segunda-feira, 15 de novembro de 2021

O BERÇO TOTAL DO DIA INTEMPORAL

  


No dia em que nasceste

nasceram todos os sóis

desde o dia criador até ao último poente

 

Não deixes que a noite que vem

rapace e dormente

leve a manhã sem termo

que te pariu em seu seio de mãe

 

15/16.Nov.21

Martins Júnior

sábado, 13 de novembro de 2021

UM “SÃO MARTINHO” FORA DA CAIXA E COM MUITO AMOR

                                   (Improvisando)

            


P’ra cantar o São Martinho

Todo aquele que se preze

Não escolha o dia onze

Festeje no dia treze

 

Não se engane no caminho

Nem vá p’rás bandas do sul

Suba até ao Santo da Serra

À  “Casa da Árvore Azul”

 

Ao transpor a porta férrea

Lá encontrará  de tudo

Castanhas, marmelos, farofa

´té a ”Boneca  do Canudo”

 

Estes versinhos regados

São para o teu centenário

Então verás quem os fez

Foi um velho octogenário

 

Obrigado por tanto afã

Oh que trabalho bem feito

A fama ficou p’rao Santo

P’rá gente ficou o proveito

 

         13.Nov.21

         Martins Júnior

 

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

UM “SÃO MARTINHO”… SEM SÃO MARTINHO ! – reflexão em jeito de rábula curta

                                                                             


Ficaram todos à espera. O Zé Pagode, os folhetins, os microfones, os cameramen’s, os barraqueiros. Todos à espera. E ele não veio. À Espera, não de “Godot”, mas do Santo.

Mais dura que a cortina de ferro, Sua Bruxa-Excelência  a Pandemia fechou o portão de chumbo e … “Não há São Martinho p’ra ninguém”!

Se não há magusto braseiro, o Santo não entra no baile.

Se a castanha não estala, o Santo não fala.

Se não há vinho novo a rolar, o Santo não sai a cantar.

E se a barraca não deita bifana ou espeto, São Martinho ‘tá peco.

                                     


E como o Santo está mudo, acabou-se tudo: a festa, a propaganda, a reportagem, o espectáculo. Sem batuque não há mitra. Por outras palavras, sem continente não há conteúdo…

É nisto que andamos. Martinho, João, Pedro ou António. Desde tempos imemoriais,  assim “os  devotos” lhes ditaram a sina.

Chegámos a isto: São Martinho desconvidado pelo povo “covidado”.

Até quando o aniversariante será o grande ausente da sua festa?

Para mim, já que ele não andou no arraial da feira, fui eu que subi à montanha onde ele mora. E vi-o lá mais autêntico e mais brilhante que o sol do ‘Verão de São Martinho’!    

 

11.Nov.21

Martins Júnior

 

 


terça-feira, 9 de novembro de 2021

QUANDO OS “ANJOS” SE TRANSFORMAM EM “MONSTROS”…

                                                                               


Enquanto no pequeno país se alarga o Grande Circo – aquela arena que não se farta de sangue fresco, entre velhos arqui-inimigos e entre crias da mesma mamada – enquanto isso, chegam-nos ecos de maiores ‘faenas’ que nos atiram contra a parede, que nos atordoam, até fazer-nos pensar maduramente sobre as mais absurdas metamorfoses da biologia política.

         Muito em compacto, apenas três “tiros” fortuitos, mas que poderiam alastrar-se por milhares ou milhões em todo o tempo e em todo o território. O primeiro e mais candente vem da Nicarágua, essa nesga do globo tão massacrada pelos ‘Somoza’, de cuja ditadura foi libertada pelo então herói Daniel Ortega, membro da “Frente Sandinista de Libertação Nacional”. Foi ele proposto ao mundo como o Grande Libertador, indesmentível bandeirante da Democracia contra o monstro da opressão e da corrupção. Chegam-nos, porém,  as horrendas, inacreditáveis notícias: ‘Daniel Ortega acaba de ganhar as eleições para um quarto mandato consecutivo, somado às décadas em que está no poder. De libertador tornou-se ditador, mantendo milhares  presos políticos”. Como, como é possível tamanha monstruosidade  comportamental no mesmo sistema e, pior, na mesma pessoa?!...

