terça-feira, 30 de abril de 2019

JOVENS AO PODER! ARRIBA ESPAÑA!



O espectáculo começou na ribalta. Agora está na rua. Mas é na retina do espectador que o cenário se consuma e define. Qual o olhar, tal a consistência e tal o efeito real da acção em palco. Assim sucede nos mais diversos movimentos da actividade humana, mas particularmente no “Grande Teatro do Mundo”  em que é protagonista a ciência-arte da Política.
As eleições legislativas de Espanha aí estão expostas aos analistas, fervem no caldeirão da opinião pública e são servidas conforme as pupilas e as papilas dos observadores, recolhendo cada qual o que mais sabe ao seu próprio apetite. Da minha parte, dois aspectos, ambos conectados, prenderam a minha atenção.
O primeiro: a afirmação da juventude no plano da acção governativa de um país. Diante dos nossos olhos desfilaram os futuros “donos” da respública, os condutores de um povo imenso (neste caso, Espanha) em cujas mãos está o destino de milhões de humanos, dentro e fora do território nacional. Vimos Sanchez, Rivera, Abascal e Casado, este o menos jovem e o maior perdedor. A “Revolta dos Jovens” toma proporções avassaladoras no panorama político das nações, na Europa também, cujo caso paradigmático é o de Macron, em França. Fora do espaço europeu, a tendência reforça-se, como é notório no caso Venezuela, com Juan Guaidó. Louvável, prima facie, este surto ascensional das gerações emergentes, pela energia e pelo espírito generoso com que abraçam tamanhas responsabilidades. E se os eleitores optam por esta viragem etária, não apenas pelo “fastio do mesmo” ou pelo impulso imediatista da mudança, mas tão-só em atenção ao potencial promissor dos mais novos, então serão de aplaudir tais opções.
No entanto, uma outra onda varre o mundo contemporâneo: o assustador crescendo das ideologias fascistas ou fascizantes, dos movimentos xenófobos, servidos pelo populismo primário, de tendência autoritária, quando não terrorista. E é este o segundo aspecto que, para além da relativa instabilidade da próxima estrutura governativa espanhola, se me desenhou no olhar e no consciente perante os resultados eleitorais de nuestros hermanos. Ao optimismo de um novo cenário político, europeu ou mundial, liderado por jovens, ajunta-se o espinho de uma dúvida que teima em ficar. Basta para tanto constatar a arremetida “furiosa” do Vox, de raiz assumidamente franquista, que no Parlamento espanhol pretende sem escrúpulos reinstaurar o fascismo e a tortura do “Generalíssimo”, que tantos milhares de vítimas causou no país vizinho. A este propósito, não é possível esquecer o ditador português Oliveira Salazar que, tendo sido eleito deputado pelo Centro Católico em 1921, ministro das Finanças em 1926 (37 anos), idolatrado como o “Jovem Salvador da Pátria”, acabou por impor durante 48 anos o regime ditatorial mais repressivo do século XX em Portugal.
Saudamos todos os ideais que a juventude projecta para o mundo, desde que os seus titulares, uma vez eleitos, não comecem a envelhecer. É que há corporações e movimentos, onde se entra jovem e acaba-se caduco e corrupto em pouco tempo.
Bons ventos e bons andamentos para Espanha e para o Mundo!

29.Abr.19
Martins Júnior     





sábado, 27 de abril de 2019

PRISÃO DE CAXIAS: ONDE MORREU E RENASCEU A LIBERDADE!


