sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

QUE NATAL PARA OS JOVENS?


                                              

Foi animada e, sobretudo, elucidativa a reunião do arciprestado de Machico/Santa Cruz, realizada no templo e biblioteca da Ribeira Seca.
         Duas temáticas em confronto. De um lado, as preocupações dos párocos mais experientes, digamos que veteranos: “Quem é que vê  jovens interessados no ensino da religião nas escolas? Quem os vê na igreja? E quem os ensina?”… De outro lado, os clérigos menos rodados: “”É preciso usar bem os óleos do baptismo, marcar as confissões do Advento e da Quaresma, publicitar atempadamente os horários das missas do parto, organizar as procissões das velas no mês de Maio”. Os veteranos, “com um saber de experiência feito”, voltam à carga: “Mas o que mais se ‘vê’ é a sua ausência, o desinteresse dos jovens”.  Acede um outro, também veterano, entra no debate e sugere: “Há um outro dilema a montante. E é este: o que é que a Igreja tem para dar aos jovens de hoje?”.
         Embora transversal e omnipresente em todo o ano e em toda a vida, a questão formulada entre os colegas párocos suscitou-me, nesta quadra natalícia, a mesma incógnita: “Que tem o Natal a dizer aos jovens de hoje?... E que motivações lhes propõe a Igreja, enquanto mensageira e, de certo modo, delegada oficial do magno acontecimento?”…
         Se recorrermos às fontes inspiradoras e prenunciadoras da Grande Notícia, confrontamo-nos com dois cenários apelativos à juventude: primeiro, a beleza transbordante de um horizonte futuro, pleno de pujança e fertilidade, onde o amor e o fulgor brilham no cimo de cada montanha e abraçam toda a amplitude do globo terrestre. Um segundo projecto, vigoroso e libertador, sustenta o primeiro, apresentando-se como a factura pagante desse Mundo Novo: a fortaleza, a persistência, o arrojo e a entrega incondicional do Ser Humano na construção dessa nova era, incarnada no Natal de sempre. É em Isaías, Poeta e Profeta, que descobrimos a varanda de onde se avista o sonho antigo. E é em João, o Baptista, que se revela o lutador sem medo, austero, quer nos princípios quer no teor logístico quotidiano, no traje, na disciplina espartana dos costumes, quer ainda no intrépido afrontamento face ao corrupto poder instituído do governador Herodes. Os de ontem e os de hoje!
         Eis duas foças motrizes capazes de galvanizar a juventude! Há nelas um brilho mágico que agita o coração de um jovem garboso e decidido, nimbado “pela ânsia de subir, cobiça de transpor” (Goethe) até alcançar a estrela cimeira dos seus ideais. Há credos e há ideologias, portadoras desta dupla energia e de tal potência que atrai jovens generosos capazes de entregar a própria vida em prol de uma causa maior. Em contrapartida, a Igreja pouco mais oferece que o folclore paisagístico da ‘lapinha’, a opulência multicolor que sobredoura as avenidas, as missas do parto, cuja principal atracção nos adros não difere muito das ‘barraquinhas da (des)ordem’ e da poncha, nas praças do povo.
         Bem sei que o dia de aniversário não é palco de dramatização do aniversariante. Mas esquecê-lo e imobilizá-lo ao tronco de gráceis estatuetas ou de figurantes gigantões redundará em desprestígio da grande efeméride. Mais: é deixar de rastos pelo chão a nobre armadura dos heróis candidatos à vitória. O Natal não é só uma Criança!   
           
         13.12.19
         Martins Júnior

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

COMO SE ELE NASCESSE AQUI…



         Natais há muitos… Como os chapéus da feira.
         Há o Natal do das escadinhas, muito típico e muito nosso. Há o Natal do musgo e das ‘cabrinhas’ que cheiram a campo. Há o Natal da cidade, das barraquinhas, o Natal da poncha (Ah, que na cidade Natal sem poncha não é Natal), há o do bolo de mel e da ‘macia’. Ficam todos abraçados no Natal do Mercado. E na Consoada, onde o peru é rei e réu. Há ainda o pinheirinho que entrelaça o campo e a cidade. Há o Pai Natal, da chaminé, das prendas e do sapatinho. Que mais Natais navegam por esse mar fora?... Sim, há os das ‘missas do parto’, tão alienantes e anestésicos como os já ditos.
         Avança-se e entra-se numa dessas grutas mais sensíveis e temos o Natal do 25 de Dezembro, improvável porque convencional, o Natal de Belém, da Palestina, o de Maria e seu casto esposo José, o Natal dos pastores e das ovelhinhas, da vaca e do burrinho. E, no topo, o Natal das palhinhas e do Menino, de massa ou de pinho pintado, olhinhos ternos, rechonchudinho, (não há encanto maior!) fixando os anjinhos que lhe cantam por cima da cabeça como revoadas de chilreios em manhã de primavera.
         Tudo muito belo e divertido, a que a embriaguez das ‘mangueiras’ e dos néon´s emprestam a ‘pica’ que adormece as multidões!
         Mas haverá alguém por aí, com olhos de ver e ouvidos de entender, que sintonize o seu auto-receptor e capte a mensagem que vagueia no ar desde milénios à espera de quem a aceite e interprete: “Que veio fazer essa Criança a este planeta?”.
         Depois, para completar a resposta, confrontar-se-á com outra magna questão: “Poderia Ele, essa Criança, ter nascido na tua terra, na tua cidade, na tua aldeia?”.
         Será esse o mote para o nosso presépio, plasmado em relevo, luz e som:  “COMO SE ELE NASCESSE AQUI”…

         11.Dez.19
Martins Júnior

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

QUANDO O FIM JÁ É O PRINCÍPIO… BEM-VINDOS!


