quarta-feira, 13 de outubro de 2021

ROTUNDA Nº13 da VIA 10, ROTEIRO 21… ONDE TIAGOS, MARIAS, RELÍQUIAS, OSSADAS E CARNES SE ENTRECRUZAM !

 

          “Treze” mágico: da sorte e do agoiro, dos raspas e das velas, da bola e dos peregrinos em longa caminhada.  “Treze”, onde tudo cabe e tudo se dissolve!

1.      Fala-se dos Tiagos e das Marias de Jerusalém: Um, o   Maior e o outro, o Menor, mas ambos apóstolos.

2.    Entram também as Marias, aquela que Tiago, “O Maior”, viu em cima de um pilar, a imagem de Maria a pedir-lhe que ali se fizesse uma igreja. E assim ‘nasceu’ em Espanha a SENHORA del PILAR. Foi ontem, 12,  a grande festa madrilena, a do Pilar.

3.    Em Portugal, o lugar de Fátima deu ao mundo “Uma Senhora mais brilhante que o sol”. Foi em 13de cada mês, a última em Outubro de 1917.

4.    Na Madeira, depois de arrancado um osso de Tiago, “O Menor”, eis que vem de Roma e faz ‘passerelle’ por todas os adros, igrejas, capelas e ermidas.

Ossos… se ainda fosse carne!

 

5.    Um dia, já lá vai muito longe, o Mestre disse que o Seu Corpo era carne verdadeira para alimento de todo o mundo (Jo., VI, 55 ).

6.    E logo a seguir, esclarece a multidão: “A carne não serve de nada. O espírito é que dá vida, o espírito é que é tudo”. (Ibidem, 63).

  

Enigmática Rotunda nº 13, com seis saídas e muitas mais.

 

Qual ou quais delas irás tu escolher ?...

Enquanto consulto o GPS da verdade e do bom senso, fico-me também pelo nº 13 – Eine kleine Nachtmusic”  de Mozart…

         13.Out.21

         Martins Júnior

 

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

HISTÓRICO, PREMONITÓRIO, ABERTO E FRANCO COMO A NOSSA BAÍA !!!

                                                                       


É a Minha Pátria – como a cognominou Francisco Álvares de Nóbrega, “O Nosso Camões”.

Por isso, saúdo o Dia Primeiro dos Sete da Semana, em que os seus legítimos representantes – Assembleia Municipal, Câmara Municipal e os Líderes das suas cinco Freguesias – assomaram à varanda da Casa Comum do Povo de Machico para confirmar a aliança estrutural que perdura entre governantes e governados, após a sentença proclamatória nas urnas do 26 de Setembro de 2021.

        Assinalou-se a matriz histórica das terras de Tristão Vaz: Assim como foi Machico a Primeira Capitania da Madeira, outorgada por Carta Régia de 8 de Maio de 1440, assim também neste Ano da Graça de 2021 foi a distinta Edilidade deste Concelho a Primeira a tomar posse formal, de entre todos os onze Municípios da Região Autónoma da Madeira. Oportuna lição e eminentemente premonitória decisão dos seus órgãos eleitos!

        Ao ar livre e transparente, lembrando-me outros tempos,  em plena atmosfera de liberdade democrática, sem atavios excedentários nem hipocrisias de circunstância, frente à imponente estátua do Capitão Donatário Tristão Vaz Teixeira, pioneiro vigilante da Ilha, desde a Ponta da Oliveira, no Caniço, até à Ponta do Tristão, em Porto do Moniz. Ninguém sabe que prestimoso avatar inspirou a presença de todos os ilustres titulares  Municipais dos territórios que pertenceram à Antiga e Primeira Capitania - Santa Cruz, Santana, São Vicente e Porto Moniz - além da conceituada e estimada representação de Câmara de Lobos, Ribeira Brava e Calheta. A presença do Presidente do Primeiro Órgão da Autonomia Regional – a Assembleia Legislativa – veio conferir o abraço da unidade de toda a Região Autónoma no concelho de Machico.

        Do que todos nós vimos e ouvimos ficou pairando no ambiente este voto: Tal como Zargo e Tristão tiveram que afrontar e dissipar “AQUELE ESPESSO NEGRUME” que lhes ocultava a beleza da baía, também os timoneiros desta nobre caravela chamada Machico ultrapassarão nuvens e sombras que de fora venham  e fá-la-ão singrar, vitoriosa e fagueira, até ao mar largo do seu prestígio histórico!

