sexta-feira, 9 de outubro de 2020

“ESTE ANO HOUVE UM MILAGRE”…

 


Pela pandemia também se caminha. E muitas são as ressonâncias e muitos são os testemunhos de quem, por esse mundo fora, descobriu clareiras de optimismo e esperança no estreito percurso epidemiológico que nos tem sido dado calcorrear no silêncio dos dias e no abandono das noites longas.

         Algo também ocorreu na noite de 8 e no dia 9 de Outubro de 2020. A cidade de Machico pagou renda à pandemia. Milhares de romeiros ficaram em casa, o cortejo processional foi mais reduzido em número para dar mais brilho ao cenário sempre nostálgico e sempre deslumbrante dos 200 archotes nas mãos de homens da terra e do mar. A própria chuva, intermitente a compasso, acompanhava os acordes plangentes da filarmónica. E até o natural bulício após o cortejo  finou-se nas pregas da noite. Tudo junto dava a sensação que, como sói dizer-se, ‘já não há milagres como antigamente’.

         Mas, ao fim de tudo, alguém – um dos populares atentos ao acontecimento, ‘com olhos de ver’ -  dirigiu-se ao responsável do acto religioso e aí, frente a frente e de viva voz, interpretou o sentir geral da comunidade participante: “Hoje, houve um milagre em Machico”.

         Qual? – nem serei eu a dizê-lo. É um pequeno ‘enigma’ que desafio  cada qual a decifrar. Para lanterna no caminho, dou aquela pista que anteontem deixei, ao citar o teólogo Torres Queiruga: “Nada é milagre e Tudo é milagre”.  

E acrescento: assim como o investimento.  que pode incorporar-se tanto em iniciativas empíricas, palpáveis, visíveis (estradas, betão, indústria) como em pessoas e valores supra-materiais, assim também o chamado milagre não se esgota nos limites do físico concreto e orgânico, por mais impressionáveis que nos pareçam. Há também o milagre nas pessoas, nas mentalidades, na metamorfose dos espíritos, quer individuais, quer colectivos. E estes, por serem mais profundos e intimistas, não serão menos esplendorosos.

          Neste pequeno caixilho insere-se o grande feito, chamemos o milagre, ocorrido em 8 e 9 de Outubro/2020, em Machico. Descobri-lo, eis o desafio.

 

         09.Out.20

Martins Júnior

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

“NADA É MILAGRE E TUDO É MILAGRE”!

                                                                     


Há-os para todos os gostos. Vestem-se de furta-cores mil e muitos mais. Pulam como esguichos de água aqui, acolá, lá  longe e mais além. E se os não houver, inventam-se, simulam-se, com maior ou menor verosimilhança.

Local das aparições: onde quer que o homem queira. Para uns e quase sempre, nos corredores de um hospital, num acidente imprevisível, furacões em alto-mar. Para outros, muito mais perto: num concurso público, num  exame de condução, numa prova de academia e, pasme-se, até naquelas miraculosas  chuteiras que enfiaram, in extremis, o tiro magnético nas redes do rival adversário. O meio ecológico, porém,  oficialmente  reservado ao milagre é o chão sagrado, a ara benta e o seu patrono, seja o Senhor dos Milagres (por ex. em Machico), o da Ponta Delgada, ou a Senhora dos Milagres (em  Bragança), ou ainda o Santo Taumaturgo do seu torrão natal. Há também quem prefira acender a vela na banca do bruxo ou no terro da ‘macumba’.

         Em sentido lato, pode aplicar-se a velha perífrase: Há milagre sempre que o homem quer.  Porque, de seu étimo latino, milagre é tudo quanto nos provoca admiração, espanto, algo de extraordinário. O “Dicionário Teológico Enciclopédico” começa pela thaumasion,, aquilo que expressa provocação e assombro; e parádoxon, quando acentua a dimensão de surpresa inesperada pelo sucesso alcançado. (pag. 634).

         No mesmo sentido, o grande teólogo Andrès Torres Queiruga, em Repensar o Mal, define e esclarece cabalmente que “Nada é milagre e tudo é milagre” (pag.396). Eloquente expressão que nos levaria muito longe, na interpretação da natureza e do real quotidiano! Por isso, Queiruga adere logicamente ao pensamento de vários e abalizados investigadores que, na esteira de Barry L. Whitney, concluem: “Esperar que Deus intervenha violando as leis que  o mesmo Deus criou, implicaria concluir que Deus não foi capaz de criar leis adequadas desde o princípio”. (Ibid.). Com maior acutilância, sugere o eminente jesuíta Teilhard  de Chardin que “é preciso ir além do Deus da Criação  e crer intensamente no Deus da Evolução”.

