quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

HABITAR A INTERMINÁVEL PAISAGEM LOURENCIANA!

                                                          


Alcaide do tempo, ensinaram-me que “quando morre um idoso, fecha-se uma biblioteca”. Mas à porta do templo da sabedoria, também  aprendi que quando morre um homem, da estirpe de Eduardo Lourenço, seja qual a sua idade, abrem-se milhares de bibliotecas. O crepúsculo quase secular de uma vida prenuncia o  reamanhecer de um novo dia para quem fica.

         Por isso que, em vez de curvar-me lacrimoso sobre a tumba, perfilo-me reconhecido e galvanizado até ao mais íntimo quando vejo um humano mortal subir ao alto, descendo embora em cordas, e evolar-se no misterioso Olimpo inominado que povoa o Universo. Mais leve e límpida fica a minha interioridade se esse humano mortal deixa no seu rasto as marcas dos longos anos vividos, podendo inscrever-se na sua lousa tumular o mais belo de todos os poemas: MISSÃO CUMPRIDA! É então que apetece mandar calar os acordes plangentes da marcha fúnebre e fazer soar bem alto os clarins de uma Ode Triunfal.

         É assim que vejo o Adeus a Eduardo Lourenço. Sem mais panegíricos, sem mais lamentos.  Apenas com esta insanável incógnita: Por que não pode o cérebro do Sábio deixar, em concreto testamento sucessório, a ciência acumulada, a sensibilidade adquirida, a riqueza conquistada na centenar viagem de uma vida?!... Oh quem pudera beneficiar de tão estranha e ambiciosa clonagem!!!

         “Plantar uma árvore, escrever um livro, fazer um filho” – a grande pirâmide triangular que guarda o precioso testamento daqueles “que da lei da morte se vão libertando”! Preciso é ter apetência e coragem para entrar no mausoléu da Sabedoria, abraçar a herança e partilhá-la. Com alguns, com muitos, se possível com todos. De Antero de Quental dizia o seu amigo Eça que “ele tinha alma para sete famílias”. O mesmo dir-se-á de Eduardo Lourenço e de todos os semeadores de luz e de esperança.

         Fazer dos seus livros a alameda repousante das árvores da vida, lê-lo e amá-lo como se ama um filho e se o dá a conhecer ao mundo: eis o emotivo e único cortejo que Eduardo Lourenço espera de nós. Em roda livre, em movimento perpétuo, em abraço reprodutivo. Porque a luta árdua de um Homem-Só produz heróis, mas não cria civilização.

         É neste seu, muito seu “Labirinto da Saudade” que vamos encontrá-lo de novo, todos os dias, como a luz-ao-fundo do grande túnel da Vida!

 

         03.Dez.20

         Martins Júnior  

        

        

              

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

UM BERÇO NOVO PARA 2020 !

                                                                                 


Aguardei o “Dia das Livrarias e dos Livreiros” para, sem restrições de distância ou máscaras proibitivas, reunir a grande constelação alada que atravessa o invisível  do tempo e as muralhas do espaço, aquela mais directa – quase a única – capaz de bater-se contra o vírus que escorre do “corona”, o  demolidor vírus da solidão. Basta trazer as mãos limpas e o olhar sedento para beber o néctar escondido nas asas de cada página que gravita à nossa volta.

É de livros, autores, livreiros, compositores gráficos – e na mesma linha, de leitores -   que hoje desejo preencher este fim de tarde., relevando em primeiro plano a profusão de títulos lançados ultimamente aqui na ilha e no território continental. Recuso-me a macular e a misturar com o interesseiro ‘mercado de natal’ as produções literárias saídas dos inspirados talentos que as criaram. Ao invés, elas trazem-nos o melhor antídoto sazonal contra a solidão: os autores, ao apresentarem as suas obras, estão a dizer-nos que, mesmo presos nas grades do confinamento, nunca estiveram sós. Eles bem podem repetir o vitorioso desabafo que Gilbert Cesbron põe na boca de um dos seus personagens: “A minha prisão é um reino”.

