quarta-feira, 7 de março de 2018

A MULHER SEMPRE ! - NO PRINCÍPIO E NO FIM



                   
Escrevo na corola da noite que amanhã será
Dia-Mulher
Gosto de vê-la assim
Que outra não há:
Bico que picou a nebulosa
E logo ela se abriu em estuários de luz
Semente de sementes
Estrela de estrelas
Mária-mátrix de todos os mares
Onde estiveres e para onde caminhares
É assim que te vejo
E sempre quero ver-te
Indecifrada de linhas
Escassa de carne ou pulcritude
Nua de  peso e altitude
Mas sempre enorme, maior do que adivinhas

Sejas pluma de ave ou guelra de cetáceo
Sejas a anónima inquilina do gineceu longínquo
Óvulo de réptil
Ovário de toda a ânima-fêmea
Vejo-te sempre Mundo e o antes dele
Bosão-embrião
Que pões o mundo em chama
E o transportas candente na tua mão

Vénus e a Madalena
Mulher-soldado d’Arc  e a Marselhesa
Amazona Malala e Catarina, a Portuguesa,
Todas trazeis
O código da vida
E a balança das leis
Que geram raízes do mundo que se quer

No princípio era o Verbo e a Mulher
No fim o verbo passa
E o Mundo recomeça
Na ternura e na graça
De um corpo de Mulher

07.Mar,18
Martins Júnior

segunda-feira, 5 de março de 2018

ASSASSINATO MAL JULGADO E MAL EXPLICADO


                                                  

Está na ordem do dia o julgamento. Seja o dos arguidos individuais e o das associações criminosas colectivas na barra dos tribunais, seja o julgamento da res publica nas urnas de voto, seja ainda o julgamento popular nas páginas dos jornais e afins. Julgar, sentenciar é o que está a dar. Mas o mais importante é penetrar nos labirintos da causa e ver as peças carreadas no processo, as motivações e a direcção da investigação, a acusação e o contraditório, até à descoberta  da verdade, sem reticências nem titubeações, desvios ou mistificações.
É nesta objectiva que assento o olhar, no início da semana, para entender a casuística histórica que envolveu o julgamento mais hediondo registado nos anais da Justiça humana – o assassinato do Nazareno, o  Cristo Histórico. Assim como nas sentenças várias dos tribunais abundam e superabundam as mais diversas e sofisticadas interpretações – políticas, corporativistas, suspeitosas, financeiras – assim também a criminosa condenação lavrada no pretório de Pilatos  foi repetidamente mistificada, embalsamada, quase que perfumada no bálsamo oleoso de uma religiosidade diáfana, que dá pelo nome de salvação, por força da qual se construiu esta monstruosa, impossível  narrativa: um Pai, ofendido por um estranho à família, exige para sua satisfação pessoal a matança  do próprio Filho!
E pronto, fica tudo resumido, explicado, bem decidido e sem recurso. E canta-se e chora-se e incensa-se e ostenta-se, como um troféu, Alguém, espetado em dois toros de madeira, um inocente, um benfeitor da humanidade. Onde o corpo de delito? Onde o fundamento da acusação? onde a tramitação do processo? Onde os autores do crime?
 Ao normal investigador da história não satisfazem as divagações místicas de um facto concreto, cruel, sangrento. Não se trata de um filme, género Mel Gibson, para candidato ao ‘Óscar’ de um qualquer festival MOTELx.  nem mesmo de um guião para um retiro dos espíritos. É um corpo humano, que tem nome e história, com um percurso visível e notório, com um programa publicamente conhecido e com uma meta definida, tragicamente interrompida. E, diante do honesto observador,  ficam sempre de pé, como barras de fogo, as veementes interrogações: Quem matou? Porquê? Como?  
Ontem, o texto bíblico, lido em toda a parte, diz tudo: Ele chegou ao Templo de Jerusalém, viu as bancas dos negociantes que vendiam animais, bois, ovelhas, pombas. E viu as mesas dos banqueiros e cambistas. Pegou num azorrague e expulsou-os todos dali, derrubou mesas e bancas e gritou: Aqui, o Templo não é casa de negócio, é casa de oração. Vós fizestes dele um covil de ladrões.
Estava lançado o repto, que levaria à sentença capital.
Noutra altura, o Nazareno curou um hidrópico, em dia de sábado e foi, por isso, censurado pelos Sumos Sacerdotes, os Donos da Religião oficial. Ele respondeu: O Homem não foi feito para o Sábado, mas ao contrário, o Sábado é que foi feito para o Homem. Blasfemo, Satanás, Belzebu, vociferaram eles. É réu de morte!
Mais tarde, as mulheres, até as socialmente marginalizadas, foram aceites por Ele e promovidas à dignidade plena de seres humanos, portadoras de direitos e garantias sociais – outro factor de indignação e matéria grave de acusação, por parte da classe pontifícia judaica.
Em três tópicos, está desvendado o ‘mistério’ oculto nos crepes do mórbido devocionismo da tradição religiosa. Os assassinos de Jesus foram os Donos da religião do povo judeu, unidos por arrasto ao poder político. O processo foi o mais ilegal e fraudulento, porque maquiavelicamente armadilhado até ao mais ínfimo pormenor. O corpo de delito: a Nova e Verdadeira interpretação do Homem e da Terra, trazida pelo carpinteiro da Galileia e pelos doze ‘reformadores’, os pescadores do mar de Tiberíades. Era a destruição do regime do terror sacro e do império da ignorância, era a transição da ditadura opressiva para a  redenção libertadora do Homem a caminho da sua plena realização.
Como Ele e seus ‘compagnons de route’ são às centenas e milhares todos aqueles e aquelas que afrontaram o reino das trevas, mesmo que sujeitos a perversos julgamentos.
É-nos sumamente reconfortante analisar o processo histórico da Crucifixão – de todos os crucificados do mundo -  numa altura em que comemoramos o Ano “33” do assalto ao modesto templo da Ribeira Seca, em Machico, por ordem do ‘Sumo Sacerdote’ da diocese, unido ao poder político da Madeira.

