quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Lúcida – Total INTEMPORAL

                                                           


 
                                                             

Navegante olímpico do enigma cósmico transpus

o secreto promontório que conduz

ao Divo Olimpo:

 

Qual a deusa ou pitonisa, faunos e avatares

alavancaram o hemisfério de um vale profundo

ao encontro da cúpula das Fontes milenares?

Quem deu às secas pedras da ribeira

a sede brava, inteira

das alturas onde se abrem altaneiros

verdes braços de gigantes  castanheiros?

 

Porque os extremos tocam-se

E as distâncias amam-se

na encosta coração da terra pairou

qual aurora boreal

Imenso Pleno Intemporal

O círculo do Amor

lúcido -total

 

 


Subindo os socalcos do futuro

contaram cento e mais em alvoroço

cada passo um sonho

cada degrau um poema

rumo à promessa suprema

 

Prata e ouro de Cohen e Mendelssohn

abriram o voo maior da almejada maratona

até à galáxia distante

onde brilha o diamante

com que o vosso olhar fará mais bela a terra

plena e perfeita aquela Marcha Nupcial

lúcida  - total !!!  

 

Intemporal, desde 10.Ago.24

Para a Lúcia e para o Telmo

com ‘o melhor do mundo’ e a  amizade solidária do Martins Júnior

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

AFINAL, HÁ UM OUTRO MUNDO… AQUI!!!

                                                                        






Apresso-me a corrigir a entrada do blog anterior - entrada a contragosto neste Agosto/2024.

 Sem negar a realidade trágica que faz deste mundo um vulcão suicida, uma outra visão feliz e reconfortante perpassa aos nossos olhos - o estendal multicolor de um mundo saudável, palpitante de sonhos e auspiciosas metas concretizadas pelo talento e pela força atlética de homens e mulheres como nós, sobretudo daqueles e daquelas que detêm o capital do Futuro: os jovens.

Situo-me às portas do mês oitavo, 26 de Julho. E quedo-me embevecido, galvanizado, tocado pelo desejo irresistível de correr às margens do Rio Sena, saltar para uma daquelas fragatas engalanadas e erguer a bandeira do meu país, as bandeiras de todos os países do mundo, cantando a plenos pulmões o ‘Hino da Alegria’ de Ludwing von Beethoven, extensivo não apenas à Europa, mas a todos os viventes do planeta.

         Perante a armada gloriosa de numerosas embarcações desfilando garbosas e livres, no convés braços abertos para os milhares de espectadores, rendi-me à evidência e exclamei: Que belo, que sonho este de entrar assim, a todo o gosto, no Agosto/24! Esqueço, relativizo tudo o resto e comparo esta visão - homérica na sua grandeza e tão emotiva na sua transparência – comparo-a atentamente com o negrume de destruição em que se afoga o mesmo mundo.

         Mas este é outro mundo. Em vez dos mísseis e morteiros da morte, os jovens aqui transportam o remo que torna em cristais de espuma o azul das ondas marinhas. Em vez dos camuflados de guerra, ostentam as espáduas reluzentes e os braços alados nas piscinas olímpicas. Em vez de metralhadoras letais, empunham as raquetes e substituem as munições traiçoeiras pelas bolas miniaturais do ping-   -pong ou do esforçado ténis. E em vez dos gritos aflitivos de Gaza ou Kiev, aqui o largo e majestoso Sena  estremece de espasmo inebriante com os bailados, os coros e as canções – o indiscritível Imagine de John Lennon! – os espectáculos de luz  e som  com que  as margens brindam o velho rio.

Verdadeiramente há um Outro Mundo!... Até Sua Majestade a Torre Eiffel e Sua Alteza o Palácio de Versailles curvaram-se e abriram alas a Sua Beleza o Desporto, não o dos milhões da nova e rica escravatura futebolística, mas o autêntico Desporto - tal qual  preconizava o poeta romano Juvenalis, Anima sana in Corpore sano, Alma sã num Corpo são  – um Desporto Saudável, infelizmente considerado na praça oficial como modalidades menores.