                                                        

Tal como os homens, também os factos não se medem aos palmos. Nem a sua real grandeza terá a medida da sua magnitude sísmica. Valem tão-só pelo muito ou pelo pouco que trazem dentro. Factos, pessoas, datas e coisas – em tudo – tudo está no invisível. E quanto maior a força do invisível mais bela e poderosa será a luminosidade da sua presença.
O ano de 2019, o último desta década, marcou o primeiro de uma renascença das mentalidades. Sobretudo, a nível ilhéu. Porque a mão de alguém desfez em pó o espesso negrume que ocultava aos madeirenses de boa-fé a luz que irradiava num pequeno vale dentro do grande vale de Machico. Alguém soprou o montão de cinzas que cobria o braseiro caloroso e fértil de um povo suburbano, quase rural.
Dezembro, terça-feira, dia 10!
O derradeiro mês do ano velho “virou Janeiro de Ano Novo, aliás, confirmou a viragem histórica já efectuada a meio de 2019. Amanhã, ao abrir da madrugada, o pequeno rincão da Ribeira Seca abrirá as portas da sua sala de visitas para receber o Arciprestado de Santa Cruz e Machico, isto é, todos os sacerdotes párocos das freguesias entre Caniço e Machico. Aparentemente e administrativamente, um acto rotativo e rotineiro que mensalmente passa por todas as circunscrições paroquiais desta área geográfica.
Nada de retumbante e espectacular aos olhos que apenas captam o visível e o aparente. São os que “olham e não vêem”. Mas para quem tem o cuidado de demorar-se um pouco (“o poeta em tudo se demora”) e mesmo não sendo poeta, há-de ler nas entrelinhas do invisível a Saudação que dirijo aos caros colegas visitantes que amanhã farão a sua recolecção mensal em terras da Ribeira Seca, coração dentro do coração de Machico:  
BEM-VINDOS, irmãos de missão e acção, a este vosso templo-presépio que, certamente nunca visitastes, por imposição injusta dos exclusores oficiais,
BEM-VINDOS às portas sempre abertas desta Casa-Comum, morada simbólica da Mãe, Senhora do Amparo, à qual os exclusores e-méritos não deixaram entrar a sua imagem. Entrai sem temor. Entrai pela mão de todo o Amor,
BEM-VINDOS a este “Chão Sagrado, Onde cantámos Vitória” , apesar da ocupação dos agentes da autoridade, durante 18 dias e 18 noites. Entrai. Respirai o ar puro da montanha e a força anímica da Liberdade,
 BEM-VINDOS porque ajudais a quebrar as grades da prisão onde os exclusores sacros nos quiseram manietar, sem o conseguir, pois nos sentimos sempre livres e como tais agimos, enquanto humanos e enquanto cristãos,
…………
Da minha parte, saúdo o Povo da Madeira e Porto Santo, os que olham o invisível, porque sei ser este o seu desejo – a pacificação das comunidades insulares, a libertação das mentalidades e o conforto de caminharmos juntos, em concórdia e júbilo, ao encontro da Felicidade Plena.
Aos dois amigos madeirenses, Padre Tavares Figueira e Padre José Luis Rodrigues (a que junto com toda a ternura o veterano professor, já falecido, Padre Alfredo Vieira de Freitas) eles, pedras de alicerce da nossa comunidade pelo apoio  e pela corajosa presença que nunca negaram ao Povo da Ribeira Seca.
Ao Senhor Bispo do Funchal – BEM-VINDO! – permita-me, em síntese, citar Paulo de Tarso, ressalvadas as legítimas assimetrias: “Por um só homem entrou a condenação no mundo. E por um só Homem entrou a salvação no mundo”!
Não fora o Segundo homem e a condenação do mundo pairava sobre esta comunidade… Só que a condenação dos homens significava para nós a Salvação de Deus!

09.Dez.19
Martins Júnior



sábado, 7 de dezembro de 2019

O SONHO DE UMA NOITE DE NATAL E A FRUSTRAÇÃO DE TODOS OS DIAS SEM NATAL


                                                            

