quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

MAIS EPISÓDIOS DE “VIDAS SUSPENSAS”


                                                          

Mal andaria eu se não abrisse a janela deste Senso&Consenso para retribuir com  um abraço de gratidão a gentileza de quem – perto ou longe – achou por bem comentar positivamente a entrevista ao programa “Vidas Suspensas”. Aos que apuseram apreciações negativas também agradeço, precisamente porque a excepção só vem confirmar a regra.
Uma palavra muito especial à distinta e arguta jornalista Sofia Pinto Coelho e a toda a sua equipa pelo profissionalismo e pela paciência que demonstraram nos três dias de trabalho na Madeira, sobretudo em Machico, para investigar e aprofundar um “caso” que tem sido um ‘tenebroso tabu’ para a informação regional. E por ser tabu é que  aceitei o desafio. Para que o mundo não esqueça e os “Funcionários de Deus” não se atrevam a repeti-lo no presente e no futuro.
Lamento ter de ocupar a folha virgem deste écran com um caso pessoal. Era o que nunca pensaria fazê-lo. E só porque não é exclusivamente pessoal mas global – foram 1 milhão e 100 mil espectadores perante a SIC  - venho hoje de novo à rua para precisar alguns factos que esclarecem o debate.
  - Reitero a afirmação já anteriormente expressa: quando fui suspenso já não era deputado. Renunciei ao mandato e, propositadamente, comuniquei com a devida antecedência a Sua Ex.ª Rev.mª Francisco Santana, Bispo da Madeira.
  -   Desde 2007 não sou deputado. Há 11 anos, portanto. Coincidiu com a chegada  do actual Bispo ao Funchal, o qual tinha nas mãos a solução, a qual solução foi-lhe apresentada em carta escrita por um ilustre Professor da Universidade Católica Portuguesa.
  -  Das muitas consultas que fiz em Portugal Continental a diversos canonistas, recolhi este brocardo, princípio geral de Direito: Cessante causa cessat et effectus – extinta a causa fica também extinto o  efeito. No caso concreto: Se já não era deputado, retirada ficava, portanto, a sanção ou pena. Tudo isto foi explicado em muitas e prolongadas audiências com o actual Prelado. Sem sucesso.
  -   Na recente comunicação da Diocese à SIC/Notícias lê-se que eu não recorri nos prazos devidos. Ora, nenhum prazo me foi dado. Peço a quem tenha essa curiosidade leia o decreto de suspensão publicado na imprensa regional (1977) e há-de ficar sabendo que nenhum prazo foi estipulado.
  - Na dita comunicação lê-se ainda que eu deveria ter apelado para o Vaticano. A isto compete-me esclarecer: após audiência com os dois Cardeais – o já falecido D. José Policarpo e o actual D. Manuel Clemente – pedi para ser recebido pelo Núncio Apostólico em Lisboa. Quando lhe manifestei a decisão de recorrer para Roma, o senhor respondeu-me peremptoriamente: “Não, isso não é com o Vaticano. Só se fosse um caso de excomunhão. Mas no caso de suspensão é tudo com o Bispo da Diocese”. Quem tem razão?...                                                                                             
         A quem tem mantido a resistência de acompanhar os meus escritos, peço desculpa desta “novela”, que mais se parece com aquilo a que os italianos, sobretudo da Escola do século XVIII, apelidavam de Opera Buffa, dada a ligeireza e a comicidade de certos acontecimentos. Só que, no caso em apreço, a “ópera” é outra, pois joga com realidades mais sérias,  de contornos problemáticos e de  graves consequências, na esfera privada e na segurança jurídica em que assentam as sociedades. Ainda por cima, uma sociedade chamada Igreja.
         É bom enfrentar as dificuldades, subir a dureza da montanha para avistar em plena transparência os horizontes da Verdade!

         05.Dez.18
         Martins Júnior
          

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

“PADRE REBELDE E SUSPENSO”… PORQUÊ?


