segunda-feira, 9 de setembro de 2019

SUICÍDIO JOVEM: ENTRE A CARÊNCIA E O ENFARTE


                                           

Anacrónico e deslocado o dia de amanhã. No meio da euforia de festas e festivais, onde abunda e superabunda o elogio do dolce farniente, surge o nocturno fantasma oferecendo a garra adunca a tantas vidas em flor. São 800.000 suicídios anualmente registados e entre estes a grande percentagem pertence aos jovens. Trágico!
Para eles e para os responsáveis, apenas um toque de alarme, breve mas de longo alcance:
Querem um jovem suicida? Eis a receita letal: tirem-lhe tudo ou dêem-lhe tudo, se possível em excesso. O suicídio jovem baliza-se entre dois extremos – carência absoluta ou enfarte absoluto. Por enfarte entenda-se o extremo facilitismo, a opulência gratuita. Retomando o velho adágio - “derrotado é aquele que desiste da luta” – também é verdade que se morre quando se desiste de  lutar. E desiste-se quando se não tem arma ou ferramenta adequada ou, pelo contrário, quando se as tem por excesso.
Queremos jovens brilhantes e fãs da vida? Entreguemos-lhes – e só! -  as armas da cultura, do trabalho, objectivos e motivações claras. E eles levarão a bom termo a magna empresa de uma vida. De todas as vidas!
09.Ser.19
Martins Júnior

sábado, 7 de setembro de 2019

PARTILHA E SAUDAÇÃO



Em plena liberdade de tudo quanto nos rodeia e que nós dominamos, desde a noite quente a leste da ilha até ao dia que vai cair-nos nos braços da próxima madrugada, desfraldamos a bandeira desta alegria sem termo, inspirada numa Mulher-Modelo que hoje festeja a sua entrada na “nossa casa comum”.

Dia da Natividade!
Que na Ribeira Seca se torna Amparo e Festa!
Faço minhas as palavras que povoam cada som e cada tom com que se enche o gracioso vale da Ribeira Seca:

A paisagem está de verde
São de amor suas canções
Está tudo iluminado
Como os nossos corações

Venha quem vier por bem
Junte-se ao nosso cantar
Na casa da Nossa Mãe
Todos têm seu lugar

O7.Set,19
Martins Júnior




quinta-feira, 5 de setembro de 2019

REENTRAR EM FESTA


                                                            

           Quantas são as portas e portadas por onde se entra e reentra?
Setembro é o portão  senhorial – Arco do Triunfo – que milhares e milhões de viajantes demandam neste maduro estio do mês nono. Gostaria de abarcá-los a todos – todos os umbrais abertos para quem os procura.
Hoje, não há maneira de passar em claro a reentrada na Festa do Povo, batendo à porta da Senhora do Amparo, Ribeira Seca, em Machico.
É tradição antiga e incontornável: no 2º Domingo de Setembro, berço feito entre Ponta Delgada e Caniçal, a Festa é na Ribeira Seca. Não para romarias de pedincha aos extra-terrestres mas para trazer à nossa mesa comunitária aquela Mulher e Senhora, protótipo de todas as mulheres havidas e por haver. Para estarmos com ela e ela com a nossa gente em transparente júbilo.
Sábado e Domingo, a Madeira regurgita de loas, barracas e foguetes, num festival barroco sem igual.
No coração do vale de Machico, o Povo periférico que habita a ruralidade madeirense  sai à rua, de fato garrido e prazenteiro, rasgando os ares de leste com as suas canções originais em que serão cantados diversos concelhos da ilha, nestes seiscentos anos do seu Achamento.
“Nas festas que o Povo organiza
Há mais alegria e verdade
Por isso trazemos a estrela
A estrela da felicidade”

Estamos em festa e já estão abertos os portões para quem vier por bem.

05.Set.19
Martins Júnior

terça-feira, 3 de setembro de 2019

DIZ-ME QUAL A TUA ‘RENTRÉE’ E EU DIR-TE-EI QUEM ÉS


                                                          

          Setembro nasce e nascem as ‘rentrées’.
A minha, a tua, a nossa.
É um mês parturiente aquele que ora se nos abre. E enquanto se procura a chave da porta, aqui fica a pergunta que é de todos, mesmo para quem não acha a porta:
Qual é a tua “rentrée”?... Onde fica?... Quem e o quê te esperam à chegada?...
Diz-me qual é ela e dir-te-ei quem és!
É o que decifraremos no próximo dia ímpar.

03.Set.19
Martins Júnior  

sábado, 31 de agosto de 2019

QUEM ACEITA O ÚLTIMO LUGAR NA LISTA OU NA MESA?!


