clementíssimo, vai comprovar a nossa “abstinência”. E lá vem o homem, de cinta vermelha e  mitra aureolada. E lá ficou a noite inteira, episcopus vigilante, entre marido e mulher recasados, como sentinela alerta e de báculo em riste”.  No outro dia, manhã cedo, lá entraram no portão da igreja, anjo-macho e anjo-fêmea, abrindo as bocas abstinentes à santa hóstia. O Cardeal sorria, como que penetrado do gozo transbordante de uma terça de carnaval.
E assim se fez a postura, o rescrito ou o decreto do Soberano-mór da religião portuguesa. “Os recasados praticarão a continência sexual, sob pena de não poderem tomar a hóstia.”
Ninguém levou a mal – por ser carnaval. Como tal, também a mal não levarão o que, sobre o caso,  direi qual.
É assim a ‘nossa’ Igreja. Nossa, talvez não tanto, mas a dele, Cardeal. Como enguia movediça, fura e perfura tudo até ao tutano. E bota palavra e censura e condena. Sem sequer dar pelo ridículo em que se enreda. Vem de longe o nariz totalitário de pôr carimbo em tudo. Até nos mais íntimos recônditos da sensibilidade alheia. Os teólogos vão ‘virando’ sexólogos e os sexólogos vão ‘virando’ teólogos.
Jamais esquecerei aquela resposta de um civil, emigrante industrial em Moçambique, no ano de 1968, quando entre civis e militares se discutia a encíclica Humanae Vitae  do Papa Paulo VI, a propósito da condenação uso do contraceptivo: “Ó capelão – interpelava-me o homem – você que é um jovem, diga-me o que é que o Papa ou a Igreja têm que se meter na alcova do casal”?
Arrasou-me. Mas fiquei-lhe intimamente grato pela lição que me deu naquele momento e que me serviu de guião até hoje. A educação sexual produzida nos seminários tem sido de uma morbidez insanável, diabolizando a mulher, castrando jovens, criando labirintos de escrúpulos que depois desembocam em degradantes escândalos. E não sabe mais  sair deste “nó de víboras” (cito François Mauriac) que muitos clérigos trazem no seu subconsciente.
Melhor seria o nosso Clementíssimo Prelado ter-nos poupado a este naco de carnavalinho de beco. Sobretudo, vindo de quem vem. Outra emoção positiva e sublimada teria o portuguesíssimo Cardeal Gonzaga, da Ceia dos Cardeais, do nosso Júlio Dantas, quando exclamava diante dos seus  dois colegas: “Oh, como é diferente o amor em Portugal”.
  Mas é carnaval.  Não só “o de três dias”, mas o do resto do ano e o de certas encenações, ditas solenes, que nem demos por isso. Volto a abrir parênteses para dar a palavra a um amigo (já não está cá) que explicava a um outro, estrangeiro de visita à Madeira, o significado de uma grande Procissão, que na altura ainda passava em frente do antigo Banco Madeira (hoje, o Santander), com autoridades civis, militares, pompa e circunstância e fechava com Bispo da Diocese, faustosa e exoticamente engalanado.  O estrangeiro, julgando que se tratava de um corso alusivo, apontou para o prelado e, como quem faz uma descoberta,  exclama entusiasticamente: Oh, the King of Carnival!
         Recomenda-se a quem de direito e de responsabilidade o favor de não fazer cenas de carnaval, porque em vez de saúde e alegria só dão doença e tristeza.

         09.Fev.18
         Martins Júnior


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

COMO SERIA O REGIME DE UM ESTADO VATICANO?