         Não era meu propósito entrar tão fundo nos labirintos de tão discutível problema. Tão só, o que me traz hoje é uma espécie de introdução ou primeiro e genérico olhar sobre as profundezas do nosso subconsciente face àquilo que cada indivíduo interpreta ou sente como milagre. “Nada é milagre e tudo é milagre”, repito Torres Queiruga. Os “milagres” não se medem aos palmos, nem pelo tamanho da cera ardida, nem pela execrável exposição publicitária do eventual  auto-suposto ‘milagrado’. Há fenómenos embutidos no mais íntimo de nós mesmos, que talvez nunca ninguém os há-de imaginar,  mas que nos transcendem a psique e transfiguram todo o nosso ser.

         Não me move nem comove o espectáculo  dos velórios ambulantes, sobretudo quando pretendem rivalizar com cenas mirabolantes de teatro de rua.

Porque, como no tempo e na práxis do Nazareno, verdadeiro Milagre está em nós, “Foi a tua fé que te salvou”!

 

         07.Out.20

         Martins Júnior

        

 

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

REPUBLICANO E PATRIOTA!

                                                                               


Se ‘10 anos é muito tempo’,  110 anos quantos tempos serão?!

E se lhes adicionamos os cerca de 900 da nação portucalense, até ao longínquo 5 de Outubro de 1143, vemo-nos perdidos como as caravelas sebastianistas em Alcácer-Quibir.  Porém, neste percurso quase milenar, há um elemento intemporal que nos une: O Mar Português. Navegamos, naufragamos, emergimo-nos das mesmas “salsas ondas”, ainda que sejam elas  feitas de lágrimas, “Lágrimas de Portugal”.

Monarquias ou Repúblicas, Regências ou Interregnos, perdas de Soberania ou Recuperação dela, Impérios, vitórias ou derrotas, pertencem todas ao mesmo Povo Herdeiro, filhos que somos daqueles que tudo fizeram. Da mesma fibra, dos mesmos genes, da mesma enxertia mestiçada, multirracial e pluricultural!

Monarquia e República são acidentes de percurso. Ambas nasceram em berços de sangue, lutas matricidas, guerras fratricidas, arroubos de amor pátrio ou ambições desmedidas. Amor pátrio, sublinho. Foi esta força telúrica, foi este património imaterial da Portugalidade que subiu à gávea, segurou  as velas, aguentou o leme e avançou, firme, contra os adamastores de fora e de dentro. Cada um, português anónimo, do maior ao mais pequeno, seja qual o seu posto, bem podia gritar aos ventos e aos mares: “Aqui… sou mais do que eu… Sou um Povo”… Sou Portugal!

Da mesma forma que se ergueu o monumento ao Soldado Desconhecido, deveria levantar-se o mausoléu vivo ao Patriota Ignorado. De todos os tempos: de 1385, de 1640, de 1820, de 1910, de 1974! Só ficaram nos livros os Vencedores. Porque milhares, milhões sem conto, foram os patriotas vencidos para que subissem ao vértice da História os poucos que lá ficaram. Mas esses, os poucos que ficaram, estendem os braços e franqueiam o coração para nos ensinarem, como em livro aberto, o que é ser patriota:

Ser patriota não é um título nobiliárquico: é um ónus de serviço irrecusável. Patriota não é o brasonado, coberto de medalhas e comendas: é o profissional de peito limpo, marcado apenas pela competência oficinal e pela consciência cívica. O patriotismo não está no mastro da bandeira alçada ao pico : está nas botas rotas do agricultor, nos calos das mãos do operário, nos dedos picados das bordadeiras. O Patriotismo não sai nunca dos trombones e trompetes de uma marcha militar, de elmos luzidios, que toca  as mesmas pautas do mesmo Hino Nacional, tanto para a Monarquia como para a República, tanto para a ditadura como para a democracia. Patriotismo não se cola aos colarinhos brancos, ainda que eloquentes uma vez em cada ano: vive, sim e apenas nos meios ecológicos do quotidiano dos que ensinam os verdadeiros caminhos do Pensamento e da Cidadania. O patriota não esconde a verdade da extensão pandémica, mas luta silenciosamente até ao limite (e há-os tantos, desconhecidos,  neste país) para vencer o vírus anti-humano que nos afoga.