                                                            

      “Homem algum é uma ilha” – inscrita ficou nos anais da história humana esta sentença de Thomas Merton. Estádios há, porém, do percurso existencial (chamemos-lhes “idades”) em que a Pessoa-Viajante atinge a paisagem plana da condição humana e conquista o direito de ser ilhéu, mais do que isso, de ser ilha. Estão neste caso, os octogenários, os centenários e afins. O meu caso também. Após o remar-remar no oceano vasto da vida, caber-me-ia habitar uma ilha, mais que não fosse a “Ilha do outro mundo” de que nos fala o autor da “Mensagem”.
No entanto, ainda navego e ao meu batel chegam solicitações, imprevistos, questões, por vezes em forma de desafios, aos quais não devo fugir. Sucedeu em princípios de Setembro p.p., por intervenção da jornalista Sofia Pinto Coelho, (SIC) que esteve na Ribeira Seca, por ocasião das festas do verão. Viu, gravou. Entrevistou livremente gente de dentro e de fora da localidade.. O programa – “Vidas Suspensas” – aguardo-o com natural expectativa e serena ponderação, sendo certo que o seu conteúdo suscitará divergências de opinião, diametralmente opostas. Todo o ser pensante tem o direito de usar o seu poder crítico para análise isenta e judiciosa do caso, como de resto  tem sido observado nas redes sociais. O conflito de ideias não se resolve como o dos “gilets jaunes” nem com o recurso ao berro ou às armas. Se nem todos têm razão, todos têm razões. E há que saber interpretá-las com a dignidade que merecem os seus contributos.
Um aspecto, porém, que tem feito correr muita aragem nas redes sociais, consiste no argumento que roça as fake news, o qual é dito e redito desta forma: o padre é “rebelde e foi suspenso por ser deputado”. Ora, esclareço publicamente: quando S,Exª.Rev.mª D, Francisco Santana me suspendeu eu já não era deputado. Foi outro o motivo circunstancial:  Tendo sido eu convidado para padrinho de um crismando na igreja matriz de Machico, Sua Ex.ª Rev.mª não mo permitiu e até exigiu que eu saísse imediatamente do templo. “Enquanto não saíres, eu não começo a cerimónia. E se não saíres. eu suspendo-te a divinis”. E assim aconteceu.
 Seja qual o conteúdo da peça “Vidas Suspensas” que amanhã, dia 4, a SIC transmitirá  no tele-jornal das 20 horas, continuarei a pedir justiça, isto é, que me julguem em tribunal eclesiástico ou em tribunal civil!
E acima de tudo, Paz e Vida!

03.Dez.18
Martins Júnior
   

sábado, 1 de dezembro de 2018

O POVO PRESENTE NO PRIMEIRO DIA DO NATAL


                                                

Sábado – este Sábado, 1 de Dezembro) – não é apenas a véspera de Domingo. É o primeiro dia de Natal. A Madeira enche-se de luz e navega no Atlântico como o salão de festas do “Titanic” em que toda a noite e todo o dia a música da orquestra é rainha e senhora.  Por vilas e cidades, teatros e templos, praças e ruelas, regurgitam de som e luz os corpos e as almas.
Na apoteose nascente dos natais, há um que marca o rumo certo da genuína cultura popular: o Festival de Bandolins da Madeira, focalizado este ano no Teatro Municipal do Funchal. Foi um acontecimento memorável. Direi mesmo que ali ergueu-se o alfa e o ómega da melhor expressão cultural, pois que o areópago da capital madeirense, O Teatro Municipal Baltazar Dias, deixou de ser alcatifa das chamadas ‘elites’. para tornar-se no autêntico Fórum a voz do Povo.
Foi belo, “belíssimo”, ver desfilar no palco da primeira Sala de Espectáculos da Madeira as tunas da Região, divergindo embora no local, no estilo, na história, mas todas entrelaçadas no mesmo objectivo: dar sentido à vida, nas veredas das nossas encostas e no alimento do nosso espírito. Camacha, Câmara de Lobos, Ribeira Brava,  Gaula, Machico, Funchal marcaram presença assinalável. Gente do Povo, viajantes, emigrantes, ali se acharam representados.
Inegável exaltar o preciosismo inimitável dos grupos convidados à festa. Mas de toda a fenomenal partitura, a nota marcante foi a presença dos filhos do Povo sobreelevando o teatro da capital. Não foi produto importado, foi a expressão telúrica madeirense transportada nos dedos de crianças, jovens e adultos, sublimada no timbre das cordas das “Tábuas que cantam e sentem” – os instrumentos musicais.
Se os frutos aparecem, alguém os semeou. E aqui, alargando a objectiva do olhar,  teço a maior homenagem a todos quantos nas suas “terrinhas”, por vezes escondidas nas montanhas alcantiladas, gente anónima que planta as raízes da cultura global naqueles que lá habitam. Se é verdade que as academias e universidades produzem talentos e sumidades – e nisso merecem a nossa mais reconhecida estima – não lhes desmerecem as vontades populares de base que silenciosamente e sem ambições publicitárias cultivam a massa original da nossa ilha, o basalto humano que a compõe. Sem esse esforço, que tem tanto de singelo como de gigantesco, a ilha não seria a mesma. O que se viu hoje no Teatro Municipal Baltazar Dias foi o arfar de um coração maior e mais saudável nesta Região.
Também fizemos parte, muito gostosamente, desta autêntica “gala popular”, com a “Tuna de Cãmara de Machico”, fundada e sediada na Ribeira Seca, no ano de 1983. Em nota de roda-pé, apresentámos – para surpresa de todos os espectadores – os dois instrumentos pertencentes à mais famosa tuna bandolinística da Madeira, o “Septeto Dr. Passos Freitas”. São eles: a Bândola e o Bandoloncelo, datados de 1915, portanto instrumentos centenares.
À excelente e prestimosa Organização do Festival de Bandolins da Madeira a nossa maior gratidão. Ao som da música e ao abrir das primeiras luzes, começou o Natal da Madeira.