         O segundo episódio traz a marca da feminilidade. Trata-se da heroína  Aung Sansuu Kyi, líder do povo birmanês, uma vida de coerência e resistência contra a ditadura  militar de Myanmar. Perseguida e presa, mesmo depois de ter ganho as eleições, conquistou merecidamente o Prémio Nobel da Paz. No entanto (‘no mais fino pano cai a nódoa’) a etnia muçulmana, ostracizada no norte do país, foi sujeita às mais cruéis sevícias sob as Forças Armadas, que assassinaram 25.000 rowinga’s e provocaram 700.000 refugiados.  E a líder do seu país, já então regressada ao poder, protagonizou um horroroso fenómeno de genocídio em pleno século XXI. Como é possível?...

         Um terceiro paradoxo, Abiy Ahmed, personagem de topo na emancipação do povo etíope, promotor da liberdade, da educação, pacifista  convicto, foi também galardoado com o Prémio Nobel da Paz em 2019. Notícias mais recentes, dão-no-lo como chefe militar entre guerras fronteiriças, obrigando o seu exército a pegar em armas. Como foi possível a um Promotor da Paz postergar tão nobre estatuto e trocá-lo como fautor da guerra?...

         Por um estranho avatar, muitos são aqueles que despem a túnica branca do Anjo e vestem o camuflado eriçado do monstro! Tendo derrubado regimes ditatoriais, erguem a bandeira da Democracia nas ameias do  Castelo da Liberdade, como se fora propriedade sua, mas depois, entrincheirados lá dentro, engendram (oh maquiavélica sina!) os novos e hediondos fantasmas da ditadura. Podia aqui citar bandos desses ‘exemplares’, talvez aqui mesmo perto de nós. Parafraseando Jean Jacques Rousseau (O homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe) direi: O político nasce bom, bem intencionado, o poder é que o corrompe e deforma.

         Quem poderá barrar-lhes o passo e neutralizar os mísseis letais que caem, coloridos como prendas de Natal, na lareira, na sala, até no nosso quarto de dormir, sem darmos por isso?...

         Sem darmos por isso! Essa é a questão e essa é que é a resposta: pé ante pé, deixamos o ditador entrar,  sentar-se à nossa mesa (sempre sem darmos por ele…)  beber do nosso vinho novo. E quando acordamos é que descobrimos os “vampiros” a que demos guarida, como bem avisou José Afonso.

         Só o Povo – e mais ninguém – pode evitar que os anjos se transformem em monstros!

 

         09.Nov.21

         Martins Júnior

domingo, 7 de novembro de 2021

ESTÁ CHEGANDO A HORA DE TODOS OS ILUSIONISMOS. CUIDADO!

                                                                       


A lota continua. Se lhe chamarem feira podem também chamar-lhe luta – luta de interesses e feira de vaidades. E cada marca/lugar/estatuto entram nesta refrega cega-rega para chegar-se mais à frente na romaria da quermesse a-céu-aberto, tipo open day na fila do teste antigénio, dado e arregaçado.

         Ele é o Pingo, aqui picante, acolá doce melado, abrindo as mãos com pesadas toneladas para instituições de caridade, enquanto nas mangas de punhos de oiro passam cheques invisíveis para Panamá´s ou impostos roubados ao tesouro dos consumidores portugueses e desviados para Holanda’s  exteriores.

Ele é o Ministério da Pobreza, onde os titulares do poder político, arregimentados como beneméritos de ofício, deixam chover subsídios, fundos perdidos, benesses, apoios, cabazes estrategicamente envernizados, 1.200 euros para o folclore, mais 3.200 para a associação-xis, mais futebóis, mais as velhas “casas-do-povo-livre”, mais autarquias, enfim, tudo maquiavelicamente amarrado e perdulariamente entregue aos pilotos-drones encarregados de pintar de fartura os telhados da cidade, as estradas, a paisagem. Mas há uma condição sine qua non: nenhum desses almoços é grátis, todos eles têm de ser apregoados nas rádios, avolumados na TV, regados de fotografias nas folhas dos jornais e nos retalhos de pasquins.

Ele é também  o “Dízimo sacro”, o tributo do “Reino de Deus”, o “Dinheiro de São Pedro”, chamado “Banco do Vaticano”,  as estearinas de pavio sucedâneas das salvíficas “Indulgências” com que se nutria o luxo dos Papas e a magnificência da Cúria  cardinalícia.

 Quero crer que ninguém duvida ser este o “Grande Teatro do Mundo”, não o de Calderon de La Barca, mas o espectáculo de revista corriqueira que o “Zé-Povo” é levado à feira e forçado a tragar.

