No dia em que nasceste
nasceram todos os sóis
desde o dia criador até ao último
poente
Não deixes que a noite que vem
rapace e dormente
leve a manhã sem termo
que te pariu em seu seio de mãe
15/16.Nov.21
Martins
Júnior
No dia em que nasceste
nasceram todos os sóis
desde o dia criador até ao último
poente
Não deixes que a noite que vem
rapace e dormente
leve a manhã sem termo
que te pariu em seu seio de mãe
15/16.Nov.21
Martins
Júnior
(Improvisando)
P’ra cantar o São Martinho
Todo aquele que se preze
Não escolha o dia onze
Festeje no dia treze
Não se engane no caminho
Nem vá p’rás bandas do sul
Suba até ao Santo da Serra
À “Casa da Árvore Azul”
Ao transpor a porta férrea
Lá encontrará de tudo
Castanhas, marmelos, farofa
´té a ”Boneca do Canudo”
Estes versinhos regados
São para o teu centenário
Então verás quem os fez
Foi um velho octogenário
Obrigado por tanto afã
Oh que trabalho bem feito
A fama ficou p’rao Santo
P’rá gente ficou o proveito
13.Nov.21
Martins
Júnior
Ficaram
todos à espera. O Zé Pagode, os folhetins, os microfones, os cameramen’s, os
barraqueiros. Todos à espera. E ele não veio. À Espera, não de “Godot”, mas do
Santo.
Mais dura que a cortina de ferro, Sua Bruxa-Excelência
a Pandemia fechou o portão de chumbo e …
“Não há São Martinho p’ra ninguém”!
Se não há magusto braseiro, o Santo não entra no
baile.
Se a castanha não estala, o Santo não fala.
Se não há vinho novo a rolar, o Santo não sai a
cantar.
E se a barraca não deita bifana ou espeto, São
Martinho ‘tá peco.
E como o Santo está mudo, acabou-se tudo: a festa,
a propaganda, a reportagem, o espectáculo. Sem batuque não há mitra. Por outras
palavras, sem continente não há conteúdo…
É nisto que andamos. Martinho, João, Pedro ou
António. Desde tempos imemoriais, assim “os
devotos” lhes ditaram a sina.
Chegámos a isto: São Martinho desconvidado pelo povo “covidado”.
Até quando o aniversariante será o grande ausente
da sua festa?
Para mim, já que ele não andou no arraial da feira,
fui eu que subi à montanha onde ele mora. E vi-o lá mais autêntico e mais
brilhante que o sol do ‘Verão de São Martinho’!
11.Nov.21
Martins
Júnior
Enquanto
no pequeno país se alarga o Grande Circo – aquela arena que não se farta de
sangue fresco, entre velhos arqui-inimigos e entre crias da mesma mamada –
enquanto isso, chegam-nos ecos de maiores ‘faenas’
que nos atiram contra a parede, que nos atordoam, até fazer-nos pensar
maduramente sobre as mais absurdas metamorfoses da biologia política.
Muito em compacto, apenas três “tiros”
fortuitos, mas que poderiam alastrar-se por milhares ou milhões em todo o tempo
e em todo o território. O primeiro e mais candente vem da Nicarágua, essa nesga
do globo tão massacrada pelos ‘Somoza’, de cuja ditadura foi libertada pelo
então herói Daniel Ortega, membro da “Frente Sandinista de Libertação Nacional”.
Foi ele proposto ao mundo como o Grande Libertador, indesmentível bandeirante
da Democracia contra o monstro da opressão e da corrupção. Chegam-nos, porém, as horrendas, inacreditáveis notícias: ‘Daniel
Ortega acaba de ganhar as eleições para um quarto mandato consecutivo, somado às
décadas em que está no poder. De libertador tornou-se ditador, mantendo
milhares presos políticos”. Como, como é
possível tamanha monstruosidade comportamental
no mesmo sistema e, pior, na mesma pessoa?!...
O segundo episódio traz a marca da
feminilidade. Trata-se da heroína Aung
Sansuu Kyi, líder do povo birmanês, uma vida de coerência e resistência contra
a ditadura militar de Myanmar.
Perseguida e presa, mesmo depois de ter ganho as eleições, conquistou
merecidamente o Prémio Nobel da Paz. No entanto (‘no mais fino pano cai a nódoa’)
a etnia muçulmana, ostracizada no norte do país, foi sujeita às mais cruéis
sevícias sob as Forças Armadas, que assassinaram 25.000 rowinga’s e provocaram 700.000
refugiados. E a líder do seu país, já então
regressada ao poder, protagonizou um horroroso fenómeno de genocídio em pleno
século XXI. Como é possível?...