Não se pense, porém, que os JO se reduzem à encenação romântica, quase um dolce farniente quadrienal. De todo. Ali há luta, há esforço, há também frustrações, lágrimas de sucesso ou insucesso. Mas sempre em prol da superação do ser humano, Homem e Mulher, sempre sonhando “Mais Alto e Mais Além”. E sempre com os pés na terra. No sub-mundo das guerras há inimigos, no futebol há adversários. Nos JO não há inimigos nem adversários. Há concorrentes, apenas, empenhando-se paralelamente para atingir o vértice da perfeição.  Na mesma lógica – mas quem sou eu para interferir no Comité Olímpico Internacional ? – acho intrusas e contraditórias as modalidades do box e do tiro.

    Na Antiga Grécia, berço das Olimpíadas, decretavam-se tréguas em todo o reino. Incorporava-se até na sua génese a marca da sacralidade. Era sagrado, dedicado aos deuses, todo o programa das Jogos  Olímpicos. Transplantando para os nossos dias o espírito ateniense, entendo plenamente justificável vedar o acesso de certos países beligerantes, actualmente fomentadores da guerra. Verdade seja dita: os atletas, os artistas não têm culpa dos regimes em que nasceram. Quase sempre são contra e, por isso, vêem-se obrigados a abandonar o próprio país.   Veja--se o caso de Artem Nych, ciclista russo, vencedor da VOLTA a Portugal. Mas a festa do Abraço Planetário congeminado na emblemática apoteose dos JO não pode servir de biombo para camuflar os instintos bélicos, reinantes na barbárie de regimes que estão nos antípodas dos ideais olímpicos.

Por que tremendo aborto da natureza, põem armas e sangue nas mãos dos jovens em vez de bandeiras patrióticas e velas pandas navegando para a meta dos  portos seguros?!

A todos quantos empenharam talento e força braçal na proa das  caravelas do século XXI, quais argonautas na demanda de um Mundo Novo, onde valha a pena viver… Bem hajam agora e sempre !!!

 

 05-07.Ago.24

Martins Júnior

sábado, 3 de agosto de 2024

EU JÁ VI “M.A.D.U.R.O” … NA MADEIRA … EM MACHICO… HÁ QUASE 50 ANOS !!!

                                                                         


    Permitam-me abrir este ‘mono-diálogo’ consigo, colocando uma pergunta vulgar: “Quem é capaz de entrar a gosto em Agosto?... Neste Agosto/24?...  Diante deste circo planetário, circo cercado de pólvora, encharcado em sangue, apertado entre cordas de aço rolado, quem será o extra-terrestre capaz de rasgar a cortina de ferro em que nós, terráqueos, estamos condenados a viver?...

            Agosto, Setembro ou Dezembro, já cá estamos desde que nascemos. E assistimos, impávidos mas não serenos, ao que por aí vai. Por laços de afinidade familiar ou social, toca-nos  mais de perto o sub-mundo (há quem lhe chame o poço da morte) denominado Venezuela - um nome que, para os madeirenses, tem tanto de riqueza e glória, como de miséria e morte.

            Não vou ocupar-me desse ‘bunker’ autofágico em que se transformou  aquela que foi ‘Terra de Promissão’, sobretudo para a diáspora ibérica. Apenas vou responder a uma incógnita que me persegue desde a primeira hora da subida de Maduro ao  trono venezuelano: Será que cada  terra tem o seu ‘MADURO’? Uma cordilheira de ilhas   tem um ‘MegaMaduro’ e uma pequena ilha pode ter um ‘Mini Maduro’, um madurete?  Ou seja: um grande continente pode ter um Tirano e uma pequena aldeia um tiranete! Na mesma equação até se fala de um ‘Grand-Hitler’ e de um ‘petit-hitler’ ou de um ‘Super-Salazar e de um ‘petit-salazar’. São todos iguais, diferindo apenas no aspecto quantitativo, mas são os mesmos qualitativamente, isto é, agem da mesma forma, actuam com as mesmas ganas e as mesmas garras predadoras, sufocantes, arrasadoras.