01,Dez.18  
  Martins Júnior
   

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

TODA A NOITE AGUARDANDO A MANHÃ


Mais que homenagem - recordando e acompanhando Francisco Álvares de Nóbrega, “O Nosso Camões” (1773-1806)


Não te levanto trono nem ara
Não te coroo a fronte do louro dos poetas
Hoje
Sentado no penedo desta noite rara
Espero aquela “hora atenuada”
Em que viste “a primeira luz do sol sereno
Em pobre sim mas paternal morada”

Seguir-te-ei os passos pela estrada
Da Banda d’Além ao Cais do Desembarcadouro
Que ainda guarda a tua infância
No chão pedrado que transformaste em ouro

Contigo rumo ao monte funchalense
Parnaso da Ilha varanda capital
De onde largaste a brisa e o vendaval
De rimas glosas sátiras éclogas canções
Com que douraste o céu cinzento
Do Funchal

Ver-te no alto das torres do poético festim
Foi como ver o sol de Abril futuro
Nascer dentro de mim
Mas depressa se fez noite de breu
Quando outro Torres de satânico solidéu
Te sufocou te agrilhoou e sepultou
No antro vil do sacro Aljube
Onde o velho Satã devora a juventude

Na mesma cela do crime e do ultraje
Curto contigo a mágoa o desespero
De ver em ferros o justo o inocente

Connosco está Barbosa du Bocage
Vate Sadino o combatente
Elmano teu e nosso Talismã
Da Liberdade que chega
No primeira colina da manhã

Foi o mais ledo e o mais amargo
De todos os avatares
Vimos fugir o Torres o déspota mitrado
E vimos logo surgir Luis Rodrigues Vilares
O Arcanjo Libertador
Que nos quebrou as grades do pérfido Aljube

Mas tarde chegou a manhã da Liberdade
Contigo subi a ladeira da rua estreita
De São João Nepomuceno
Deitei-te na enxerga como se ajeita
Um sem-abrigo justo sereno

Por tuas mãos
Já mortiças mutiladas
Do tormento e não da idade
Fechaste as cortinas da vida
E abriste as janelas
Da perdida Liberdade

Partiste lá longe
E eu fiquei
À beira-rio de Machico
Por isso toda a noite
Aqui fico
Olhando aquela janela
Para entregar-te a manhã
Serena e livre
Que tanto sonhaste
E nunca alcançaste

29.Nov.18
Martins Júnior


terça-feira, 27 de novembro de 2018

DEZ ANOS É MUITO TEMPO?!...