Pois bem, nada disto é novo. Há mais de dois mil anos, o GRANDE  LIVRO traz-nos a visão antecipada do Nazareno sobre esta arena de interesses pessoais, camuflados de ambições classistas, de rosto simpático e mãos pródigas. Vem na literatura deste domingo, projectando a luz de uma sólida interpretação, como a que o próprio descreve de fronte erguida e não menos aguerrida:

\”Atenção, muito cuidado com os escribas (doutores da lei, fariseus, sumos-sacerdotis) cuja ambição é exibir longas e solenes vestes, serem vistos e cumprimentados nas praças públicas e ocupar os primeiros lugares nas sinagogas e nos banquetes. Eles até chegam a devorar as casas das viúvas e disfarçam tudo isso com prolongadas orações. Em verdade vos digo que serão réus de uma sentença mais severa”. (Marcos, 12, 38-40).

 Eloquente e corajosa audácia do Mestre! E sempre foi assim: a perspicácia farisaica – a minoria dos poderes dominantes – forçando sempre a mentalidade dos povos, a maioria dependente, povoando-a dos mitos falaciosos que pintam de benemerência e bem-estar aquilo que não passa de exclusiva sede de domínação, de ganância financeira e, em casos-limite, de despudorado exercício da mais indigna simonia.

Vale a pena reler todo o capítulo da Marcos. Em início de semana, servir-me-á de seguro GPS para não me deixar seduzir pela profusão de  generosos fogos-fátuos que, em tempos próximos, voltarão a pairar ardilosamente no céu sombrio deste país e desta região.

“Atenção, muito cuidado com eles”!

 

07.Nov.21

Martins Júnior   

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

NA EUTANÁSIA: O DILEMA ENTRE O “UTENTE” E O “AGENTE”

                                                                              


 

“Senhor Padre, peça a Nosso Senhor que me leve”…

         Era um fio de voz sumida, suspirada ao meu ouvido, como o vagido de um náufrago perdido num lençol amargo de lágrimas e dores. Era o mesmo soluço, o mesmo olhar vago de quem vê uma paisagem longe, apetecida. Umas vezes no vazio de um tugúrio rural, outras vezes no quarto de um hospital, mas sempre no silêncio-murmurio de uma confidência incontida.

         Ao seguir atentamente o debate sobre a “Despenalização da Eutanásia”  no agitado e ruidoso Parlamento Nacional, soava-me aos ouvidos e batia-me no coração aquela toada plangente de mendigo sem abrigo às portas da morte sem ter ninguém que lhas abrisse. E concluí que temas destes não se compadecem com esgares tonitruantes nem com inflamadas tiradas pseudo-moralistas. O caso – de vida e de morte – pode configurar-se com aquele dilema que Gilbert Cesbron codificou nestes termos: “É o drama deste mundo: todos têm razão”.

         Não duvido de que a todos os deputados (e é nestes momentos-crise agónica que se vê o pesadelo e a glória do eleito!) assistem fundamentos e argumentos, subjectivamente em consciência para a sua tomada de posição, tanto os favoráveis como os opositores e os abstencionistas. Mas não é no grito e no acicate verbal que poderá vislumbrar-se sequer uma nesga de luz ao fundo túnel. Porque o túnel é interminável e ostenta no arco de entrada este sinal desmobilizador: ”Viagem sem retorno”!

         Confesso que são dois pilares estruturais – o berço e a sepultura - que  sustentam a ponte onde os meus pés navegam e o meu pensamento voa. Primeiro, porque quase todos os dias, por dever e missão, tenho de lidar com essas duas realidades. Segundo, porque são elas que umas vezes abrem clareiras de paz interior, outras vedam a felicidade de pensar.

         Hoje, vou apenas propor uma hipótese-tentativa de dissecar , à luz de uma interpretação empirista e simultaneamente transcendente,  este confronto vivo entre o ‘Pró e o Contra’  à Eutanásia. Reservando para outros desenvolvimentos as infinitas e fabulosas derivas humanas, ético-jurídicas, filosóficas, teológicas, exporei sumariamente o que consegui decifrar nesta emaranhada e confusa encruzilhada e que pode sintetizar-se numa espécie de teorema existencial: o intrincado Dilema entre o Utente e o Agente.

         Utente é o sujeito impetrante, aquele que, por motivos atendíveis e estritamente pessoais, pede que alguém lhe encurte um sofrimento insuportável e inútil em termos de sucesso clínico.

         Agente é o artífice encarregado de concretizar a petição formulada pelo Utente. Se fosse possível acoplar num mesmo indivíduo as duas funções ou estatutos, diríamos que o Utente incarna o pensamento volitivo e o Agente significa o braço activo. Um é o Autor moral, o outro é o Actor instrumental.