Só o sente quem o ama. E para amá-lo é preciso sofrê-lo.
         Não foi preciso que alguém escrevesse estas palavras nessa tarde de sol de Abril em frente da cadeia de Caxias. De cada rosto, de cada fala e sobretudo de cada silêncio saía perfeita a legenda do que se estava a passar. Eram os 45 anos cumpridos do vaticínio clamoroso de Manuel Alegre:
Hei-de passar nas cidades
Como o vento nas areias
E abrir todas as janelas
E abrir todas as cadeias
         Gente madura e gente a caminho dela. Homens, Mulheres, Jovens – filhos e netos dos “inquilinos forçados” de há mais de quatro décadas. E Crianças também, que “são o melhor do mundo”. Quando chegámos ninguém as via. Mas o melhor daquele mundo aconteceu quando, surpreendentemente, se abriram os portões da cadeia e de lá irromperam em revoada crianças e mais crianças, de cravos nas mãos e vozes brilhantes, saltitantes, gritando “Liberdade, Viva a  Liberdade” Depois, dirigiram-se espontaneamente aos presentes e sussurravam ao ouvido de cada um de nós um íntimo segredo guardado desde a nascença:” Viva a Liberdade, 25 de Abril Sempre”, enquanto nos ofereciam cravos e a sacola onde estavam gravados os já citados versos do Poeta da Liberdade.
         Impossível conter a emoção ao ver ali presentes muitos daqueles que outrora viveram, morrendo aos poucos, entre algemas e torturas e, agora, novamente unidos e abraçados, festejando quase meio século da liberdade reconquistada. Patente no seu olhar e em todo o seu semblante um misto de dor e esplendor, partilhado por todos os presentes. Naquela casa fatídica gerou-se “o dia inteiro e limpo” de um novo Portugal. Eloquente, pela sua simplicidade e quase apagamento no meio da multidão, o grande Obreiro da Libertação, Otelo Saraiva de Carvalho, a quem foi prestada homenagem pelos intervenientes, entre outros, Manuel Alegre e Francisca Van Dunem, Ministra da Justiça.
           Momento alto o encontro com personalidades que, para nós ganharmos a liberdade em 1974, ficaram antes sem a sua liberdade em deportações e prisões. Caxias, Peniche, São Paulo de Angola, Tarrafal. Alguns deles, tive eu a alegria de trazê-los a Machico, em missões de esclarecimento, quer pelo discurso quer pelo canto, lembrando-me o saudoso Zeca Afonso e o Luís Moita, ao qual me unem traços de profunda afinidade no sonho, na luta e na vida. Guardarei até ao fim a honra deste encontro que a foto registou.
         Dia Grande em Oeiras, onde uma preciosa exposição, da responsabilidade da curadora, (também historiadora do 25 de Abril na Madeira) Profª Raquel Varela, fornece um conhecimento histórico-científico do mais alto perfil sobre a Revolução dos Cravos, a qual bem-vinda e útil seria se rumasse até à nossa Região.
         Abril e o Dia Novo só os revive quem os amou e sofreu para aqui chegar! 

          27.Abr.19
         Martins Júnior

quinta-feira, 25 de abril de 2019

EM MACHICO, A RENASCENÇA DE ABRIL

                                                                 

Digam lá os cientistas da vida, expliquem biólogos, sociólogos, filósofos -  e até “sábios da escritura – que segredo é este da natura”: aos 45 anos,  a vida se renova, as células reanimam-se  e um organismo a cair no meio século reveste-se de infância e juventude.
E isso foi o que Machico viu hoje e testemunhou a céu aberto. Viu, cantou, exultou tanto tanto que até a pedra roliça da calçada do antigo Largo parecia recuperar o brilho e a euforia de há quatro décadas.
   Foi o 45º aniversário do 25 de Abril de 1974! Livre de protocolos enfatuados, solto na praça pública, infante renascido naquele mesmo berço de outrora, onde se cantou a plenos pulmões a “Festa do Povo/ O Povo que trabalha/ E faz  o mundo novo”!!!   
Mas hoje tudo se transfigurou. Reconhecendo, sem sombra de dúvida, a gratidão e a homenagem à geração que fez o “25 de Abril”, hoje  tudo foi entregue às crianças e jovens de Machico. Foram eles os protagonistas da festa. Desde os do Ensino Básico até aos do  Secundário, o centro da velha cidade pareceu regressar àquela hora primeira de ver a luz do sol nascente.
   Enquanto em outras paragens e em outros salões doirados, vedados ao Povo, tarefeiros da política esguedelhavam argumentos e bracejos já poluídos pelo tempo, aqui só embalava Machico uma onda ininterrupta dos cantares de Abril, evocando Zeca Afonso, José Mário Branco, Vitorino e Janita Salomé, todos estes que já tinham cantado ao vivo em terras de Tristão Vaz.
Belo, belíssimo. Doce e saudável
Em jeito de cartaz-mensagem, ficou patente que o “25 de Abril” conjuga-se em três tempos verbais: Houve, Há e Haverá:
Em mim e na minha geração, Houve “25 de Abril”!
Hoje, aqui e agora, com estas crianças e jovens, pais e professores, “25 de Abril”!
Amanhã, com as gerações vindouras, podemos augurar que Haverá “25 de Abril”!
É assim que se escreve nas estrelas e no chão da terra: “25 de Abril-Sempre”, enquanto vozes frescas e sadias fazem ecoar pelos fundos do vale esta canção:

Ó Terra Nova, raiz de um mundo novo,
Gente de luta, mas formosa e gentil,
Tu serás sempre a voz do nosso Povo
Machico sempre – sempre Terra de Abril”

25.Abr.19
Martins Júnior

terça-feira, 23 de abril de 2019

CANTO LIVRE AO LIVRO UNIVERSAL


                                   

Já foi pedra, espelho de água, galáxia celeste
esparsa sobre o nosso olhar-leitor de estrelas
Já foi papiro, iluminura e pergaminho
sob os dedos mágicos de místicos conventuais
Depois foi verde ramo e tronco virgem
que o lenhador arrancou à floresta
e fê-lo gemer entre os gonzos dentados
e untados de breu
que Gutenberg deu ao mundo
Oh perfume sensual de horto fechado
Igual à fragância de mulher
quando ele se abre ao nosso olfacto
 e se entrega na palma da nossa mão
Livro
companheiro e servo de todas as horas
mesa posta de lautos sabores
e discreto municiador de armas pesadas

Ubíquo e íntimo
Universal e único
Tão puro e epidérmico
Que talvez faças de mim o Livro que tu és

Ele viaja em toda a parte
Para encontrá-lo
Basta um olhar vidente
E um coração que o ame…      

Dia Mundial do Livro, 23.Abr.19
Martins Júnior


domingo, 21 de abril de 2019

JESUS: MORTO OU VIVO?


                                                          

Em dia de Páscoa, ouso interpelar-Te, Jesus, em forma de Oração:
Perdoar-me-ás a inteira lealdade com que me confesso. É que não me preocupa saber se voltaste fisicamente à vida nem nunca daria um passo para encontrar o teu corpo ressuscitado. Porque durante um percurso existencial de 33 anos nunca usaste a força física nem sequer o vigor saudável do Teu corpo como objecto de  confronto, muito menos de talismã de vitória contra os Teus mais figadais opositores. “O Meu reino não é deste mundo – disseste-o diante do juiz governador Pôncio Pilatos - o Meu é  o reino da Verdade”. E já antes tinha-lo dito à Samaritana: “Podes crer, mulher, que os verdadeiros adoradores do Meu Pai são os que O procuram em espírito e verdade”.
É por isso que o que mais procuro – desculpa a frontalidade – não é armação biológica do teu composto orgânico, mas a pacífica e eficaz armadura do Teu espírito, o princípio activo da Tua Ideia. Leio Paulo Apóstolo – “Se Cristo não ressuscitou  é vã a nossa fé” – e, sem prejuízo da narrativa bíblica, leio a ressurreição da Tua mensagem, o propalar daquele “fogo” purificador que trouxeste ao mundo. Os Doze conheceram-Te durante três anos, beberam e comeram contigo, mas viste o resultado: um traíu-Te, outros abandonaram-Te e até Pedro, tido pelo mais confiável, negou-Te, alegando que nem Te conhecia. Não lhes faltou a presença do Teu corpo. Faltou-lhes, sim, a força do Teu espirito.
É assim, para meu desencanto, que Te vejo mais morto que vivo neste mundo que habito. É verdade que homens e instituições erguem-Te no topo de tronos e altares, mas Tu aí sentes-Te num cadafalso, como no Pretório de Pilatos. Porque no sopé desses majestosos mausoléus, só existe a arena tribal onde os mesmos homens se encarniçam como feras, destroem a paz, afogam a alegria de viver, matam a inocência e a justiça. Matam-Te de novo. Podem apregoar hossanas e alleluias colossais, mas é de um canto fúnebre o trágico colosso das suas vozes. Porque eles preferem o Teu corpo ressuscitado em vez do Teu espírito redivivo. Foi por isso que Pascal, amargurado, escreveu que “Jesus continua em agonia até ao fim dos tempos”.
Mas, Jesus histórico e eterno, tento desbravar montanhas e vales e encontro-Te  vivo – mais nos vales profundos que nas montanhas altaneiras – vejo-Te em tanta gente anónima que cumpre, que age com amor, que luta na ruralidade do seu existir ou na escola ou nos hospitais ou nas ruas denunciando, como Tu, Jesus, no Teu tempo, os crimes sociais e exigindo leis justas para esta “Casa Comum” onde todos tenham o mesmo direito à vida. Esses são os que amam o Teu espírito vivo mais que o Teu corpo idolatrado. Por esta razão, atrevo-me a completar o pensamento de Pascal: Assim como “Jesus continua em agonia até ao fim dos tempos”, assim também Jesus continua ressuscitando, em renovada manhã de Páscoa, até ao fim do mundo!
Doce Nazareno, Líder invencível, Divino Mestre, não serei eu o Tomé, inconsistente e primário, que só entendia a linguagem empírica da fé no Teu corpo físico. Ajuda-me a encontrar todos os dias e seguir com afã a Tua Ideia, o Teu espírito, o Teu plano libertador.