                                                

Serão breves as palavras, mas “linda, longa é a melodia imensa”  que nelas vai! Assim teria classificado Sebastião da Gama o dia em que toda a madureza etária de Machico e, simbolicamente com ela, os idosos de todas as paragens   festejaram o 10º aniversário da sua Universidade Sénior. Este ano, o anúncio do Natal não esperou pelas asas brancas dos anjos de Belém. Quem o trouxe foram as mãos calejadas e as faces enrugadas dos anjos terrestres, a população idosa do concelho.
E foi essa a “linda, longa melodia imensa” que inundou Machico numa semana de expressivas comemorações. Desde o desfile da canção nacional, o fado, sexta-feira última, até às tertúlias e conferências sobre o “envelhecimento positivo” e o trabalho académico de investigação acerca das “universidades seniores”, a Terceira Idade de Machico tem manifestado uma vitalidade anímica que em nada (só no cômputo dos anos, talvez) desmerece da juventude outrora vivida.
No vasto salão de festas onde se realizou o convívio respirava-se uma atmosfera de optimismo e franca simpatia. Ao olhar do observador atento não escapou a mensagem de toda aquela gente, cada qual com a sua história de luta e sofrimento, irmanando no mesmo abraço as montanhas e o mar, pois todos quantos ali estavam provinham dos cinco pontos cardeais do concelho, tantos quantas as cinco freguesias que o compõem. Particularmente tocante e comovedor foi ver ali, em directo, a “sénior”  de 87 anos, feliz e ligeira como uma ave, aproximar-se e partir  o bolo-rei de aniversário, com a elegância e o pragmatismo que sempre cultivou há quase nove décadas.
Que bela festa| de Natal, plena e intimista, da qual se podia dizer – a apoteose do provérbio, “Uma só alma e um só Coração”! Tanto melhor, por ser inteira e verdadeira. A Junta de Freguesia de Machico, em cujo local a Universidade Sénior está sediada, saiu feliz e prestigiada desta histórica efeméride, secundada pela Câmara Municipal, que também marcou presença notória.
10 anos é muito tempo? – talvez para a inexperiente infância da vida. Mas para  quem há décadas se passeia nas ondas da história, ora calmas, ora agitadas, significam apenas o sopro leve sobre as velas de mais um aniversário.  Palmas e cânticos. E um Voto: Que continuem sempre acesas as velas da renovada juventude da  Universidade Sénior de Machico!

27.Nov.18
Martins Júnior
                                                                                                                                                                                               


domingo, 25 de novembro de 2018

REGIME POLÍTICO DA IGREJA CATÓLICA?... MONARQUIA, POIS CLARO!


                                                                   

