sábado, 5 de fevereiro de 2022

REGRESSAR ÀS ORIGENS SABE BEM E FAZ CRESCER !

                                                                        


É sempre de um doce encanto e não menos vigoroso impacto viajar até à origem de tudo, mais intensamente do tudo de onde viemos e por onde começámos: o primeiro berço, os primeiros passos, a primeira escola, a entrada na universidade, o estágio do primeiro emprego, o primeiro amor, o primeiro contrato de aquisição de casa própria, tudo.

É o que se chama o regresso às fontes, sobretudo quando estão em causa decisões que terão marcado o futuro, o nosso e o da sociedade a que pertencemos. Cabem aqui as motivações que ditaram uma carreira, os estatutos de uma recém-criada associação, as linhas programáticas de um partido, a escolha de deputados e governantes e, ainda, a ordenação de eclesiásticos e evangelizadores. Para além da saudável nostalgia desse regresso, impõe-se um imperativo recurso às origens para obviar aos desvios e deturpações que as circunstâncias e os embates da vida provocam na rota inicialmente traçada.

Hoje, Sábado - e amanhã, Domingo – cai-nos nas mãos o LIVRO de fim-de-semana, onde nos confrontamos com essa precisa encruzilhada de tomar decisões, fazer opções, chamar colaboradores responsáveis, enfim, pôr em marcha um projecto credível e duradouro, um património imaterial que, volvidos mais de vinte séculos, ainda persiste. Precisamente pela sua longevidade e pelas mais anómalas vicissitudes em que se tem emaranhado, torna-se necessário e urgente, em cada época, remontar ao princípio, à pureza original do primeiro impulso.

Convido-vos a compulsar o texto de Lucas, capítulo V.

Após trinta anos de anonimato numa carpintaria familiar, o Nazareno sente chegar a hora de avançar com o seu projecto tremendamente reformador, manifestamente revolucionário, qual o de fazer caducar as estruturas falaciosas e podres de um regime sacro-ditatorial, para reerguer um mundo novo e uma Constituição regeneradora de toda a sociedade. Onde encontrar, porém, militantes firmes, clarividentes, seguros, da mesma fibra que o seu Fundador?... Aqui refugio-me no horto recôndito da minha introspecção para extasiar-me diante deste Visionário, as ânsias, os avanços e recuos, as expectativas e os previsíveis insucessos, enfim, quantos suores frios e quantas arritmias a bater-lhe dentro do peito!

Mas… fazer-se ao largo – é preciso! Mete-se no barco  (os  ‘valorosos’ militantes eram pobres pescadores) observa-os de perto,  possivelmente ajuda-os na faina das redes, é enorme a sorte da pescaria e, uma vez na praia, não tem dúvidas: “É com estes que eu conto. Vinde comigo. Farei de vós pescadores de algo maior: pescadores de homens, de pessoas, de corpos e almas”!

Além do contacto directo no chão da vida e na partilha do trabalho braçal, que estranha magia teria penetrado naqueles homens de mãos calejadas e pele tisnada do sal marinho, para ‘transtornar-lhes’ a vida e tomarem uma opção radical, irreversível: “Eles logo deixaram as redes, deixaram tudo e seguiram a Jesus”!!!

  Por mim, preferia ficar por aqui, na contemplação deste quadro tão solto e emocionante (digno de uma aguarela romântica) quanto avassalador nas suas consequências se fizermos o paralelo com os tais “desvios e deturpações” que a Instituição tem protagonizado ao longo de vinte séculos.

Até onde levar-nos-ia o interminável filão deste episódio, elemento fundacional do verdadeiro Cristianismo que faz de todo o cristão parte essencial do “corpo sacerdotal”, do “sacerdócio real”!... E é justamente  nessa direcção que segue a linha evangelizadora dos actuais teólogos, inspirados nas fontes originárias do Evangelho. Como tal e porque nada melhor que apoiar-se nos Mestres, recomendo vivamente os capítulos finais do último Grande Livro do Professor Padre Anselmo Borges – “O Mundo e a Igreja, Que Futuro?” – onde se afirma, com sólida fundamentação histórica, que Nem Jesus nem os Apóstolos ordenaram sacerdotes”.

Entender a simplicidade e a profundidade do projecto de Jesus de Nazaré não se compadece com meros espectáculos pios, fogos fátuos da ribalta social, decalcados da aristocracia burocrática dos impérios mundanos. É preciso regressar ao Mar da Galileia, ouvir  chamar os colaboradores militantes e fixar a voz do narrador: Eles deixaram tudo e seguiram-nO”!

