segunda-feira, 5 de abril de 2021

DIAS E NOITES DE PÁSCOAS ANTI-PÁSCOA

                                                                            


           Suicídio ou Assassinato – tudo acabou (ou recomeçou) na manhã de Domingo. E se me ocupei durante as últimas duas semanas sobre o caso, sempre em aberto, impõe-se agora que acompanhe também o seu epílogo. Se não com o mesmo olhar atento e crítico, ao menos com a ajuda de quem, antes de nós, se debruçou sobre tão assombroso quanto enigmático acontecimento

         Tertuliano, talentoso escritor cristão do século II, acerca da Ressurreição afirma: “Creio porque é absurdo”! Por seu lado, o eminente biblista português Padre Carreira das Neves, após descrever as tendências ressurrecionais post-mortem, na ideologia dos fariseus e afins, remata dizendo: “As testemunhas da Ressurreição não viram um homem com as dimensões físicas do homem da Galileia e de Jerusalém”. Leonardo Boff situa-se no tempo e diz que “a Ressurreição  significou o protesto contra a justiça judaica e contra o direito romano pelos quais Jesus foi condenado”.  E James Dunn: “A Ressurreição de Jesus não é tanto um critério de fé como um paradigma da esperança”.

         Da variegada literatura nascida do túmulo vazio, sobretudo os escritos dos séculos II e III, relevo apenas duas conclusões que proponho à consideração de quem me acompanha:

         - Não é a Ressurreição vitoriosa de Jesus que mais me motiva e arrasta ao seu encontro, mas sim o seu testemunho de vida.  Mesmo que Ele não tivesse ressuscitado, a integridade, a coragem, a transparência dos seus actos continuariam a impor-se aos séculos futuros. Tantos e tantas homens e mulheres, mártires das grandes causas, não tiveram o privilégio do Nazareno  Ressuscitado, mas ainda hoje continua vivo e mobilizador o  rasto que nos deixaram!

         - Enquanto não houver Páscoa no Mundo, verifico que foi vã, inútil, a Páscoa de Jesus. Esclareço: Jesus é o único Ser que menos precisa da Manhã Pascal. Ele não morre. Nele, nunca tem ocaso o Sol da Páscoa, desde antes e até ao fim dos tempos. Ele nem precisa de vitórias pessoais, pois que nem sequer se exibiu às grandes multidões que costumavam acompanhá-lo, nem mesmo desfilou triunfante diante do Templo dos Sumos Sacerdotes ou do Palácio de Pilatos. A sua Vitória é o Legado que nos deixa. Não é para Ele, é para nós, para o Mundo. De tudo o que ele fez e conquistou em vida, nada reservou para si. “Não tinha uma pedra onde reclinar a cabeça”, desabafou abertamente.  Foi tudo para os outros. Particularmente, o Pão e o Vinho  da Eucaristia, na Ceia de Quinta-Feira.

         E a bandeira da Vitória de Páscoa é a grande dádiva entregue a todo o Planeta: “Vai, faz o mesmo, ressuscita… Não te canses nem me marteles tanto com esses Alleluias formais… Tu é que serás o Alleluia real que tanto anseio”!...

         Diante dos cenários entremeados de sombras, tiros, lágrimas e sangue que, todos os dias e todas as noites, contemplam os nossos olhos impotentes,  é caso para dizer que foi vã a Páscoa de Jesus. Arrancar as rugas de um rosto triste e transformá-las num sorriso, ainda que sofrido e breve – é isso a Páscoa de Jesus.

         Pensando nesse angustiante e angustiado Cabo Delgado, onde muito se cultua o Islão, aproximo o pensamento de Maomé: “Levar a alegria nem que seja a só um coração é melhor que construir mil altares”. Melhor, mais belo e pascal  que cantar Alleluias mil!

 

         05.Abr.21

Martins Júnior                                

                                                                                                                          

quinta-feira, 1 de abril de 2021

DOS DOIS PODERES ASSASSINOS DE JESUS, QUAL O MAIS CRIMINOSO?... REFLEXÃO PARA HOJE E SEMPRE!

                                                                       


Não será, por certo, este dia e nem será esta noite a pousada segura para vislumbrar, sequer, a sucessão de factos (e interpolações de várias tonalidades) que levaram ao desfecho do assassinato do Nazareno. Será talvez o mega-processo mais longo de toda a  história judiciária do mundo, empancado em milhões, biliões, triliões de páginas escritas até hoje e às quais poder-se-ão apensar outros tantos que virão a ser escritos no futuro. E todos marcados pela mesma sina: nunca chegarão ao fim. Muito menos, consegui-lo-ei nestas escassas linhas.