O livro libertou-os. E é dessa libertação que partilhamos nós, os que temos fome e sede dos seus poemas, das suas incursões históricas, das suas ilustrações artísticas, também do seu humor saudável. Todos eles abriram os braços e entregaram-nos, benfazejos, sementes de esperança.

Porque é de lampejos de esperança e torrentes de dinamismo que precisamos neste finar de 2020, tão auspicioso e tão deprimido.

É por isso que, de entre todos os títulos recentemente publicados, destaco os 181 poemas do Padre José Luís Rodrigues, atados num sugestivo feixe, com toda a propriedade baptizados de “PEDAÇOS DE ESPERANÇA”. Sublinho ‘atados’ porque no dentro de todos os poemas, abertos ou divididos em quatro braços, há um mesmo rio que os une para, na foz, desaguar em delta identitário: “O Meu Retrato”.

Devo confessar o meu olhar perante a poesia: a Poesia não se discute, não se mede nem se pesa, muito menos é objecto de anatomia laboratorial. A poesia, na sua fonte originária e no seu términus, não se discute, sente-se. Porque é, acima de tudo, coração, sensibilidade, sétimo céu de cada homem, de cada mulher. Sempre me impressionou António Correia de Oliveira quando escreveu: “Fez-se um soneto enquanto o coração bateu catorze vezes!”. Todo o poema é um universo de sabores e saberes. Até o coração de uma criança tem o tamanho do mundo! 

Por isso, da Poesia - gosta-se ou não se gosta.

E eu gosto dos “Pedaços – chamaria ‘tsunamis’ – de Esperança”  e com eles me identifico. Porque o Autor em tudo vê nascer e crescer o “verde viçoso” do desejo, feito espiga promissora do pão futuro. José Luís Rodrigues cumpre em plenitude o nobre guião do vidente Sebastião da Gama: ”O Poeta em tudo se demora”, não enrolado sobre si mesmo em onírico narcisismo, mas aberto ao mundo, qual trombeta altissonante no alto das montanhas, convocando-nos à grande cruzada: “Esta é a hora de um novo mundo”.  E é por isso que “0 meu desejo acolhe cada ente que se contorce ferido … e se vejo faltar o chão ao pobre, não me calo por nada deste mundo”.

Não cabe no estreito espaço desta página aprofundar o pensamento do Autor. Já o fizeram, com mestria, os Professores Luisa Polinelli e Nelson Veríssimo, aquando da apresentação pública. No entanto, não posso silenciar a pujança, umas vezes subtil, outras incontida e aos borbotões, que se desprende de cada poema, assinalando a trilogia retomada, como refrão vibrante, ao longo de todo o livro: “Fogo…Luz…Amor” – estes os “Pedaços” com que JLR constrói o monumento da “Esperança”.

Faz bem ao corpo e ao espírito alimentarmo-nos deste pomar de Poesia. E mantenho a ‘receita’ que o Autor sugeriu na sua página: “É melhor ler que ingerir ansiolíticos”.

O Padre José Luís Rodrigues honra o clero madeirense, essa plêiade de pensadores e escritores que conheci nos recuados tempos da minha juventude e que hoje tanto escasseiam, a olhos vistos. Bem haja, ilustre poeta e pedagogo,  pelo  precioso antídoto em tempo de pandemia. E mais: na hora de comemorar a Restauração da Soberania Portuguesa em 1640, saborear “Pedaços de Esperança” é um dos caminhos para conquistar a autêntica Soberania do espírito humano!