 

05.Fev.22

Martins Júnior

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

UM EIXO DO BEM…MAL!

                                                                      


Laconicamente (para não cair no logro que hoje sinalizo) permitam-me concluir o arrazoado do último blog, concretamente a dualidade de critérios e opiniões ou a capacidade mimética do ser humano - leia-se: a “tribo jornalística” (Nelson Traquina) e a galeria de comentadores - no “Antes” e “Depois” do acto eleitoral de Domingo, 30 de Janeiro de 2022.

         O logro, talvez o fosso, onde não quero cair chama-se dogmatismo, radicalismo, infalibilidade doutoral. Detesto tudo quanto tresanda a prepotência dogmática, onde quer que ela surja, sobretudo no teatro fácil do ‘agorá’ dos debates abertos, qual destemperada Torre de Babel da opinião pública.

         Acabei de ver e rever a edição do Eixo da Quinta-Feira. Comparei-a com a da semana anterior. E, respeitando quem julgue o contrário, reconfirmei tudo quanto escrevi no último  Dia Ímpar. Limitar-me-ei aos contornos de uma simples descrição:

         A abertura do pano de cena é de uma eloquência intraduzível. Os rubros vaticínios, estampados no rosto e nos olhos exuberantes dos intervenientes sobre a “impossível maioria absoluta”  metamorfosearam-se de repente num sorriso-riso (o riso é, de facto, amarelo, viu-se clarissimamente) o qual ficou mais notório nos olhos que se iam fechando em bico.

         Falou-se da “maioria absoluta”, gesticulando com os habituais trejeitos de Mefistófeles à-portuguesa, que ela foi o ‘resultado de uma série de tragédias’; aludiu-se ao ‘abraço do urso’; culpou-se o sarilho das sondagens e que tudo fora “uma anomalia”, quase-inconstitucional  - ‘a Constituição está feita para que não aconteçam maiorias absolutas’ ou só raríssimamente. Mais fulgurante foi a representação da Deusa do Templo de Delfos – “o que me surpreendeu não foi a maioria absoluta de Costa, mas a derrota do PSD” – a mesma que antes tinha escrito: ‘no fatídico 31 de Janeiro, Costa pode ter perdido tudo, depois de perder a cabeça”.

         Sem esquecer a breve alusão à “vitória retumbante” e à eventual “comédia romântica” de Domingo, espraiaram-se os intervenientes pela praia do futuro, por exemplo,  que “a maioria iria apodrecer daqui a dois anos”. O resto do espectáculo foi dedicado à esquerda perdedora e à força  das direitas no futuro parlamento.

             Laconicamente: respeitando opinião contrária, como é difícil no reino do fundamentalismo dogmático aceitar a transparente e inexorável verdade dos factos!

         Para não cair no aludido logro fundamentalista, tenho sempre presente a filosofia popular que deixo aqui expressa textualmente, mesmo com o desvio da concordância verbal: "As falas da nossa boca é a nossa condenação”.

 

         03.Fev.2022

         Martins Júnior    

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

“O FATÍDICO 31 DE JANEIRO”…

                                                                    


Foi na noite de 30 de Janeiro. O supremo árbitro da Nação – o Povo Português -  deu por terminada a grande partida no estádio verde-rubro deste país. E o que se viu  foi o flagrante contraste, tal qual a finalíssima de um campeonato mundial: de um lado, a euforia transbordante dos campeões e, do outro, a mal disfarçada, desesperada angústia dos derrotados.

         Mas hoje é o “31 de Janeiro”, uma data histórica, desde há muito inscrita na toponímia das cidades portuguesas. Hoje, porém,  tempo de retrospectiva, estação de balanço e análise, trago apenas ecos remanescentes de uma campanha que vale a pena reouvir, passada que foi a refrega dos contendores em cena. Deixo para os especialistas na arte da política os comentários de índole científica.

Detenho-me tão só na versatilidade do ser humano que, pelo discurso e pela reação sensitiva, protagoniza atitudes das quais mais tarde, mesmo que não se arrependa, torna-se objecto de irrisão, senão de repúdio e degradante contradição. Em linguagem popularizada, tudo se resume ao velho adágio: “Cuidado! Quem cospe para o ar cai-lhe na cara”.