Para nossa desdita e necessária responsabilização, quase sempre o verdadeiro Patriota serve-se morto. Citando apenas a minoria: Camões, António Vieira,  Gomes Freire de Andrade –  e, entre nós, ilhéus de Machico, Francisco Álvares de Nóbrega, defensor da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade, desde os séculos XVIII e XIX. Tal como em França, Jeanne d’Arc, posta em pé de altar pela mesma sacro-patrioteira instituição que a queimou na fogueira!...

Aqui, também, se pode afirmar com plena verdade: O Patriota não nasce. O Patriota faz-se! Onde quer que estejas, és Portugal, se o quiseres!

 

05.Out.20

Martins Júnior    

sábado, 3 de outubro de 2020

O CONTADOR DE ESTÓRIAS… DE ONTEM, DE HOJE E DE SEMPRE

                                                                        


        Entre soluços e lamentos, as ameaças e as condenações. Com o pisar das uvas, também o sangue que dos corpos esguicha por todos os poros. Já não é do mosto doce que o Mestre, Contador de estórias e alegorias, nos fala.

     Cava mais fundo, não se fica pela rama singular ou pelo pé de bacelo solitário. O sábio Contador de estórias atira-se ao coração da História, a do seu povo, a dos seus chefes, a dos que, possuindo a chave do reino da Promissão, sepultam maquiavelicamente a sua gente.

         Está tudo no texto de Mateus, capítulo 21, 33-43.00.  Vale a pena abrir o Livro e monitorizar os dados nevrálgicos da questão, os antecedentes, as agravantes, os locais do crime e os meandros da corrupção. A vindima, o lagar, o vinagre em vez de vinho. Autores: os técnicos, os enólogos, os feitores, os administradores. Todos eles, em cartel mafioso, conluiados para que a colheita, que se aguardava promissora, saísse malograda, raquítica, amarga.

A Justiça foi célere, pesada, tão ‘cega e surda’ que mais se assemelhava ao furor de uma vingança: destituição dos responsáveis, devolução dos campos e entrega imediata a um povo que amasse a terra arável e a tornasse fértil.

O Mestre não contava estórias para entreter ou anestesiar os conterrâneos. O Contador sabia onde queria chegar e para onde pretendia que a sua gente dirigisse o pensamento e a acção. Construir uma terra nova onde todos pudessem viver. Para isso, era urgente “derrubar os poderosos dos seus tronos”, como desde a infância lhe ensinara a sua Mãe. (Lc.1,52 ). Agora, adulto e líder desejado da multidão explorada e faminta, não teve pejo em denunciar publicamente os antros dourados em que pontificavam os demagogos, os maus feitores, os cangalheiros do povo: “Mandará matar sem piedade esses malvados, tirar-lhes-á o reino e será dado a quem produza o seu fruto” Mt.21. 33-43).

Vem, Mestre Contador de estórias iguais ou piores que as tuas. Ainda hoje, os senhorios sobrevoam as terras, mandam chover granizo que queima a terra e quem nela trabalha. A denúncia é connosco  e o braço forte é o nosso. Para que “a terra dê o seu fruto” e haja pão em todas as mesas.

 

03.Set.20

Martins Júnior

        

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

A QUADRATURA DO CÍRCULO DA VIDA: VIVER MAIS E MELHOR… VIVER MENOS E PIOR… VIVER MAIS E PIOR… VIVER MENOS E MELHOR…

                                                                


Fina-se o DIA do IDOSO e já se amanha o DIA do JOVEM, viçoso e galante, logo que o sol desponte. Afinal, é a tômbola da vida, um dia atrás do outro. Se todos os dias são do Idoso, cronologicamente todos os que se lhes seguem são-no do Jovem, do Adolescente, da Criança. E aí é, precisamente, o epicentro onde os extremos se tocam e, nalgumas circunstâncias, se identificam.

Tocam-se a força e a fragilidade, o sorriso e o pranto, a velhice e a infância, no limite, o berço e a sepultura. A vida e a morte.

Colocados diante da grande  “Roda da Sorte”, despertamos para o cenário da Quadratura do Círculo, consignada aos quatro túneis, todos bem sinalizados na paisagem do quotidiano, aguardando a nossa opção:

1.      Viver MAIS e MELHOR

2.      Viver MENOS e PIOR

3.      Viver MAIS e PIOR

4.      Viver MENOS e MELHOR

 

            Nem são precisas sondagens para nos convencermos de que há unanimidade plena quanto à primeira opção. O mesmo poderá concluir-se quanto à segunda: viver tão pouco, só para sofrer, não valerá a pena, como já de muito longe diz o provérbio bíblico: Magis mors quam vita amara – “Antes a morte que uma vida amargurada”.