Assim é e assim será a “PÁSCOA NO CORAÇÃO DE ABRIL”!
  Domingo de Páscoa, 21.Abr.19
Martins Júnior

sexta-feira, 19 de abril de 2019

O DIA SEM PALAVRAS


                                              

   Desnecessárias. Inúteis. Prejudiciais.
         No entanto, elas aí abundam, afogam e cegam-nos. As palavras, os gestos, a encenação do crime, o espectáculo da vergonha humana erguida em estandarte – enchem templos e praças como muros de bronze, só com um único  projecto maquiavélico: esconder o crime, apagar as pegadas dos criminosos e fazer da Vítima um objecto público de comiseração e derrota.
         “Vejam bem”! E tanto chega para dispensar palavras:
         Os ditadores religiosos entregam ao tribunal civil e político Alguém, com a sentença capital previamente lavrada: “Tem de ser morto”. Corpo de delito: fez o bem, defendeu os indefesos e abriu os olhos ao povo manietado e esmagado pelo poder da religião oficial.
         Por isso, no mais íntimo de mim mesmo, clamo e quase sufoco de indignação: Hoje é dia do mais profundo protesto e do mais decidido plano de acção.
Porquê?
Cito Blaise Pascal: “Jesus está em agonia até ao fim dos tempos”. Basta abrir os olhos e ver! Talvez bem junto de nós. Os assassinos de Jesus andam por aí, muitos deles amontoando palavras e majestosas cenas, as muralhas atrás das quais se escondem os autores do crime.
Cito Padre António Vieira, ele mesmo vítima da ditadura inquisitorial: “Antigamente, eram os ladrões que pendiam do alto das cruzes. Hoje são cruzes que pendem do peito dos ladrões”.
Cito, finalmente, o Cristo na subida para o monte Calvário, quando disse às mulheres de Jerusalém que choravam por Ele: “Por mim ninguém chore”!
Hoje não é dia de palavras nem de encenações. E já as gastei tantas, só para apagá-las do meu código de acção e transmitir a quem o sinta este apelo: O nosso Líder-Jesus não quer lágrimas, quer actos . Não precisa de enterros fictícios, exige vida em crescendo contínuo, individual e colectivo. O nosso Cristo não pede que O preguem mais na cruz, o que Ele quer é que O tirem de lá. Foi o que Ele fez no seu país durante os escassos anos que ali viveu.
Será essa, Senhor, a Tua e nossa Páscoa!

19.Abr.19
Martins Júnior
     

quarta-feira, 17 de abril de 2019

TRIÂNGULO DA MORTE NA SEMANA DA VIDA



No coração da Semana Maior falecem-nos a força e a voz perante a morte que chega envolta em fogo e sangue. A grandeza que somos, afinal, espelha-se na fragilidade do mais imprevisto episódio de um momento fatal. Ontem, uma catedral em chamas. Hoje, o holocausto em 29 fogueiras de sangue. Amanhã e depois, a Vitima Suprema no alto do Calvário.
Paris, Madeira, Jerusalém! Neste triângulo tão absurdo quanto paradoxalmente familiar, procuro na morte um sentido para a vida. Tento encontrá-lo na geometria do mesmo triângulo de braços abertos para o mundo: a frágil transitoriedade que somos torna-se grandeza perene se formos capazes de dar aquilo que temos – a própria vida como a deu a Suprema Vítima de Jerusalém, nesta Semana Maior!

