segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

REALIDADE OU FICÇÃO?


                                                  

Passados ‘Os Reis’ e queimados os últimos estalos da “Festa” e Ano Novo, é nesta semana que se entra definitivamente no curso do normal quotidiano: entra-se na sala de aulas, no estaleiro das obras, na ferrugem da oficina, no relvado dos estádios, enfim, a vida recomeça. E, no calendário litúrgico, entra-se (ou reentra-se) na nave dos templos, com a comemoração do Baptismo do Menino – que, afinal, já não era Menino, era um robusto exemplar de varão, aos 30 anos de idade. Em qualquer idade reentra-se na vida!... Por coincidência, neste início de 2020, têm-me ocorrido diversas “entradas”  no amplo convívio dos crentes: são os baptismos de crianças trazidas pelos pais e padrinhos à pia baptismal.
Pese embora não interessar – num primeiro olhar – a muita gente o assunto em causa, atrevo-me a dedicar esta semana a esse mesmo gesto iniciático, o Baptismo. Precisamente por ser inicial, direi, virgem, madrugador, esse primeiro passo está quase sempre rodeado (revestido, embrulhado) de uma atmosfera angelical, quase mítica, até mesmo romântica, em que o “maravilhoso cristão” (invocação de santos e arcanjos, óleos sacros, repetidos sinais-da-cruz) se mistura com o “maravilhoso pagão” ou profano (padrinhos, comadres e compadres, pulseirinhas, prendas muitas), movendo-se, pois, todo o acto sacramental num bulício de suave expectativa e regozijo sem nuvens.
Talvez por isso mesmo, no ambiente extasiante do templo fica diluído o tronco estruturante do acto, a razão e o escopo últimos do Baptismo, ou seja, a matrícula ou inscrição do neófito (criança ou adulto) na grande colectividade chamada Igreja Cristã e Católica. Aliás, outro significado não terá o ritual começado à porta do templo, com  o ingresso processional até à pia baptismal.
Tremendo passo este, o de tomar a decisão de optar por uma determinada (e não outra) ‘confissão religiosa”, credo, ideologia, código de vida!... Disse ‘tremendo passo’ para o titular do acto (o neófito), mas terei de corrigir para “temerário” este acto para os autores morais do mesmo. Por outras palavras: o titular do acto não foi consultado sobre tão decisiva opção. De todos os presentes, ele, o protagonista é o único que desconhece o que se está passando. É caso para perguntar: mais tarde, quando tiver discernimento, estará ele de acordo com a responsabilidade que pais e padrinhos estão a impor-lhe desde esse momento?...  Ninguém pode garanti-lo.
Responder-me-ão que, ao chegar a essa encruzilhada, a pessoa é livre de tomar a direcção que quiser, isto é, pode livremente mudar de opção, de religião. Direi, então, o que determina a Teologia Dogmática: o Sacramento do Baptismo imprime carácter em quem o recebe. Quer isto dizer, em termos práticos, a marca do Baptismo fica indelevelmente inalterada para toda a vida:  baptizada uma vez – baptizada para sempre!
São longas e nada ligeiras as virtualidades, os pesados corolários,  inclusos  nas teses expostas, o primeira dos quais seria a exigência da idade do discernimento ou livre arbítrio para receber-se o Baptismo. Não será motivo de escândalo para ninguém este eventual normativo se pensarmos que foi aos 30 anos que Jesus aderiu ao Baptismo de João Baptista no rio Jordão. Nas mesmas circunstâncias estão gradas figuras da hierarquia católica, como os canonizados doutores da Igreja: Basílio, Ambrósio, João Crisóstomo, Agostinho, que receberam o Baptismo na idade adulta. (R.Gerardi, in ‘Diccionario Teologico Enciclopédico’ Ed. Verbo Divino, Navarra, pag.103).
Por analogia com as procurações forenses, os pais – primeiros procuradores da criança – se, ao longo do seu crescimento, não a informarem e motivarem para os valores assumidos no Baptismo, deveria o Código da Consciência dizer-lhes que o dia da grande festa baptismal não passou de uma farsa, um embuste, talvez, um esfarrapado episódio de uma novela sem enredo nem conclusão.
O Baptismo é raiz e é tronco promissores de flores e frutos!