No terceiro e quarto item’s  é que se torna controverso o quadrado dentro ou fora do círculo:  Viver MAIS e PIOR. Quem o deseja?... É o incontornável dilema: Quantidade vs. Qualidade. E lá vem o Livro da Sabedoria a avisar-nos: “A muita sabedoria não se mede pelo número de anos”.  E a felicidade também.    Finalmente, a última opção: Viver MENOS e MELHOR. Em similitude com a proposta anterior, estamos perante o mesmo conflito entre Qualidade e Quantidade. Teríamos de sacrificar um dos dois em benefício do outro: tempo vs  saúde, melhoria e bem-estar. Ou, o seu oposto: bem-estar  vs tempo.

Se ao  humano inquilino do planeta fosse dado o soberano poder de decisão, feitas as contas, chegaríamos à varanda sobre o abismo, onde confrontar-nos-íamos com - para uns - o fantasma. Para outros, o nirvana da quietude mais apetecível:  seu nome, a eutanásia.

Em dia de festa e de apoteose dos bandeirantes que outrora levantaram o estandarte da luta e da vitória, mas hoje mal chegam as forças para segurar o bordão de apoio, sim, hoje não será oportuno apostrofar o fantasma ou o nirvana, retro-citados.  Outro dia será.

Entretanto, ergamos (os que como eu podem fazê-lo) ergamos o troféu da longevidade activa e demos o braço e o coração aos que já não podem.

E porque hoje é  Dia da Água, sirvamos aos mais desvalidos a felicidade possível, nem que seja dentro de um copo de água fresca.

E porque hoje é também Dia da Música, acreditemos que é possível, assim espero, “adormecer eternamente  no Senhor da Vida, ao som de uma “Serenata, a nº13” de Mozart ou de um  vitorioso “Halleluiah” de Haendel!...

 

01.Out.20,

Dia Internacional do Idoso

Martins Júnior

terça-feira, 29 de setembro de 2020

PENSAMENTO SOLTO PARA UMA EUROPA LIVRE!

                                                                          


Neste mar assustado de vagas duplicadas e vagalhões triplicados – ele é o adamastor das Américas , ele é o ‘coronado’  tubarão pandémico, ele é o cortejo fúnebre de proscritos da vida – surge um lampejo de bonança a haver, transfigurado em rosto de mulher, verbalizado em acordes sonoros de uma palavra  de ordem, que se abre em manhãs de esperança e de verdade.

         Vimo-la nós, portugueses, em solo pátrio e ouvimo-la  hoje mesmo, na apresentação do “Plano de Recuperação e Resiliência”. Não é sem um imediato ictus de emoção que se ouve, alto e bom som, e se vislumbra no grande teatro do mundo este – até há pouco tempo – estranho, incomodativo pregão: “Resiliência”. Era um dos tais vocábulos atirados, quase por desdém, à barriga de um outro não menos ‘escandaloso’: Revolução. Resilientes eram os revoltosos, os insatisfeitos, os desestabilizadores da letargia pública, os resistentes à ditadura dos usos e costumes. Até que enfim, viu-se  personificada a “Resiliência”, entronizada em sede própria, pela mão das superiores entidades do país e da Europa.

              Refiro-me a Úrsula van der Leyen,  Presidente da União Europeia, entre nós, semeando punhados de estrelas e punhos de exigências para afastar o “espesso negrume” que avança sobre  Portugal e sobre toda a Europa. Em suma, sobre todo o planeta. A leveza da palava e a feminil elegância do gesto não impediram Úrsula van der Leyen de marcar linhas firmes de conduta político-social para os tempos que  se avizinham,

         De todo o discurso,  em que enumerou os milhares de milhões outorgados a Portugal (onde também se inclui a Madeira) permitam-me destaco em alto-relevo este normativo, soberano, intemporal:

QUE SIRVAM PARA DAR AO PLANETA

MAIS DO QUE SE TIRA DO PLANETA.

         Auspicioso, mas sobretudo duradouro e irrevogável imperativo que deveria inscrever-se no alçado frontal de todos os parlamentos, de todos palácios executivos, de todos os tribunais, de todos os bancos, de todas as fábricas, de todos os empreendimentos!

         Deixarei apenas esse pensamento solto, universal, para que cada um o desenvolva e o concretize:

Dar mais à terra do que dela se tira.

Dar mais ao mar do que se lhe rouba.

Dar mais aos rios do que deles se desvia ou inquina.  