 

01.Dez.20

Martins Júnior   

 

 

domingo, 29 de novembro de 2020

BISPOS DO FUNCHAL CONTRA GENTE DE MACHICO: UM EPISÓDIO SECULAR

                                                                                


Enquanto escrevo estas linhas, a noite, entre vento forte, chuva grossa,  relâmpagos e trovões, faz a sua marcha ao encontro da manhã. E essa manhã tem tanto de luminoso como de sombrio e trágico. Neste domingo descendente vamos a caminho daquele 30 de Novembro de 1773, o dia que viu nascer Francisco Álvares de Nóbrega, “em pobre, sim, mas paternal morada”.

Quis a  (des)Fortuna  que neste 247º aniversário do seu nascimento, não houvesse programação festiva nem ajuntamentos sócio-culturais. Mas assenta à perfeição este “confinamento” evocativo do nosso “Camões Pequeno”. Porque se o corpo da sua obra brilha exuberante no estilo, no ritmo e na elocução literária, o que dela ressuma - a alma, a angústia existencial – não nos move a euforias congratulatórias, antes amarra-nos às algemas que carregaram as suas mãos, dentro e fora da cadeia do Limoeiro. Neste momento, revejo-me no soneto que ele, “Camões Pequeno” dedicou ao “Magno Camões”, o épico imortal:

                  

Se me recordo, meu Camões divino,

                   De que em pobre hospital, sórdido, agreste,

                   O derradeiro adeus ao mundo déste,

                   Leio em tua desgraça o meu destino.

 

E disse-o bem. Porque se Luís Vaz acabou seus dias na miséria e em “sórdido hospital”, a Álvares de Nóbrega pior sorte lhe coube: a enxerga da masmorra consumiu-lhe a pele e apodreceu-lhe o corpo, depois da soltura, até morrer em casa de um amigo, que o recebeu, mais abandonado que um sem-abrigo, na Rua São João Nepomuceno, zona de Campo de Ourique. Lisboa.

O nosso conterrâneo do século XVIII, que hoje se evoca,  não é uma lenda, nem protagonista de um filme pré-fabricado. Teve nome, pai e mãe, conhecem-se os carrascos e as instituições que lhe tramaram a vida.  Mutatis mutandis, fizeram-lhe o que fizeram ao Nazareno: o poder religioso (mais que o poder político) assanhou-se contra o jovem machiquense que, então, já tinha dado entrada no Seminário do Funchal, por sugestão do deão da Sé Catedral, seu amigo e professor de Retórica. O bispo tem nome: José da Costa Torres. Perseguiu o talentoso candidato ao sacerdócio com base em calúnias de teor teológico-doutrinário e não descansou sem que um fraudulento processo na Inquisição o espetasse na dita masmorra do Limoeiro.

  Dispenso-me de repetir o seu doloroso percurso em Machico, no Funchal, em Lisboa. Já foi bastas vezes divulgado. Direi apenas isto: despediu-se da vida aos 33 anos de idade, a mesma do Nazareno. Nem há registo de sepultura nem sequer se conhece o cemitério onde depositaram os seus ossos. Conhecem-se, isso sim, os algozes: o bispo Torres e o Tribunal do Santo Ofício, a Inquisição!

Eram tempos tumultuosos os de Álvares de Nóbrega, em que a Maçonaria nascente ganhava a simpatia de muitos eclesiásticos madeirenses. Mas foi o nosso conterrâneo que o dito bispo escolheu para alvo preferido e vítima sem defesa. Entretanto – ironia da história – o mesmo prelado caiu em desgraça do povo madeirense e, diz a história, teve de fugir clandestinamente do Funchal para Lisboa, “sem poder sequer despedir-se do Santíssimo Sacramento”.

Chegado à Madeira, o novo bispo, D. Luís Rodrigues Villares, tomou como sua primeira decisão libertar o nosso poeta e pensador, não obstante o adiantado estado de precária saúde.