05.Mar.18
Martins Júnior


sábado, 3 de março de 2018

DESABAFOS ANTI-SÍRIOS E POUCO CRENTES


                                                          

Hoje a noite é de soluços e maldições, mais furibundos que as rajadas rasgando montes e vales. Mal acaba a seca severa de cremar dezenas de corpos e aí chega o gelo europeu picando de morte súbita outras tantas gentes carcomidas pelos tufões da idade. Ainda lhes sobra um gemido final: “Oh Deus, onde estás”?
Desabam por onde querem os demónios serranos, arrastam casas, esventram corpos e almas que desaguam anónimos nos subterrâneos de betão e nas baías lamacentas. Mas ainda  há quem acenda uma vela na noite escura gritando alucinado: “Que Deus és tu que não nos ouves”?
 Tombam árvores assassinas, ruge a terra e raiva o mar nos alicerces. As vilas e cidades respondem com esqueletos de humanos e tijolos misturados pelo chão, E o grito é mais do que ele. É desespero e blasfémia: “Afasta-te de nós, oh Deus que nos matas, sanguinário”!
Os deuses não respondem porque nada têm a ver com isso. E cruzam-se todos os braços sobreviventes, impotentes, interpelantes: “Onde iremos, a que porta bateremos”?
Para onde quer que a bússola marque rumo, não há portas, há masmorras. Não há mesas, há paióis. Não há pão, há balas e mísseis. E não acharemos mais campo ou cidade, mas caveiras onde antes eram janelas, sangue espadanado pelo chão onde era estrada, cemitérios em lugar de hospitais. Ainda resta um fio de garganta a gritar por ALÁ. É Alá p’ra cá, Alá p’ra lá. Em vão, porque Alá aí não está.
Ai, Damasco, Damasco, terra do bíblico general Naamã. Ai, Damasco, onde Saulo se tornou Paulo e, de perseguidor, passou a pacificador, na esteira luminosa da Boa Nova do Nazareno. Agora, Damasco, antro de monstros, seio assassino dos filhos que dás à luz!
Diante do hediondo panorama que todos os dias os media nos trazem, ficamos com vergonha de ser inquilinos neste planeta. Vergonha de pertencer a esta raça chamada de humanos - tão desumanos que eles são, tão selvagens anti-humanos que nós somos!
Párem de chamar Alá ou qualquer outro similar. O deus-terror está lá e tem nome e palácio e, pasme-se, também tem religião.  É Bashar al-Assad, é Putin, é Trump, este travestido de defensor da contra-parte beligerante. Eles por aí andam, garbosamente instalados, pelo Irão, pela China, Turquia,  Coreia do Norte. E pela Europa, com as mesmas armas escondidas sob a capa de “cristã e ocidental”.
Se contra os deuses longínquos nada podemos fazer (e que nada têm a ver com as guerras dos homens)  então é com os demónios vivos, agentes de Lúcifer, que é preciso agir. Mas como, se são eles os detentores exclusivos do dinheiro, do exército, da informação?!... Eis o labiríntico tornado em que estamos condenados a viver os poucos ou médios anos de vida sobre a terra. Não temos, não, muitos motivos de cantar, porque escasseiam focos de esperança num mundo melhor. Satisfaçamo-nos com as mensagens dos “homens de boa vontade” e no ambiente  restrito da nossa vivência, construamos um reino onde os mini-Trump´s, Putin´s, al- Assad’s e quejandos não tenham lugar.
No Ano “33” que estamos a comemorar, não resisti a este desabafo global, anti-sírio. Continuaremos a reviver o acontecimento, porque o assalto feito por 70 agentes policiais, às ordens do poder político-religioso de então ao modesto templo da Ribeira Seca, fez-nos aprender que  só obstruindo o caminho aos ditadores é que cantaremos vitória. E o mundo terá Paz.