17.Abr.19
Martins Júnior  

segunda-feira, 15 de abril de 2019

PARIS A ARDER E O MUNDO TAMBÉM


                                             

Ninguém dorme esta noite
Porque é de cinzas e lume a enxerga
Onde se deita

L´Île de France já não é ela
É arquipélago planetário terra nossa
Crematório total
Onde vejo tombar marmóreos gritos flamejantes
Mãos erguidas em ogivas milenares
Soberbas coroas napoleónicas
E braços ressequidos dos escravos
Que levantaram Notre Dame

No inferno dos homens
Jazem em chamas a Senhora Nossa, Rainha e Mãe
E Joana Princesa, a d’Orléans
No segundo holocausto da fogueira
…………..
Até quando, humanos de aço,
Será preciso regar com lágrimas
As cinzas do que fomos e somos
Para que chegue outra vez
A primavera?!
……………….
Lá longe uma criança
Dorme proscrita no chão da areia
Uma onda breve serve-lhe de mortalha.

Mais uma catedral a arder à beira de água
Sem ter ninguém que lhe valha…

15.Abr.19
Martins Júnior

sábado, 13 de abril de 2019

COM ELE, ENTRÁMOS TODOS NA CIDADE LIBERTADA


                                                           

Não fomos nós, ramos verdes,
Oliveiras em flor palmas e violetas
Que Te tecemos a alcatifa franca dessa manhã
Foste Tu quem nos ergueu mais alto que as estrelas
Porque és Tu o verde da esperança
Que em nós habita cresce e avança

Também não fomos nós, túnicas rubras,
Mantos e mantilhas espalhadas pelo chão
Que te abrimos a entrada triunfal na cidade de Sião
Foste Tu que douraste o nosso traje sem brilho
Porque Tu és o fogo és a paixão
De que se nutre o Povo Teu filho e Teu irmão

As pedras do caminho
Lajes romanas ou basalto roliço
Não fomos só aquela retaguarda
Sentinelas sem farda
Contra os monstros das trevas que Te ameaçavam
Tu é que foste o promontório  que nos defende e liberta
Foste e serás sempre a Pedra Angular
Da nossa luta seguro Avatar

E até o pobre jumento
O mais humilde do seu reino
Não foi ele que Te transportou
Tu é que o transfiguraste e a todos seus iguais
Pássaros  répteis  peixes  marsupiais
A todos sublimaste mais alto que os dromedários de Sabá
E mais nobres que as carruagens imperiais

Não foste apenas Tu
Que entrastes na Cidade Santa
E afrontaste a sacra ditadura de Jerusalém
Fomos nós
O Povo frágil e triste das terras de ninguém
Entrámos todos na Terra Prometida
Onde correm o leite e o mel,  a Paz e a Vida
Contigo
A terra voltou a ser nossa
E o sonho antigo
Fez-se mundo novo
Hossana Hossana´
Domingo de Ramos - Vitória de Cristo
E Vitória do Povo!

13.Abr.19
Martins Júnior


quinta-feira, 11 de abril de 2019

PARADOXOS PUBLICITÁRIOS




Se os homens não se medem aos palmos e se o espírito não tem peso,
Como podem os livros vender-se a metro e a cultura avaliar-se ao quilo?

11.Abr.19
Martins Júnior

terça-feira, 9 de abril de 2019

O PERDÃO EM RITMO BINÁRIO


                                                                

                               
Com o coração se o dá
e com a mente se o pede

Para perdoar
basta um gesto um olhar
sem sair do seu lugar

Para pedi-lo e alcançá-lo
hás-de sair do teu sossego
subir a pulso sem corda nem bordão
rasgar os pés no estreito vão
onde ele mora
o doce fogo do perdão

Talvez aí à tua porta
talvez colada a ti
ainda geme quase morta
a alegria de alguém
que não deixaste crescer

Ficando - perdoas
Saindo - alcanças
O perdão das horas boas
O sabor das águas mansas

