terça-feira, 9 de março de 2021

MAIS 500 ANOS E O CAPITÓLIO ROMANO SERÁ ENTREGUE ÀS ALMAS ?!...

                                                                         


Com esta enigmática pergunta dou continuidade ao arrazoado do meu penúltimo blog, como prometi e onde sinalizei o “pequeno-grande passo” dado em 500 anos da história da Igreja, entre o século XVI, de Leão X até Francisco, século XXI. Antes, porém, permita-se-me clarificar que, no título acima, quando escrevo “entregue às almas” quero relevar o seu sentido mais incisivo, ou seja, o de devolver/restituir a obra aos seus legítimos donos.

         Vem tudo a propósito da viagem de Francisco Papa ao Iraque, uma genuína e fenomenal ‘lança em África’, que nenhum outro monarca/presidente ousaria fazer nas actuais circunstâncias. O frágil ancião, já octogenário, fê-lo com a humildade de um mendigo da Paz e com um sucesso de virtual conquistador do Oriente.

           Abandonou, anteontem,  o rasto de escombros a que ficaram reduzidas muitas igrejas e mesquitas e reentrou nos pórticos sumptuosos do Vaticano espelhados nas  tapeçarias de luxo bizantino. O peregrino, por dever de ofício, voltou sentar-se no trono leonino do palácio, dito apostólico. Eu disse ‘leonino’, com toda a propriedade do termo, porque foi esse o mesmo baldaquino construído pelo seu antecessor renascentista, Leão X. E é aí que se encontram, todos os dias, os dois Pontífices, tão distantes no tempo e na práxis pastoral, mas coercivamente (ao menos, o Papa Francisco) unidos, siameses na ocupação do mesmo lugar – o Vaticano.

Ai, a colina do Vaticano, campo de milhares de cristãos carbonizados pelo ódio de Nero neurótico!… Da vulva do martírio, diria Tertuliano, nasceu a sementeira da cristandade. Como foi possível, então, que do sangue de mártires crescesse e se agigantasse o “Capitólio Romano”?!

Símbolo do Poder Absoluto, Cume da Opulência e Cúpula da Realeza Monárquica, o Vaticano pertence às almas. Do outro mundo. Mais precisamente do Purgatório do século XVI. Cada tijolo, cada pedra-mármore, cada coluna representam o cheque pago neste mundo como caução de 100, 200, 1000, 5000 ou 100.000 dias de prisão nesse aljube imaginário do Além. O ‘contrato-promessa’ desta permuta negocial atingiu tal grau de sacralidade que até tomou o sacro-gracioso nome de “Indulgências”, consignadas neste místico teorema:  se deres a Roma xis,  terás menos dias a arder no Purgatório, mas se deres xis mais, baixam em proporção inversa os dias da pena crematória. Em síntese: vender antecipadamente  o Outro Mundo! E assim crescia, pedra-a-pedra, chama-a-chama, alma-a-alma, o colossal, apoteótico, monumental condomínio, baptizado e canonizado como “Praça e Basílica de São Pedro”, rivalizando com os palácios imperiais da época.

Promotores eméritos deste feito: o Papa Leão X e o seu musculado

antecessor Júlio II.

Mas enquanto os Sumos Promotores viam erguer-se a Magnífica Cúpula e enquanto se inebriavam com o perfume do incenso a arder das almas que subiam ao céu, a Igreja Católica Romana partia-se aos bocados com as diversas igrejas protestantes que contestaram as “Indulgências” e após a excomunhão do líder Lutero, por Leão X.

Grande Mestre é o Tempo! Volvidos 500 anos, o Papa Francisco recusou-se a fazer do palácio apostólico o lugar dos seus aposentos privados. Embora forçado a usar as palacianas instalações para as funções inerentes ao  estatuto pontifício, a opção do seu próprio afastamento revela a sensibilidade de quem sente que o “Capitólio Romano” não é nem nunca será a casa de Jesus de Nazaré nem do seu homónimo Francisco de Assis.

Por mais que brilhem aos olhos dos turistas as excelsas produções dos génios da arte quinhentista, tudo aquilo cheira a mortos, velórios seculares, crimes de simonia indisfarçada, negócio incompatível com a ‘Casa do Pai’.