        O Natal virou folhetim. Novela e folclore. Já ninguém passa sem ele. Até mesmo aqueles cujo credo passeia-se por outros valores – budistas, maometanos, agnósticos – até esses engrossam a manada festivaleira do folclore, dito natalício, embalados e anestesiados que vão na embriaguez multicolor do lampadário que toma conta das praças e rotundas. das avenidas e dos becos, onde sempre se aninha um simulacro de presépio para ilusão e surpresa do incauto transeunte,
         Por esta entrada, logo se adivinha que não é de novela nem de queima-foguetes a minha reflexão de hoje, inspirada nos textos do II Domingo preparatório do Natal. Muito ao contrário, é de inquietação e, mais que inquietação, é de frontal repúdio de todo o ‘feérico’ mural com que se pinta o Natal. É a abissal diferença que existe entre o sonho e a realidade.
         Vamos ao sonho. Houve, entre outros, um visionário de olhar penetrante, apanágio do espírito profético, que “viu” assim (e tornou público) o perfil do Líder criador do Natal futuro:
         Alguém, nascido da geração de Jessé, dotado de sabedoria e conhecimento, de conselho e  fortaleza, de ciência e justiça.  Será Juiz seguro, que não julgará pela aparência mas pela verdade de factos e pessoas. Afrontará e ferirá os tiranos e orgulhosos da terra, até implantar o reino da Justiça e do Direito”.
         Mas “viu” mais o Visionário Profeta  e não teve dúvidas ao anunciar que o Líder instauraria a apoteose inimaginável de uma “Nova Ordem” mundial, não só entre os homens, mas também no reino animal. Oiçamos:
         “O lobo habitará pacificamente com o cordeiro, o leopardo dormirá ao lado do cabrito, o leão e o vitelo comerão juntos, sem se agredirem. As próprias serpentes serão tão mansas que até uma criança desmamada poderá entrar nas suas cavernas, brincar com elas sem perigo de ser mordida”
Como analista da sociedade e conhecedor da dialéctica das relações humanas, o Vidente passa da linguagem metafórica ou da antevisão virtual para a realidade factual :
“Os habitantes do planeta não mais farão dano nem destruição entre si, nenhuma nação organizará treinos ou paradas de guerra, porque a Terra inteira ficará cheia da verdadeira ciência. Sob o estandarte do Líder (Ele será a bandeira dos povos) voltarão os exilados em paz às suas pátrias, todos os povos serão resgatados e acabar-se-ão todos os rancores e toda a inveja que destrói as nações”.
Eis o Natal – sonhado, inventado, programado por Isaías, 240 anos antes de chegar à Palestina o Desejado, o tal Líder anunciado!  Chegados que estamos ao Terceiro Milénio, alguém viu sombra desse sonho sobre este planeta que habitamos e conduzimos?...
O vaticínio de Isaías contava com o Deus Iahveh e o seu Messias para materializar a visão idílica do Profeta. Debalde. Impotentes, direi, alheios à arena dos mortais, eles não fizeram nada por isso. Nem farão. Os projectos humanos só braços humanos poderão realizá-los. A história o demonstra. Se o Mundo deu um passo em frentes fê-lo sob os pés calejados de homens e mulheres que nele se empenharam. E sofreram. Aí está o Nazareno, na sua vida existencial, concreta, a definir as linhas programáticas de acção. Ele cumpriu. E, para isso, pagou com a própria vida.
Hoje, aqui e agora, estão tantos braços erguidos, no trabalho, na ciência, na arte, nas praças públicas, lutando para que surja o Natal suspirado há milénios, desde que os humanos povoam a terra. Aí está Greta Thunberg e todos aqueles que em Madrid têm protestado, nestes dias, contra os ‘gigantes-monstros’ que matam o verdadeiro Natal dos povos. Aqui e agora, estamos nós, tentando tornar o sonho em realidade, ainda que saibamos que o Mundo continuará sempre em 24 de Dezembro…até ao fim dos tempos!
Apressemos o advento do Único, Autêntico 25 de Dezembro

07.Dez.19
Martins Júnior

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

“SENHORA PEREGRINA”



Ei-la que vem sobre “as salsas águas”, formosa e segura, ardente mas serena, qual ninfa de um Tejo novo acenando às novas gerações. Argonauta-Mulher, Senhora e Mendiga da terra, do mar e do ar, ela não vem só. Com apenas 16 dos verdes anos, não conseguiu acumular força e poder, capazes de mover o planeta. O poder que ela detém não é dela, mas de quem lho deu. E quem lho deu foi a consciência universal imanente em cada inquilino desta “Casa Comum”. Foi a ciência, mãe e pedagoga do crescimento humano. Enfim, foi a voz da Terra, esse Império dos Três Reinos, que nos foi dado de empréstimo e do qual tantas vezes nos jogamos fora.
            Digam o que queiram os detractores a soldo do negacionismo profissional, essa menina irrompeu, qual Joana d’Arc dos tempos hodiernos, por entre o tropel dos  invasores do planeta e veio desbravando espessos negrumes, tenebrosos mares de opulentos adamastores, eles mesmos estranguladores da vida que a todos pertence. Merece, pois, esta Senhora Peregrina todo o apreço e, mais que o apreço dela, merece que lhe oiçamos o apelo lancinante em defesa do Futuro. De passagem, hoje, por Lisboa, deu a Portugal aquele “clic” que nos enobrece, sim, mas sobretudo nos alerta e põe em marcha.
            Promissora geração esta que lidera o Dia Novo!
            No entanto, se algum espinho se aninha, remordendo,  lá no fundo de mim mesmo, é  aquele que Jean Jacques Rousseau já expressara, com fatal determinismo: “O homem nasce bom,  a sociedade é que o corrompe”. Digamos que Greta Thunberg é uma criança e são crianças as multidões que militantemente a acompanham. Crescerão, serão jovens, adultos. O chamado “mundo do trabalho” será o seu trunfo e o seu troféu, será ainda o seu pão e o seu abrigo. Os Donos do Trabalho, os benfazejos “dadores de trabalho” far-lhes-ão negaças e benesses: “Vens para a administração da minha empresa, da minha siderurgia, dar-te-ei garantias seguras nas minhas oficinas de armamento, abrirás a bom preço sucursais das minhas petrolíferas, ganharás o suficiente para não te preocupares com  esses efeitos de estufa. Tens o futuro nas mãos, o futuro, o capital, enfim, tens tudo a ganhar”, etc., etc..
            E temo que este cantar das sereias do harém dos adamastores sem escrúpulos, destruidores da vida, alicie os jovens que hoje juram corpo e alma pelo ambiente, contra as alterações climáticas… e se pervertam em anestesiados e, depois, entusiásticos aliados dos estranguladores do planeta. O capital, o poder, a ganância dos “Donos Disto Tudo” não têm limites. E a ‘necessidade obriga’…
            Tenho conhecido – e o público também – casos flagrantes de “estadistas”,  inicialmente incondicionais militantes das extremas-esquerdas, revolucionários incorrigíveis,  que mais tarde acabaram nos engordorados braços das direitas e garimparam até ao éden dos “GoldmenSachs”… Enfim, o anátema latino : “Corrutio optimi, pessimi”.
            Faço meu o apelo de Greta Thunberg e acrescento-lhe um voto: Que dos jovens que a seguram nenhum deles confirme o axioma de Rousseau. Para ela, a autêntica Senhora Peregrina dos tempos novos, canto-lhe o fado da paixão  e da coragem, bem português: “Que nunca a voz lhe doa”!
            03.Dez.19
            Martins Júnior
                 