            E nestas cogitações lembrei-me de uma Ilha - a nossa, a Madeira – e um restrito concelho, Machico. Acudiram-me logo as semelhanças:

            PRIMEIRO. Lá fora, Maduro proibiu a fiscalização na contagem de votos, até expulsou observadores internacionais convidados para testemunhar a veracidade eleitoral. Cá dentro, numa freguesia nortenha, pertencente ao concelho, os delegados da principal lista concorrente eram insultados nas mesas de voto, com tal veemência que, terminada a votação às 19 horas, viam-se forçadas a sair da sala sob pena de espancamento. Aconteceu o insólito, selvático: quando uma vez ousaram os delegados ficar até ao fim, tiveram de fugir, saltando poios e valados, valeu-lhes o delegado da lista do CDS que lhes deu boleia até Machico.   

             SEGUNDO: Passam-se agora vários anos, quando numerosas camionetes cheias de excursionistas de Machico, mais precisamente da Ribeira Seca, (que o M.A.D.U.R.O.  regional invectivava publicamente de ‘terceiro mundo’ e comunistas) ao regressarem do tradicional  arraial de Ponta Delgada,  Madeira,  e  passando  pela  freguesia citada no parágrafo anterior, único percurso obrigatório, foram barbaramente apedrejadas. Embora se subentendam, para quem teve conhecimento na altura, os nomes de locais e figurantes, dispenso-me de citá-los, porque não foi o povo o autor desses atentados, mas sim o ‘Madurete’ da ilha.

            TERCEIRO: Sucedeu comigo mesmo. Decorriam as eleições autárquicas de 1989. Era eu cabeça de lista à Câmara Municipal, com o direito legal de entrar na sala das votações. Ora, estando dentro, avançou contra mim um sujeito, bigodes largos, sertanejos – era um emigrado, recém-vindo de Caracas, com um estabelecimento ainda fresco numa pequena freguesia, contígua à anterior e, por via disso, candidato à respectiva Junta – pois o homem empurra-me, grita “Sai já daqui p’rà rua, já”, mostrei-lhe a credencial – qual credencial! – agarra-me pelos braços e eu não tive outro recurso senão chamar a PSP de Machico, ficando então o ‘venezuelano’ acalmado. Tive pena dele. Mais ainda, quando fui eu eleito para a presidência da Câmara. O homem, depois dos resultados, veio à Câmara desfazendo-se em mil desculpas “Senhor presidente, eu fiz aquilo sem conhecer a lei, mandaram-me fazer aquilo”, perdone-me!) e ficámos amigos, ele presidente da Junta e eu presidente da Câmara em listas opostas. Curioso: Lá na Venezuela, ainda não havia Maduro, mas cá na ilha já nascera e imperava um M.A.D.U.R.O, ‘petit-salazar’!

            QUARTO: Aconteceu na Escola Secundária de Machico, onde disputavam o Conselho Directivo duas listas, uma das quais afecta e mandatada pelo governo regional. Ganhou a lista contrária, à qual pertencia, entre outros,  o dr. Bernardo Martins. Na Venezuela, o Maduro de lá jurou, ameaçou que a Oposição nunca ganharia as eleições. Mas o M.A.D.U.R.O. de cá não ameaçou nem teve com meias medidas: “Essa lista não fica. Fica a outra”! Houve discussões, pequenas escaramuças, transferências de professores. Mas ficou a outra. Entre os dois – o Maduro e o Madurete, entre o Tirano e o tiranete – descubram as diferenças e muito mais as semelhanças…