09.Abr.19
Martins Júnior    

domingo, 7 de abril de 2019

SENTENÇA ‘ESCANDALOSA’: A MULHER INFIEL; OS ACUSADORES ADVOGADOS, BANQUEIROS E HIERARCAS, TODOS CORRUPTOS; UM JUIZ FORA DE LEI


                                                                   

           O guião tem todos os ingredientes para tornar famoso, por desconcertante, o filme proposto: para uns será uma almofada de paz no turbilhão do mundo rolante, para outros será o tumulto destruidor da paz dogmática em que vegeta a podridão dos cadáveres ambulantes.
         Estamos no grande tribunal do mundo. Nada lhe falta para a tramitação processual do ordenamento jurídico vigente: o réu, a acusação e a defesa. Neste fórum judicial ganha a defesa, estrategicamente promovida ao estatuto de juiz da causa.
         Oh, tomara haver aí um cineasta de génio (e de uma coragem do tamanho do génio) para projectar nas paredes de todo o planeta o maior, o mais belo, o mais transcendente julgamento da história humana – infinitamente superior às sentenças de Salomão!
         O guião – verídico e não imaginativo – lemo-lo e ouvimo-lo hoje no Livro, mais precisamente em João, o Evangelista narrador. Uma mulher é apanhada em flagrante delito de adultério. O legislador comina o crime com a pena capital, sujeitando-a ao apedrejamento em acção sumária. Apresentam-se, de imediato, a acusação e a defesa. Acusadores e defensores têm entre si um conflito congénito, irresolúvel, sem qualquer hipótese de conciliação, já por força do respectivo estatuto, já e sobretudo porque há uma luta feroz, mais que tribal e assassina, por parte da acusação – os escribas-doutores da lei, os homens do dinheiro - os fariseus – e os titulares do poder religioso – os pontífices Anás e Caifás e seus subalternos. Do lado da defesa, um só: o operário carpinteiro de Nazaré, promotor de um mundo novo, liberto da ditadura e da hipocrisia dos poderes reinantes, consignados aos acusadores.
         É preciso assentar a visão certeira no único móbil motivador da sanha dos acusadores: servir-se da ré para incriminar o Defensor, o Nazareno. “Era uma armadilha perfeita”, esclarece o próprio narrador, ao transcrever a pergunta capciosa e peçonhenta dos acusadores, seus inimigos figadais: “Mestre, o que é que dizes a isto? Aplicam-se os normativos da Lei de Moisés, ou achas que não”?   Que terrível dilema! O vírus fatal da acusação transforma o Defensor em Juiz. O incumprimento da Lei, despenalizando a ré,  conduzi-lo-ia infalivelmente à pena de morte.
         Mas o Mestre, de uma intuição acutilante, conhecedor do íntimo dos corruptos acusadores,  não hesitou em tomar a defesa da pobre mulher. O pó do chão onde a cena se passou foi o código penal mais eloquente e luminoso  para ditar a sentença. Vale a pena o texto citado. “Todos eles foram abandonando o recinto, a começar pelos mais velhos”. Em pleno tribunal a céu aberto, só os dois: a mulher e o Defensor-Juiz: “Eu não te condeno, mulher, vai em paz, mas dá um novo rumo à tua vida”.
         Toda a Jerusalém, casas, terras, pessoas, foram tomadas de sobressalto perante tão estranha sentença. Quanto ao Mestre, cresceram os rancorosos impulsos das classes dominantes, os acusadores, que à uma se acirraram até aquela noite fatídica em que, pelas mãos de um traidor, viram consumados os seus ferozes intentos.
Transpondo literalmente para os nossos dias o guião de há dois mil anos, nem seria necessário o cineasta de génio e de coragem. Basta apenas abrir os olhos e ver aqui e agora a reprise ou a clara reconstituição dos factos descritos: os mesmos legisladores corruptos, os mesmos juízes netos e bisnetos de moura prontos a condenar a mulher, os mesmos hierarcas galopantes carreiristas (como diz Francisco Papa) carcereiros dos templos, dogma numa mão e excomunhão na outra, enfim, os que, em nome da lei mais esquálida e cruel, matam o que de mais nobre e digno tem a psicologia humana. E, de longe a longe, de everest em everest, encontraríamos um argentino emigrante, inquilino romano, viajante sem medo, clamando a todo o mundo que  mais importante que o amor à lei e mais forte que ela é a Lei do Amor.   