                                                         

Não teria nada de anormal nem mesmo digno de especial  menção, se não fosse um jornal de craveira internacional – Die Welt – a encher a primeira página  e a toda a largura com uma ilustração da visita de Erdogan, o ditador turco,  ao Papa Francisco. Não vou tecer apreciações pontuais sobre a recepção – mais uma – que o Sumo Pontífice dispensa a qualquer soberano que o visita. Neste caso, talvez e apenas relevaria o cinismo profissional de homens, como Erdogan e Trump, que fizeram votos “sinceros” de trabalhar (foi o que um e outro disseram ao Papa)  juntamente com ele para a paz no mundo. No entanto, Francisco não se coibiu de censurar a Erdogan o recente ataque feito aos curdos do norte da Síria. Este, por sua vez, como raposa matreira, agradeceu a posição  tomada pelo Papa contra Trump, a propósito de Jerusalém, capital.
Quantos sapos vivos, dinossauros e trogloditas tem o Papa de engolir?!
É o seu estatuto que o obriga. Noblesse oblige!  É a nobreza, a do mundo e não a do Nazareno, que o força a sentar à mesa do gabinete muitos que ele desejaria pô-los na rua. Não só das ruas de Roma, mas dos poderosos palácios que ocupam. Não fosse ele Chefe de Estado e veríamos quantos “colegas soberanos” viriam visitá-lo. Oh diplomacia, a quanto obrigas!
Hoje, porém, ao olhar a  primazia dada pela reportagem do Die Welt, reacendeu-se-me uma antiga e teimosa questão, ciosamente guardada no meu subconsciente latente activo: Que regime seria o do Vaticano, caso assumisse integralmente o estatuto com que se apresenta aos reis e monarcas do planeta? Como seria a Constituição do Estado do Vaticano?... Monarquia, absoluta ou constitucional?... República?... Presidencialista, semi-presidencialista, parlamentar?... E o regime: socialista, social-democrata, plebiscitário, totalitário e fascista, capitalista, revolucionário, comunista?... Não seria blasfemo se fosse esta última a ideologia político-programática, idêntica à do seu líder. “Os cristãos tinham tudo em comum e ninguém chamava seu ao que possuía”.   E em termos de Saúde, Segurança Social, Trabalho, Justiça, que normativos concretos determinariam o seu Estado, o do Vaticano.
Porque é de um Estado que se trata. Por muito que se diga que as viagens do Papa não são de um Chefe de Estado, mas de um Peregrino, não haja dúvidas que as visitas dos governantes a Roma não são de Peregrinos, mas exclusivamente de Chefes de Estado a um Chefe de Estado, algumas vezes até de carácter retributivo, como foi o caso de Erdogan. Visitas inter pares.
.Fico-me hoje e mais uma vez pelas perguntas, embora se possam lobrigar algumas respostas, entre as quais: Enquanto regime político, o Vaticano aproxima-se do modelo islâmico – um regime teocrático, sem o Ayotollah  Khomeini, mas (em termos formais) com um seu sósia.  Como tal, elitista, tendencialmente totalitário, onde os seus constituintes, os cristãos, não têm direito a voto universal e directo. A Igreja-Vaticano é um Estado, tem Secretários de Estado, embaixadores, bandeira e hino. A Igreja fica-se entre águas, como sereia marinha, metade Estado-metade Santidade. Mas a Igreja intervém. Na vida social, cultural e até política. É aqui que cabe a questão: Qual a política do Vaticano para a sociedade, para a comunidade europeia, para esta aldeia global que habitamos?
O Papa Francisco abre o caminho desassombradamente para a denúncia e solução dos grandes dramas internacionais. Quanto desejaria eu saber como seria um governo – um Estado – de Igreja para o mundo. Sei que não passa de uma miragem, de má recepção para muitos, mas se o Vaticano quer continuar estatutariamente como Estado, então leve até ao fim as consequências do sua investidura. Ou, ao menos, informe o mundo como governaria os cidadãos dos seus respectivos territórios. É que a Igreja já foi pobre e solidária, já foi imperialista, já foi totalitária, fascista e assassina (de perseguida passou a perseguidora) já foi popular, já foi dogmática. A Igreja-Estado já se vestiu de todos figurinos e de todos os poderes. Defina-se. Ou então renuncie ao indigno privilégio de Estado híbrido.

07.Fev.18

Martins Júnior   

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

EPITÁFIO


Se depressa ergueste o teu castelo sobre os escombros de outrem, tão depressa será o teu castelo o chão de escombros onde outrem construirá o seu palácio.