Quantos homens e mulheres, ao longo dos séculos, gemeram e morreram sob o implacável, satânico, cepo da Inquisição, em nome de um deus que ela mesma fabricou. Semelhantes aos de Francisco Álvares de Nóbrega, quantas vítimas ficaram eternamente no ignoto silêncio das sepulturas anónimas!  Até aos nossos dias… Por isso, o título desta página, conquanto genérico e aparentemente excessivo, pretende homenagear os heróis esquecidos que deram a vida para que pudéssemos todos respirar livremente enquanto habitarmos este planeta. É o que faremos em particular na sala e biblioteca “Francisco Álvares de Nóbrega”, em Machico.

E já que estamos em tempo de Advento, de vigilância cívica e evangélica, o povo tem de exercitar a sua cidadania, permanecendo alerta contra os abusos do poder, venham eles de onde vierem!!!  

Encerro estes considerandos, inspirados na mensagem do nosso “Camões Pequeno”, com o soneto que ele próprio, desde Lisboa e já destruído fisicamente,  dedicou ao bispo libertador Luís Rodrigues Villares:

 

                   Prelado Excelso, o Nóbrega doente,

                   Cá das margens do Tejo, onde o remistes,

                   Vai, sobre as asas dos seus versos tristes,

                   A beijar-vos humilde a mão clemente.

 

                   Ainda se lembra da tenaz corrente,

                   Que do seu rôto pé Sábio despistes,

                   Quando em cárcere abjecto em luto o vistes

Dos pais, do benfeitor, da Pátria ausente.

 

Só vós o fado meu vencer pudestes,

Só vós os agros dias me adoçastes,

Do vosso antecessor mimos agrestes.

 

Conheça o mundo o quão diverso andastes:

Aquele me espancou, vós me acolhestes,

Aquele me prendeu, vós me soltastes.

 

29.Nov.20

Martins Júnior

        

                                                                  

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

A “FÉ E O IMPÉRIO” – OU - IMPÉRIO E A FÉ?... TESTEMUNHOS DA GUERRA COLONIAL

                                                                        


Apreciei as observações coincidentes com o penúltimo  blog, assim como daria idêntico apreço às eventuais opiniões contraditórias, desde que devidamente fundamentadas. Ficou provada a minha repulsa pela invasão e genocídio dos jhiadistas islâmicos contra o indefeso povo de Cabo Delgado, do mesmo modo que repudiei e ainda hoje abjuro dos crimes que a tropa portuguesa cometeu sob a benzida e incensada guerra colonial.

         Quando escrevo “benzida e incensada”, refiro-me ao protecionismo público e notório da Igreja Católica Portuguesa ao arsenal bélico-operacional e administrativo do Exército em campanha, resquícios da bandeira quinhentista que sobrevoava e amparava os assaltos da Coroa Lusa  aos territórios de “Aquém e Além-Mar”, a qual foi apoteoticamente cantada pelos nossos poetas e cronistas: “Dilatar a Fé e o Império”.

         Foi esta uma questão suficientemente escrutinada por dois conhecidos  historiadores, aquando da abertura dos “500 Anos da Diocese do Funchal”, em 2012, em sessão solene realizada na Universidade da Madeira. Aí em palco viu-se, ao vivo, o ‘duelo’ entre duas “histórias” diametralmente opostas: “O Portugal das Descobertas teve como objectivo prioritário a Fé, a missionação, e só depois o Império”, dizia um dos especialistas convidados, enquanto o outro, situando-se no contexto sócio-económico coevo, provou que o móbil das chamadas Conquistas consistia essencialmente na aquisição das riquezas orientais, entre as quais as longínquas e exóticas especiarias. Em sua opinião, o Império precedeu a Fé.

         De há muito que eu partilhava esta segunda interpretação, por mais realista e consentânea com o processo histórico dos Descobrimentos. Mas foi a forçada participação na guerra colonial, como capelão do B.Caç.1899, que me fez confirmar à evidência este ensaio de farsa bem embrulhada em pressupostos pseudo-religiosos: o Estado Português queria capelães militares, não para missionar os indígenas nem para rezar com os soldados, mas tão só para ganhar, através da Igreja,  o apoio do povo , mormente as populações rurais, de onde eram recrutada a maioria dos jovens portugueses “condenados”  à guerra.