Daí, um ponto de ordem na pesquisa científica sobre esta magna questão: não perder tempo com os pormenores, com as minudências circunstanciais que nos foram legadas pelos cronistas de antanho, os Quatro Evangelhos inclusive. Prova-o o erudito teólogo Juan Arias: ”De  alguns episódios da paixão existem nos Evangelhos até sete versões diferentes”, porque – esclarece  o investigador Winter – “os evangelistas escreveram as suas narrativas,  (quarente e alguns, mesmo,   sessenta anos depois da morte de Cristo) com finalidade religiosa e não histórica”. É aqui que se insere a afirmação já reproduzida em blog  anterior: atribuir a crucificação de Jesus a um puro acto de ‘entrega pelos nossos pecados’ não passa de um discurso redondo destinado a branquear o crime. Razão pela qual o ilustre jurista Desembargador Octávio Castelo Paulo conclui que, “a partir do relato da Ressurreição, o Jesus da história começou a confundir-se com o Jesus da fé.

Nestes termos, há que situar o acontecimento e identificar os autores materiais e formais da condenação.

O caso passou-se numa época marcada pelo mais poderoso regime colonialista, o Império Romano, que dominava a Palestina e territórios afins. Onerava os judeus com sucessivos impostos e vigiava-os com efectivos da polícia política, sempre atenta aos movimentos, sobretudo vindos da faixa marítima da Galileia, Do outro lado, sobrelevava-se o poder religioso, consignado aos Sumos Sacerdotes do Templo, sentinelas do culto teocrático de Moisés, os quais dispunham de fundos financeiros avultados, de tribunal próprio, O Sinédrio, ( a Inquisição Judaica, diríamos hoje) e de uma polícia não menos vigilante que a guarda imperial. Um requisito fundamental da organização político-religiosa consistia no privilégio de que gozava o Representante do Império: o poder de homologar ou vetar o Sumo Sacerdote proposto pelo Templo.

É neste campo armadilhado e sofisticado que coube a Jesus viver uma vida de trinta e três anos, ao que consta. Ele trazia um projecto novo, uma nova Constituição para o mundo. Como tal, tinha de defrontar a ditadura religiosa de um Deus irascível, despótico, e a ditadura imperialista que temia novas revoluções, como num passado que lhes era recente, contra o intruso romano. É nesta encruzilhada que convergem os dois poderes – Pilatos, o Político,  e Caifás, o Sumo Sacerdote – que mutuamente se sustentam.

Ora, sabe-se algo do comportamento desse galileu, chamado Jesus. Sem pretender  moer a paciência de quem me acompanha, vou sintetizar com Jacques Paternot, no seu livro O Assassinato de Jesus:

É muito diferente o seu estilo. A presença de Jesus e sua mãe é assinalada numas bodas em Caná. Bebeu vinho e até o fabricou, do melhor, segundo contaram os convidados. Come pão e peixe com os pescadores do lago de Genesaré, mas também lhe acontece jantar em casa de simpatizantes, às vezes ricos e que não olham a despesas. Aceita que uma mulher de moralidade duvidosa lhe perfume os pés. Alguns consideram-no um fariseu, outros vêem nele um Zelota que teria a secreta ambição de libertar a Palestina da alçada de Roma. Diversos relatórios mostram-no em discussões com os fariseus e com os Sumos Sacerdotes aos quais chega a chocar quando jantou em casa de Simão e a uma conhecida  prostituta perdoa-lhe os pecados. Há informadores que o apresentam como um revoltado contra o sistema económico e social em geral. A noção que tem de um Deus Bom é absolutamente nova. Fala às mulheres adúlteras, evita que sejam lapidadas e perdoa-lhes o pecado em troca de  uma simples promessa, a de nunca mais voltar a errar, conversa familiarmente com uma Samaritana cismática e faz-lhe uma confidência: deixou de haver lugar sagrado, porque toda a terra é sagrada, portanto, poder-se-á rezar em qualquer sítio, sem necessidade de ir ao Templo de Jerusalém… E Caifás compreende imediatamente os estragos que esta visão causará à doutrina oficial e a sedução que pode exercer no meio do povo.