Domingo passado, ouvimos o zunir do chicote que a fúria do Nazareno arremessou contra os vendilhões do Templo: ”Rua daqui, não façais da Casa do Meu Pai um mercado da feira”. (Jo.2,13-16). Vendiam bois, ovelhas e pombas. Não negociavam almas do Purgatório…

Pudessem os deuses escutar a minha prece e eu pedir-lhes-ia que conservassem por mais 500 anos a vida deste vidente itinerante chamado Francisco. Porque algo me diz que ele teria tempo e coragem para “entregar às almas” o Capitólio Romano. Ainda que o chamassem de “inconsciente e herege”, como, de resto, após a viagem ao Iraque, já fizeram (uns ao vivo, outros em surdina) os magnatas purpurados que habitam o palácio, ofensivamente dito apostólico. Com a “entrega às almas” subentendo um destino global, fosse qual fosse, condigno, mas nunca como ex-libris de Jesus, o Nazareno, nem do seu Representante.

Como foi tão fácil e expedito fugir da matriz evangélica e quão moroso e sofrido será regressar à “Casa Paterna”!

 

09.Mar.21

Martins Júnior

 

domingo, 7 de março de 2021

DOMINGO SÉNIOR – DOMINGO JÚNIOR !

                                                                      


Em tempo de jejum quaresmal, hoje foi dia de fartura.

Domingo farto e longo, não de mesa opípara, mas de regozijo histórico, de uma alegria que roça a imortalidade. Porque este Domingo tem a idade do seu aniversariante: 109 anos!... Que mais lhe falta para sentir-se eterno, imortal?!...

Sol ou chuva ou vento, fosse qual o tempo que fizesse, meus pés tinham de voar àquele torrão, o mais oriental da Ilha, onde o sol nasce primeiro, para trocarmos “aquele abraço” entre os três homónimos: José Martins (o meu pai, que já lá foi), o José Martins (no seu centésimo nono aniversário) e este José Martins, já (ou ainda) octogenário.

Por instantes suspendemos a máscara para que os acompanhantes do Senso&Consenso pudessem responder a esta adivinha: qual dos dois é o Sénior… e qual o Júnior?

Eu que já me habituei ao apelido “Sénior”, hoje descobri-me “Júnior”.

 109 Gloriosos Anos! E dolorosos! “Naquele tempo, eu ia trabalhar daqui do Caniçal para o Porto Moniz” – confidenciou-me ao ouvido. E muito mais, que não cabe neste poema em prosa.

Diante deste homem “imortal” senti-me como diante de um monumento vivo. Miguel Ângelo, após concluir a monumental estátua de Moisés, ficou tão emocionado com a beleza da sua obra que não se conteve, bateu com o maço no mármore e disse: “Agora, fala! Só te falta falar, meu Moisés”!... Pois, hoje estive diante de um monumento vivo e lúcido que nos fita com olhar profundo e que nos fala com uma voz fina que vem de longe!

Parabéns ao “Rei” do Domingo, 7 de Março! E aos familiares que o zelam com todo o carinho – as mais efusivas e merecidas saudações!

Deixo aqui o melhor verso do poema, proferido por ele mesmo, quando nos despedimos: “Sr. Padre Martins, obrigado pela sua visita e… até ao ano por este dia”.

Admirável! Que Jovem! Ele, sim, o Júnior…e eu, o Sénior!

E, como ele o disse: “Até ao 110”!

 

07.Mar.21

Martins Júnior

sexta-feira, 5 de março de 2021

UM LEÃO EM ROMA, CARDEAL AOS 13 ANOS E UM FRANCISCO NO IRAQUE, MENDIGO DA PAZ

 


Meio milhão de anos foram necessários para que a mesma palavra perdesse a cor e o sentido! “Escândalo” é o vocábulo. E o seu conteúdo semântico.

O Leão do século XVI seria hoje o escândalo insuportável aos olhos do mundo. E o Francisco do século XXI  teria sido há 500 anos a vergonha e o escárnio universais.

Quem é esse Leão da fábula incarnada na história dos homens?