         Por isso recusei-me a benzer o Estandarte do Batalhão,  na igreja da Amadora, onde estava sediado o Regimento de Infantaria  nº1, sendo por isso censurado pelo comando, antes mesmo de embarcarmos no velho “Niassa”.  Um outro episódio, porém, ocorrido mais tarde em Mocímboa da Praia, Cabo Delgado, veio acabar as dúvidas que porventura tivesse sobre o que pretendia de mim o exército português, mais precisamente, o regime de Oliveira Salazar.

         Chamado ao Ex.mo tenente-coronel, comandante, bati-lhe oficialmente a pala regimental e escutei o elogio:

- O nosso capelão é diferente dos outros.

- Muito obrigado, meu comandante, faço o que posso.

Julguei estar a referir-se ao conjunto musical de ritmos modernos com o qual, sob a minha direcção, animávamos periodicamente as quatro companhias do batalhão. Mas, ao ouvi-lo repetir duas, três vezes, o ‘elogio’, indaguei:

         - Mas…diferente, porquê, meu comandante?

         - É que eu tenho ido às suas missas, ao domingo.

- Muito bem, meu comandante. Não sei qual a sua fé, mas tenho notado agradavelmente a sua presença. E então?

         - É que nos outros batalhões que comandei, o capelão aproveitava a homilia para falar de Nossa Senhora de Fátima, para ela dar força e coragem aos nossos rapazes contra os turras. E o senhor, nada.

         Aí perfilei-me, puxei pelos meus galões, não de tenente, mas de padre e patriota e atirei sem escolher os termos:

         - Agora percebo onde o meu comandante quer chegar. Mas fique sabendo do seguinte: se o senhor pensa que vou fazer de Nossa Senhora de Fátima a padeira de Aljubarrota, tire o cavalinho da chuva e mande-me já para a minha terra. O senhor com uma mão e eu com as duas. Obrigado.

         Bati a pala regimental e saí, soliloquiando com veemência contida: É para isto que me querem cá. Para ajudar a matar. Para servir o criminoso regime colonialista.

         Não fora a amizade solidária que me unia a oficiais, sargentos e praças sobretudo, em circunstâncias tão dramáticas – e eu teria desertado, fosse para onde fosse.

Sei que o capelão tem uma função essencial na psicologia dos jovens abandonados nas matas africanas. Quantas vezes vieram chorar no meu ombro, pelo pai, pela mãe, pela esposa (ou pela namorada) e pelos filhos…e pelo medo de morrer na próxima emboscada. O padre psicólogo! Mas o Estado não mobiliza psicólogos. Prefere os padres e até dá-lhes, por isco,  galões de alferes, tenentes, chegando mesmo a coronéis, com a única e sub-reptícia estratégia de amarrar a Igreja ao regime político-militar.

Sério problema para a Igreja. A Igreja de Jesus de Nazaré, o Mestre e Libertador. E não da Sinagoga do “Senhor Deus dos Exércitos”.

Conforta-me a solidariedade dos então jovens mobilizados, hoje septuagenários e octogenários, cujo doloroso percurso partilhei em terras de Cabo Delgado. E serena-me o espírito a colaboração dada em Mocuba (foto acima) Mabotacuane e Morrumbala, distrito da Zambézia, aos dedicados missionários italianos, com quem contactei e aprendi.

 

27.Nov.20

Martins Júnior

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quarta-feira, 25 de novembro de 2020

QUEM DOMESTICA A PAN-DOMÉSTICA VIOLÊNCIA?

                                                                        


Na Sala Oval desta Casa Comum, de mil recantos e em cada um deles milhões de assoalhadas, outros tantos subterrâneos e alcovas clandestinas, ressoam gemidos e gritos, ora fragosos, ora abafados sem eco, que a tornam uma  global e assombrada caixa de pandora.