Um terceiro paradoxo, Abiy Ahmed,
personagem de topo na emancipação do povo etíope, promotor da liberdade, da
educação, pacifista convicto, foi também
galardoado com o Prémio Nobel da Paz em 2019. Notícias mais recentes, dão-no-lo
como chefe militar entre guerras fronteiriças, obrigando o seu exército a pegar
em armas. Como foi possível a um Promotor da Paz postergar tão nobre estatuto e
trocá-lo como fautor da guerra?...
Por um estranho avatar, muitos são
aqueles que despem a túnica branca do Anjo e vestem o camuflado eriçado do
monstro! Tendo derrubado regimes ditatoriais, erguem a bandeira da Democracia
nas ameias do Castelo da Liberdade, como
se fora propriedade sua, mas depois, entrincheirados lá dentro, engendram (oh
maquiavélica sina!) os novos e hediondos fantasmas da ditadura. Podia aqui
citar bandos desses ‘exemplares’, talvez aqui mesmo perto de nós. Parafraseando
Jean Jacques Rousseau (O homem nasce bom,
a sociedade é que o corrompe) direi: O político nasce bom, bem
intencionado, o poder é que o corrompe e deforma.
Quem poderá barrar-lhes o passo e
neutralizar os mísseis letais que caem, coloridos como prendas de Natal, na
lareira, na sala, até no nosso quarto de dormir, sem darmos por isso?...
Sem darmos por isso! Essa é a questão e
essa é que é a resposta: pé ante pé, deixamos o ditador entrar, sentar-se à nossa mesa (sempre sem darmos por
ele…) beber do nosso vinho novo. E
quando acordamos é que descobrimos os “vampiros” a que demos guarida, como bem
avisou José Afonso.
Só o Povo – e mais ninguém – pode evitar
que os anjos se transformem em monstros!
09.Nov.21
Martins
Júnior
A
lota continua. Se lhe chamarem feira podem também chamar-lhe luta – luta de
interesses e feira de vaidades. E cada marca/lugar/estatuto entram nesta
refrega cega-rega para chegar-se mais à frente na romaria da quermesse a-céu-aberto,
tipo open day na fila do teste
antigénio, dado e arregaçado.
Ele é o Pingo, aqui picante, acolá doce
melado, abrindo as mãos com pesadas toneladas para instituições de caridade,
enquanto nas mangas de punhos de oiro passam cheques invisíveis para Panamá´s
ou impostos roubados ao tesouro dos consumidores portugueses e desviados para
Holanda’s exteriores.
Ele
é o Ministério da Pobreza, onde os titulares do poder político, arregimentados
como beneméritos de ofício, deixam chover subsídios, fundos perdidos, benesses,
apoios, cabazes estrategicamente envernizados, 1.200 euros para o folclore,
mais 3.200 para a associação-xis, mais futebóis, mais as velhas “casas-do-povo-livre”,
mais autarquias, enfim, tudo maquiavelicamente amarrado e perdulariamente
entregue aos pilotos-drones encarregados de pintar de fartura os telhados da
cidade, as estradas, a paisagem. Mas há uma condição sine qua non: nenhum desses almoços é grátis, todos eles têm de ser
apregoados nas rádios, avolumados na TV, regados de fotografias nas folhas dos
jornais e nos retalhos de pasquins.
Ele
é também o “Dízimo sacro”, o tributo do “Reino de Deus”, o “Dinheiro de São
Pedro”, chamado “Banco do Vaticano”, as
estearinas de pavio sucedâneas das salvíficas “Indulgências” com que se nutria
o luxo dos Papas e a magnificência da Cúria cardinalícia.
Quero crer que ninguém duvida ser este o “Grande
Teatro do Mundo”, não o de Calderon de La Barca, mas o espectáculo de revista
corriqueira que o “Zé-Povo” é levado à feira e forçado a tragar.