           
           

domingo, 1 de dezembro de 2019

“INDEPENDÊNCIA OU MORTE” ?...


                                           

No 1º de Dezembro de Portugal concorrem e agigantam-se todos os Gritos do Ipiranga e todas as Proclamações de Revolta que sobressaltaram e libertaram a Humanidade. Desde a mais remota antiguidade, desde as mais férreas ditaduras, desde os mais sofisticados impérios sacro-profanos. Para abatê-los, alguém, alguns, uma multidão teve de sacrificar a própria vida.
Entre Independência e Morte não há disjunção, mas tão só conjunção. Formam um só corpo e uma só alma.
Independência e Morte!
Morte e Independência!
“Hipostaticamente” unidas.  De tal forma que a Primeira nunca subsistirá sem a Segunda. Tal como a mimosa flor que terá de morrer para dar lugar ao fruto nascente.
“Sine effusione sanguinis non fit remissio” – Sem efusão de sangue nunca haverá remissão. (Heb.9,22).
“Para dar fruto, (espiga e pão), o grão de trigo terá de morrer”.(Jo,24,12)
“Se o teu olho… o teu pé…a tua mão te escravizarem, corta-os e atira-os para longe”. (Mat.18,8)
Para seres livre, algo terás de renunciar.
Para seres autónomo e independente, algo terás de sacrificar. Tu, a tua casa, o teu Povo. Talvez a própria vida!
INDEPENDÊNCIA E MORTE!...
MORTE E INDEPENDÊNCIA!...

01.Dez.19
Martins Júnior   

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

SEMPRE ENTRE NÓS DESDE 1773!


                                                         

Hoje, a minha noite é toda uma vigília. Não de velório sobre a laje fria de quem se finou, mas de sentinela atenta, vigilante de um castelo onde nascem e crescem exércitos construtores de novos mundos e novas gerações.
É porque – já passaram 246 anos – uma jovem mãe passava as dores do parto para ‘deitar ao mundo’ uma das maiores almas nascidas em terro insular. Era Francisco Álvares de Nóbrega, o infante ilhéu, que aguardava a luz da madrugada de 30 de Novembro para assentar arraiais não só  na história  das terras de Tristão Vaz Teixeira mas nos anais de “todo o homem que vem a este mundo”.
É facto repetido que todos os anos Machico ressuscita das cinzas o seu patrono maior. Mas o que não é sobejo – nem nunca o será – é o nosso olhar desperto e o nosso espírito vidente diante daquele que antecipou uma era nova para os futuros inquilinos deste planeta que hoje é nosso.
Sei que o povo de Machico, através da sua Junta, tornará viva a memória de Francisco Álvares de Nóbrega em sessão comemorativa, na sua sede, pelas 19 horas. Mas, pela minha parte, volto o rosto para o sol nascente de amanhã e deixo-me ficar absorto mas dinâmico na contemplação de alguém que percorreu estes caminhos, sentiu as mesmas pulsões e atirou pata a chama do Futuro as achas-ideias que ciclicamente renovam a humanidade. Vejo-o na galeria dos Libertadores, lado a lado entre os heróis que deram tudo, a própria vida, para que os vindouros  alcançassem os vastos horizontes a que têm direito. Comparo-o, na mesma linha de rumo, ao altíssimo músico e co-autor do “Canto Solidário”, José Mário Branco – ambos tocados pela mais arraigada e dolorosa “Inquietação”, face a um mundo longe dos seus sonhos.
E enquanto a noite desliza no vale, vou trauteando como uma prece e um anseio longínquo excertos da canção que lhe compus em 2014:


“Irmão de Bocage e de Camões
Quebraste os grilhões
Onde outros algemam a Verdade

Longe da terra e dos teus que já não tinhas
Deixaste sereno a vida ingrata
E sepultaste  o monstro antigo
De vis garras mesquinhas

Hoje voltas de novo
Belo firme vertical
Alçando ao mar e à terra
Deste teu berço
Canto Imortal”

29.Nov.19
         Martins Júnior

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

UM FESTIVAL QUE FICA! PARABÉNS!