  03.Mar.18
Martins Júnior

   


quinta-feira, 1 de março de 2018

ANO 33 NA IMPRENSA PORTUGUESA


                                           
Não é folhetim. Nem é novela. É a realidade nua e crua.

Contar o que se passou, 33 anos depois, deixa-nos atónitos,  parados de espanto e revolvidos de indignação, Talvez por isso, foram tantas as pessoas que acompanharam ontem, via internet, o primeiro relato dos acontecimentos do 27 de Fevereiro.
Inverno escaldante - o de 1985!
Em contraste com o “silêncio ensurdecedor” da comunicação social madeirense de então, os jornais de Portugal Continental fizeram deslocar à Ribeira Seca os seus enviados especiais e inundaram o país inteiro do escândalo perpetrado pelo governo e pela diocese.
Hoje, apenas se transcreve a primeira página do boletim informativo que a Ribeira Seca publicou nessa altura, onde se reproduz a avalanche noticiosa da imprensa continental sobre os factos, deixando para outro dia os comentários então produzidos sobre o comportamento dos media locais.  
Não fosse o profissionalismo de tais jornalistas... e nada ter-se-ia passado.
À consideração dos leitores!

01.Mar.18
Martins Júnior


terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

ANO 33 - PARA QUE OS HOMENS NÃO ESQUEÇAM!

                                             