A citação foi longa, mas ainda assim, insuficiente. Deduz-se claramente o percurso deste novo olhar, sobretudo acerca das estruturas religiosas que traziam enjaulada a mentalidade do povo. O percurso e o seu desfecho, que se resumem a dois passos: a ira doentia, incurável dos Sumos Sacerdotes e do seu Tribunal, o Sinédrio. E, paralelamente, a vigilância de Pôncio Pilatos. O que sucedeu, então? Os primeiros julgaram-no  em processo sumaríssimo, à noite (contra o Código Penal vigente, portanto ilegalmente), mas não possuindo jurisdição para aplicar o jus capitis, a sentença de morte, reservado ao Representante do Império, remeteram-no para Pilatos, sob a acusação de pretenso Rei dos Judeus, portanto um crime político, severamente punido com o patíbulo da cruz, instrumento de tortura unicamente aplicável aos criminosos políticos.

Voltaram a encontrar-se simultaneamente as duas potências dominadoras da Palestina, o Sinédrio e o Pretório, o poder religioso e o poder político. De onde surge a eterna questão: Quem matou Jesus, os Romanos ou os Judeus?...

Expurgando todos os pormenores e minudências residuais com que a tradição foi revestindo a tragédia de outrora e compaginando os lugares paralelos que chegaram até nós, o veredicto final não deixa dúvidas: Foi o poder religioso o mais interessado e empenhado em liquidar Jesus. E, tal como mais tarde fez a Inquisição Católica, entregou ao poder político a execução dos figadais instintos dos Sumos Sacerdotes.

Assim, com Jesus de Nazaré. Assim, em todos os tempos.

Seremos também nós os agentes inconscientes, silenciosos,  do assassinato das vítimas de agora ?!... Com Blaise Pascal: Jesus estará em agonia até ao fim do mundo!  

  

 01.Abr.21

Martins Júnior

quarta-feira, 31 de março de 2021

ANATOMIA DO MAIOR CRIME DA HISTÓRIA

                                                         


Hoje, devolvo a palavra ao detective.

Da minha parte, apenas esta convicção: insistir exclusivamente no ‘Suicídio de Cristo’  apenas para desagravar um Pai ofendido por terceiros não é mais que uma misera estratégia de branquear um crime.

Na lousa fria da morgue da História está um morto… de  morte  violenta. Impõem-se três pistas ao detective: Quem, Porquê, Como?

Por mais extrapolações que fizermos (que, no dizer de Pierre Emmanuel Dauzat, pertencem ao receituário da “gelatina mística”) importa dissecar o Processo: Quem o matou? Porquê e Como?

O detective, hoje, é cada um de nós.

Na ponte que une os dois ‘Dias Ímpares’ – 31 de Março e 1 de Abril – assentarei a minha objectiva e farei a anatomia do, talvez, maior crime da História.

Aguardo também as conclusões do vosso trabalho de pesquisa.

Deixo apenas uma hipótese de investigação, a de Leonardo Boff:

         “A condenação de Jesus, historicamente considerada, foi consequência da sua mensagem de universal libertação e das suas práticas perigosas para a ordem vigente do seu tempo”.

31.Mar.21

Martins Júnior

segunda-feira, 29 de março de 2021

SEMPRE O ENIGMA: ASSASSINATO OU SUICÍDIO?

                                                                     


De quarentena pesada esta semana!, assim defini os dias e as horas que preenchem o itinerário da tragédia que abalou o mundo, desde há dois milénios. Assassinato ou Suicídio é a grande incógnita que ocupa a semana de pesada quarentena.

Por que estranha razão há-de preocupar-se a mente humana, a este propósito, quando se sabe que todas as correntes vão dar à mesma foz, ou seja, à dúvida insolúvel e, na tese mais optimista, tudo aconteceu em prol do bem comum?... Seja como for, há um morto na morgue da História e, precisamente  em nome  da razão e da justiça, interessa saber qual ou quais os autores.  Ao menos, para ‘dar o seu a seu dono’ e, sobretudo, para tentar desmistificar preconceitos que enublam gratuitamente o pensamento de indivíduos e gerações.

Do Nazareno – esse paradigma intocável da verticalidade e da transparência, a toda a prova – têm-se criado, recriado, desmultiplicado versões tamanhas, as mais desdobráveis e multifacetadas, quase a torná-lo tão complexo quanto irreconhecível, enfim, um oximoro perfeito. E esta pesquisa em torno sua morte é uma das pistas adequadas à descoberta da sua personalidade.