                                                      

É a vantagem deste fluxo e refluxo dos “Dias Ímpares”: a oportunidade que se nos oferece de descobrir a beleza escondida por entre as raízes rasteiras que produzem as altas e copadas árvores.  É este o saboroso fruto que saboreamos quando o nosso olhar se demora naquilo que parecendo vulgar assume, afinal, o fulgor dos grandes feitos.
Aconteceu no último fim-de-semana, nas oitavas da festa da patrona oficial da Música, a famosa e nobre de Roma, Santa Cecília. E aconteceu aqui entre nós, no Palácio da Arte dos Deuses, o Teatro Baltazar Dias. Foi a coroa real de um império, cujo poder só produz paz, abraços entre povos e nações, apetências incomensuráveis em que a própria libido se enlaça em asas de prazer e sublimidade. É essa a saudável romã que a árvore da Música oferece em dádiva aos caminhantes do trivial quotidiano. E quando tudo acontece e nasce de mãos polícromas, variegadas, universais no tempo e no espaço – todas iguais e todas diferentes – então chegámos ao novo Éden, outrora perdido e agora reconquistado.
Apetecer-me-ia continuar a discorrer na macia planura da poesia, mas detenho-me para dizer ao que venho. É meu desejo e meu dever desentranhar do palco do Teatro, transportar para toda a cidade e toda a ilha o que foi e o que significou o IV Festival Internacional de Bandolim no Funchal. Talvez se não tenha ainda descoberto o monumento global que significa este magno evento. Magno, não tanto pela estrutura do espectáculo e pelo pesado esforço da sua organização, mas precisamente pela corrente mágica que o segura e lhe dá energia. Quem olhar  “com olhos de ver” a génese deste encontro há-de constatar com espanto e encantamento que ele não nasceu no sumptuoso palco do poeta cego da cidade, o também dramaturgo Baltazar Dias. Não, este encontro ou festival vem de mais longe, melhor dito, vem de mais perto. O palco é apenas uma ponte de passagem para alcançar novos horizontes. Explico: o Festival de Bandolim nasce das mãos do Povo, gente como nós, do meio rural e do meio urbano, do chão das aldeias, dos bancos das escolas, das casas do povo, das humildes  associações de base popular, até atingir o primor das academias superiores. Os executantes, na grande maioria, são fruto do empenho de líderes naturais, tocados pela magia da arte, que no silêncio de tardes e noites, tiradas ao lazer de mestres e alunos, se entregaram apaixonadamente à teoria do solfejo, ao manuseamento paulatino do instrumento, enfim, à persistência inquebrável de ler e assimilar as obras do Grandes Génios da composição musical.
Quer isto dizer que, muito antes de subirem ao palco, os executantes madeirenses trouxeram consigo toda a riqueza e toda a beleza do Festival, fabricaram-nas desde casa. Passar pelo palco foi como vestir o fato domingueiro para, no dia seguinte, voltar à oficina de trabalho, isto é, ao estudo do solfejo, à interpretação das partituras, enfim, à autêntica cultura de raiz. E é aqui reside toda a importância ( e toda a atenção às entidades oficiais) no sentido de entenderem que este encontro não se assemelha a um estampido de fogo de artifício que tão depressa lampeja no palco como depressa se esfuma e vai para fora da barra. Acontece com muitos e campanudos Festivais. Mas este espectáculo é diferente: nasce cá e continua cá, merecendo daí toda a carinho e apoio dos responsáveis pela cultura regional e local.
Voltando à estrutura do Programa, os seus organizadores intuíram na perfeição os objectivos primordiais do Festival: trazer ao palco, dar a conhecer ao grande público a ciência e a arte que gente nossa, sobretudo jovens e adolescentes, têm construído na penumbra silenciosa do quotidiano. E, como finis coronat opus (o fim coroa a obra) ou a ‘cereja em cima do bolo’, apresentar exemplares internacionais, sobretudo os genuínos músicos italianos na arte do Bandolim, afim de constituírem o protótipo e um estímulo maior no ânimo de todos os nossos artistas e aspirantes aos cordofones clássicos.
A “TCM-Tuna de Câmara de Machico”, da responsabilidade do CCCS-RS (Centro Cívico-Cultural e Social da Ribeira Seca), saúda a iniciativa, agradece o convite que lhe foi endereçado  e apresenta a melhor disponibilidade em futuras edições.
Uma palavra final que perpassa, do princípio ao fim, neste escrito, como o “genérico” que atravessa todo o texto: o reconhecimento às duas almas (porque com alma e amor é que isto se faz) que foram os obreiros deste “Grande Concerto” – Norberto Cruz e Lidiane Duailibi. Sem eles nada disto aconteceria. Por experiência própria, avalio e ergo bem alto, em tom maior, o seu esforço, dedicação, ‘dores de cabeça’ e sobressaltos diurnos e nocturnos, para que tudo corresse bem e se resolvesse  no magnífico sucesso que se viu. Valeu a pena!
E… “Da Capo”: Começar de novo o próximo Festival!