À mesa de jantar, reluzem os talheres do egoísmo, parte-se a baixela de porcelana hipócrita, abocanhando cada qual a sua posta maior no orçamento. Mordem-se os dedos e os cotovelos, sem um naco de pudor, para esconder a carne nos bolsos e deixar os ossos aos que vierem depois.

Nas paredes da cozinha escorrem as lágrimas das cozinheiras de todo o mundo, estala o gaz da revolta dos que produzem ricas ementas para os senhores DDT, ficando elas e eles de mãos encarquilhadas à espera das migalhas que sobram do festim.

Nas caves-subterra, os escravos gemem para fazer polir o chassis, a bagageira, o tejadilho do ‘juguar’ milionário – e eles, irmãos dos proletários de todo o mundo, quem os defende, quem lhes dá hipótese de aliviar os pés calejados e nus?

Nos logradouros do palácio, de um lado clareiras de orquídeas em prados verdejantes. Do outro, o deserto imenso sem sombra de oásis, o chão ressequido, ingrato e duro, onde afogam até à exaustão os famélicos foragidos da guerra. A violência bilateral serpenteia entre a opulência e a escravidão, aguardando a paz ou a insurreição.

No mais recôndito da alcova doméstica, lugar do amor nascente e producente, o cutelo da traição destrona o abraço originário. Pagam os mais frágeis, na face das mulheres e no grito lancinante das crianças. Venha alguém, do fundo do abismo ou do mais alto dos céus e proclame a Nova Ordem Mundial: ”Casais de todo o mundo, uni-vos|”!

 Na Grande Sala do Selo, reúnem-se sigilosamente os “monstros” do G5, do G7, de todos os ‘Gs’ e na ponta do aparo com que subscrevem os tratados de paz e de comércio começa o estampido dos morteiros de guerra. É a violência em casa sua!

E se houver cruz e altar  na Sala Global, até aí a ditadura das mitras e dos barretes dogmáticos  esmaga com anátemas de maldição e tortura os jovens bandeirantes de um Mundo Melhor.

E tudo é violência. Pandémica violência  porque, pior que o Covid, alastra por tudo quanto existe. Doméstica violência planetária!

Quem a domestica?...

Parafraseando: Não perguntes à Casa Comum o que pode fazer por ti. Pergunta, antes, o que podes tu fazer pela Casa Comum?!

Pela Anti-violência!

 

25.Nov.20

Martins Júnior   

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

REVISITAR CABO DELGADO E PEDIR-LHE PERDÃO

                                                                            


Há 53 anos que ando a lutar contra a memória. No campo de guerra que começa e acaba neste esqueleto que me mantém de pé, tinha dado quase por finda esta mortalha na tumba do esquecimento. Mas eis que ela voltou, como um fantasma redivivo. Veio recalcitrar-me o espinho antigo, com as mais recentes notícias sobre o massacre das gentes do Norte de Moçambique: “Estado Islâmico decapita 50 moçambicanos em Cabo Delgado… 430 mil pessoas deslocadas… cadáveres perdidos entre o capim… crianças desgarradas no mato”…

Não aconselharia ninguém a ler este rolo de reminiscências trágicas. Mais desejaria não ter de escrevê-las. Mas faço-o, talvez como exercício de catarse para esconjurar o monstro de sete cabeças, desde a mágoa, o grito, a revolta, o desespero. E faço-o também como homenagem àquele povo com quem lidei na lusa-pandemia da guerra colonial, entre 1967-1969, uma etnia de  um vasto território, tribos e crenças, em que predominavam muçulmanos e cristãos católicos, estes últimos pertencentes à etnia maconde, a mais aguerrida e temida de Cabo Delgado.