            QUINTO: “E se for necessário voltar à ‘botas cardadas’, não hesitaremos” – palavras proferidas em plena Assembleia Regional. Botas cardadas são expressões indiciárias dos ataques à bomba perpetrados pelos terroristas da FLAMA. Na década de 70, com destruição e mortes à mistura. Maduro de Caracas falava em ‘banho de sangue’. Aqui, na Madeira Madureira, a palavra acesa era de violência nua e crua. Ainda na Assembleia Regional, ouvi eu: “E se a diocese precisar de ocupar e tomar conta daquele campanário (referia-se à igreja da Ribeira Seca) estarei pronto a fazê-lo”. E fê-lo, entre 27 de Fevereiro e 17 de Março de 1985, com 70 agentes policiais, sem mandado judicial !!! Qualquer semelhança não é pura coincidência. Mas perdeu a guerra, porque o povo, sem armas,  continuou dono do seu templo, até hoje!.

            SEXTO: Quando o governo regional perdeu a autarquia de Machico para a oposição,, o Madurete , num antecipado quanto tresloucado resfolegar, idêntico ao Maduro venezuelano, não teve freio nem pingo de pudor, explodiu: “Para Machico, nem um tostão”. E fez pior que isso. Mas Machico levou de vencida!

            SÉTIMO: Para manietar a população, Maduro tem como suporte de vida ou de morte,  as forças armadas, a comissão eleitoral e os regimentos policiais. O arvorado M.A.D.U.R.O. teve como aliado o trio mitrado da diocese, três bispos, qual deles o mais subserviente, o mais invertebrado e o mais colaboracionista. Esta tríade político-religiosa foi muito mais perigosa e eficaz que os ‘gendarmes’ da República Bolivariana de Caracas.

            Os sete ‘items’ elencados são uma pequena amostra de um passado que deixou estigmas vincados na população, embora militantemente apagados pela grande maioria da comunicação social madeirense. Mas outros há, vividos e sofridos por cidadãos nossos que têm muito que contar. Trago-os à consideração geral nos tempos actuais, porque para interpretar  o presente e construir o futuro é incontornável conhecer o passado e o porquê de estarmos onde estamos.

            Para entrar a gosto neste Agosto/24, fica de pé a verdade insofismável: Se isto não descambou para a ditadura das ‘botas cardadas’ e para o império Madurete, tiranete, ‘petit-salazarento’ deve-se à firmeza de princípios da Oposição Madeirense que, assim espero, continuará a merecer a solidariedade reciproca do seu povo!

 

            O1-03.Ago.24

            Martins Júnior

quinta-feira, 25 de julho de 2024

BEM-AVENTURADOS, FELIZES, OS DESOBEDIENTES DE TODOS OS TEMPOS !!!

                                                                            


É preciso  não deixar fugir o momento. Captar-lhe a alma mais que o corpo, reter do fortuito a força reprodutiva do futuro e plantar na vertigem da água corrente  a bandeira  perene dos valores imortais! Eis uma filosofia existencial segura, pois que é a vida senão uma sucessão ininterrupta de instantes fugazes?!

Por isso é que não deixo passar em claro a dimensão intemporal daquela homenagem que há menos de oito dias em Viseu foi prestada a Aristides de Sousa Mendes, o Grande DESOBEDIENTE que fez da Desobediência a SALVAÇÃO de dezenas de milhares de seres humanos. A propósito da inauguração da Casa-Museu em Cabanas de Viriato, sua terra natal, assinalei aqui no Senso&Consenso que são os Desobedientes que fazem mover a História.

É esse o momento que não quero deixar fugir. Hoje, pretendo reafirmar o gérmen superior de uma atitude que as normas oficiais consideram inferior e destrutiva: a DESOBEDIÊNCIA. Previno desde logo que não se trata de um anormal e doentio espírito de  contradição, ou da  absurda e cega paranoia  de quem tem por profissão: desobediente. Refiro-me tão-só àqueles que mantêm lucidez em tempo de cegueira colectiva, os que diante de confusas encruzilhadas “vêem o invisível” e não só apontam mas abrem o caminho na direcção certa. Costuma dizer--se que são aqueles e aquelas que estão à frente do seu tempo e, por isso, são malsinados, são vilipendiados pelos contemporâneos e até sacrificados pelo ‘status quo’ vigente. Só mais tarde, é-lhes reconhecido o mérito e, daí, colocam-lhes  na fronte  a auréola de oiro da sua liderança.