27.Nov.19

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA: COMBATE CONTRA COMBATE=igual a= DERROTA TOTAL


                                                     

Dias e mais dias oficiais da violência contra as mulheres são outras tantas e mais noites de trágica angústia para elas. É útil a denúncia, certo, e expectável o sucesso das medidas punitivas contra os(as) agressores (as).Mas, à força de tanto combater, os despojos de guerra enchem as trincheiras da publicidade ‘rasca’ e produzem um efeito multiplicativo tal que quase anestesiam a consciência individual e, pior, a sensibilidade colectiva.
Perdoar-me-ão a ousadia de contrariar a palavra-de-ordem da campanha tantas vezes repetida: “Combater a violência…doméstica”. Significa, então, que nas quatro paredes da habitação, até na alcova do próprio casal, está instaurada a barbárie da selva: “dente por dente, olho por olho”. É o reino da Violência contra Violência, que, por sua vez, destila violência redobrada, sem fim à vista. Não será por aí que acabará o feminicídio nem deixarão de ensopar-se em sangue os lençóis do leito conjugal.
Sei que é um lugar comum avisar e preconizar que tudo depende da educação, Mas essa é que é a verdade, constatada pela narrativa diária. O fenómeno da violência radica muito mais fundo que no caso episódico, próximo do crime, seja o ciúme, seja o descontrolo ocasional, seja ainda a discussão de circunstância, por maior ou menor que seja o seu conteúdo. O pendor para a violência começa já na barriga da mãe, nos espermatozóides do pai, do avô, do tetra-avô, desenvolve-se no terreiro da própria casa, à mesa do jantar, avoluma-se no pátio da escola, para mais tarde consumar-se quando “chega a hora da raiva”. Tenho para mim que há pessoas insusceptíveis de diálogo, amputadas desde a nascença da mais elementar apetência para a harmonização de vontades, portanto, estruturalmente indisponíveis para aquilo que melhor define o homem e a mulher: a socialização. A tragédia acontece quando esta inibição neuro-vegetativa penetra no âmago da mini-sociedade, a mais íntima e determinativa: a família, a vida a-dois”!
Perdoem-me, uma vez mais, um segundo salto no imponderável e imperscrutável abismo da psico-sociologia da espécie humana. E é o seguinte: há ‘exemplares’ desta espécie que, pela constatação já enunciada, não teriam direito a formar casal ou, por outras palavras tecnicamente mais exigentes, deveriam ser consideradas “inelegíveis” para uma vida-a-dois, precisamente por se acharem ‘geneticamente’ inaptos para viverem em sociedade perfeita. Exagero?... Talvez. Mas tal não me impede de propor que, no âmbito ante-nupcial, deveriam os candidatos ao matrimónio, sujeitar-se a testes ‘psico-técnicos’, (como actualmente acontece na melhor propedêutica profissional) afim de avaliar da real e holística capacidade para ascender a tão distinto estatuto.
Dir-me-ão que estou a navegar na estratosfera perfeccionista do sonho. E concordo, Mas, ao menos, que se promova intensamente e por todos os meios possíveis, uma campanha de reeducação da sensibilidade individual e social para. se mais não for, corrigir deformações congénitas (elas são maiores do que pensamos) e preparar os indivíduos para o prazer de viver em comum. Mas como?... se o espectáculo quotidiano só nos debita cenas degradantes da vida de cônjuges suicidas, de políticos e governantes desvairados, ‘trumpatizados’, inclusive de hierarcas dogmatistas e magistrados de letra e não de espírito?!..
Enfim, dê-se prioridade à reconstrução do Homem-em-sociedade, antes que à guerra contra a guerra. Fale-se mais no apetecível sabor da paz familiar que no combate à violência. Porque combate atrai combate e violência gera violência! E neste estádio todos ficam a perder. É a derrota total!

25.Nov.19
Martins Júnior         

sábado, 23 de novembro de 2019

“A RAINHA” VAI NUA…


                                                    