Pois
bem, nada disto é novo. Há mais de dois mil anos, o GRANDE LIVRO traz-nos a visão antecipada do Nazareno
sobre esta arena de interesses pessoais, camuflados de ambições classistas, de
rosto simpático e mãos pródigas. Vem na literatura deste domingo, projectando a
luz de uma sólida interpretação, como a que o próprio descreve de fronte
erguida e não menos aguerrida:
\”Atenção, muito cuidado com os escribas
(doutores da lei, fariseus, sumos-sacerdotis) cuja ambição é exibir longas e
solenes vestes, serem vistos e cumprimentados nas praças públicas e ocupar os
primeiros lugares nas sinagogas e nos banquetes. Eles até chegam a devorar as
casas das viúvas e disfarçam tudo isso com prolongadas orações. Em verdade vos
digo que serão réus de uma sentença mais severa”. (Marcos, 12, 38-40).
Eloquente e corajosa audácia do Mestre! E sempre
foi assim: a perspicácia farisaica – a minoria dos poderes dominantes –
forçando sempre a mentalidade dos povos, a maioria dependente, povoando-a dos
mitos falaciosos que pintam de benemerência e bem-estar aquilo que não passa de
exclusiva sede de domínação, de ganância financeira e, em casos-limite, de
despudorado exercício da mais indigna simonia.
Vale
a pena reler todo o capítulo da Marcos. Em início de semana, servir-me-á de
seguro GPS para não me deixar seduzir pela profusão de generosos fogos-fátuos que, em tempos
próximos, voltarão a pairar ardilosamente no céu sombrio deste país e desta
região.
“Atenção, muito cuidado
com eles”!
07.Nov.21
Martins Júnior
“Senhor Padre, peça a Nosso Senhor
que me leve”…
Era um fio de voz sumida, suspirada ao
meu ouvido, como o vagido de um náufrago perdido num lençol amargo de lágrimas
e dores. Era o mesmo soluço, o mesmo olhar vago de quem vê uma paisagem longe,
apetecida. Umas vezes no vazio de um tugúrio rural, outras vezes no quarto de
um hospital, mas sempre no silêncio-murmurio de uma confidência incontida.
Ao seguir atentamente o debate sobre a “Despenalização
da Eutanásia” no agitado e ruidoso
Parlamento Nacional, soava-me aos ouvidos e batia-me no coração aquela toada
plangente de mendigo sem abrigo às portas da morte sem ter ninguém que lhas
abrisse. E concluí que temas destes não se compadecem com esgares tonitruantes
nem com inflamadas tiradas pseudo-moralistas. O caso – de vida e de morte –
pode configurar-se com aquele dilema que Gilbert Cesbron codificou nestes
termos: “É o drama deste mundo: todos têm razão”.
Não duvido de que a todos os deputados
(e é nestes momentos-crise agónica que se vê o pesadelo e a glória do eleito!) assistem
fundamentos e argumentos, subjectivamente em
consciência para a sua tomada de posição, tanto os favoráveis como os
opositores e os abstencionistas. Mas não é no grito e no acicate verbal que
poderá vislumbrar-se sequer uma nesga de luz ao fundo túnel. Porque o túnel é
interminável e ostenta no arco de entrada este sinal desmobilizador: ”Viagem sem
retorno”!
Confesso que são dois pilares estruturais
– o berço e a sepultura - que sustentam
a ponte onde os meus pés navegam e o meu pensamento voa. Primeiro, porque quase
todos os dias, por dever e missão, tenho de lidar com essas duas realidades.
Segundo, porque são elas que umas vezes abrem clareiras de paz interior, outras
vedam a felicidade de pensar.
Hoje, vou apenas propor uma
hipótese-tentativa de dissecar , à luz de uma interpretação empirista e
simultaneamente transcendente, este
confronto vivo entre o ‘Pró e o Contra’ à
Eutanásia. Reservando para outros desenvolvimentos as infinitas e fabulosas derivas
humanas, ético-jurídicas, filosóficas, teológicas, exporei sumariamente o que
consegui decifrar nesta emaranhada e confusa encruzilhada e que pode sintetizar-se
numa espécie de teorema existencial: o intrincado Dilema entre o Utente e o Agente.
Utente
é
o sujeito impetrante, aquele que, por motivos atendíveis e estritamente
pessoais, pede que alguém lhe encurte um sofrimento insuportável e inútil em
termos de sucesso clínico.
Agente
é o artífice encarregado de concretizar a petição formulada pelo Utente. Se fosse possível acoplar num
mesmo indivíduo as duas funções ou estatutos, diríamos que o Utente incarna o pensamento volitivo e o
Agente significa o braço activo. Um é
o Autor moral, o outro é o Actor instrumental.