13.Jan.20
Martins Júnior

   

sábado, 11 de janeiro de 2020

PARA QUEM ATRAVESSOU A LINHA EQUATORIAL DO EXISTIR…


                          

Antes que abrissem os cravos de Abril
Nasceu em ti o Dia Novo, primeiro,
À luz terna do  Luar de Janeiro

Promessas mil o berço te embalara
Alados sonhos teceu teu enxoval
Um a um em tua pele de seda rara
Largaram asas em voo matinal
Ao ritmo cantante da agulha e do dedal

Foi um poema inteiro esse bordado
Rimas de Aquém e Além-mar encheram teu regaço
Entre Álvares Pequeno e Luís Vaz Sublimado
Inês de Castro, Vieira, Pessoa, o Presente e o Passado,
Todos uniste no mesmo canto e no mesmo abraço
Assim também cumpriste e cumpres Portugal
Sobre este solo, Machico,  da Epopeia Inicial

Feliz de  quem das tuas mãos
Recolhe estrelas de saber, oásis de conforto
Ao teu peito achando manso porto
No equatorial mar vasto que ora atravessas 
Coração-baía azul é o que tu és
Onda de luz dada ao mundo em Janeiro dia dez



Gostoso o terro que te produziu
Onde corre o sumo que os deuses seduziu
Inebriante como o ”50” não há nenhum
Saboroso e quente, porém,  só o “51”!

11.Jan.20
Martins Júnior

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

NA RESSACA…


                                                           

Escrevo em quinta-feira de Ano Novo. À minha volta, porém, tudo me diz que é quarta-feira, a das cinzas. Morreram as luzes da cidade, calou-se a sirene dos cruzeiros no porto, substituídos agora pelo engarrafamento automóvel com insultos e provocações à mistura, os transeuntes cabisbaixos, já não há “Boas Festas, um Santo Natal, um Feliz Ano”  para começar e acabar uma conversa ou um cumprimento, breve que seja. Parece que o fumo intenso que abafou a capital na noite primeira do ano tomou conta da gente, enegreceu o betão das estradas e o rosto dos passageiros. Enfim, Advento, Natal e Ano Novo – três dias de carnaval. Agora, cinzas e trabalho. Quarta-feira!?...
Enquanto não passa a “ressaca” e estamos ainda sonâmbulos diante do ano bissexto, apetece-me acordar toda a gente, pintando um outro arco-íris nas nuvens, escrevendo no alcatrão das estradas, nas tabuletas dos autocarros, em cada muro e na palma da mão de cada um de nós aquela palavra de ordem inspirada no famoso ponto forte do presidente John Kennedy aos americanos:

“NÃO ESPERES NEM PERGUNTES AO 2020 O QUE PODE FAZER POR TI. PERGUNTA, ANTES, O QUE É TU PODES FAZER PELO 2020 ?”.
09.Jan.2020
Martins Júnior    

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

A GLÓRIA E O DRAMA DE CADA “NOVO ANO JUDICIAL”


                                                    

É sempre de uma sumptuosidade quase esmagadora a abertura de um “Novo Ano Judicial”. A de ontem, porém, revestiu-se de uma magnitude singular por haver-se realizado no histórico e majestoso Palácio da Ajuda, sede oficial da ‘entronização’ do Supremo Magistrado da Nação. O cenário, com ser belo e sublimado na cor do meio e na aura dos ‘convivas’, nem por isso deixa de ser pesado e taciturno, de ‘cortar à faca’ (em linguagem plebeia), tanto no passo grave dos titulares da Justiça ao subir a escadaria como na negritude das togas forenses que cobriam por inteiro o salão, apenas salpicadas pelas alvíssimas cãs dos venerandos desembargadores e conselheiros.
         Não menos enfáticos e grandíloquos foram os discursos proferidos, desde os representativos do poder judicial aos do poder político, todos em uníssono proclamando a dignidade da magistratura, a premente disponibilidade dos funcionários, a urgente necessidade de recursos materiais e humanos, enfim, o prestígio e a defesa dos maiores pilares da sociedade, a Justiça e a Paz, sendo que aquela precede sempre a segunda. Não obstante a imponência do ritual, ficou à vista a denúncia da vasta criminalidade que, ao mesmo tempo que enche os tribunais, esvazia os valores que sustentam os povos e, no limite, os destroem. Momentos de tremenda carga social e psicológica aqueles que ontem se viveram naquele “salão dourado, de ambiente nobre e sério”, não nos Paços da Rainha, mas no Palácio da Ajuda. O discurso do Presidente da República espelhou, solene e veemente, a grandeza daquela hora e, em contra-luz, o deprimente cortejo das misérias sociais, percebendo-se nas entrelinhas que é ali “naquele salão dourado, de ambiente nobre e sério” e na barra dos tribunais que desaguam os detritos das sociedades, dos bairros insalubres, dos paióis dos traficantes do papel sonante, da carne humana e da mais elementar consciência cívica. Nobilíssima a missão dos juízes e profissionais da Justiça, mas ao mesmo tempo tarefa tão chocante e arrepiante como a do médico legista no laboratório de autópsias.
         De repente, naquelas paredes acolchoadas vi resíduos de favelas onde se acoitam crianças e jovens, potenciais criminosos e candidatos ao banco dos réus; vi lares desavindos manchados de sangue pelos machados da violência doméstica; sob a escuridão daquelas capas negras subentendi a noite má conselheira onde se praticam crimes inomináveis que vão cair depois às mãos dos julgadores.
                                                          