Filho da nobilíssima família dos Médici, Giovanni de seu nome, estava predestinado à mais cobiçada coroa europeia, a magnificente tiara do Vaticano. Aos 13 anos já era cardeal de Roma, fruto das manobras, por vezes  mesquinhas, da corte pontifícia e da nobreza romana, como de resto sempre foram atribuídos os barretes cardinalícios. Dizem os seus biógrafos que, tendo optado pelo cognome de Papa Leão, (O Décimo), com apenas 38 anos de idade, “no dia da coroação,11 de Março de 1513,  Roma assistiu à maior festa alguma vez vista desde os tempos do Imperador Nero”. Amante do luxo e das caçadas, “possuía uma fabulosa coleção de animais exóticos que incluía leões, camaleões, papagaios e, o mais preferido de todos, o elefante albino Hanno, que lhe oferecera D. Manuel I, Rei de Portugal. O banqueiro do Papa Leão X, Agostino Chigi, era o homem mais rico da Europa do seu tempo”.

Foi este Papa, bom vivant, hábil e faustoso no trato diplomático com os seus pares estrangeiros, os monarcas europeus, foi ele que lançou a pena capital, a excomunhão, contra Lutero, quando este monge germânico pretendeu moralizar a cúria romana. Desta condenação soltaram-se violentas lutas na Igreja, originando o divisionismo dos cristãos, disseminados pelas multiformes igrejas protestantes. Quem , hoje, século XXI, acreditaria que um tal ocupante do Vaticano, abarrotado de riquezas, nadando no luxo e na opulência do poder, seria representante de Jesus de Nazaré, capaz de condenar sem apelo nem agravo um cristão que lutasse por uma Igreja autêntica?

Digo: hoje! Mas foram precisos 500 anos para chegarmos à visibilidade quase perfeita dos contornos que identificam a matriz original da verdadeira Igreja de Cristo. Aí temos, em contraluz, a radiografia desse original constitutivo:

Um homem, herdeiro de Francisco, Il Poverello, (a antítese de Leão), despido do fausto leonino do século XVI, confessando-se peregrino, penitente, mendigo da Paz, avança, entre tímido e esperançoso, para o epicentro das guerras político-religiosas, abre os braços cansados da idade e pesados de toda a angústia humana e pede a Fraternidade Universal.

Leão ruge e condena. Francisco implora e abraça. Aquele tem o império e as armas, este as mãos vazias e limpas. Aquele divide e destrói, este baixa-se e junta do chão os escombros da fé, os estilhaços da guerra para recompor a grande Mesa da ‘Casa Comum’ onde todos têm lugar. Naquele, o enfarte da astúcia, neste a transparência que liberta.    

 Achei oportuno trazer ao nosso acervo pessoal este elucidativo contraste no dia em que Francisco Papa pisa solo iraquiano, outrora Terra da Promissão, Pátria de Abraão, Jardim Terreal – e hoje rio de sangue e lágrimas. Darei continuidade no próximo ‘Dia Ímpar’, porque, embora incomensuravelmente distantes no tempo e na mensagem, os dois – Leão e Francisco – habitam sob o mesmo tecto: o segundo é, de certo modo, inquilino do prédio que o primeiro construiu. E acerca disto, o nosso Mestre e Líder, Jesus de Nazaré, tem uma dura palavra a dizer no próximo domingo.

 

05.Mar.21

Martins Júnior

    

 

 

 

quarta-feira, 3 de março de 2021

PRODUTOS E DERIVADOS DA ÁRVORE PROIBIDA…

                                                                        


Perfaz um ano o invasor Covid entre nós, com o trágico brinde que deixou ao mundo: milhares, milhões de vítimas em todas latitudes. São contraditórios os derivados do mesmo tronco, uns de incurável amargor, outros de esperança e optimismo, sobretudo na área da ciência. Ficará o mundo melhor no pós-pandemia?... Purificar-se-ão as mentalidades?... Sem dúvida, se soubermos cultivar os valores e as oportunidades que daí surgirão. São estes os meus votos, agradecendo ao arquitecto e amigo Nuno Fernandes a ilustração adaptada que  encima o presente texto.

 

Quantos anos quantos séculos tem

Um ano só?...

E quantas vidas tem

O bolbo hídrico parido

Do régio incesto entre Deus e o Diabo?...