          Apenas este Post-Scriptum, na esteira de uma das mais belas canções de Sérgio Godinho e fruto de experiência própria, precisamente o mesmo que formulei há oito anos, 2013, em idênticas circunstâncias:

“Hoje é o primeiro dia do resto do teu mandato”!

 Viva Machico! Viva o seu Povo!

 

11.Out.21

Martins Júnior

       

sábado, 9 de outubro de 2021

NUM DESERTO DE MILAGRES: UM GENERAL LEPROSO, UM PROFETA GENEROSO E UM BURLÃO RELIGIOSO

                                                                        


Aconteceu num deserto milagroso, como poderia ter acontecido num mar de milagres. Vem no LIVRO - o II dos REIS, capítulo Quinto.

Sem mais comentários.

PRIMEIRO ACTO

“O Comandante-em-Chefe do Exército sírio, de nome Naaman, contraíra a lepra e, após percorrer todos os físicos da sua nobre nação, não achou cura. Aconselharam-no a consultar um profeta da Palestina, de nome Eliseu. Contrariado (‘então os nossos médicos não são melhores que os profetas judeus?’) o General fez a longa viagem pelo deserto e consultou o tal profeta. Este, ’em vez de deitar uma bênção e fazer uma oração’ (assim protestava o militar), mandou-o tomar banho no Rio Jordão, dando sete mergulhos seguidos. Sempre contrariado e incrédulo (‘os rios da Síria são muito melhores que esse Jordão’) aconteceu o insólito: ‘a sua carne ficou perfeita e o corpo tão fresco e são como o de uma criança recém-nascida’.

SEGUNDO ACTO

Naaman veio ter com o Eliseu, prostrou-se por terra, jurou que não mais adoraria outro deus senão o de Israel. De imediato pediu ao Profeta que, em paga ou gratidão, aceitasse alguns presentes que trazia –sacas de moedas de ouro e de prata, vestes sumptuosas cerimoniais, entre outros – mas o Profeta jurou que o seu Deus não aceitaria nada em troca, apesar das insistências do General.

TERCEIRO ACTO

Resignado, mas feliz com a cura obtida, o General, escoltado pela comitiva e respectivo protocolo militar, iniciou a viagem de regresso à sua pátria síria.

QUARTO ACTO

Ora, o ajudante de Eliseu (o equivalente a diácono, sacristão ou afins), de nome Giési, que  ouvira todo o diálogo entre o Profeta e o General, deixou que a comitiva se afastasse, depois pegou na sua montada e, trote que trote, alcançou a carruagem do General e desabafou: “Sabe, o meu amo e senhor não esperava que chegassem três colegas profetas da montanha e agora não tem nada que lhes dar. Poderia o senhor General dar alguma coisa”… Radiante de alegria, o ‘milagrado’ Comandante-em-Chefe ordenou a dois subalternos que fossem pôr à casa de Giési todo o recheio que o Profeta, em nome de Deus, recusara-se aceitar.

QUINTO ACTO

No dia seguinte, Eliseu chamou Giési, pediu-lhe contas do sucedido e, não obstante as negas com que este pretendia encobrir o caso, o Profeta sentenciou: “Pecaste contra o Deus Vivo. E agora escuta o que te digo: Estás rico, podes comprar terras, bois, cavalos, carneiros, rebanhos de ovelhas. Ficaste rico com o que o General te deu. Mas, ouve bem, ele vai dar-te mais uma coisa; vais ficar com a lepra que ele tinha”.

SEXTO E ÚLTIMO ACTO

Naquele mesmo instante, Giési ficou com o corpo todo coberto de  lepra.”.

Sublinhado meu:

QUEM TEM OUVIDOS DE ENTENDER, ENTENDA!

QUEM TEM OLHOS DE VER, VEJA!

QUEM TEM CÉREBRO DE PENSAR, CONCLUA!

 

09.Out.21

Martins Júnior

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

APÓSTOLO DA INCLUSÃO – “EM VIDA” E PARA SEMPRE !

                                                                               


À hora que escrevo, estou a vê-lo em vida – “EM VIDA”, era o seu lema – descendo o templo do Campo Grande, com a estatura de um gigante e o semblante  transparente de uma criança que a todos nos tocava e prendia. No transepto, jazia o féretro de Maria Barroso, aquela que foi inseparável esposa de Mário Soares. Era a última despedida da sua igreja. Já lá vão seis anos feitos.