Ao operário – seja qual o seu ramo ou especialidade – dar mais do que se o explora.

Enfim, dar mais à vida do que a vida nos dá.

E retribuir aos outros mais do que eles nos dão!

         Sonho impossível, ambição desmedida, num mundo onde roçamos os dedos e os cotovelos nas esquinas dos ‘tostões’, enquanto outros, cuja  obesidade nem cabe na esfera dos ‘milhões’, arrastam-se lânguida e sofregamente até explodirem, um dia, como a rã da fábula que quis usurpar o lugar do boi.

         Palavra de ordem da Mulher-Europa:

DAR AO PLANETA MAIS DO QUE DELE SE TIRA!

        

         29.Set.20

         Martins Júnior

domingo, 27 de setembro de 2020

APAREÇA QUEM SE LHE COMPARE!

                                                                       


Um guião para a semana. Para a vida. Para a história.

         Ele encanta. Ele remexe com as obscuras e confusas ambiguidades do debate. Ele enche e preenche os ânimos sedentos da luz, da higiene mental, da descoberta da Verdade. E é muito sério o caso em apreço.

         O filho do carpinteiro confronta-se com os Doutores da Lei, os Juízes Ancião do Povo e, ainda para cúmulo, com os Sábios da Escritura e Sumos Pontífices de Jerusalém. Em síntese: o Povo de peito aberto, pé descalço, posto à margem dos privilégios e dos acessos à honra pública, ao palco da sociedade. À sua frente, a “Nomenclatura”, os legisladores e julgadores, os predestinados ao Reino de Iavé e do mundo. Na gíria hebraica, era o pobre pegureiro David contra o supra-guerrilheiro Golias.

          O embate vinha de há anos. A “Nomenclatura” tinha urdido todos os esquemas e redes de pressão social para ostracizar o ajudante de carpintaria e, assim, retirar-lhe a enorme força de apoio, a chamada plebe palestiniana. Mas Ele conhecia o exército armado da dita “nomenclatura”. Feitas as contas,  era a transparência existencial, a franqueza de comportamentos e atitudes, era o Povo, frente à corrupção  envernizada, a hipocrisia mais requintada, a ‘podridão dos sepulcros, branqueados por fora’, como Ele próprio havia já  denunciado.

         O debate era público. Poderia o operário Nazareno arvorar o seu estro retórico de taumaturgo das multidões e fazer tremer ali os alicerces dos tribunais, das sinagogas, as colunas salomónicas do Templo de Jerusalém. Com o poder persuasivo da Palavra, poderia reduzir a escombros os magnatas do império sacro-moisaico ali presentes.  Mas não. Ali estava também o Povo a franja  dos párias,  excluídos da cultura oficial. Era preciso falar a sua linguagem

         Então, o operário pedagogo usa o mais simples e rasteiro vocabulário, ao interpelar os “monstros sagrados” de Jerusalém, recorrendo à cena familiar de um pai que pediu aos dois filhos ajuda para a vindima daquele ano: o que prometeu ir não foi. Aquele que inicialmente recusou o pedido paterno, esse é que esteve no campo a vindimar arduamente. “Que vos parece, vós, Doutores e Sumos Sacerdotes: qual dos dois filhos fez a vontade ao pai?”. E logo responderam os Sábios Juízes: ”Foi o segundo”.

         Estava aberto o debate e lavrada a sentença. Contra eles próprios e por sua própria boca. E o Mestre concluiu frontalmente: “No Meu Reino, vós não entrareis. Vós, Doutores da Lei, Sumos Sacerdotes, Fariseus, ficareis de fora. Sabeis quem vai entrar? Os publicanos, as prostitutas, todos aqueles e aquelas que vós condenais”. (Mateus, cap.21).        

         A fundamentação da sentença deu-a Ele mesmo, no texto citado que vale a pena consultar.

         Não sei que mais admirar neste episódio verdadeiramente estremecedor: se a fina inteligência do ‘discurso’, se a portentosa denúncia contra uma sociedade dominante e hipócrita, se a coragem de Alguém que não perde tempo com subterfúgios e argumentários sofisticados, como acontece actualmente, entre os que pretendem disfarçar escandalosas alianças aos olhos do vulgo ignaro.

Transpondo para os dias de hoje, apareça por aí quem se assemelhe a Jesus de Nazaré e, com palavras e factos, ajude a vindimar a Terra, purificá-la e dela extrair o sumo da Verdade. Ainda que para isso tenha de “ser espremido como as uvas no lagar”!

 

         27.Set.20

         Martins Júnior