Estamos perante um dilema posto à consideração do detetive atento: por onde se  prova o suicídio?… e/ou onde pairam os vestígios do assassinato?... Trabalho árduo, que à primeira vista, desaconselha começar, justamente porque não se sabe como acabar, mais a mais, no curto formato deste expositor virtual. Tentemos.

 A defesa da tese suicidária está envolta numa enorme nebulosa que atravessa o equador de todos os tempos, formalmente designado pelo Antes de Cristo e o Depois de Cristo, desde as concepções judaico-cristãs, herdeiras do Velho Testamento., as quais navegam num mar supra-oceânico, quase lunar. Passo a descrevê-lo, em termos gerais:

  Deus, que criou o Mundo, achou-se traído pelo rei da criação, o Homem, desde a alegoria do paraíso terreal e do fruto proibido. No decurso dos tempos, os descendentes inquilinos do planeta Terra reincidiram na senda dos mesmos atentados/pecados contra o Criador. Para reparar a afronta a Deus, foi o próprio Deus, o Juiz Supremo, quem ditou a sentença e o preço do resgaste: nada mais, nada menos que a morte do próprio Filho. Portanto, a ira furibunda do Pai só poderia refrear-se se lhe servissem, em audiência solene, o Filho morto, o Filho Único. Ele próprio, o Deus-Pai, em forma de visão premonitória, exigira a Abraão – o pai do judaísmo – o sacrifício cruento do filho único Isaac. (Génesis,22).

Dada a sentença, seria forçoso encontrar o corpo de resgate e, daí, toda a casuística necessária à sua concretização. O Filho, sem culpa formada, sem crime algum (assim o reconheceu Pilatos) deveria oferecer-se como vítima reparadora ao Pai. Na lógica deste processo, todos as ferramentas de tortura, os carrascos, a cruz, inclusive o traidor Judas, foram os meios logísticos que o Filho inelutavelmente optou para cumprir o mandato do Pai.

São imprevisíveis, quase fantasmagóricas (para não dizer, aberrantes, iconoclastas) as conclusões lógicas que daqui se podem extrair. No entanto, ainda hoje se repete que “Jesus entregou-se à morte pelos nossos pecados”, inclusive pelos de uma criança recém-nascida!!!... São Paulo afirma perentoriamente que “Jesus aniquilou-se a si mesmo até à morte”. (Filipenses,2,7).

A mentalidade dos primeiros cristãos foi povoada pela entrega voluntária de Cristo, protótipo do brilho que sobredoura a face dos mártires. Falava-se do êxtase da morte, êxtase de amor”. Cito, por todos Pierre Emmanuel Dauzat: “Esta ideia não é nova. Encontra-se já desde o século II em Tertuliano e, pouco depois, em Orígenes, aplicado a ‘desconstruir’ o Evangelho de João. Desde então, este tema da morte voluntária de Cristo, ou mesmo do suicídio, permanecerá omnipresente na reflexão dos teólogos, para assumir um particular relevo em São Tomás ou John Donne”…

Mais incisivos, nestas conclusões, são G. Minois e A.Alvarez quando afirmam: “O acontecimento fundador do cristianismo é o suicídio”… “O suicídio, mal disfarçado em martírio, é a rocha sobre a qual a Igreja foi edificada”.

Questões fundamentais sob as quais muitos rios de tinta já correram e muitos mais hão-de correr! Tentaremos descobrir o caminho, nesta semana pesada e inspiradora.

 

29.Mar.21

Martins Júnior

 

sábado, 27 de março de 2021

UM FORTE LIDER FAZ FORTE A GENTE FRACA – O DIA EM QUE O POVO PERDEU O MEDO

                                                                        


No Dia Mundial do Teatro sei que nos palcos, nas telas plásticas e nas telas cinematográficas estão, desde há séculos, espelhados em estilo soberbo os episódios que antecederam a tragédia que, poucos dias depois, se consumou em assassinato ou suicídio, questão magna que tem ocupado os meus/os nossos ‘Dias Ímpares’. Mas o que me domina e fascina não está nas configurações que desses episódios conceberam os artistas, está sim no original, “ao vivo”, naquela explosão incontida que abalou as poderosas estruturas de Jerusalém.