05.Fev.18
Martins Júnior


sábado, 3 de fevereiro de 2018

O PESADELO DE VIVER AQUI !!!

                                                             

Passei a ponte insegura e fétida que separou o meu passado Janeiro do Fevereiro onde, de presente, tenho o pé mal firmado. Insegura não era a ponte mas os que a construíram. E fétida não era ela mas os pilares que, em vez de  suportá-la, apodreciam-lhe os alicerces nas águas lamacentas.
A transição de uma margem à outra não trouxe a almejada promessa de um dia novo, sem nuvens. O pesadelo misturou-se, viscoso, à náusea de andar por aqui. “Ninguém sabe que alma tem/ Nem o que é mal nem o que é bem/ Tudo é disperso nada é inteiro” – continua a perseguir-me o “Nevoeiro” de Pessoa – “Ó Portugal hoje és nevoeiro”!
Hoje, mais que no tempo da “Mensagem”, hoje é antro de monstros marinhos, víboras de ossadas moles embrulhadas em vernizes, vermes paridos em ventres incestuosos. Vejo-os entronizados nas poltronas dos tribunais, os ladrões, os corruptos, guardiões do Templo da Justiça,  abutres desenhando sentenças capitais contra indefesas andorinhas.
A quem iremos? Onde o caminho, o abrigo, a balança da Justiça? Nem que seja na longínqua selva, desde que lá não chegue sombra de homem, digam, que eu já lá vou.
Maldito capitalismo! A quem iremos?... Aos dadores de dinheiro, os banqueiros? Mas se têm a consciência  calçada de ouro intransponível! Aos juízes, advogados, meirinhos?... Às religiões, à Igreja?... Mas como, se elas têm empacados fardos de notas sujas, de fome e de sangue dos pobres, no banco vaticano e, pior que os milionários que vendem terrenos na lua, elas fazem promessas de compra e venda das invisíveis estalagens do outro mundo?! A que portas bateremos? Aos imperadores do futebol?... Mas como, se eles pagam a cambistas, profissionais de colarinho branco, parasitados nos offshores! Aos representantes do povo, os partidos?... Mas não são eles que, até em eleições internas, compram as pessoas, tentando reduzi-las à mísera condição de prostituição financeira?!
A Justiça! – a última almofada para repousar um crânio retalhado. Ei-la na valeta. De que genes são feitas as mãos que vão julgar colegas de toga…ou “sócios do crime”?
Em quem havemos de confiar?
Enquanto se aguarda a resposta sobre que Justiça queremos, vamos roendo os ossos da nossa própria carne que os DDT (os donos disto tudo) ainda nos consentem. E para conforto ou não – o bicho homem sempre foi assim – transcrevo a veemência de um excerto do “Sermão de Santo António aos Peixes”, do Padre António Vieira, há mais de 400 anos:
“Se morrer alguns desses pobres…vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os le­gatários, comem-no os acredores, comem-no os oficiais dos órfãos, e os dos defun­tos e ausentes; comeu o médico que o curou, ou ajudou a morrer; comeu o sangrador que lhe tirou o sangue; comeu a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para mortalha, o lençol mais velho da casa; comeu o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim ainda ao pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra. Vede também um homem, desses que andam perseguidos de plei­tos ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Comeu o meirinho, comeu o carcereiro, comeu o escrivão, comeu o solicitador, comeu o advogado, comeu o inquiridor, comeu a testemunha, comeu o julgador, e ainda não está senten­ciado, e já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos, senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado, e já está comido”.
Quem tem gosto em viver dentro de uma jaula destas?... É verdade que passei a ponte, mas o pesadelo continua. Aquele mesmo pesadelo que fez Shopennahuer  desabafar assim: “Quanto mais conheço os homens, mais gosto dos cães”.
Que havemos de fazer para transformar o pesadelo de inverno em sonho de primavera?!

         03.Fev.18

         Martins Júnior