E concluí que não é por ali que começa a transformação da sociedade. Fica mais longe, muito longe daquele salão a chave que abre o grande portão da Justiça e da Paz… Entrando numa das salas do Centro Cívico-Cultural e Social da Ribeira Seca, vejo a psicóloga perante um grupo de crianças, todas entusiasmadas a desenhar uma mão aberta. A psicóloga pergunta: “Meninos, para que servem as mãos? Para bater? Não, respondem os petizes. Então para que servem?... Para ajudar, abraçar, escrever pintar, comer, trabalhar e fazer coisas boas. Não são para bater em ninguém. E as crianças pacientemente transcrevem com a mãozinha trémula a lição do dia.
No grande rio da história, a solene abertura dos “Anos Judiciais” fica a jusante da corrente. Antes dele, do Poder Judicial, muito a montante fica o Poder da Vontade, o berço rural ou urbano, a escola do bairro, a oficina, a educação do amor e do sexo, o respeito pelo vizinho ou companheiro e pelos seus haveres, a motivação para a partilha. Antes do juiz ficam o pai e a mãe, o professor, o colega, o ambiente, o salário justo, a saudável apetência de viver.
Saudando e desejando bons augúrios para o cerimonial ontem realizado no Palácio da Ajuda, sempre se há-de concluir por este Acórdão Global: Um só dia do programa a montante poderia suspender muito ritual a jusante. Em outra redacção: Muitos dias ou toda a vida de Educação  evitariam muitos ou todos os Anos Judiciais. Guerra Junqueiro, já no século XIX, propunha e sancionava como Supremo o “Tribunal da Consciência”!                                                                                                                        
07.Jan.20
Martins Júnior

domingo, 5 de janeiro de 2020

UM OUTRO “CANTAR DOS REIS”


                                                      