         Os mais entendidos acrescentam: Monarquia Absoluta.
         Fundamentação jurídico-canónica: “O Senhor é Rei”. E hoje, domingo último do ano litúrgico é, precisamente, a grande Festa do Cristo-Rei! Por tudo quanto é santuário, igreja ou modestíssima capela ecoam hossanas “àquele que vem em nome do Senhor-Rei do Universo”
Como e porquê se instaurou o regime monárquico sob a égide do Rei-Cristo`?... Tudo começou desde os alvores da criação do mundo e, mais impressivamente, com o transgeracional mito do povo judeu: desejoso de libertar-se .dos povos opressores que o dominavam e lhe sufocavam a autonomia, os hebreus estruturaram o seu “corpus” doutrinal e constitucional na perspectiva da realeza perdida e da sua recuperação gloriosa na pessoa de um Messias, Rei Poderoso, que destronaria o regime colonial em que vivia o judaísmo e proclamaria um novo Reino  e um novo Rei, sucedâneos do período áureo de David e seu filho Salomão.
A partir de então, sobretudo no século IV,  marcado pelo imperador Constantino Magno, a Igreja adoptou, sem questionar, a primitiva matriz do judaísmo e, mais tarde, di Islamismo) (as três religiões do LIVRO (a Bíblia), arvorando na testa  e no estatuto de Cristo o magnificente título de Rei. E firmou trono imperial, Constituição e Práxis de um verdadeiro Reino, com palácio, exército, banca, tribunais, embaixadas, contabilidade fiscal de impostos, mordomias e, pasme-se, com um corpo policial de élite, denominado guarda suíça, ainda no activo, a qual o Papa Francisco ainda não conseguiu extinguir. Quanto aos titulares de cargos eclesiásticos, alinhou-os em príncipes (bispos e cardeais), embaixadores, monsenhores e subalternos, em tudo talhado à imagem e semelhança da hierarquia militar, desde general a “soldado raso”. Para que nada ficasse omisso, o legislador eclesiástico reservou títulos e comendas identitárias à classe episcopal, obrigando-os a antepor  ao nome de baptismo o chancela real de “DOM”. o mesmo título reservado aos reis.
A este propósito, seja-me permitido partilhar com os meus amigos,  uma ligeiro excerto da entrevista  que a agência “Ecclesia”  transmitiu hoje, domingo, pelas seis horas, via RDP, (como de resto faço sempre antes da minha primeira eucaristia das sete da manhã) . No programa, dois sacerdotes, Daniel e Rui (não sei se algum deles será o futuro inquilino do nosso Paço Episcopal) trocavam impressões sobre a sua ordenação episcopal que ocorreu hoje à tarde em Lisboa. O que vivamente mais me impressionou foi o tratamento que mutuamente se davam um ao outro: “Como disse o sr. D. Daniel, …”.  e o outro correspondia no mesmo tom: “Como disse o sr. D. Rui…”, num desenrolar de ideias e projectos, repetidamente salpicado de DOM para ti, DOM para mim, DOM para cá, DOM para lá. Quere-se dizer: ainda não eram bispos (sê-lo-iam à tarde) e já se deliciavam numa troca de mimos e galhardetes de acentuado pendor palaciano.  Desculpar-me-ão os reverendíssimos interlocutores, mas para os meus 80 anos de vida e 56 de padre, aquele ritual cheirava-me a velha neftalina fora-de-prazo…
E porquê fora-de-prazo?
Respondo com outro pergunta. Terão eles (e nós também) posto em causa o dilema  da verdadeira identidade do nosso, o histórico Rei-Cristo?... Alguma vez aceitou Ele que lhe chamassem Senhor DOM Jesus?... E quando é que a liturgia católica exigiu ou incluíu, relativamente ao seu Fundador, a nomenclatura Senhor DOM Cristo?... E então?... Por outras palavras: a qual tipologia real pertencia Jesus?
Deveria deixar a cada um de vós a merecida resposta. Mas, para encurtar tempo, ousarei dizer, sem prejuízo de contradita, que o Jesus-Rei diante de Pilatos nada tem a ver como a pompa imperial do Vaticano. Direi que o nosso Rei-Jesus não possuía palácio, nem banca,  nem guarda-costas, nem exército, nem embaixadas. Não era ditador, juntava-se aos pobres, amava os marginais, comia com os pecadores,  compreendia  até as prostitutas. Ele a si próprio se definiu diante de Pilatos: ”O meu Rino não é deste mundo… Eu sou Rei da Verdade”.  Na era em que vivemos, Francisco Papa incarna, como nunca antes se viu, a condição do autêntico Rei Cristo, “aquele que transporta consigo o cheiro das ovelhas”, como ele próprio afirmou. Por isso, os corvos da falácia rondam, rancorosos, à sua volta.
Se a Verdade liberta, também a Verdade mata. Porque os seus opositores matam quem a defende. Por isso, enquanto o monarca absoluto do figurino papal e seus sequazes sentam-se em tronos dourados, almofadados, o nosso Rei-Jesus tem por trono o cadafalso da cruz onde foi assassinado. Razão tinha Milenati  quando escreveu aquele precioso livro “O Vaticano contra Cristo”.
No Domingo de Cristo-Rei, que fecha o calendário religioso de 2017/2018, deixei aqui esta reflexão, como quem tem sede da água pura da Verdade, ainda que tenha de correr riscos emergentes nesse caminho pedregoso. Todos os dias peço licença para alistar-me como soldado militante do seu verdadeiro Reino!

25.Nov.18
Martins Júnior

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

ONDE NÃO ESTÁ EÇA NO PORTUGAL DE HOJE E NA MADEIRA DE AGORA?