Do mesmo esperma e do mesmo ovário

Que se escoam entre os dedos  mas não cabem em todo o planeta

Nasce tudo e o seu contrário

Brota amor vomita tédio

Mata o fogo fumega a luta

Droga o corpo acorda a alma

E do caixão que traz ao mundo

Faz um trono redivivo

Onde impera o Dia Novo

 

Estranho bolbo em solo XXI!

Em nosso mar em nossa rua em nossa casa

Somos seu indefeso hospedeiro

 

Mas enquanto cá estiver

Ou inquilino for neste terreiro

Pelo calor das nossas mãos há-de verter

A seiva rubra das fúlgidas romãs

Abrindo o colo das vindouras suspiradas manhãs

 

03.Mar.21

Martins Júnior

 

 

segunda-feira, 1 de março de 2021

CANTO LIVRE EM TERRA ILHOA

                                                                          


Cantar na Madeira não é só ‘bailhinho’ – ou não deveria sê-lo. Orquestrar na Madeira não será monopólio do eruditismo da Clássica – ou não deverá sê-lo. Pintar, fotografar na ilha não poderá apenas encaixilhá-la no romantismo bucólico da paisagem. O mesmo dir-se-á da arte de Camões e Pessoa: não pode espasmar-se em esotéricos vagidos de amor ou pranto, encantamento ou narcísicos anseios. Há-de ser vida, acção, intervenção e, quando urgente, denúncia e protesto. É assim a literatura: espelho do quotidiano de um povo.

Na última semana de Fevereiro, evocámos o “Canto Livre” em Zeca Afonso e também neste rincão entre cidade e campo, a Ribeira Seca, a propósito do “27 de Fevereiro de 1985”. Paralelamente, fez-se alusão a uma certa esterilidade da literatura de Intervenção na Madeira. Nos poetas insulares, nados e criados nesta ilha, há um estranho antídoto (pejo ou medo) que percorre as veias da inspiração e, mais que o estro,  seca-lhes o ânimo e embota-lhes a sensibilidade para integrar na sua produção poética a alma de um povo atento, desperto, participativo, actuante e activo na construção da sua identidade cívico-social e cultural. Já apontei, no penúltimo blog alguns dos obstáculos a esta opacidade  quase genética que amarra a mão e a pena dos nossos vates.

Entretanto, tentei embrenhar-me, floresta adentro, pelo histórico poético madeirense e respiguei preciosos exemplares de olhar crítico sobre a Ilha. Além dos já anteriormente mencionados, cito agora Manuel Gomes Pais que, no “Album Literário” de 1885, censurava os ‘ingratos filhos’ da Ilha:

                   Tiveste outrora a glória que inebria

                   Eras poderosa e bela, eras contente,

                   Hoje, uns longes, uns vivos de alegria

                   Mostrando o teu sofrer intermitente

                  

Como todas as mães, uns filhos ingratos

                   Abriga teu seio de mimosa fada

                   Que sem pudor te olvidam, te dão tratos,

                   Como se foras mãe desnaturada

 

João França, jornalista, poeta, romancista e dramaturgo, em 1934 lançou este grito aos jovens seus conterrâneos:

                   É preciso libertar

                   A presente mocidade

                   E fazê-la desatar

                   Os laços da sociedade

                   Tão banais e tão mesquinhos

                   Como são os pergaminhos

                   As rodilhas da vaidade

 

                   Adequemo-nos à hora

                    Ao presente, ao Ideal

                   Da massa que luta e chora

                   Escrava do capital

 

João de Brito Câmara, ilustre advogado e poeta, publicou em Coimbra (1942) o seu segundo livro de poemas – “Relance” – onde, entre outros, põe a nu os problemas do regime da colonia e a escravatura a que eram sujeitos os camponeses caseiros. Recorto o final da “Hasta Pública”:

Tanto suor

Tanto sangue e tanta Dor,

A nossa herdade

- Nosso calvário

Nosso Amor –

Depois de andar no diário

Já era doutro senhor!