Enquanto escrevo, ecoam pelos vales sombrios da noite as mais eufóricas loas aos Magos de outrora, repetindo em múltiplas variantes que  “Vós sabíeis e vós bem sabeis que é do dia cinco para o dia seis que se canta o Reis”. E consabido é também o perfume a incenso com que se venera a chegada sincronizada dos Três Magos do Oriente à gruta de Belém ou, com mais fidelidade histórica,  à “casa”  do Menino e sua Mãe, na cidade de Nazaré, tudo envolvido em crepes de misticismo profético, divinatório.
Ouso, porém, (e não serei o único, por certo) mergulhar em toda a literatura profética, sobretudo no grande taumaturgo das promessas futuras,  o eloquente Isaías, e aí lobrigar aquela vocação apoteótica, congénita a todos os povos marcados pelo nacionalismo patriótico exacerbado: a vocação expansionista, tendo por meta final a ascensão ao trono imperial, dominador de todas as outras nações e etnias.
Com efeito, o sonho imperialista atravessa os genes de todos os regimes tendencialmente hegemónicos, desde a mais remota antiguidade: Suméria, Caldeia, Atenas, a Roma Imperial, enfim, toda a Europa, com as alianças mais espúrias e oportunistas, o Sacro Império Romano-Germânico. Mais recentemente, o Império das URSS’s e o terror maquiavélico do hitlerianismo açambarcador do mundo civilizado, pela destruição da nomenclatura judaica. Actualmente, sob outras roupagens, a galopante ‘invasão’ da China, o poderio intercontinental de Moscovo e, acima de todos, o auto-proclamado Super-Império tump-americano, no sofreguidão paranóica de fazer tremer o Planeta sob as botas cardadas do “maior potencial militar do mundo” – em todos é o vírus da supremacia político-económica que os move.
E mais sintomático e paradoxal, ainda, é constatar que o vírus ataca de forma crua e cega os países pequenos quando lhes chega o cheiro catalisador dessa ambição. Portugal está na frente. Um país periférico, sem recursos, uma vez catapultado para a vanguarda dos Descobrimentos, assentou arraiais nos confins do Mundo e no topo geodésico da Terra arvorou trono e bandeira do Império Português. Luís Vaz de Camões bem pode figurar no galarim da aristocracia patriótica, ao lado de Isaías, mutatis mutandis, ao colocar no discurso de Vénus e Júpiter as façanhas futuras dos nautas lusos, com o Gama e seus heróis à proa da ‘rosa dos ventos’.
De volta aos “Reis do Dia Seis”, os termos em que os Anais do Povo Judaico se lhes referem em pouco ou nada se distanciam dos discursos proclamatórios  comuns à linguagem épica de outros povos e seus heróis. Abramos o seu maior intérprete, Isaías Profeta, cap.60-61:
Levanta-te, Jerusalém, resplandece. Chegou a tua luz. Olha em teu redor: a noite cobre a terra e a escuridão todos os outros povos, mas sobre ti brilha a luz. As nações caminharão no rasto da tua luz e os reis no esplendor da tua aurora. A ti afluirão as riquezas do mar longínquo  e a ti virão os tesouros das nações. Serás invadida por uma multidão de camelos e dromedários de Madiã e Efá. Os reis de Sabá virão trazer-te ouro e incenso…  Os reis da terra servir-te-ão. A nação ou o rei que recusar servir-te morrerá, o seu país será destruído…  Do menor nascerá uma tribo e do mais pequeno uma nação poderosa…
Extensas e numerosas são as citações bíblicas representativas de um povo montanhês, de gente nómada e quase sempre derrotada nas repetidas escaramuças em que se envolvia com os territórios fronteiriços. Um anseio profundo, veemente pulsava no sangue das sucessivas gerações, um apelo genético à libertação e, daí, ao domínio sobre os outros povos. As referências a um Messias libertador vinham sempre consubstanciadas com a aparição de um líder poderoso, capaz de arrancar da opressão um povo sofrido que, ao longo de séculos, fizera um percurso entre espinhos e abrolhos. Era aos profetas entregue pela população o nobre estatuto de semear luz na escuridão e alavancar no coração deprimido de cada geração a chama da esperança, mesmo que ilusória, num mundo melhor, num País Novo, “onde corressem o leite e o mel”.
Em conclusão: fazer assentar nos textos vetero-testamentários  acerca da visita dos (impropriamente) Reis, apenas e só, um misticismo potenciador do fenómeno divino-messiânico, poderá configurar uma interpretação duvidosamente extensiva do acontecimento, visto que o animus inspirador desses mesmos textos não se confina a uma exclusiva e pura espiritualidade, mas vem misturado com propósitos colhidos nas aras da emancipação social e do mais radical patriotismo.
À consideração superior – dos biblistas e dos investigadores sérios.

05-06.Jan.20
Martins Júnior   
                                       

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

“QUE PRETENDIA AQUELA MULHER DO PAPA”?


                                                               

Hoje ‘vou sair da caixa’. Ninguém levará a mal porque até ao “Reis” ou até ao “varrer dos armários” é tempo de reinar, divertir e…corrigir, como recomendava o bem humorado filósofo da antiga Grécia: “Ridendo castigo mores” (rindo, castigo os costumes, as pessoas). Também dispenso-me de comentar a reacção do Papa Francisco àquela mulher que lhe puxou a mão na Praça do Vaticano, como quem desejava ardentemente beijá-lo. A imagem tornou-se superabundantemente viral nas redes sociais.  Apenas limitar-me-ei  ao aspecto formal do gesto e ao estilo com que jornais, internet’s e conversas de rua titularam o caso.
Puxei para título desta noite o léxico com que a maior das pessoas se lhe referia: “Que pretendia aquela mulher do Papa”?... Devo confessar que a minha preferência seria: “Quantas mulheres tem o Papa”?... Não o fiz, mas poderia tê-lo feito. Porque a primeira designação – “Que pretendia aquela mulher do Papa?” – presta-se a um enorme equívoco, podendo dela inferir-se  a hipótese de o Papa ter outra ou outas mulheres, além daquela mulher.
Como seria então a forma correcta de noticiar o caso, isto é, o gesto da mulher ao puxar a mão do Papa, de modo a evitar o equívoco da frase anterior?.  Após várias tentativas, assentou-se nesta fórmula: “Que pretendia do Papa aquela mulher?”   
Vem esta deriva a propósito do Ano Novo e dos rios de tinta que em 2020 vão encher toneladas de papel sobre os mais diversos assuntos. E já os temos bem pesados neste início do ano! Refiro-me tão só à escrita, à ortografia, à construção da frase, à concordância das formas verbais com os respectivos sujeitos gramaticais. Salvo melhores opiniões, não se me afigura positiva a avaliação do panorama  jornalístico do nosso meio, pejado de gralhas sucessivas, repetidos  clic’s, enfadonhas duplicações de notícias e textos de opinião, até na mesma edição diária. Enfim, em tempo de lazer e se me é permitido, faço votos de que os nossos jornais, revistas, locutores, rádio e televisão procurem valorizar-se em termos de proporcionarem aos consumidores da RAM uma ementa literária, suficientemente válida, gramaticalmente limpa e globalmente sadia.     
Não obstante a vida efémera da imprensa – já dizia Peguy que ”o jornal de ontem é mais velho que a Odisseia de Homero” – vale a pena distribuir à mesa dos leitores (e eu incluo-me entre eles) um pão matinal saudável e seguro.  Bom Ano!
03.Jan.20
Martins Júnior
        