Em todos os sectores e em todas estrias da história, eles e elas ficaram na memória das gerações futuras.

Jeanne d’Arc desobedeceu aos bispos franceses, aliados aos ingleses, organizou o exército popular e saí na vanguarda em defesa do território e da sua gente. A Inquisição da Igreja queimou-a viva. Trezentos anos depois, a Igreja (Papa, cardeais, bispos) canonizaram-na e proclamaram-na padroeira de França.

Tomás de Aquino, poeta filósofo, foi condenado pela Igreja em 1277 por ter adoptado o ateniense Aristóteles como mestre inspirador da sua Summa filosófica e teológica. Mais tarde alcandorou-o aos altares, tornou-o Santo e Protótipo da Teologia Católica.

Francisco, o Poverello,  foi considerado marginal e louco, percorrendo as ruas da sua cidade, Assis, como protesto contra o luxo e a opulência hegemónica da Igreja Vaticana. Hoje é o super-venerado São Francisco.

Teresa de Calcutá, quando iniciou a sua missão anti-pobreza em bairros infra--humanos, foi malvista e censurada pelos hierarcas eclesiásticos.

Salgueiro Maia desobedeceu ao regime ditatorial de Marcelo e Tomás, mas nessa desobediência formal, restituiu a liberdade e o prestígio ao Povo Português.

E como esquecer, no domínio da ciência, Nicolau Copérnico e, na mesma época,  Galileu Galilei, condenado pela Igreja por ter descoberto o sistema heliocêntrico (A Terra girando à volta do Sol e não o contrário, como descrevia a Bíblia) e só escapou à fogueira dando, aparentemente, o dito por não dito!

Por detrás de cada uma das personalidades citadas, subentendem-se e multiplicam-se centenas, milhares de protagonistas, por cuja Desobediência aos códigos doutrinais e comportamentais dos regimes totalitários  deram novo rumo à História do Ser Humano, andarilho errante do Planeta.

Mas o maior, o mais impressivo e determinante de todos foi Jesus, o Nazareno, que afrontou o regime teocrático do Templo de Jerusalém, pôs a nu a hipocrisia dos hierarcas Sumos Sacerdotes que faziam da Religião a ameaça e o terror contra um povo humilhado e submisso. Jesus foi considerado um herege, um marginal,  revolucionário anti-imperialismo romano e até demónio aliado de Belzebu. Não descansaram os dois poderes – o religioso e o político – enquanto não perpetraram o assassinato mais vergonhoso da História!

Ele, mais que ninguém, pôde erguer a honra e o valor dos DESOBEDIENTES, quando no alto da montanha proclamou:

Bem-aventurados, Felizes, os que desejam (lutam) por amor da Justiça (de um mundo justo)!

Bem-aventurados, Felizes, os que sofrem (são presos, ostracizados, queimados, assassinados) por amor da Justiça. São esses que pertencem ao Meu Reino!

Adaptemos a todos os tempos e a todos os  povos a profundidade semântica do Sermão da Montanha:

Bem-aventurados, Felizes, os verdadeiros DESOBEDIENTES da História Humana!

 

23-25.Jul.24

Martins Júnior

domingo, 21 de julho de 2024

QUANDO DESOBEDECER É UM DEVER ! … MAS “O HERÓI SERVE-SE MORTO”. ATÉ QUANDO?!


Julho – antecipado sol de Abril  em terras de França! Em 14 de 1789, a heróica “Tomada da Bastilha”, baluartde olímpico do derrube do ‘Ancien Régime’ e do absolutismo reinante. E em 19 de 1885  nasce um português que em terras da Gália libertou dos fornos da morte  dezenas de milhares de seres humanos presos à fila dos condenados ao genocídio nazi.