Quanto gostaria revisitar Mocímboa da Praia, Nambude, Diaca, a curva da morte, Chitolo, Mueda,  Muidumbe, toda a imensa floresta até Palma, as margens do rio Rovuma, de onde se avistava a Tanzânia, antigo reino do Tanganica. Sonho impossível! Em troca, sinto sob os meus pés a poeira das picadas, as mangueiras e os cajueiros que roçavam as nossas cabeças à passagem dos carros de combate, pressinto os passos daquela pobre gente que, ao ouvir o sinal de “aí vem a tropa portuguesa”, fugiam espavoridas, adultos, crianças, velhos, deixando ainda o tacho da mandioca entre as duas pedras que aconchegavam as brasas da lareira. Vejo o furor dos nossos soldados cortando à catanada os arbustos, os milheiros, todas as plantações em redor da palhota. E eu, lá dentro, descobria objectos de culto católico, imagens de Fátima, terços, evangelhos bilingue (português e maconde) catecismos. E foi aí que despertei para este escandaloso absurdo: “Afinal, estou aqui a patrocinar a matança de irmãos meus, católicos como nós”. Que faço eu aqui? Não apenas eu, mas a Igreja, que se diz de Cristo?... Não suporto, por indigno e sacrílego, que um bispo se chame brigadeiro, um padre coronel ou capitão ou tenente ou alferes! Não é uma comenda, é uma nódoa inapagável no peito e na alma do sacerdócio. Só por crassa ignorância ou indesmentível má fé, que uma religião/Igreja, seja ela qual for, se sujeite tão servilmente às “Nep’s” de um exército, o mesmo que dizer de um Estado!

Cabo Delgado, Cabo grosso de misérias e de sangue, onde um malfadado capitão (miliciano!) manda formar toda a Companhia e, à vista dos 150 homens em parada, ordena a dois furriéis, um de cada lado, que cortem as duas orelhas a um africano vivo, ali à frente de todos. Fora apanhado na picada. Exigia o comandante, por meio de um  intérprete nativo,  que o pobre homem descobrisse os paióis da Frelimo, ao que respondia repetidamente que desconhecia tal cousa. De seguida, foi abatido, ali também à frente de todos, dependurado depois num tronco alto, na berma da picada. Cheguei a vê-lo ainda, só o esqueleto, porque o corpo tinha sido devorado pelas aves da selva. Digo-o e não me arrependo, vi nele o Cristo morto na cruz. Passada uma semana, os africanos retaliaram tragicamente, matando 11 dos nossos, numa mina anti-carro.

Estas e outras “cenas”, perpetradas hoje pelo “Estado Islâmico”, ontem pelo catolicíssimo Estado Português. Uns, os nossos, invocando Jesus e Maria e os outros, os jhiadistas, gritando “Alá (Deus) é grande e o seu Profeta”! Execrável condição dos homens que não aprendem nada e  continuam a fazer do Planeta uma selva de animais ferozes!

Quem me dera voltar atrás para poder desertar quando fui mobilizado ou, em contrapartida, ir pedir perdão a Cabo Delgado, por ter sido forçadamente incorporado num bando que, meio século antes, antecipou os crimes dos terroristas muçulmanos. Razão tem Mia Couto, ao afirmar, em recente entrevista, que a “Grande parte da Igreja Católica foi conivente com a ditadura”, ressalvando, no entanto, o bispo Manuel Vieira Pinto e outros missionários defensores dos moçambicanos.

Se, por um lado, persegue-me o remorso de, em pleno mato, celebrar a Eucaristia àqueles jovens sldos (também vítimas do regime) que saíam para matar, conforta-me o  baptismo dos 32 macondes que administrei no extremo Norte de Moçambique, junto ao Rovuma,  depois de uma acurada preparação feita por monitores também macondes.

Quando e como a ajuda internacional valerá àquela pobre gente, possuidora de tão ricos recursos em prol da humanidade?!

 

23.Nov.20

Martins Júnior

  

         

sábado, 21 de novembro de 2020

“O REI VAI NU”…

                                                                 


                                                             

       O filme, sei-o já, não agradará ao grosso da multidão. E não mo preocupa, porque o Único que teria direito a reclamar, Esse não fala. E se falasse (presunção minha, talvez) dar-me-ia, por certo, o conforto da razão.