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

A ILUSÃO DO “SR. ANO NOVO”


                                            

Centenas, milhões, biliões foram esperá-lo, mesmo sem saber de que mar ou de que monte viria o Desejado, o Venturoso, o “Pai Natal” dos graúdos.  Sim, dos graúdos. Porque, assim como os adultos iludem os miúdos com a expectativa do “Pai Natal” que vai chegar carregado de prendas infantis, assim os graúdos iludem-se a si próprios com o anúncio do Ano Novo abarrotado de espumantes, passas e balonas  de fazer voar portas e corações. A avaliar pela euforia consumista, são os bobos adultos  que fazem mais fé no “Fantasma” Ano Novo do que as crianças no “Pai Natal”.
“Nomes com que se o povo néscio engana”! – diria Camões. Porque o Ano Novo não existe. Os homens é que esventraram o tempo, dissecaram-no, retalharam-no às postas, aos lenhos, à fatias e às migalhas. E chamaram-lhes milénios, séculos, décadas, lustros, anos, meses, dias, horas, minutos, segundos. Mas o tempo, no seu cerne ontológico, é um corpo inteiro e único, indivisível, linha contínua e não tracejada, rio ou levada, onde navegamos sem nos darmos por isso. Bem analisado em si mesmo, aquilo a que chamamos passagem de 2019 para 2020, afinal, não existe. O último segundo de 2019 é o primeiro de 2020, de tal forma que nem se pode falar de uma ponte entre um e outro. Os dois estão justapostos, são degraus siameses perfeitos debaixo dos nossos pés.
Neste entendimento, se Fernando Pessoa tivesse oportunidade de escutar os votos e saudações que mutuamente nos desejamos – “Que o Ano Novo te traga sucesso… No Ano Novo as coisas vão mudar… No Ano Novo é que vai ser… À meia-noite, vamos comer as doze passas da sorte”  e outras do mesmo teor – ele, Fernando Pessoa, não hesitaria em atribuir-lhes o mesmo desqualificativo das “cartas de amor”:  ridículas.
Ridículos esses votos e saudações, porque não deverá ser  o tempo (cronológico) a dominar-nos, mas nós a tomarmos conta do tempo. O tempo, depois da saúde, é o nosso melhor activo, o nosso capital em caixa. Somos nós o seu senhorio e o seu contabilista. E se o tempo é dinheiro, como usa dizer-se, então nós somos o seu ministro das finanças. Na esteira do grande filósofos Protágoras, para quem “O Homem é a medida de todas as coisas”, devemos afirmar e assumir com a mesma força semântica que o Homem é a medida do Tempo.
Fundamentos estes suficientes para segurarmos em nossas mãos as rédeas do tempo futuro, desde já o chamado 2020, ao qual prefiro numerar como o meu 2019-A, o meu 2018-B, o meu 2017- C e assim sucessivamente, visto que não há nenhum hiato entre eles. A história do indivíduo e das comunidades é (ou deveria ser)  um movimento contínuo, sem fundos abissais nem passagens de nível,  um projecto em construção, sempre retomado e sempre inacabado.
Quando deixaremos nós de desassossegar espíritos e endossar a seres extra-terrestres funções e papéis que são estrictamente nossos, da nossa inteira responsabilidade?...
Esta saudação-tributo a todos quantos me enviaram mensagens de Natal e Ano Novo, apraz-me terminá-la da mesma forma como o fiz no ano transacto. Tal como John Kennedy afirmara em Dia de Ano Novo – “Não perguntes o que é que a América pode fazer por ti. Pergunta, antes: o que é que tu podes fazer pela América, que é o teu país”. Assim também, não esperes nem peças a 2020 o que pode fazer por ti. Pergunta a ti próprio o que é tu podes dar ou fazer para o sucesso de 2020!

31.Dez.19 e 01.Jan.20

Martins Júnior