         A começar pelo líder do principal partido opositor – o dr. Costa sabe que vai perder e eu aconselho-o a que aproveite o tempo da campanha para aprender a perder com dignidade – o resultado foi ver escorrer-lhe o na pele, nos olhos e no nariz  o digníssimo antigénico que tinha receitado para o adversário. Quem cospe…

         Da parte do sábio e experiente Jerónimo saiu um daqueles elefantes que ele próprio devia ter engolido na mesma hora: o dr. Costa é que quis provocar estas eleições pela ambição de uma maioria absoluta. E o vetusto guerreiro nem se deu de contas que foi ele mesmo quem ‘ajudou à festa’, isto é, fez o favor ao adversário quando chumbou o Orçamento. A ‘bomba atómica’ rebentou-lhe nas próprias mãos…

         Quanto aos novos ‘quase caloiros’ da direita, queriam acabar com o socialismo e, para um deles, o objectivo maior era correr com o dr. Costa do governo. O resultado viu-se no dia 30 à noite! Verdade que aumentaram o seu pecúlio em 20 deputados: 12 para um e 8 para o outro. Mas aí agradeçam à já rodada líder da extrema esquerda e ao seu aliado que, sentados lado-a-lado no paiol do Parlamento, detonaram a ‘bomba’ fatal. Depois, foi o que viu: nas hostes bloquistas, dos 19 que tinham, perderam 14; e do seu aliado, dos 12, perderam 6. Contas feitas 14+6=20. Precisamente os 20 que foram parar direitinhos à extrema direita. É obra! Um abriu-lhes a porta, a outra abriu-lhes o portão…

         É extraordinária a capacidade bélica desta extrema esquerda que solenemente apostrofou na campanha: Desafio e convoco o dr. Costa a reunir-se connosco na segunda-feira, 31 de Janeiro. Para formar governo, claro. Só com 5 deputados… quando Costa tem 117.

         Digno de uma divertida rábula de teatro-de-revista à portuguesa foi o convite-empurrão de um jovem líder democrata-cristão: vamos mandar o dr. Costa para casa cuidar dos netos. E por uma estranha magia quem foi para casa (portanto, fora do Parlamento) foi o jovem líder…cuidar dos avós!

         Aqui também são chamadas à colação as proféticas empresas dos resultados, promovidas e anunciadas pelos imponentes galões de “Sondagens”. Porque os números falam por si, dispenso-me de comentários supérfluos, aconselhando, quando muito, os doutos empresários a mudarem de cartilha cartomante ou, em alternativa, consultar o “Livro de São Cipriano”…

         É incomensurável o estendal das produções confecionadas, ruminadas, vomitadas pela criatividade enviesada de ditos e escritos despejados a céu-aberto, denegrindo e malsinando os atletas que não são da simpatia política dos seus criadores. Respigarei apenas dois deliciosos excertos representativos  de uma espécie de matriarcado moderno, uma mulher entre homens, Expressamente lavrada numa conceituada Revista lisboeta:

         A agonia de A.Costa pode ser longa…Costa, tenham paciência, acabou. Enterrem-se os mortos e cuide-se dos vivos, segundo o marquês (de Pombal). Este governo morreu.

Esta clarinha, claríssima e emplumada sentença foi promulgada há quase um ano, 05/02/2021. E hoje, o governo ficou mais vivo que então. O outro capricho literário vem na mesma Revista, mimosa prenda de Natal, em 23/12/2021:

Costa perdeu muitos corações do PS que votarão em Rui Rio. Há limites para a estupidez… Estamos cansados. No dia 31 de Janeiro, Costa pode ter perdido tudo, depois de perder a cabeça.

Chegados ao “fatídico 31 de Janeiro”, é caso para dizer: Com pitonisas destas, não precisamos de ir à bruxa da esquina!

 São estas e similares, algumas  das e dos opinadores a quem se entrega a informação de que os portugueses tanto precisam. Ainda bem que há liberdade de escrever, liberdade de ler e conhecer quem é quem na ‘literatura vernácula’ deste país. Melhor ainda constatar a veracidade do velho brocardo latino: Verba volant, scripta manent – “As palavras voam, mas os escritos permanecem”… para sempre!  

 

         31.Jan- 01.Fev.2022

         Martins Júnior

sábado, 29 de janeiro de 2022

REFLEXÃO PARA VALENTES E PERSISTENTES !

                                                                     


Bem se merece um Sábado quieto depois de uma semana frenética. Afora os agitadores profissionais das praças partidárias nesta noite de agonia expectante, o remanso deste Sábado faz-nos entrar num deserto. Deserto de reflexão, análise de projectos, pessoas e decisões.