            19 de Julho de 2024! Em Cabanas de Viriato renasce um velho palácio, antes mudo e quedo, agora iluminado com o timbre das madrugadas estivais. Quem o fez, qual o mago reformista, que pôs alma e lume novo nas cinzas de um chão proscrito?

            Quem foi?... Um filho clonado do Proto-Viriato, aquele que nos primórdios da portugalidade ousou afrontar a soldadesca do imperialismo romano. Foi ele, o novel Viriato, não na guerrilha das montanhas, mas na mais sangrenta ditadura urbana. Tem um nome que, a partir de hoje, ilumina todas as noites viseenses e todos os meandros da história: ARISTIDES DE SOUSA MENDES!

            Ele – diplomata e humanista, esposo exemplar e pai de quatorze filhos,  visionário e empreendedor e, no apogeu da ascensão existencial, um Herói!

            Mas, por mais encomiásticos panegíricos que lhe dediquem os historiadores, faltar-lhe-á sempre o principal, o único exponencial: UM DESOBEDIENTE !!! Marginal, desalinhado, refractário, fora-de-lei, provocador, revolucionário - todos os sinónimos, que houve e que os houver no dicionário dos povos. Mas todos reconduzir-se-ão ao único estruturalmente definidor deste homem: DESOBEDIENTE.

            Ele subverteu a anquilosada semântica do vocábulo “Desobediência”, até então carregada de rebeldia, contradição, destruição e até loucura. Ele demonstrou que Desobedecer é um Dever quando as leis e os seus agentes afrontam a dignidade humana. Em tempos de cegueira generalizada, Desobediência é Lucidez. E quando a anestesia colectiva assiste e assina a destruição, a morte lenta de um povo, Desobedecer é Re-Viver, voltar à Vida, Ressuscitar.

            Desobedeceu ao regime salazarista. E pagou caro a coragem de ter restituído à Vida gerações vindouras, descendentes dos milhares de homens e mulheres sem outro futuro além do crematório hitleriano. Pagou com a miséria, a fome e a desonra pública, a sua e a dos quatorze filhos inocentes, alguns ainda no regaço da própria mãe. Ele pertence àquela estirpe liderada pelo Nazareno Mártir, ao lado de Joana d’Arc, Álvares de Nóbrega, (madeirense) Luther King, Navalny e tantos outros que os regimes totalitários mandaram a terra comê-los e esquecê-los.

            É belo, é justo, intemporal o agora palácio-museu de Cabanas de Viriato. Mas fica-nos no peito a poção amarga que o poeta Reinaldo Ferreira escreveu em Moçambique: “O Herói serve-se morto”! Até quando?!...

            Não consigo reprimir o apelo interior quando medito em Aristides de Sousa Mendes e em todos os desobedientes vítimas da sua Lucidez pró-Humanidade. Esse apelo, mote inspirador de subsequentes reflexões, consiste no seguinte dilema: Muito se apregoa o ‘heroísmo’ dos mobilizados para a guerra colonial – eu fui um deles – e até se defendem prebendas para aqueles que, embora forçados, foram em terras africanas apoiar e, se possível, perpetuar o regime da ditadura salazarista. Eu pergunto: E os que se recusaram a combater, os que foram atirados ao fosso mortuário de Caxias, Peniche, Tarrafal, os que viram a sua vida social e familiar barbaramente destruída? Estes, a quem devemos o derrube do totalitarismo português e a conquista da Alvorada de Abril? Estes, os Desobedientes, genuínos descendentes de Aristide de Sousa Mendes?...

            São os Desobedientes que fazem mover a História !!!

 

19-21.Jul. 2024

-Martins Júnior  

           

              

              

           

           

 

 

                                                                 

quarta-feira, 17 de julho de 2024

NO 7º DIA DE UMA SAUDOSA MÃE SUPRA- -BIOLÓGICA

 


“O que eu andei para aqui chegar!”….