 É de monarquias que hoje nos fala o penúltimo fim-de-semana de Outubro. Parece inscrita no ADN da espécie humana uma vertigem irresistível para o culto real, Desde a Velha Escritura dos Faraós do Egipto e das Teocracias judaicas até ao sonho neo-testamentário de reconquistar o Reino de Israel, o trono monárquico exerce uma fatal atracção na história dos povos, em manifesta contradição com os regimes democráticos, estes sim, expressão genuína do poder popular.
 Curiosamente, é no húmus nativo das religiões que essa tendência mais se afirma. “Sacerdote, Profeta e Rei”, assim se cognominava o David bíblico. E o próprio Nazareno (sempre avesso à auto-entronização) Ele mesmo não conseguiu fugir ao desejo dos populares, seus sequazes, ao ponto de O designarem como Rei, o seu Rei, o “Rei dos Judeus”.
Por sua vez, a Igreja - dita de Cristo – agarrou ciosamente a tradição da impotência popular e tudo fez para assentar arraiais na crista do Planeta. Fez-se rainha, entronizou um rei-pontífice, ergueu-lhe baldaquino e estendeu-lhe passadeira vermelha até às cúpulas do palácio, guardadas pela nova raça ariana subtitulada de guarda-suíça. Para cimentar o reinado, estratificou a Corte (a que chamou Cúria), hierarquizando e subdividindo estrelas e comendas: a uns chamou cardeais (senadores não eleitos) a outros monsenhores e arcebispos, a outros canonizou-os, para que não perdessem a chancela do divino. Ao nível dos sargentos militares, 'conegou' alguns e, no cabo e no porão da “barca de Pedro”, arrumou os ‘soldados rasos’, padres da aldeia e leigos aos molhos sem qualquer poder participativo nesse “Reino para-militar”. E para que em nada se diferenciasse do fastígio das profanas cortes imperiais, estabeleceu núncios e pulverizou-os por tudo quanto era Estado-Nação, não sem antes ter o cuidado de ocultar-lhes as mundanas credenciais sob a doce designação de “núncios apostólicos”. Imaginaria, alguma vez,  Pedro, o pescador da Galileia, ter ao seu serviço embaixadores plenipotenciários por esse mundo fora?...
Estava montado o Sacro Império que, miraculosamente, atravessou vinte séculos de mandato, um ‘invejável’ legado que prenuncia um não menos obeso volume de rara  longevidade planetária. Resta perguntar, em voz baixa e tão frágil que toque o fundo da consciência: “Será fácil ou será mesmo possível encontrar a sombra, sequer, do pobre Nazareno nas costuras de tão arregimentado palácio imperial?”.
Bem se tem esforçado o actual “Guarda-Maior” do Palácio por desentranhar daqueles ‘salões dourados’ o espírito de Jesus. Jamais consegui-lo-á. Pela racional evidência de que Ele não mora ali. Nunca morou. Ele o disse: “Os animais têm as suas tocas, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” E disse o porquê: “Porque o Meu Reino não é deste mundo”
     E se de um falso Rei se pode afirmar que ele vai nu, por que razão não poderá constatar-se uma outra evidência social: “A Rainha também vai nua”.  Por mais requintada e superabundante de formas que se apresente a instituição, enquanto não se converter à autenticidade evangélica, sempre se há-de dizer: Ela vai nua, porque despida da Verdade e da Beleza originais.

23.Nov.19
Martins Júnior

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

ENQUANTO ELE DESCE…A HUMANIDADE CRESCE !!!


                                                       
Nem palavras nem partituras. Porque melhor que ele ninguém as faria. Mas apenas – e acima de todas – a épica sentença que “vem de longe, de muito longe”:
                   
                  Se o grão de trigo caído na terra
                  Não morrer e não se sepultar
                  Ficará ele sozinho
                  Mas se morrer e se sepultar
Dará muito fruto.
Cem por um!
  
Ao vê-lo descer à terra entre cânticos e palmas, vejo crescer espigas mil sobre o manto azul que o embala no berço que é nosso.
Continuo a ouvi-lo desde aquela hora – já lá vão mais de quatro décadas - em que trouxe a Machico “aquela arma, a cantiga”, a sua…que também é nossa.
E se até agora não o fomos, de hoje em diante Je suis, Nous sommes tous, sim, Seremos Todos: José Mário Branco.
E o Mundo será Maior!
21.Nov.19
Martins Júnior

terça-feira, 19 de novembro de 2019

JOSÉ MÁRIO BRANCO


                       
VIVA…VIVA… VIVA…
Em mim
Em ti
Em todos !!!
Porque ele
“não meteu o barco ao mar
Para ficar pelo caminho”
19,Nov.19
Martins Júnior

domingo, 17 de novembro de 2019

A PONTE SEM TERMO TAMBÉM PASSA POR AQUI!


                                                     

      Em redor de uma mesa fez-se uma ponte com 445 anos de existências e milhares de quilómetros de distâncias.
É o monumento e é o milagre que nem pedras ciclópicas nem toneladas de betão nem cálculos de ferro fundido nem técnicas de engenharia poderão jamais construir. Só corpos e almas, só pensamento e emoção, só braços humanos em arco breve foram capazes de levantar  a ponte quase penta-secular que se viveu no coração do vale de Machico.
E a ponte prolongou-se por todos aqueles que ali trouxeram à ribalta da vida a força anímica e a mística astral das estâncias que habitam, desde a Ilha a Lisboa, Coimbra, Aveiro, Porto, Germânia, São Francisco.
Os ‘Ribeira-Sequenses’ agradecem a todos quantos se ofereceram para ser os pilares da grande ponte onde todos somos  Caminhantes do Futuro!

17.Nov.19
Martins Júnior   

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

BEM HAJAM!


                                                    

 Ultrapassado o Cabo dos Oito Décadas, entra-se no Oceano multicolor em que todos os cambiantes se dissolvem no Mar sólido  das certezas.
A certeza maior desta nova rota está na amizade e no apoio de todos quantos – amigos e amigas de perto e de longe – me ofereceram corajosamente neste percurso, que só é meu enquanto partilhado com o povo da Ribeira Seca. É este  que ocupa o posto cimeiro na minha gratidão.
Comigo estarão também Professores, Sacerdotes, Juristas, Escritores, Poetas, Intelectuais, Jovens, Trabalhadores, Mulheres e Homens, a quem dedico a festa dos meus 81 anos de vida.
Tudo acontecerá em 16 de Novembro de 2019, a partir das 18 horas no adro e igreja da Ribeira Seca, com particular incidência no convívio fraterno onde caberão depoimentos e sentidas emoções.
Convosco – todos  virão por bem – a Festa será maior!
Bem hajam!