É o que faço todos os fins-de-semana, inspirado no LIVRO, estuário imenso onde todas as rotas se cruzam e todos os pensamentos se encontram. Por isso, reconduzo-me hoje também à reflexão axiológica, na esteira da crítica que o Nazareno teceu à escala dos valores-padrão vigentes no seu tempo e lugar. Se consultarem o capítuo IV, 21-30, do evangelista médico Lucas, ficará facilitada a minha comunicação. Resumindo:

Os valores de então não diferiam substancialmente dos que hoje correm no câmbio de uma sociedade classista, onde o estatuto social, a árvore genealógica, a toponímia e o a geografia de berço ganham foros de poder e condenam às galés (leia-se:‘valetas’) quem não alinhar pela mesma cor, pelo mesmo sangue ou pelo mesmo clã. O Líder Taumaturgo da Galileia sofreu na pele o duro aguilhão da descriminação social e territorial que, no caso, consumava-se no segmento da descriminação racial. É filho do carpinteiro, ainda por cima é galileu!... O “Doce Rabi” não fez por menos e ripostou: Só na sua terra o profeta é mal visto e desprezado. E – informam  textos paralelos – voltou as costas e dirigiu-se a outra região, Cafarnaum, onde ensinou e operou espantosas curas.

Quão versátil, injusta e falseada é a tabela de preços no hipermercado dos valores! Nesta “sociedade líquida”, como a classificou Zygmunt Bauman, os valores esvaem-se pelos dedos do tráfico, pelas hidras das magistraturas várias, pelos veludos da corrupção – “Compra-se tudo, vende-se tudo”, sentenciava a Velha Senhora, de Friederich Durrenmatt – na banca, no empresariado, na política e até na religião.

Casos exemplares têm confirmado a trajectória persistente de madeirenses vencedores além-Ponta de São Lourenço. Na Igreja, nas Universidades, na Música, no Desporto, na Literatura, no Ensino, mercê da competência e da consciência profissional com que desempenharam o seu múnus. Tiveram de sair, porque se cá ficassem seriam encadernados, encaixotados ou, pior, postos em hasta pública à irrisão de governantes, imprensas, áudio-visuais e quejandos. Cito o mais recente, o Bispo José de Ornelas, nomeado para a grande diocese de Leiria-Fátima. Natural do concelho de Machico, freguesia do Porto da Cruz, granjeou simpatia e sereno ‘empoderamento’ noutras paragens, unindo no mesmo tronco a simplicidade, a modéstia e o talento. Parabéns e Sucesso.

Nunca se sabe onde se escondem os verdadeiros valores, os genuínos. Sob um chão aparente de folhas outonais, podem florir revéberos de viçosas primaveras. Meus olhos o viram quando menos esperava. Tendo acabado de adquirir o último  livro de Thimoty Radcliffe, o grande teólogo e espiritualista O.P., deparei-me na rua com um motorista agarrado ao volante do seu camião, enquanto o ajudante descarregava mercadoria. Um camionista normal, igual aos outros. Olhou-me as mãos e disparou: “Tem aí um grande livro”, ao que perguntei, de imediato: “Mas… já o leu?” – “Já li, sim senhor. Tem aí um grande livro”, repetiu.

Quem tal diria?!...Lição antecipada, ministrada por um – aparente – simples trabalhador! Passará quase incógnito diante de muitos empresários, fornecedores, comerciantes, montes de mercadorias. Mas, afianço,  ali vai um intelectual, um pesquisador da verdade. Pouco lhe importa o conceito que dele tenham os outros. Ele é o genuíno “Operário em Construção” – diria Vinicius de Morais!

Seja embora efémera e líquida a sociedade, construamos a ponte sólida da nossa passagem sobre a corrente! O Pensamento, a Acção!!!

 

29.Jan.22

Martins Júnior     

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

A BOMBA ATÓMICA NAS MÃOS DOS ‘PEQUENOS’

                                                                


Espero não vir a arrepender-me do desabafo que deixo neste breve resumo. É resumo e é breve, quase em estilo telegráfico.

Certamente não terei de penitenciar-me se disser que paira no ar português – e  mexe connosco - a sensação de um país à beira de um ataque de nervos. É no comprido  turbilhão das ruas estreitas, é no televisor do nosso quarto pacato, é nas largas portadas empinadas nas paredes, é nos directórios dos partidos com gente a roer as unhas, enfim, a babel dos comentadores ‘feitos ao bife’ e as apostas raspadinhas a disfarçar neuroses.