Como sempre, é fim-de-semana e vou dessedentar-me às nascentes da minha crença: o LIVRO, onde se faz menção de um rei – estranho rei sem trono, sem terra, sem exército.

Na esteira desse rei Nazareno, uma organização soi-disante sucedânea e herdeira do trono, conseguiu passar de plebeia a aristocrata, metamorfoseou o protagonista em monarca supremo, rivalizando com os imperadores do mundo, (diríamos os DDT, “Donos Disto Tudo”), impondo-lhes o seu vernáculo empoderamento e engrinaldando-se de títulos, comendas, embaixadas, consulados, sucursais e até tribunais e masmorras – tudo à conta de um suposto rei que nunca disfrutou, antes recusou, o estatuto régio.

Julgo desnecessário e redundante desdobrar os requintados mas bolorentos pergaminhos de uma instituição monárquica, a partir do século IV, com o imperador Romano Constantino Magno, a qual ainda persiste na manutenção de privilégios atávicos fabricados à margem e contra os genuínos normativos,  constitutivos do ideário do seu Fundador.

Sempre foi essa a face (hoje, diria, a máscara) identitária com que a dita instituição se tem feito brilhar nos cumes da história de, pelo menos, dezassete séculos consecutivos. Até que, em finais do ano jubilar de 1925, quando as monarquias entravam em agonia irreversível  (Les rois en exil – reis no exílio) eis que o Pontífice Máximo Pio XI instituiu, com pompa e circunstância, a Festa de Cristo-Rei, aquela que lhe é dedicada precisamente neste fim-de-semana. Logo despertaram manif’s, peregrinações, levantaram-se gigantescas estátuas, rasgaram os céus apoteoses de patriotismos nacionalistas que muitos governos, depressa e oportunisticamente,  colaram  ao ceptro e à coroa do Rei-Cristo, marchetado de um peso de ouro mais farto que o seu corpo quase morto.

 

Respeitando embora as tradições e a questionável interpretação das devoções particulares, algo me diz que quanto mais dourada ou diamantina se apresente a Sua efígie, mais se lhe ouve o lamento: “O Rei vai nu”. Porque é outro o seu trono e é outro o seu reino. “O meu não é deste mundo”. (Jo.18,36). Ainda bem que, nesta mesma efeméride, é-nos proposto um outro modelo, a identidade mais fidedigna daquele que muitos pretendem arvorar em potentado monárquico. Desde longe, já o vidente Ezequiel (34, 11 sgs.) descobriu nele a samarra e o cajado de Pastor de um rebanho a que pertencem diversificadas  ovelhas, umas fortes e outras fracas, umas fiéis e outras rebeldes e tresmalhadas. E Ele, o Pastor, toma nos braços as mais frágeis, feridas, e não descansa sem encontrar as que se perderam nas falésias. É por isso que nos seus trajes não há colares de ouro brilhando ao sol, porque  só “cheiram ao pelo das ovelhas”. Já alguém disse isto aos nossos ouvidos.

No mesmo glossário deste domingo, lá vem o Rei, de múltiplas identidades e, com isso, irreconhecível, proscrito, atirado à valeta dos caminhos reais. Ele é o faminto, o sem-abrigo, o doente, o refugiado. Não o de outrora ou de um longínquo continente, mas o que mora ao lado da nossa porta. É este que precisa de ser atendido, visitado, aceite. O outro, o Rei, DDT, não carece de nada.

Vale a pena ler a reportagem antecipada do julgamento universal em que o Rei toma aos ombros a toga de Supremo Juiz. Vem em Mateus, capítulo 25,31 e sgs. Em nenhum outro ordenamento jurídico-religioso se encontra Código Global tão telúrico e tão sublime como este.

21.Nov.20

Martins Júnior