Manhã de 27 de Fevereiro/1985 – Manhã de Fevereiro/2018!
As duas, lado a lado:  tão diferentes e tão iguais! Na de hoje, a fúria do vendaval levanta telhados, estremece portas e persianas, derruba árvores, esmaga acessos e carros, estoura com o mar em alvoroço. A de ontem, há 33 anos, branda e macia, veio saudar o novo dia, abrindo o lençol da neblina nocturna para deixar passar o sol. E nisso são diferentes as duas manhãs!
Mas nisto são tão iguais: ambas trazem o desassossego e a guerra, que de conluio semeiam a tormenta. Só mudam os autores: numa, é a natureza informe e bruta que as solta, Na outra, foi o homo sapiens quem as fez.
Todos os anos, entro em retiro aberto durante 18 dias e 18 noites. Porque, neste caso, recordar é mais, muito mais que viver a fruição da memória, vou partilhar convosco a visão diacrónica dos factos, começando pelo 1º dia, 27.
Era a manhã calma e fria. Descia eu as escadas da casa sobranceira ao templo para celebrar a habitual eucaristia das 7 horas, quando uma mulher sexagenária já me esperava no primeiro degrau. “Senhor Padre, pelo amor de Deus lhe peço: saia já daqui, vá-se embora”. Intrigado, perguntei-lhe o porquê desta ordem inesperada. “O meu filho que trabalha na vila veio à minha casa avisar que viu 10 carrinhas da polícia para virem à Ribeira Seca prender o padre na hora da missa”. Observei à senhora que não fugiria e até gostaria de ver o jeito da polícia nessa tarefa. Mas ela insistiu: “Esta gente aqui diz a mesma coisa:  Hoje não há missa. Vá ficar na casa da sua mãe na Banda d’Álém, que o povo vai tomar conta disto. E depois, o povo vai lá baixo buscá-lo outra vez”.
Embora contrafeito. tive de cumprir ordens. Alguém deu-me boleia e recolhi-me na casa paterna. Sem saber o que se passava, em vão esperei  notícias até ao fim da tarde. Ainda guardo o bater do coração desse dia. O caso já era falado na vila: Que a polícia fechou a igreja com barrotes e quando o povo chegou,  já as portas estavam cerradas. Que, às 9 h da manhã, o pároco da igreja da vila e o presidente da Câmara acompanharam o subchefe, subiram as escadas da casa, rebentaram com as portas dos quartos (ainda lá estão as marcas) levaram objectos, livros de registos paroquiais, uma aparelhagem sonora, amplificadores, microfones, colunas, que eu comprara dias antes. 
Soube-se também que o subchefe policial deu instruções aos 70 agentes para correrem com as pessoa que entretanto se aproximavam. Nem o próprio carteiro de serviço permitiam que atravessasse o adro no cumprimento do seu ofício.
Constou que houve ameaças, empurrões por parte dos agentes e gritos e resistência da parte do povo. E que houve gente  disposta a ficar toda a noite no campo de jogos que dá para o adro para impedir que saqueassem a igreja. E foi o primeiro dia, 27 de Fevereiro/1985.
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Hoje, 27 de 2018, não obstante a chuva e o vento implacáveis, reunimo-nos em eucaristia vespertina e homenageámos aqueles homens e aquelas mulheres que já nos deixaram mas continuam vivas connosco, pois que foram as sentinelas vigilantes da sua casa-mãe, a igreja construída pelas gentes da Ribeira Seca.

27.Fev.18
Martins Júnior

   

domingo, 25 de fevereiro de 2018

FEVEREIRO – A CADA QUAL O SEU BRASEIRO

                                                         


É quando os extremos tocam-se. Fevereiro da neve  e da chuva esconde também labaredas, braseiros de “fogo que arde sem se ver”. Lampejos de eloquência e maceração, fagulhas de génio e martírio, umas vezes gritantes, outras abafadas pelo tempo e pelo lugar.
Compulsando as efemérides do segundo mês do ano, encontramo-nos logo com o nascimento do “Príncipe da Língua Portuguesa”, o Padre António Vieira, em 3/1608, o qual mais tarde viria a ser encarcerado nas cadeias da Inquisição no dia 1 de Outubro de 1665.  Em 13/1965, é abatido à traição aquele que seria a esperança de um Portugal maior, liberto da ditadura salazarista. Quatro séculos antes, em 15/1564, já fora dado ao mundo o visionário das estrelas, Galileu Galilei, vítima da maior condenação a que um homem pode ser sujeito – a amputação do pensamento e do inalienável direito de descobrir a verdade científica – e, daí, o anátema infalível da Santa Inquisição para os hereges, a fogueira, se ele entretanto se não tivesse retratado, dando o dito por não dito. A ignorância insolente dos eclesiásticos inquisitoriais não permitia a Galileu contrariar a Bíblia Sagrada, na ‘ordem divina’ de mandar parar o sol, a pedido de Josué, comandante das tropas israelitas. (Josué, 10, 13-14).
 Em boa hora, o fórum Victim Support Europe instituiu o 22/Fev como o Dia Europeu das Vítimas de todos os massacres perpetrados no mundo. E em 23/1985, Zeca Afonso sucumbe à morte, após uma vida caldeada nas chamas persecutórias da polícia secreta do regime colonialistas.
Muitas outras atrocidades marcaram historicamente o mês de Fevereiro contra pessoas e instituições. Os poderes absolutos sempre tiveram como objectivo final esmagar e ‘queimar’ em holocausto vidas inocentes, cujo único crime foi o de erguer a bandeira da verdade e das justiça social. Por isso, pode dizer-se que em Fevereiro, a cada qual o seu braseiro. Um atentado nunca deixa de ser um crime de lesa-humanidade, seja qual for o volume dos seus efeitos. Nestes casos, o relativo não deixa de ser qualitativamente censurável e incriminatório.
Trago hoje à colação este fenómeno cíclico e vexatório para a condição humana, visto que em 1985, aqui na Madeira, um pequeno agregado populacional foi implacavelmente fustigado pelas autoridades regionais e perseguido por uma força policial composta por setenta efectivos que, de madrugada,  assaltaram a casa e violaram a igreja local, ocupando-as durante 18 dias e 18 noites.
Tem muito que contar a Ribeira Seca neste que é o Ano XXXIII dessa triste efeméride. Também jogaram esta gente à fogueira. Tudo isso será contado nos dias que se seguem. Para que o mundo não esqueça! E jamais volte a repetir-se, seja lá onde for.