Tudo isso, porquê?

Pela “Bomba Atómica”, de competência exclusiva, reservada ao mais alto magistrado da Nação. A interrupção involuntária  de uma governação com direito ao normal quadriénio de vida  teve, desta vez, outros extirpadores (o desqualificativo é metafórico mas cumpre), outros especialistas contra-natura, visceralmente, politicamente, socialmente  nos antípodas um do outro, militantes em guerra mútua, mas comparsas unidos na mesma cruzada de ‘bombistas atómicos’: De um lado, o grupo fabricante do fatal explosivo, sem dúvida o maior e o mais poderoso; Do outro, o reduto, um pequeno grupo, aparentemente inofensivo, tinha nas mãos o detonador.

Tolo, ingénuo – para não dizer o principal arguido – o reduto não resistiu à tentação de juntar-se ao gigante (a velha ambição da rã tornar-se  boi) e, vai daí, acciona o detonador e…faz a ‘festa’, assim a modos de um divertido bowling entre colegiais, sem pensar que isso iria mexer com milhões de pessoas,  doentes e confinados, com a economia, com o país face à Europa. Gente pequena, seja qual o escantilhão com que se a meça…

O lucro maior correu logo para o ‘fabricante’ da bomba, ciosamente e desde há muito guardada. Para o fabricante e respectivos aliados. O grupo dos ‘pequenos’ franqueou-lhes a porta de entrada. Ingénuos! Então não sabiam que o assaltante está sempre à espreita da primeira oportunidade?! E assim aconteceu. Agora, aguentem-se, trepem todos os dias o muro das sondagens e adivinhem o fim. Não aprenderam nada com 2011… Oxalá não lhes suceda a tragédia do jovem bombista, cá do arquipélago, que acabou por ser a única vítima da bomba assassina que transportou nas mãos…

 Não é sem um mar de mágoas que escrevo. Sobretudo porque isto ainda não acabou. ‘Pela aragem se conhece quem vai na carruagem”, diz o velho adágio. E pelos ares que respiramos neste final de maratonas, parece que a sina deixou rasto: “a bomba atómica” pode vir a ficar nas mãos de um outro reduto, ainda mais pequeno. Bem avisou Tomás de Aquino: “Aquilo que, no início, parece um pequeno desvio provoca um tremendo desastre no seu términus”.

Por tudo isto, conto dizer PRESENTE no próximo Domingo!

 

27.Jan.22

Martins Júnior

 

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

C*D*E* - CHARADA DE CASINO OU VIOLÊNCIA DE “CONTRABANDISTAS” ???

                                                                      


        Não tinha intenção de entrar nesse vespeiro jogado à frente das nossas portas e enxameado  para dentro das nossas casas. Mas, porque continua a bater também à minha porta, pelo menos até domingo, lá vai a minha indignação.

         O meu asco tem o tamanho da minha indiferença, originando uma visceral repulsa e, ao mesmo tempo, um enfadado sem-vontade de o escrever. São três os figurantes e começarei de frente para trás:

         Primeiro vem o pelotão “E” e, em terceiro, o batalhão “D”. No meio, fica o incumbente ou inquilino “C”, cujo contrato de arrendamento é válido por quatro anos.

“E”  e “D”  são inimigos figadais desde a raiz dos cabelos até às unhas dos pés. Mas une-os um diabólico desejo, indomável apetite: matar o inquilino “C”, fosse qual fosse o plano, nem que tivessem de dormir os dois, ao menos uma noite, na mesma cama. Ao inquilino “C” sobrevieram depois imprevistas dificuldades, anemias, endemias, a família infectada, a vizinhança também.

Os ferozes inimigos trocam olhares furtivos – é agora ou espera-se que o ‘gajo’ caia, deixa-se para outra noite.  Entretanto há quem prometa um avultado cheque ao convalescente, parece que a família e a vizinhança recuperam e renasce a esperança de um quadriénio em paz e segurança na aldeia. E é aí, numa inspiração cirurgicamente consumada que os figadais  amigos-inimigos decidem: Agora ou nunca! Nem mais um instante! Antes que o ‘gajo’ se levante, vamos liquidá-lo, entre nós dois a lei está feita: ‘um diz mata, o outro diz esfola’.