         Sempre foram de gala estrondosa os rituais protocolares com que os vencedores entravam nas cidades-capitais do Império após a vitória sobre os exércitos beligerantes, seus inimigos, chegando ao cúmulo de trazer os despojos, por vezes os próprios corpos dos vencidos arrastados aos cavalos de guerra. De gala faustosa, ruidosa, também os cortejos aristocráticos por ocasião das tomadas de posse dos monarcas e presidentes eleitos.

Mas nenhum deles se abeira, em volume e genuinidade, daquele acontecimento que a nomenclatura oficiosa dá pelo nome de Domingo de Ramos, Domingo de Palmas.

No ambiente soturno e opressivo que o poder romano do Império e o poder religioso do Templo traziam todo um povo submisso e acabrunhado, surge um líder decidido a dar ao seu povo a hipótese de respirar o ar puro de uma vida digna do estatuto humano. É desse Mestre que nos estamos ocupando nesta semana e na que se lhe segue.  Oriundo da zona mais rebelde da Palestina, a Galileia, de onde tinham emergido outros bandeirantes da libertação dos palestinianos face ao invasor de Roma, este Galileu, a um tempo pacífico mas vigoroso, condescendente mas radical perante as linhas vermelhas, combatente sem tréguas da prepotência hierárquica mas defensor acérrimo do direito dos ‘sem vez nem voz’ concitou o ódio dos ‘Donos Daquilo Tudo’. Ele sabia que estava iminente a trucidação dos seus ideais e da sua própria existência física.

Por isso, afrontou os poderes reunidos em sociedade secreta, ao princípio, mas depressa despudorada e compulsiva. Ele que não dispunha de armas, de finanças ou de privilégios recomendados, tinha na mão a arma mais forte que uma muralha intransponível: o Povo – uma multidão de pobres, de pescadores, assalariados rurais, artesãos e de muitas mulheres, gente tolhida pelo medo dos ditadores mas ansiosa pela sua hora de emancipação político-social.

E aconteceu nessa manhã de Domingo. Remeto para a leitura dos quatro autores dos textos propostos para este fim-de-semana. A cidade ficou alvoroçada, escreveram eles. Homens, mulheres, jovens, idosos, crianças encheram as ruas e as praças de Jerusalém, a ponto de porem em sentido (e muito inseguros) os inquilinos dos palácios governamentais e o próprio Sinédrio.

(Perdoem-me ter de encerrar, pois o apagão geral da Ilha (devido à tempestade e à trovoada desta noite) embora fugitivamente restabelecida a energia eléctrica, corremos o risco de novo corte. Por isso, termino com a citação do ‘Imperador da Língua Portuguesa’, Padre António Vieira, em discurso proferido neste mesmo dia, na Baía, Brasil, 1634):

“Eles (os poderosos sumos sacerdotes do Templo) queriam crucificar a Cristo, mas Cristo crucificou-os a eles. Aquelas aclamações do povo eram os pregões que iam diante publicando o delito da sua injustiça,  aquelas palmas que levavam na mãos eram as cruzes em que invisivelmente eles iam crucificados na alma”...                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             

  O povo perdeu o medo, ganhou personalidade e fez-se respeitar perante o poder instituído. Incluo neste cortejo imponente, genuíno, todos aqueles que ontem, hoje e amanhã são gente “de um só rosto e de uma só fé, de antes quebrar que torcer”, diante das ditaduras de todos os tempos.

E “se um fraco rei faz fraca a gente forte”, também o seu oposto é verdadeiro: Um líder forte faz forte a gente fraca”.

Bem vindo, Domingo de Ramos!

 

27.Mar.21

Martins Júnior

quinta-feira, 25 de março de 2021

ASSASSINATO OU SUICÍDIO? – O TESTEMUNHO DOS FACTOS

                                                                          


         Já que decidi entrar por aqui, não posso voltar atrás -  como quem entra numa vereda alcantilada e até perigosa, na esperança de encontrar a grande paisagem oceânica da Verdade. Chame-se “dúvida metódica”, a cartesiana, ou diga-se como Régio: “Sei que não vou por aí”, o desejo maior é ver  (“ver como um danado”, já o exprimira Fernando Pessoa) sobretudo no emaranhado das crenças, mitos, ilações acomodatícias e quejandos em que nos tem mergulhado a questão formulada anteriormente: “Assassinato ou Suicídio?”.