Entre a multidão imensa, Monsenhor Feytor Pinto deparou-se com um septuagenário, anónimo e discreto, também sacerdote, embora  proscrito pela hierarquia na sua ilha. E o Padre Feytor Pinto sabia-o bem.

- Então, vieste de tão longe?

– Sim, vim ao funeral da Dona Maria Barroso.

- Não fiques aqui, vai lá à frente, paramentar-te com os nossos colegas para a concelebração.

O septuagenário aceitou o generoso gesto do Pároco do Campo Grande, embora timidamente, pois lá estava a hierarquia nacional e vaticana concelebrantes das exéquias litúrgicas.

Jamais esquecerei a altitude evangélica e corajosa de Monsenhor Feytor Pinto, que sendo um alto dignitário da Igreja, recusava que o chamassem por outro título que não fosse o de simples Padre, Irmão e Pastor.

APÓSTOLO DA INCLUSÃO!

“EM VIDA” : com as crianças, os jovens, os casais, os doentes, os idosos. Vi-o e confirmei-o, todas as vezes que me recebia no seu gabinete, o seu Campo. Aí encontrei serena bússola para as duras encruzilhadas ocorridas na vida. Outros, muitos outros dirão o mesmo.

Campo Grande, a sua igreja. Mas ele era Maior que ela!

Por isso, beijo-lhe as mãos – gélidas da tumba, mas quentes do afecto que perpetuou no mundo.

Ficará sempre connosco, como “EM VIDA”!

 

07.Out.21

Martins Júnior

terça-feira, 5 de outubro de 2021

REPÚBLICA – ONDE MORAS ?

                                                                            


VIVA A REPÚBLICA! – proclamaram há 111 anos os revolucionários portugueses frente aos Paços do Concelho em Lisboa. Com o hastear da nova bandeira nacional levantaram-se, gloriosos, os valores republicanos, restituindo à grei o direito inalienável de marcar o futuro do seu país.

Cento e onze vezes têm-se erguido as vozes desse futuro sonhado em 5 de Outubro de 1910. Mas não são o brado nem o conceito que assentam os arraiais da Res-Pública.

Fiel ao seu registo histórico-etimológico é o Povo que faz a Rés, quer esta se chame coisa, facto, programa, projecto, palavra ou gesto. Por ser Pública, ela é nossa, de todos e de cada um! Se nós quisermos ela será o melhor de todos os mundos. E, da mesma feita, se nós a agarrarmos podemos fazer dela o pior de todos os regimes, mais corrupto que a monarquia.

República, irmã gémea – heterónimo perfeito – de Democracia!

República, onde moras?

E ela responde:

- No teu passo, no teu gesto, na tua mão, no teu esforço, na tua oficina, na tua mesa de estudo, na tua urna de voto, enfim, nos teus projectos.

Não procures a República fora de ti. Tu és o berço parturiente da República, não a mates à nascença. Deixa que ela irradie e se expanda pelo vasto chão onde ainda proliferam os obscuros vírus da monarquia e da ditadura.

REPÚBLICA somos nós!

E “5 de Outubro” é a nossa casa, restaurada e brilhantemente requalificada na alvorada do “25 de Abril”!

 

05.Out.21

Martins Júnior


domingo, 3 de outubro de 2021

OUTONO REVESTIDO DE PRIMAVERA NASCENTE – CERTEZAS E INCÓGNITAS

                                                                              


        Começar a semana quando começou o mundo: é inspirador e é premonitório. Porque sempre que o sol nasce ou a noite chega, há  a promessa de um amanhã novo à nossa espera. É o mundo que recomeça.

         Foi o LIVRO que nos trouxe hoje a inspiração, colocando-nos no ‘paraíso terreal’ como espectadores da criação dos dois  primeiro exemplares da nossa espécie: um Homem e uma Mulher. É meu propósito nesta fruição semanal, não a interpretação apologética do acontecimento, mas apenas um escopo serenamente didáctico sobre o mesmo.

1.     Da narração bíblica, que tem tanto de poético como de pitoresco e novelístico – é uma aberração imaginar-se, sequer, que a Mulher vale apenas uma costela do Homem – apraz-me citar o sábio teólogo Frei Bento Domingues: “Estas narrativas pertencem aos mitos de origem, não pretendem fazer ciência. Quem as lê como um dogma assinado por Deus perde o seu tempo e a ocasião de desfrutar da beleza destas peças literárias”.  Com efeito, a descrição de Moisés, no Génesis, (2,18-24) reflecte tão-só a mentalidade machista e patriarcal da civilização judaica e que foi severamente responsável pelo estatuto de subalternidade e servidão da Mulher através dos tempos, quer no judaísmo, no islamismo e na religião cristã e ocidental.