 

Gualdino Avelino Rodrigues, em “Quando Lançaram Meu Corpo ao Mar”, de 1983, retrata fragmentos da vida do pescador madeirense e da mulher bordadeira:

                   Meu pai desafiava o mar alto

                   O mar fundo onde mora o peixe-espada

                   Tão cego de andar tão longe de nós

                   A minha mãe desfiava lágrimas sobre o linho

                   Que outrora bordara com amor pela noite dentro

À luz dos candeeiros a petróleo

 

                   Moro em todas as vilas

                   Em todas as ilhas

                   Do arquipélago            

E quero pão

 

         José Agostinho Baptista, em 2008, dedica o “Filho Pródigo” à sua Ilha, como quem regressa de longe. E no poema ”Prece”, solta este pedido fremente:

Que ao meio-dia toquem os doze acordes do sol,

Nestes sinos.

Que se levante,

Que se levante a nossa vida sonâmbula,

Cambaleando entre abismos

 

         Demasiado breve - e demasiado longa para quem lê - esta incursão  no quase deserto da Canção de Intervenção madeirense pretende relevar o lado dinâmico e luminoso da poesia, bem como a missão da arte e dos artistas na sua osmose interpretativa da história e do lugar em que vivem, contrariamente a certas concepções elitistas, reservadas a seres nefelibatas, habitantes de um planeta imaginário de tertúlias e suspiros. Poesia é Vida!

         Ficará em suspenso, para maior aprofundamento, este desejo-convite de encontrar entre os nossos poetas e artistas os caudais de inspiração autóctones que, à semelhança das nascentes serranas,  percorram e fertilizem as gentes das Ilhas.  

        

01.Mar.21

         Martins Júnior

   

 

 

sábado, 27 de fevereiro de 2021

AS PORTAS DO INFERNO NÃO PREVALECERAM CONTRA ELA… Alegoria dos 36 anos: 1985-2021

                                                   


Nos antros insulares jazia Satã

Entre lobos já exaustos,  famintos répteis à míngua

 

Queimaram-se os tridentes  queimou-se a língua

E todo o fogo infrene desfez-se em cinza vã

 

Cravei então meu crânio córneo no palácio vigiante

Braços e unhas de verniz no paço orante

Das entranhas de ferro farei botas cardadas

Meus dedos serão  fuzis  fardas armadas

Guardas suíças, pretorianas guardas

E se ‘com sete ninguém se mete’

Eu serei lá dez vezes sete

 

Pelo deus ou pelo demo

Alvíssaras avante

É esta a  Nova Cruzada do Levante

Libertai enfim os Lugares Santos

Presos nessa garagem imunda

Onde é escasso o pão prá boca

Mas o pão da Liberdade abunda

 

E avançou Satã pelo seu dia que é a noite escura  

Dezoito foram as vinte-e-quatro horas da luta ingrata e dura

 

Enquanto no vigiante palácio delirava o crânio islâmico

E no paço se rezava a missa de pontifical satânico

Estalava o furor dos infernais martelos

Os corpos eram arrastados pelos cabelos

No chão sagrado tornado arena de martírio

                            


Mas o clamor da Liberdade caía como lava

Na farda-guarda suíça-pretoriana

Já sem força, perdido o rumo, perdida a gana

 

Dezoito vezes o Sol nasceu

Dezoito vezes Satã morreu

 

No jardim do palácio já não há cheiro nem sombra

Do crânio estratega podrido

Nem o paço reza  

Pelo orante semi-morto já caído

 

Mas a ‘garagem’  ficou

Cresceu, sorriu e cantou.

E se foram dezoito os dias de satânica memória

Dezoito-vezes-dois são hoje os anos da Vitória!

 

AS PORTAS E OS GONZOS DO INFERNO NÃO PREVALECERAM CONTRA ELA!  

 

27.Fev.21

Martins Júnior

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

O “CANTO LIVRE” DE INTERVENÇÃO NA MADEIRA

                                                              


É portadora de uma mensagem solta a última semana de Fevereiro  que, em sendo o mais pequeno dos meses do ano, sobrepuja-se e enobrece-se como um esvoaçante clamor à Liberdade. Já o sentimos anteontem, 23, no todo nacional, com a evocação viva de Zeca Afonso e a Canção Política ou Canto Livre em Portugal.  E continua, a nível local, com lugar marcado a 27, uma efeméride incontornável em Machico.

         Pelo meio, hoje, 25, na mesa do nosso convívio de  Senso &Consenso pretendi estender a mesma ementa do “Canto Livre” aqui na Madeira. Por outras palavras: que sensibilidade tem o ilhéu madeirense face aos acontecimentos que lhe dizem respeito? Balanceado entre dois postes – resignação ou intervenção – qual o posicionamento, não só da canção, mas globalmente  da literatura madeirense?