Ao vê-la fechada naquela nau da última viagem que terá de fazer quem teve o privilégio de nascer pareceu-me ouvir a sua voz saída das quatro tábuas ali jacentes. As centenas, milhares de quilómetros que esta mulher andou…sem nunca ter conhecido outras paragens senão a sua ilha, a sua freguesia, o seu sítio verde terra, a sua amada Ribeira Seca.

Há quem seja grande porque enormes foram os cenários, os ambientes, os países e os regimes que o fizeram. E há quem, pelo seu labor discreto, torne maior e mais belo o magro e serrano berço onde nasceu e viveu. The small is beautiful.

Assim foi esta Mulher. Sem nunca ter viajado, percorreu o sempre inacabado itinerário da paisagem humana. Sem nunca ter casado, foi Mãe de centenas, milhares de filhos: Mãe supra-biológica, na formação da alma infantil, dentro dos parâmetros que marcam decisivamente os passos futuros da vida: o civismo, o carácter, a convivialidade, a cultura, a crença, enfim, os valores humano-cristãos, a cuja campanha dedicou, enquanto lhe permitiram, os seus prolongados cem anos menos dois.

  Conheci-a, desde o meu regresso da guerra colonial em Moçambique, em 1969, quando passei de capelão militar a outra missão qualitativamente mais digna, a de assistente sócio-cultural e espiritual, como pároco da Ribeira Seca, um enclave marginalizado, desprezado, explorado, martirizado durante mais de cinco séculos pelo ‘leonino regime’ da colonia. Da colónia africana à colonia insulana, uma passagem de nível  que exigiria idênticos, se não maiores, esforços de   esclarecimento e persistência para libertar quem vivia plebeu e ´servo-da-gleba’ na sua própria ilha.

E foi nesta conjuntura que comecei a apreciar a trajectória do pensamento de uma Mulher, nascida na ruralidade profunda e marcada pela  resignação imposta no catecismo eclesiástico como promessa e caminho de salvação eterna. Ela pertencia à congregação das antigas “Filhas de Maria”, a que os populares  depreciativamente apelidavam de “beatas”. Com surpresa minha, notei o crescimento evolutivo da sua mentalidade face à Igreja institucional, tornando-se uma defensora e lutadora acérrima dos valores autenticados na Bíblia, sobretudo nos Evangelhos, mais do que nos preceituados pela hierarquia. Ao ponto de - quando o governo regional e a diocese conluiaram-se para mandar 70 polícias ocupar a igreja da Ribeira Seca  em 1985 – esta Mulher, diante do agente que a obrigava a abandonar o recinto, reagiu de uma forma lapidar: “Vá embora o senhor. Eu não saio daqui, esta é a minha casa”!

Além da sua natural bonomia, da gentileza de trato (nunca erguia agressivamente a sua voz) e de uma constante preocupação de unir em vez de separar, esta Mulher ganhou o honroso título de Mãe – aquela que “dá o pão e o ensino”: ensinou centenas e milhares de crianças em aulas de catequese e alimentou gerações com o pão servido no altar da Eucaristia. Quando o bispo  diocesano proibiu a venda oficial de hóstias à paróquia da Ribeira Seca, foi ela que inspirou a iniciativa de  adquirirmos uma máquina para a confecção das partículas destinadas à Comunhão. Durante, mais de 40 anos ( desde 1977 a 2019), produziu milhões de hóstias para suprir a ‘fome’ do Pão da Eucaristia, que a Igreja institucional tinha negado. Jamais esquecerei a paciência o carinho maternais com que, todos os anos, ela fazia a demonstração ‘ao vivo’  de como se fabricam as hóstias, perante os olhos atentos das crianças candidatas à Primeira Comunhão.

Sétimo Dia abraçado a uma vida de quase Cem Anos!

Que outro voo de homenagem e saudade posso eu dedicar à Maria da Conceição de Gois senão a expressiva revelação do poeta:

Não me peças mais canções

Porque a cantar vou sofrendo

Sou como as velas do altar

Que dão luz e vão morrendo

 

Ela viveu, serviu,, sofreu, cantou, aprendeu, ensinou e alimentou gerações, “como as velas do altar”  e assim foi fenecendo, suavemente apagando-se, dando luz e assim morrendo.