Parece não restarem dúvidas de que o
que está em causa, como factor primacial e decisivo, é o superior interesse do
indivíduo, daquele indivíduo, ao qual não se pode negar a última vontade, desde
que balizada em pressupostos legítimos que não cabem aqui analisar.
O grande obstáculo está no Agente. Quem se atreve a aplicar a “vacina letal”?... Chamo-lhe “vacina” porque
assim a entende o Utente para
libertar-se de um cárcere de dores e horrores. Chamo-lhe “letal” porque, em
contradição paradoxal, vai arrancá-lo à liberdade de viver. Quem se atreve? O
Médico, o Enfermeiro ? … Mas como, se eles fizeram o solene juramento de
Hipócrates: agentes da vida e não funcionários da morte?...
Tremendo o ofício do Agente, porque corta a árvore da Vida !
Doloroso
e, o mesmo tempo, glorioso e libertador, porque corta o monstro,
insaciável devorador daquela Vida!
Fico por aqui, com esta hipótese de
conciliação entre os extremos deste dilema. Não na vozearia dos hemiciclos, mas
no recôndito do nosso consciente, juiz invisível das grandes decisões. Ao
pensar no Agente, eu recuso-me a olhá-lo como o algoz de
machado na mão. Vejo-o noutro cenário, como a mão que acode a uma outra mão, a
mão daquele que, no meio das chamas, clama desesperadamente por alguém que lhe
tire daquele incêndio infernal.
Termino, por hoje, com um pensamento
bíblico, do LIVRO, chamado de “Eclesiástico”, onde o escritor profético ousa
publicamente legitimar a petição do Utente:
“Magis mors quam vita amara” – “Mais vale a morte que uma vida amargurada.
Melhor é o repouso eterno que um definhamento sem fim” (capítulo 30, 17).
E
enquanto os decisores oficiais – Parlamentares, Presidentes,
Constitucionalistas – tentam enquadrar o Dilema no Ordenamento Jurídico Português,
batem-me cá dentro os murmúrios salivados que tantas ouvi à cabeceira de tantos
doentes;: “Senhor Padre, peça a Nosso
Senhor que me leve”… Fico depois a pensar: Estará este pré-moribundo Utente pedindo que Deus seja o seu Agente?... Mas este ofício está
consignado aos homens e não a Deus.
05.Nov.21
Martins
Júnior
Não
tem prefácio nem posfácio. Sem introdução nem epílogo, aqui fica o modo – pode chamar-se
protocolo, ritual, cerimonial ou quejandos – da visita da imagem e relíquia do aniversariante quinhentista madeirense,
São Tiago Menor, à Ribeira Seca, ponte intermédia entre o Caniçal, de onde
viera, e o Piquinho e Ribeira Grande, para onde seguiria viagem no grande vale
de Machico.
O
Adro e a Igreja da Ribeira Seca patentearam-se ao carro dos bombeiros que
transportava a imagem - aquele mesmo Adro e aquela mesma Igreja, onde, em 8 de
Maio de 2010, “alguém” não
deixou entrar a Imagem Peregrina de Fátima, perante a estupefacção da multidão
que a aguardava.
A
imagem do Bispo de Jerusalém posicionou-se em grande angular no centro do arco
romano da entrada do templo. Não houve banda de música nem foguetes nem espectáculo
de espécie alguma. Apenas, em caracteres manuscritos, três mensagens do próprio
São Tiago Menor na sua Carta Memorável aos hierosolimitanos:
“MOSTRA-ME
A TUA FÉ
E
EU MOSTRO-TE AS MINHAS OBRAS”
………………….
“A
FÉ SEM OBRAS É MORTA”
…………………
“CONFESSAI
OS VOSSOS PECADOS UNS AOS OUTROS
PARA
SERDES SALVOS”
……………………
Ao
tríptico apostólico com que o templo da Ribeira Seca emoldurou a imagem,
adicionámos o excerto do Sermão do Padre António Vieira, na Igreja da
Misericórdia em São Luís do Maranhão, Nordeste Brasileiro,
“As
imagens verdadeiras de Jesus Crucificado não são as que estão nas igrejas. As
imagens verdadeiras de Jesus Crucificado são os pobres, os doentes, os
desvalidos, os que sofrem”.
A
nossa reflexão.
A nossa “Declaração de Interesses”
03.Nov.21
Martins
Júnior