E com um sangue-frio de estremecer muralhas, na praça pública, os dois ‘amigos-inimigos’ arremessaram-se à uma e, com rio e sem pio, afogaram o indefeso “C”. O pior é que pôs toda a vizinhança em alvoroço, com vespeiros a bater nas janelas e nos ecrãs dos televisores, doenças e endemias a crescer, gente baldeada de um lado para outro. E o pandemónio ainda não acabou, vai até domingo à noite.

     Porque não há pachorra para dourar a pílula, já se desvenda a charada: podem colocar “E” na Esquerda, o “D” à Direita e o “C”, por ser inquilino, é tudo menos Centro. Foi o inquilino derrubado.

Sem mais preâmbulos: o furor dos ‘contrabandistas do poder’, jogadores calculistas profissionais da roleta russa, aguardaram o depauperamento da nação, a pandemia que agravou um milhão sem médico de família, calcularam mais um milhão de confinados no almejado dia 30, lobrigaram como famélicos agiotas a bazuca europeia … e zás! Não se o deixa levantar cabeça! A sofreguidão tresloucada pelo poder nem deixou o Orçamento seguir o normal curso regimental até à especialidade e votação final global! Mataram o mandato de quatro anos na própria ‘barriga da mãe’… Tanta foi a pressa, tanto foi o furor|.

Se a alguém feriu o meu desabafo, lamento. Mas tenho também direito à minha indignação. Por mim e pelo desconcerto importuno e inoportuno, agarotadamente extemporâneo, que causou a milhões de cidadãos, jovens e idosos, mais a mais, sobrecarregados com dificuldades de vária ordem.

 

25.Jan.22

Martins Júnior  

 

domingo, 23 de janeiro de 2022

DA ANATOMIA FISIOLÓGICA AO DIAGNÓSTICO SÓCIO-ECONÓMICO-RELIGIOSO

                                                                       


        Domingo aberto e entramos no reino dos coloridos (que não os mais apetecidos) sinais de alerta em vários registos, desde a meteorologia ao desporto e à refrega eleitoral. Hoje, porém – e porque é início de semana – abstraio-me da barafunda das arenas para concentrar-me no meu recanto habitual: o LIVRO.  Convido-vos a uma descoberta, aparentemente contra-natura, qual seja a de sinalizar na personalidade de Paulo de Tarso, o fogoso Apóstolo das Gentes, um especialista em anatomia laboratorial dirigida à diversidade e, paradoxalmente, à unidade metabólica do corpo humano.

         Vem naquela Carta memorável que escreveu aos habitantes da cidade de Corinto, a Primeira, capítulo XII. Depois de ter integrado na mesma síntese a multiplicidade de talentos e carismas próprios de cada ser humano – sempre para o bem comum – Paulo de Tarso recorre à belíssima alegoria do corpo para, em jeito de “Pão partido aos pequeninos”, do clássico Padre Manuel Bernardes, transmitir que ninguém consegue sobreviver enclausurado na torre de marfim da sua auto-suficiência. Somos sempre o pobre de alguém. Respigo apenas dois parágrafos:

         Há muitos membros. Mas um só corpo…O olho não pode dizer à mão:’Não preciso de ti’. E a cabeça não pode dizer aos pés: ‘Não preciso de vós’…

         Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele. E se um membro é enaltecido, todos os  membros se alegram com ele…

           O recurso estilístico a esta figura dá-nos a amplitude do sentido didádico do Autor da Carta, abrindo pistas para os grandes horizontes da condição humana, vincadamente numa política igualitária de distribuição de recursos (“que ninguém fique para trás”), na democratização da cultura e na vivência dos valores espirituais, culminando esta visão cósmica na construção do “Corpo Místico de Cristo”, em cuja concepção se apoiaram grandes teólogos (inclusive os da denominada Teologia da Libertação) e, já antes deles, o eminente cientista Teilhard de Chardin.

         Deixo à consideração de cada um as virtualidades revolucionárias condensadas numa Carta que ultrapassa as fronteiras milenares de Corinto e penetra em todo o tecido da história humana, a nossa, a actual, a do século XXI. Quando chegará o Dia Novo em que os indivíduos e as instituições descobrirão o ganho e o encanto de sabermos que a vida societária só se realiza no sistema de vasos comunicantes?...

         Para exemplo e conforto, transcrevo a máxima que marcou os passos desde a minha juventude: “Há tanta beleza e dignidade em descascar batatas como em construir catedrais”!

 

         23,Jan.22

         Martins Júnior