15.Nov.19
Martins Júnior

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

UMA PONTE ENTRE DOIS MUROS: É O QUE SOMOS E É O QUE FAREMOS


                                                      

    Fascina-me todos os dias o derrube daquele Muro da Vergonha que Novembro trouxe à Europa e ao Mundo, em 1989.  Mãos de gente  o levantaram e mãos de gente o abateram.
Muros e Pontes. Sem muros não há pontes.
Fico pensando, então, que será essa, talvez, a nossa sina: metade do que somos constrói muros e a outra metade une os dois extremos e nascem as pontes.
Neste inelutável refluxo construtivo, todos os dias formulo este voto escrito na face de todas as manhãs:
Que cada muro que levanto seja o princípio e o apoio de um novo arco no grande rio da história que passa na minha aldeia!
Se tenho de ser o Muro, serei também a Ponte!
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Escrito no dia comemorativo da morte do genial construtor das grandes pontes sobre os oceanos, o “Infante de Sagres”, em 1460.
13.Nov.19
Martins Júnior   

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

“VOCÊ QUE OLHA E NÃO VÊ” – UM CASO QUINHENTISTA


                                                                     

A toda a hora e a todo o mundo e em todas as épocas deveria repercutir-se o pré-aviso de Vinícius de Morais – “Você que olha e não vê, Você que reza e não crê” – em jeito de samba-canção, mas de uma força iluminante que nos faz despertar daquela letargia sonâmbula  a que tão facilmente nos acomodamos. É o reino do “Deixa passar”, do “Sempre foi assim” ou academicamente, a  invertebrada era do laissez faire, laissez passer, enfim, o vírus da indiferença e do imobilismo.  
         Em todos os domínios, mas particularmente no âmbito das crenças, o império do imobilismo conservador assenta arraiais e lança raízes, com a mesma violência do eucalipto que seca tudo à sua volta: sequestra o pensamento, paralisa os braços e mata o mais leve aceno de voluntarismo. Daí nascem os dogmas e afiam-se as lanças pontiagudas das ameaças e condenações contra quem pretenda ver e não apenas olhar. Casos, eles aí andam quase sem darmos por isso, sendo o mais incisivo o episódio do autor da Teoria Heliocêntrica, o genial astrónomo Galileu Galilei, julgado em tribunal eclesiástico com base no dogma bíblico de que o sol andava à roda do planeta Terra. “Sempre fora assim”!
         Não resisto ao impulso interior de repescar os dois relatos, também colhidos na Bíblia, os quais fizeram parte integrante das leituras de ontem, domingo, nos rituais litúrgicos. O primeiro: a proibição terminante de comer carne de porco. (Macabeus, cap.7) Quem transgredisse este normativo seria condenado por ofensa de lesa-divindade. O segundo: Se um homem, casado com uma mulher judia, fosse vítima de morte, o irmão dele era coercivamente obrigado a casar com a viúva, sua cunhada, portanto. E se este morresse, o irmão  seguinte (se o tivesse)  assumiria o mesmo mandato. Até ao sétimo irmão. Sob pena da lei divina! (Lc.cap.7)
         Gerações e gerações de hebreus viveram traumatizadas por imperativos legais, os mais absurdos, insuportáveis à inteligência humana. Com maior incidência, ainda hoje, gerações e gerações de crentes vivem obcecados, esmagados sob o peso de fantasmas e ferretes emanados da “Lei de Deus”…
         Trago a uma atenção crítica estes considerandos para relevar distintíssimas excepções ao status quo acomodatício: aqueles e aquelas que têm olhos de ver, que ousam quebrar o imobilismo cego e sequestrador. Ontem e hoje, na cidade de Braga, presta-se homenagem a um Homem que marcou a sua época, (1514-1590), insurgiu-se contra uma instituição estática, (a Igreja do séc.XVI), tendo ganho, por recompensa, a hostilidade dos seus pares. Era ele Bartolomeu dos Mártires, arcebispo de Braga e reformador incansável dos usos e costumes da sociedade de então, ainda marcada pelo obscurantismo medieval, não obstante o avanço das sucessivas conquistas da era quinhentista. Foi no Concílio de Trento (1545-1563) que mais se notabilizou através da vigorosa proclamação que ficou na história: Ecclesia sempre reformanda – “a Igreja deve estar sempre em reforma, sempre em contínua renovação”.
         Bento Domingues, na sua crónica semanal do Público, define-o bem:
“O Papa Francisco acabou por descobrir que Bartolomeu dos Mártires tinha vivido, na sua pessoa e na sua acção, o projecto da reforma da Cúria, do conjunto da Igreja e o tinha precedido no combate ao vírus do carreirismo eclesiástico”.
         Associo-me à memória desse Homem, eternamente jovem: de ontem, de hoje e de sempre. Associo-me ao entusiasmo do Papa Francisco na  campanha que promove  contra o dogmático e imobilista Sempre foi assim!  Associo-me ao pregão de Vinícius de Morais – Você que olha e não vê – e todos os dias leio o seu pré-aviso escrito no ar que respiro!

         11.Nov.19
         Martins Júnior