         Toda esta preocupação vem definida no comentário que alguém fez ao último escrito: “Tantos mistérios: espero que alguém tenha a coragem de contar toda a verdade sobre o que está acontecendo. Já duvidamos de tudo”.

         Tentar encontrar a Verdade dos factos. Imperioso, incontornável! Porque de divagações, interpretações místicas, voos piedosos, construções melodramáticas, de tudo isso estamos cansados, anestesiados. Nada melhor que citar Octávio Castelo Paulo:

         Como alguém disse, “Jesus não era um meteoro caído do céu”, mas sim um homem real, nascido em determinado ambiente social, político e económico, sem nunca esquecer o religioso. Desligar Jesus da época turbulenta em que viveu, com a sua terra sob a ocupação romana, perturbada com as acções guerreiras de outros galileus pobres que, como consequência das suas acções revolucionárias, eram mortos pelos ocupantes inimigos e, muitas vezes, crucificados como escravos, é o mesmo que criar um Jesus desligado da vida, é imaginar um ser mitológico e irreal.

         Quem o afirma é um homem do Direito, antigo Juiz Desembargador, no conceituado estudo: O Processo e a Morte de Jesus, onde faz a análise  paralela à pergunta acima formulada: Assassinato ou Suicídio?

         Embora não caiba nos estreitos limites deste formato a observação descritiva da real circunstância em que viveu o Nazareno, o certo é que sem esse exercício nunca entenderemos “a sua doutrina, a sua execpcional personalidade  e os actos que praticou, ao menos, como são narrados nos evangelhos”, refere o mesmo ilustre jurista.

         Pelo exame das “fontes”, desde o LIVRO até aos historiadores coevos  Flávio Josefo, Tácito, Suetónio e aos Apócrifos, a Palestina – autodesignada ‘Povo Eleito’ -  era um território dilacerado, desde tempos imemoriais, por sucessivas lutas fronteiriças e, interiormente, dividida por acirradas assimetrias sociais. De um lado, a classe dos nobres, adstrita ao clero, por sua vez subdivididos em saduceus, fariseus, essénios. Do outro lado, os camponeses pobres, assalariados, artesãos, pastores nómadas, pescadores. A dominar todo o sistema político-religioso estava o Procurador ou Governador, Representante do Imperador de Roma. Não obstante respeitarem o culto das tradições judaicas, as autoridades romanas na Palestina negociavam com os titulares do Templo de Jerusalém a nomeação do Pontifex, o Sumo Sacerdote dos Judeus que presidia ao Sinédrio, tribunal judaico com jurisdição para julgar questões do foro da religião.  Por onde se conclui da aliança entre os dois poderes: político e religioso, aqueles que condenaram Jesus à morte. Imperava a dupla ditadura, reforçada com o veredicto da Divindade, fonte originária de todo o poder humano, assim se escrevia e decretava.

         Era inevitável o ambiente de animosidade latente contra o regime ocupante da Palestina e entre as próprias classes locais. Cito: A Galileia dos gentios era a região da Palestina, onde existia maior agitação popular, com o aparecimento de novos combatentes inconformados com a situação que viviam, gerando-se nesse meio um ambiente propício aos movimentos contestatários, de teor político-religioso e, por isso, favoráveis ao messianismo e à ideia de que Deus viria ajudar o ‘Povo Eleito’, enviando um Messias salvador, um Ungido, verdadeiro representante do Deus vivo, para instalar o seu Reino.

         É neste ‘caldo’ efervescente que surge “o filho do carpinteiro”, também ele galileu, em quem o povo (e secretamente as próprias autoridades) identificavam o messianismo almejado desde séculos e anunciado pelos profetas do Velho Testamento. Aliás, seria Ele o líder predestinado para vingar a derrota de dois históricos revoltosos – um certo pastor de nome Atronges e um destemido combatente chamado Judas, O Galileu – cujos exércitos populares foram esmagados pelo poder imperial.

         Segundo o testemunho do historiador de então, Flávio Josefo, o citado Judas Galileu foi o fundador da seita dos Zelotas, a qual defendia como regra básica que “a única submissão do homem só poderia ser a Deus, não aos outros homens e muito menos aos romanos pagãos”.

         Como ter-se-á portado Jesus (que recrutou os seus militantes precisamente na Galileia) em toda esta conjuntura, para merecer a simpatia do povo e o ódio das autoridades?

         É o que vamos continuar a descobrir.

 

         25.Mar.21

Martins Júnior