2.     O estigma genesíaco de ajudante ou auxiliar do Homem foi o pretexto para os fariseus proporem ao Nazareno a questão do “certificado de divórcio” que o marido tinha o direito de passar à Mulher, “despedindo-a por um motivo qualquer” (Ms.10, 2-16). Aí, o Mestre saiu em defesa da Mulher e instaurou o casamento monogâmico e indissolúvel, expressão máxima do Amor inquebrável, com todo o potencial de felicidade, entreajuda e plena realização que nele se contêm e, simultaneamente, com toda a gama de problemas, inibições e eventuais incógnitas que a vida traz.

3.     A este propósito – mormente os da vida conjugal – reproduzo aqui a observação que em África, Moçambique, no defeso das actividades militares, ouvi eu da boca de um emigrante europeu, aquando da Encíclica de Paulo VI, ‘Humanae vitae’ sobre a pílula e a limitação da natalidade: “Ó Capelão, explique-nos o que é que tem o Papa e o que é que tem a ver a Igreja para  se meterem na alcova do casal?”. Há segmentos e soluções que competem mais à ciência médica e psíquica do que à Igreja. Daí, a minha parcimónia no assunto, sem prejuízo do atendimento a quem o solicitar.

4.     Paralela a esta ideologia (e em contraposição) recordo aquele intelectual suíço que, há cerca de 60 anos no Porto Santo, confidenciou-me que dedicara a vida inteira  a neutralizar todas as tentativas de divórcio ou separação, convencendo casais problemáticos, quase  in extremis, a manterem a unidade conjugal. E justificou: “Ainda hoje sofro os traumas da separação dos meus pais, tinha eu apenas oito anos de idade”.

5.     “Maior milagre que mudar a água em vinho (como  nas Bodas de Caná da Galileia) é o milagre de unir duas vontades livres, essência do matrimónio. E suprema validade é o de conservá-lo por muitos e longos anos, contra ventos e marés.  Até os próprios pagãos, caso da Grécia Antiga, valorizavam a unidade conjugal personificada em Penélope e a tela que ela própria tecia durante o dia e desfazia-a durante a noite, sempre à espera do “seu” Ulisses levado para a guerra de Tróia. Com esse pretexto, evitou submeter-se ao veredicto do pai que pretendia casá-la com um príncipe pretendente.

6.     Nunca se sabe o que se passa dentro das quatro paredes de uma casa. Os tempos da pandemia que o digam. Por isso não nos é lícito julgar ninguém, muito menos na praça pública.

7.     E por isso também, Honra e Glória, palmas de Vitória a todos os casais que mantiveram acesa a chama do seu compromisso, superando dificuldades, atravessando vagas de mar alto, calcando sob os pés ensanguentados os espinhos e os abrolhos que se atravessaram no caminho.

 

Bem hajam todos aqueles e aquelas para quem a conjugalidade não foi apenas corpo. Foi também alma sempre viva e renovada !!!

 

02.Out.21

Martins Júnior

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

DIA DA MÚSICA, DA ÁGUA E DA LONGA IDADE

                                                                         




          

Estuário inaugural onde desagua

A tríade sem tempo  e sem finito

 

Do som primeiro que feriu o espaço

Das ondas do vento das plumas e dos pássaros

E se tornou partitura de inacabado compasso

Violino rajão tambor acordeão

 

Das águas virgens saídas do genesíaco terraço

Que o demiurgo bosão abriu

E se fez fio, levada, lago e vasto rio

 

Da infância uterina sempre rediviva

Que mesmo ré e da morte cativa

Renasce das próprias cinzas

E volta  em cada manhã

Ao porto-seio donde saíu

 

Outubro

Maduro e rubro

No seu leito mais antigo e profundo

Espelha-se a idade toda do mundo

Nas três sílabas pesadas

Há a primavera de Vivaldi e a clave de todas as baladas

No estuário calmo do seu peito

Água Música Velhice

Juntaram-se  para que todo o mundo ouvisse

As sinfonias gémeas de um concerto perfeito

 

        01.Out.21

         Martins Júnior