25.Fev.18
Martins Júnior                                                         

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

VAMPES, VAMPARROS, VAMPIROS E VAMPÕES

                                                     

Todo o dia esperei que  “A VOZ”  enchesse as ondas hertzianas do espaço português e, através dos centros emissores, descesse ao fundo dos vales que ele andou, subisse à fímbria das ‘altas fragas’ que ele cantou e voltasse a abrir clareiras de esperança no coração do Povo que ele amou. Ele, ZECA AFONSO!
Esperei, mas em vão. A barafunda que diverte o vulgo e esvazia os miolos da multidão foi servida a eito pelos personalizados altifalantes oficiais.
No entanto, precisamos dele. Ficaremos carentes de siso, órfãos de luz, seremos o “cadáver adiado que procria”.  se nos faltar  “A VOZ“.  Por mais que a mordaça dos gorilas do regime a sufocasse, ZECA AFONSO erguê-la-ia, vigorosa e sadia, unida à de Galileu Galilei, o condenado à fogueira por descobrir o movimento de rotação da Terra: “E, no entanto, ela move-se”!
E, no entanto, ele canta. E, quando canta, luta. Luta pelos meninos dos bairros negros, pelas ceifeiras e pelos cavadores de todos os alentejos, pelos andarilhos da utopia, pelas cantigas do Maio maduro e moço, pelo homem novo que veio da mata,  pela fome de justiça, pelos “Padres Alípios de Freitas, homens de grande firmeza, ao lado dos explorados no combate à repressão”. Ele canta e luta por tudo aquilo que faz falta para que todas as cidades  e aldeias sejam “Grândola, Vila morena”.
O mundo há-de precisar sempre de quem  arme a trombeta convocatória e solte A VOZ contra os vampes  ‘meninos nazis de cruz gamada, corrente e matraca’, contra os vamparros  abarrotados do dinheiro-suor roubado a quem trabalha, contra os vampiros juizes ‘mandadores sem lei’, contra o ‘carnaval da capela e a igreja do privilégio que matou Cristo a galope’, contra os vampões ‘bichos da treva e da opulência’.
Chego a pensar que não é outra a sina de todos os ZECA AFONSO senão deixar os ossos na terra chã e projectar, viva e altissonante, “A VOZ” que nunca morre. Ler, ouvir, mergulhar na profundeza da sua obra é ver a radiografia de toda a história humana, para reerguê-la e transfigurá-la.  
Por isso, neste aniversário do último adeus ao Cantor da Liberdade, (23/Fev/87), permitam-me reproduzir, como se fosse para cada um de nós,  o final da saudação que lhe dediquei em 2017, na campa nº 1606  do Campo Santo onde repousa:
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Não me tragam mais troféus
Nem me lembrem mais os pides e as prisões
Nem palmas nem medalhões

Porque eu ando por aí
Em tudo o que canta
Em tudo o clama
Em tudo que se alevanta
E olhando o sol sorri

Eu não morri
Porque vivo em ti
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23.Fev.18

Martins Júnior