          07.Abr.19
         Martins Júnior

sexta-feira, 5 de abril de 2019

MALAS-ARTES DA INFORMAÇÃO


                                                    

                                                           

Mais depressa dissesse no último blog que “todos os dias são 1º de abril” – e tão depressa veria escrito na terra e no ar a sua confirmação. No fogo cruzado da opinião pública e publicada, seja ele fogo amigo ou fogo inimigo, elas aí proliferam e multiplicam-se as amibas da informação, da mais rasteira à mais descomunal, até envenenar o chão que pisamos e o ar que respiramos. E o resultado não se faz esperar: o tédio, a anestesia geral, a aversão a tudo quanto destila notícia, mesmo que se apresente como canal, globo, mundo informativo, expresso, correio ou gazeta.
Mais grave e nauseabundo, porém, é quando a contradição estala na própria central de informação. Acontece, não pouco frequentemente, logo a partir da porta de entrada (leia-se, título) da sede noticiosa. Entra-se na casa, sobe-se pelas escadas, percorrem-se as salas e os cubículos, (leia-se, as páginas ou os conteúdos interiores) e, afinal, descobrimos com um misto de surpresa e indignação que o título não corresponde à inteireza da notícia; pelo contrário, elide a verdade dos factos e ilude despudoradamente o espectador ou consumidor da informação. Intencionalmente ou não, refém de ideologias ou subserviente às ordens do dono-capital da casa, o embuste fica a descoberto. Subverte-se a verdade e revolta-se o destinatário. É manifestamente um caso de publicidade enganosa, em que o conteúdo desmente o continente (leia-se, o rótulo, o título).
         Para que não restasse sombra de dúvida, a prova veio logo a seguir ao 1º de abril. O reclame da casa falava de uma “Carta Aberta contra a greve dos enfermeiros” e carregava-a de pretenso peso verídico, acrescentando que “Constantino Sakellarides e Fernando Rosas são alguns dos 120 signatários”. Ora, no desenvolvimento da notícia, lê-se que um dos autores da Carta afirma peremptoriamente que “o principal foco da mensagem é o poder político, para colocar a reforma dos recursos humanos na agenda política”. Eis, portanto, a letra e a interpretação essencial do noticiado, as quais deveriam figurar como título, para evitar leituras contrárias ao seu objecto nuclear. A um leitor comum, a informação redactorial, vista do título de 1ª página, elege como alvo os enfermeiros grevistas e toda a classe. É um facto indesmentível que a Carta também se dirige aos enfermeiros, mas como proposta estratégica de acção, mais precisamente: “Temos de conseguir que as nossas reivindicações sejam vistas como justas e não antagonizar a sociedade”.
         Não importa qual o periódico e quais os jornalistas (os casos repetem-se todos os dias, aqui e além), porque o que está em causa é a subversão do essencial em prol do acidental. Essencial aqui era a luta pelos “recursos humanos” exigidos ao poder político. Acidental e como efeito secundário, o esclarecimento e o respeito pela sociedade envolvente. É o risco perigosíssimo de fazer coabitar a verdade com a mentira, enfim, as meias verdades, claudicadas e incompletas.
         Sirva este breve apontamento de guião para entrar na selva do mundo informativo, disseminada por tudo quanto possui o peso de influenciar-nos pelo papel e por todas as sofisticadas redes comunicacionais.
         Quanto à imprensa escrita (e sem desprestígio de quem a faz) conforta-nos a observação, sábia e mordaz, de Charles Péguy: “O diário de ontem já é mais velho que a Odisseia de Homero”.