         Tarefa árdua e delicada, tanto na forma como no fundo. Poderia fazer minhas as palavras do grande cantor Jacques Brell  : “Dêem-me dez páginas e explicar-lhe-ei como vejo a infância. Mas como a canção só dura três minutos, as dez páginas terão de reduzir-se a um verso”. Desde já previno que hoje serão apenas breves apontamentos de pesquisa, como que um prefácio para um ulterior desenvolvimento, dirigido   aos interessados em algo mais que não seja o orçamento da pandemia ou a pandemia do orçamento.

         Pois bem: Do percurso de quinhentos anos da poesia madeirense mapeados na prestigiosa  MUSA INSULAR,, de  Luís Marino e análise dos nossos  poetas da contemporaneidade ilhoa, recolhem-se curiosas sínteses, literalmente coincidentes com os diferentes regimes sócio-políticos e culturais das várias épocas analisadas. Não será estranha a qualquer observador minimamente atento a seguinte conclusão: em sistemas fechados, ditatoriais, o ”Canto Livre” – Canção Política ou de Intervenção – conquanto mais necessário, encontra-se algemado pela “censura” da época, pela repressão tanto mais violenta quanto mais férreo o regime. Daí, os passos seguintes: clandestinidade, prisão ou silêncio sepulcral. A todas estas condicionantes, acresce a escassez do território que, em proporção directamente inversa, superabunda em opulência de policiamento omnipresente e controlador. É o caso das ilhas, terro agreste onde o canto do poeta afoga-se no litoral mais fundo das periferias circundantes. Disse-o, com muita frontalidade e realismo, Medina de Gouveia (pseudónimo), um poeta menor, em “Falésias da Utopia”:

                            Ilha

Porção de desejo e luta

Rodeada de trabalho e suor

Por todos os lados

 

Ilha

Pequena ditadura de poder

Rodeada de autoritarismo e isolamento

Por todos os lados

 

             Poeta menor, disse eu. E esclareço a designação. Do cotejo de dezenas de volumes dos nossos vates de ontem e de hoje, verificam-se dois comportamentos visceralmente opostos: de um lado, a procura incessante de um estendal ao sol da fama e/ou do perfeccionismo oficial ou oficiante, se possível ao abrigo do reino. Estes saem da exiguidade das ilhas. De entre estes, há uns que proliferam apoteoticamente e outros que, quais personas non gratas, raro ou nunca voltam. O segundo grupo é o chamado ‘poetas menores’  que, mais preocupados com a essência do que com a acidência, prestigiam menos a forma e mais o fundo da inspiração. Quando qualifico de menoridade esta franja de cultores do “Canto Livre”, quero dizer que esses atingem a maioridade cívica e poética (porque a poesia é vida e o poeta é o que vai à frente) e formam a plêiade de construtores da sanidade holística de um povo.

         É aqui, neste trono da poesia, feita corpo e alma da sua ilha, que situo o eminente – e criminosamente  esmagado pelo tribunal da Santa Inquisição -  Francisco Álvares de Nóbrega, o “Nosso Camões” ou “Camões Pequeno”,  quando, há mais de duzentos anos, teve a coragem de denunciar o regime corrupto que dominava a Ilha:

                  Terreno estéril, árido, e mirrado,

Dos mais terrenos, por meu mal desdouro

Tu convertes em peste a chuva de ouro

Que entorna sobre ti Jove Sagrado

………….

Tu, podendo das graças ser tesouro

És só de espinhos ásperos juncado.

…………

O grande Deus que em ti se adora é Pluto  (o dinheiro)

……….

Pagou caro a sua frontalidade, ele que noutros sonetos exaltou a beleza da ilha, “Flor do Oceano”!  Mas novos ventos sopraram em Portugal e na Madeira. Foi ele também um dos precursores da decisiva Monarquia Constitucional,  fruto do movimento revolucionário de 1820.

Afinal, nem completei o prefácio do “Canto Livre” no arquipélago. Teremos tempo de abrir este documentário deveras elucidativo da nossa história sócio-cultural.  

 

25.Fev.21

Martins Júnior