         Parece não restarem dúvidas de que o que está em causa, como factor primacial e decisivo, é o superior interesse do indivíduo, daquele indivíduo, ao qual não se pode negar a última vontade, desde que balizada em pressupostos legítimos que não cabem aqui analisar.    

         O grande obstáculo está no Agente. Quem se atreve a aplicar a  “vacina letal”?... Chamo-lhe “vacina” porque assim a entende o Utente para libertar-se de um cárcere de dores e horrores. Chamo-lhe “letal” porque, em contradição paradoxal, vai arrancá-lo à liberdade de viver. Quem se atreve? O Médico, o Enfermeiro ? … Mas como, se eles fizeram o solene juramento de Hipócrates: agentes da vida e não funcionários da morte?...

         Tremendo o ofício do Agente, porque corta a árvore da Vida !

         Doloroso e, o mesmo tempo, glorioso e libertador, porque corta o monstro, insaciável  devorador daquela Vida!

         Fico por aqui, com esta hipótese de conciliação entre os extremos deste dilema. Não na vozearia dos hemiciclos, mas no recôndito do nosso consciente, juiz invisível das grandes decisões. Ao pensar no Agente, eu recuso-me a olhá-lo como o algoz de machado na mão. Vejo-o noutro cenário, como a mão que acode a uma outra mão, a mão daquele que, no meio das chamas, clama desesperadamente por alguém que lhe tire daquele incêndio infernal.

         Termino, por hoje, com um pensamento bíblico, do LIVRO, chamado de “Eclesiástico”, onde o escritor profético ousa publicamente legitimar a petição do Utente: “Magis mors quam vita amara” – “Mais vale a morte que uma vida amargurada. Melhor é o repouso eterno que um definhamento sem fim” (capítulo 30, 17).

         E enquanto os decisores oficiais – Parlamentares, Presidentes, Constitucionalistas – tentam enquadrar o Dilema no Ordenamento Jurídico Português, batem-me cá dentro os murmúrios salivados que tantas ouvi à cabeceira de tantos doentes;: “Senhor Padre, peça a Nosso Senhor que me leve”… Fico depois a pensar: Estará este pré-moribundo Utente pedindo que Deus seja o seu Agente?... Mas este ofício está consignado aos homens e não a Deus.   

        

05.Nov.21

         Martins Júnior

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

DECLARAÇÃO DE INTERESSES

                                                                            


Não tem prefácio nem posfácio. Sem introdução nem epílogo, aqui fica o modo – pode chamar-se protocolo, ritual, cerimonial ou quejandos – da visita da imagem e relíquia do aniversariante quinhentista madeirense, São Tiago Menor, à Ribeira Seca, ponte intermédia entre o Caniçal, de onde viera, e o Piquinho e Ribeira Grande, para onde seguiria viagem no grande vale de Machico.

O Adro e a Igreja da Ribeira Seca patentearam-se ao carro dos bombeiros que transportava a imagem - aquele mesmo Adro e aquela mesma Igreja, onde, em 8 de Maio de 2010, “alguém” não deixou entrar a Imagem Peregrina de Fátima, perante a estupefacção da multidão que a aguardava.

A imagem do Bispo de Jerusalém posicionou-se em grande angular no centro do arco romano da entrada do templo. Não houve banda de música nem foguetes nem espectáculo de espécie alguma. Apenas, em caracteres manuscritos, três mensagens do próprio São Tiago Menor na sua Carta Memorável aos hierosolimitanos:

 

“MOSTRA-ME   A   TUA    

E EU MOSTRO-TE AS MINHAS OBRAS”

………………….

“A   FÉ SEM OBRAS É MORTA

…………………

“CONFESSAI OS VOSSOS PECADOS UNS AOS OUTROS   

  PARA  SERDES  SALVOS”

   ……………………

Ao tríptico apostólico com que o templo da Ribeira Seca emoldurou a imagem, adicionámos o excerto do Sermão do Padre António Vieira, na Igreja da Misericórdia em São Luís do Maranhão, Nordeste Brasileiro,

“As imagens verdadeiras de Jesus Crucificado não são as que estão nas igrejas. As imagens verdadeiras de Jesus Crucificado são os pobres, os doentes, os desvalidos, os que sofrem”.

                                                  

                                         A nossa reflexão.

                                               A nossa “Declaração de Interesses”

 

         03.Nov.21

         Martins Júnior