         05.Abr.19
Martins Júnior

quarta-feira, 3 de abril de 2019

FARSA E PERIGO: TODOS OS DIAS SÃO 1º DE ABRIL


                                                           

Noite das bruxas só há uma, dia das petas é todo o ano.
Passada a ponte, chegámos à outra margem, onde a mentira é boba e rainha. Os jornais que se ataviaram com as mais azougadas ‘chinesices’ saíram logo no dia seguinte para deslindar e confessar a originalidade das mentiras que aos quatro ventos espalharam no 1º de Abril. Uma delas (ridicule, mais charmant) foi a do matutino que tirou do bestunto o “atumbarão” que uma traineira despejou no estuário do Curral das Freiras. E o zé-magala diverte-se, comove-se até ao tutano.
Mas o que poucos descobrem na gargalhada das petas é que elas são pedidas e servidas à nossa mesa com o ‘papo seco’ de cada manhã. Parece que dia sem petas não é dia. Logo de madrugada, ajuntas o maço de papel tipografado a que chamamos jornal e tens de engolir na mesma xícara de café as mais pedregosas charadas que te querem impingir os escribas-pitonisas falidas de Delfos. Seja verdade ou mentira, não há filtro que nos valha. Depois lavamos os tímpanos e arregalamos os olhos para deixar entrar as rajadas mais desconexas do pivot de serviço.
Mentem-nos  (e nós agradecemos)  os boletineiros do tempo, os boateiros polidores de esquina, as vizinhas do lado, os camaradas de ofício, as pagelas horárias dos comboios e aeronaves. Mentem-nos e riem-se de nós os fazedores de leis, os palradores, roedores de queijo fresco, as araras de gaiola dourada e os periquitos charlatães, pica-paus intermitentes nos paços dos terreiros do povo.
Mentem-nos os tribunais pela boca de testemunhas sem freio. Mentem-nos os menus da feira do tecido e da tesoura, os curandeiros oficiais e os clandestinos de trazer-por-casa. Mentem-nos os DDT (os Donos-Disto-Tudo) da finança, da banca deles e da enxerga nossa, os salvadores das pátrias, os “vampiros” encapuzados do poder,  que dão com uma mão e roubam por outra. Também os beneméritos cavaleiros da égua de Tróia que traz na juba ouro e prendas de Ofir, mas no bojo um paiol de metralhadoras letais. Até nos mente a Bíblia, quando atesta que a mulher só vale uma costela do homem ou que o sol é que anda à volta da Terra. E mentem as religiões (todas!) quando vendem, por decreto, o mundo do além e a sua felicidade pelo couto de um vela e pela monotonia autista de uma missa.
Em suma, gostamos de ser enganados, fintados, mordidos todos os dias pelos caninos ‘amigos’, os de perto e os de longe. E até pagamos e pomos ao seu serviço as deslumbrantes conquistas da ciência e da tecnologia, face-book’, twitter, instagram, enfim, as armas poderosíssimas do talento inventivo dos humanos. O mais grave, senão mesmo criminoso, é deixarmos deliberadamente uma criança ou  um jovem na rua do embuste, na cova dos leões da tecnologia, serventuária da mentira generalizada.
Se há datas que dispensam a entronização de um dia, uma delas é o “1º de Abril”. É como se diz do Carnaval ou, paradoxalmente, do Natal. Eles são sempre e quando os quisermos. E, para nosso escárnio e nossa vergonha, o vulgo quere-o todos os dias, o 1º de Abril.      
  Um voto final: Que fique um dia, só um, para o ‘populucho’  regabofe grotesco do 1º de Abril. E que em mais nenhum dia e nenhuma hora do ano se franqueie a porta aos fabricantes de petas que depois se transformam em fabricantes de petardos.

03.Abr.19
Martins Júnior

segunda-feira, 1 de abril de 2019

AS CHARADAS DO PRIMEIRO DE ABRIL


                                                    


Em dia de mentir, não há outro remédio senão fazer greve à palavra.
Melhor ainda será cruzar o rasto das palavras ditas, palavras vistas, palavras encriptadas – via imprensa, rádio, ou televisão – pois que este é o dia de expor ao sol a originalidade de “fintar” os seus crédulos consumidores.
Só amanhã sabê-lo-emos. Enquanto isso, resta pôr à prova a capacidade interpretativa desses fiéis clientes  e a cada um deles formular a ‘pergunta da ordem’:
Quantas mentiras  (vulgo dictu pêtas) te enfiaram no dia delas os diários, os microfones, os televisores?
É um exercício charadístico de longo alcance, como demonstrarei amanhã, depois de passar a ponte quebrada sobre os rios que separam a verdade da mentira. Até lá.
01.Abr.19
Martins Júnior