                                                                      

         Baptizei hoje a minha mensagem com a charada, em título de capa, de uma conhecida revista portuguesa que há uns meses teve a ousadia de atirá-la  para o inquilino dos jardins de Belém. Assim pergunto eu: Onde não está Eça de Queirós? Razão directa: os últimos dias de Novembro estão cheios do autor d’Os Maias: em 25 (1845) é o seu nascimento e em 30 ( 1888) passam 130 anos sobre a publicação do seu melhor romance.
         O que trago para estes dias poderosamente “ímpares” não é o elogio do prodigioso polígrafo – com apenas 55 anos de idade, deixou-nos uma incomensurável produção literária – mas o sortilégio da sua presença viva no mundo actual, mais concretamente em Portugal e na Madeira. E o que mais impressiona nesta ‘descoberta´ é, de um lado, a versatilidade das diversas fases da história e, dentro dela, a imutabilidade dos comportamentos humanos. Se em Gil Vicente deparamo-nos com a galeria das várias tipologias comportamentais na viragem de século (XV-XVI), outrossim verificamos em Eça na transição do século XIX para o século XX.
         Tudo quanto relatam os historiadores dessa época nós o encontramos nas imorredouras páginas d’Os Maias. Lembro-me aqui de Almeida Garrett e do velho aio Telmo Pais, do Frei Luis de Sousa, quando confirmavam  que Camões, com um só olho, via mais que os restantes mortais. Pois, podemos também afirmar que o monóculo de Eça, muito mais que potentes telescópios, abarcava o passado, o presente e o futuro da condição humana, a sua psicologia, as reacções sociológicas e o ridículo das suas atitudes. Ontem como hoje e hoje como ontem.
         Não acham por aí o negreiro Monforte, explorador sereno e frio do comércio de escravos?... Basta percorrer os banqueiros (negreiros hodiernos) resguardados numa sombria clandestinidade! E o Palma Cavalão, de pena fácil, não os vemos em redacções de certos jornais, virados, despudoradamente subservientes ao poder e ao capital organizado? E o tal Dâmaso Salcede, sósia do anterior, preguiçoso, calculista, camaleão invertebrado que babuja e rebola conforme a onda do poder?!...Então ainda ninguém se cruzou com o intelectual João da Ega, o diletante escritor das sempre prometidas e nunca iniciadas Memórias de um Átomo. Eles aí andam e pavoneiam-se, impantes, enfatuados, com canudos sem curso, como doutores ministros sem pasta?!...
Não obstante a ocasional vigilância do escrutínio popular sobre as bancadas parlamentares e a subsequente acção governativa, ainda hoje persistem focos de insalubridade político-social, magistralmente  descritos no hipódromo, do capítulo X, onde  o verniz e a hipocrisia não conseguem tapar a corrupção e a vilania das sofisticadas classes burguesas. E quanto à doentia religiosidade da mulher de Afonso da Maia, em que é que ela difere das intermináveis procissões, novenas e incensos da maior parte dos nossos templos?!...
Quanto a Carlos da Maia e à  relação incestuosa com Maria Eduarda, escandalosamente reiterada, apesar do conhecimento dos factos, aí já se revela a aceitação do absurdo, a impotência de agir, o  laissez faire, laisser passer, na administração pública, nos tribunais, nos negócios, nos desportos e até na religião. Felizmente, observa-se com simpatia a presença de uma Oposição  que deve permanecer sempre vigilante e lúcida para não permitir os mesmos abusos, os mesmos incestos e compadrios de outros tempos.
Serve o presente texto de sugestão para quem sentir o bom senso e o bom gosto de ver desfilar a polícroma galeria humana que nos doou Eça de Queirós. Porque ler Os Maias, 130 anos depois, é ver o filme, a novela e, nalguns casos, a choldra da hora que nos coube viver, seja a nível internacional, nacional ou regional. Vale a pena refazer a trama e reescrever com figuras e factos de hoje a saga real em que somos actores e espectadores, sem talvez darmos por isso. Como bem observou José Rentes de Carvalho, “Eça põe-nos em frente de um espelho desagradavelmente fiel”. Mas – acrescento eu – com outro dinamismo e outra combatividade que não tiveram João da Ega  e Carlos da Maia, os românticos vencidos da vida.

 23.Nov.18
Martins Júnior                                                                                                                                                                                                                                                s