                                                    

Fim de semana e fim de Agosto. Fim de férias e de festas. Foguetes em estalos do fim. E, enfim, o anunciado estertor de  candidatos ao galarim  do poder e da fama.
Mas não vou por aí. Vou para onde me leva, como habitualmente, o Livro lido de sábado para domingo. Não tanto pela letra quanto pelo espírito que em cada linha se nos revela. E o que nos revela é o rosto lavado e livre do meu Mestre Nazareno. Vale a pena abrir o texto de Lucas, 14.1.7-14.
Em nenhum parágrafo, em nenhuma linha o Místico de Nazaré evoca, muito menos invoca, o Senhor Deus, o Pai, o Templo, o Santuário. Tão-só uma nótula de civilidade, das boas maneiras, apenas um código de conduta no protocolo social, cirurgicamente dirigido, no caso em apreço, à burguesia urbana de Jerusalém. Cheia de humor negro, verrinoso, é verdade, mas pautada sempre pelo equilíbrio, esta mensagem tal qual se vê não ultrapassa as raias das normais etiquetas da praxe quotidiana.
Foi por cenas idênticas que os fariseus e sumos-sacerdotes do Templo ostracizaram o Mestre, trataram-no por Satanás, tentaram convencer a ,multidão de que Ele era a reincarnação de Belzebu. Porque Ele só falava do homem e da mulher, acariciava as crianças, curava os enfermos, promovia o ser humano em todas as suas dimensões. O “crime” do Nazareno era o de abrir portas e janelas nos cérebros manietados e apodrecidos dos seus contemporâneos. Na centralidade de toda a sua movimentação pública estava a humanidade, por vezes acima da divindade, mas sempre ao lado dela. Para a sociedade teocrática do seu tempo, cilindrada como estava sob as botas cardadas de um deus moisaico, armado e justiceiro, a mundividência do Mestre e a sua nova pedagogia  constituíam uma afronta aos poderes oficiais. Daí, a “excomunhão” que os auto-proclamados donos da religião descarregaram contra Ele, até ao cúmulo do assassinato.
No episódio de hoje e de amanhã, o Mestre observa a estratégia bacoca dos convidados àquele jantar, cada qual espreitando a melhor oportunidade de agarrar os primeiros lugares na mesa de honra. É a ganância de mil braços, o oportunismo despido, o assalto programado. É aí  que brilha o nosso Mestre com o seu discurso transparente e breve, mas tremendamente cáustico para uma plateia de brasonados pelo dinheiro, iluminados pela prosápia classista do farisaísmo pseudo-religioso:
    
 Naquele tempo,

Jesus entrou, a um sábado,
em casa de um dos principais fariseus
para tomar uma refeição.
Todos O observavam.
Ao notar como os convidados escolhiam os primeiros lugares,
Jesus disse-lhes esta parábola:
«Quando fores convidado para um banquete nupcial,
não tomes o primeiro lugar.
Pode acontecer que tenha sido convidado
alguém mais importante que tu;
então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer:
‘Dá o lugar a este’;
e ficarás depois envergonhado,


Parece que ainda não estava satisfeito o nosso Mestre. Faltava-lhe a cereja em cima daquele bolo do seu discurso. Proletário entre capitalistas, apesar de convidado pelos distintos “pares da aristocracia reinante” que excluía os párias da sociedade, Ele não se conteve sem denunciar ali, ao vivo, as gritantes assimetrias sociais do seu tempo, o paradoxo abissal que aquela fina e lauta mesa escondia. E arranca com esta sentença capital:
     

Jesus disse ainda a quem O tinha convidado:
«Quando ofereceres um almoço ou um jantar,
não convides os teus amigos nem os teus irmãos,
nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos,
não seja que eles por sua vez te convidem
e assim serás retribuído.
Mas quando ofereceres um banquete,
convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos;

e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te:



Para quê mais palavras?... Ó grande Mestre, intrépido arauto da Justiça e do Direito no reino dos homens! Razão tenho eu em dizer e repetir; “Se cá voltasses, eu punha a minha cabeça onde tu pões os pés”.
Tremenda e inexorável sanção para os  pregadores da sua mensagem!
Devorador que sou de homilias e demais oratória sacra, devo confessar o quanto me incomoda e até indispõe no corpo e no espírito quando, em certos sermões, sobretudo nas festas religiosas de verão, oiço o orador que, em quinze vocábulos, repete dez vezes o nome de Jesus, o Senhor e similares, daí partindo para voos esotéricos, a que chamam meditações sagradas. Aprendamos com o Mestre. Directo, fraterno, humano! Agora percebe-se, em plena evidência, a grande paixão do sábio Padre Teilhard de Chardin, que dedicou toda a sua vida de cientista a demonstrar que é pelo humano que se chega ao divino.
Na ponte que liga Agosto a Setembro, o Mestre dá uma portentosa lição de urbanidade e educação cívica e social. Por isso, não estarei longe da verdade ao afirmar, durante largo tempo, que em certas circunstâncias o povo precisa mais de educação que de religião!
31.Ago-01.Set/19
Martins Júnior  

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

COM O FOGO NÃO SE BRINCA… MAS COM O FOGO TAMBÉM SE FALA E SE SENTE!


                                                          

      Em tempo de lazer não há tempo para  habitar o tempo lunar do pensamento crítico. É tudo tão volátil, tudo empírico e descartável, tudo líquido, como classificava Zigmunt Baum a sociedade hodierna. Por isso, escolhi o óbvio – volátil, empírico e descartável – para o nosso entretenimento de hoje: o fogo. Não se trata de “brincar” com o fogo”, mas de vê-lo, ouvi-lo, falar-lhe e senti-lo.
Incontáveis são as marcas, os rótulos e variedades de fogo.
Há o fogo que aquece, alumia e constrói. E há-o, que arrasa cordilheiras, esgana casas e pessoas, pulveriza civilizações.
Há o fogo que abre clareiras no impenetrável negrume da floresta. E há-o, que carboniza o chão virgem que espera os nossos passos.
Há o fogo romântico na mesa redonda de um dia de namorados. E há-o, soturno, mortiço, no velório do finado da véspera.  
         Há o fogo feito de suor e sangue doado  em dádiva gratuita à terra, à história e memória de alguém. E há-o transacionável, moeda de troca por uma benesse vencida ou vincenda.
Há o fogo crepitante, vistoso, que desafia as altas nuvens. E também há-o,  o “amor-fogo, aquele “que arde sem se ver”, o de Luís Vaz de Camões, de Petrarca, dos verdadeiros amantes.
O tamanho das chamas só se o mede pela conta de bem ou de mal que espalham à sua volta. E a cor do fogo só a vê o nosso olhar-mente e coração. Assim, há o fogo que canta e o que chora estalando entre a rocha viva, Há o  fogo-obra de arte e o fogo bruto e brutal. Há o fogo puro, imaculado, sem mescla e há o fogo egoísta, utilitário, “dou-te se me deres”. Há o fogo que dobra círios e almas, mas há um outro que liberta e dá asas. Finalmente, há o tal fogo forte mas discreto, intimista mas purificante, em que os protagonistas ‘incendiários’, portadores da luz, diluem-se como sombras fugazes por entre as chamas. E há, nos antípodas,  os ostensivos e ostensórios ‘lucíforos’ que até se perfilam como os fariseus emproados no templo de Jerusalém.
Aí fica um breve mostruário dos fogos que povoam o mundo, o nosso pequeno mundo também. Cada qual poderá catalogar o seu ou os seus fogos,  que todos os dias deflagram, perto ou longe. A questão, porém, quase adivinha, que propus anteriormente cingia-se ao seguinte dilema: entre os dois fogos que fazem de Machico notícia e visita obrigatória – a Noite dos Fachos e a “Noite dos Milagres” - qual deles é o mais puro, generoso, altruísta e transcendente?    
     Deixo a questão em aberto. A palavra, livremente expressa ou assumidamente lavrada, a vós pertence. E todas, sem excepção, serão respostas credíveis e respeitáveis, porque sinceras.

29.Ago.19
Martins Júnior

terça-feira, 27 de agosto de 2019

MACHICO “A ARDER” É NOTÍCIA…


                                                           

Machico, terra bizarra, marcada pela garra das suas gentes e pela força das suas terras! Não obstante a agonia do planeta que se contorce por entre as chamas da Amazónia, trago hoje, na negra quietude da noite, dois “incêndios”  maiorais datados em cada ano e que fazem do vale e da baía de Tristão Vaz uma apoteose de fogo em festa.
O primeiro, o mar de lume em Agosto. Ei-lo no seu esplendor, ainda que parcial.
                                                              

        O segundo chega invariavelmente em Outubro, como que em miríades de lenços brancos despedindo-se do Verão. Espraiemos o olhar por sobre esse imenso  estendal caído em terra seca,
Debruçados “ a arder”, furtemos uma fagulha de luz e iluminemos o nosso cérebro para que ele possa responder ajustadamente a esta pergunta;
Dos dois “incêndios”, qual deles o mais nobre, o mais puro, o mais iluminante?

27.Ago. 19
Martins Júnior