MISSÃO CUMPRIDA – podem escrever na sua tumba. Por isso e porque “morrer é só deixar de ser visto”, a sua presença e o seu legado povoam amplamente o nosso agregado populacional, tal como a luminotécnica deste nosso templo da Ribeira Seca, sem uma única lâmpada visível, mas todo ele brilhantemente iluminado.

“Alma nossa gentil que te partiste”…

Boa Viagem para a Eternidade !  

               

17.07.24

Martins Júnior


quinta-feira, 14 de março de 2024

NOITES DO VOTO – NOITES DO PARTO E UMA ESTRANHA TRÍADE: PAI, PARTEIRO E PADRINHO !!!

                                                                        


    Prolongo no plural a noite de 10 para 11 de Março, porque de tantas horas e sobressaltos, euforias, desânimos, expectativas abortivas, pulsações batidas como o fragor escondido das derrocadas longínquas, de tudo isso se encheu e estendeu o mapa luso, desde o vasto oceano até à mais serrana província deste país.

            Tornou-se o pequeno ecrã um enorme bloco de partos. E um povo todo em redor, ansioso  à espera de saber “quem será o pai da criança”. E foram três os putativos progenitores a agarrar a alcova do poder. Houve aplausos, lágrimas, juras de amor em fúria!

            É da praxe nas tribos remotas ‘festejar’ o nascimento com toadas de pranto à beira do novo inquilino do lar. Não assim na fumaça da noite eleitoral. Mas por entre os esgares apoteóticos da vitória, era indisfarçável  nos olhos e no tom verbalizado dos vencedores a insegurança  latente perante o futuro. Como um pesadelo após um sono de noivado, viu - e estremeceu!!! - o ‘herói’ multidões açodadas batendo à sua porta, um batalhão de polícias (os tais que tanto lhe agradaram na campanha), os estetoscópios dos médicos e as seringas dos enfermeiros misturadas com o roncar dos tractores agrícolas, as pandeiretas e os pendões dos professores, acompanhados dos pupilos, mais as togas dos assessores judiciais, os guardas prisionais, as mulheres, os sem-abrigo, as brigadas do reumático (de muletas, ambulância ou de tuktuk) enfim, uma visão dantesca que antes o deliciava e agora o apavora e fá-lo chegar ao pranto e ao pânico das antigas tribos: “Em que é que eu me meti!”. E em vez da  mão espadeirada em flecha contra os adversários  na campanha eleitoral, agora está de mão estendida pedindo-lhes a esmola da “responsabilidade patriótica”.

Se, por um lado, sente-se confortado com o excedente financeiro de seis mil milhões em caixa  para acudir aos famintos de dinheiro vivo, fustiga-o o vaticínio das pitonisas da nossa praça (analistas, comentadores, colunistas, treinadores de bancada) que apontam para  um reinado efémero, a curto e médio   prazo, com palavra dada e desonrada, acordos e desacordos e também cordas roídas, a começar dentro do próprio conúbio de um atribulado ménage à trois e, tudo somado, um país instável, movediço,  nada confiável ao investimento estrangeiro.      

            E aqui é que entra uma madrinha sexagenária e fleumática consorciada constitucionalmente com um padrinho visceralmente hiperactivo, o qual ‘obrigou’ mais de dez milhões de eleitores a uma corrida extemporânea às urnas e foi abrindo pistas (ele próprio afilhado de Marcelo Caetano) em direcção ao pódio de São Bento, em cujo trilho corria também  o afilhado partidário. Qual astuto imperador no Coliseu pagão de Roma, assim também durante duas semanas divertiu-se ‘à brava’ desde as ameias do cristianíssimo castelo de Belém, contemplando os novos ‘gladiadores’  das arenas públicas em duelos vocais, rodadas e arruadas, folclore made in Trump american e a que não faltou uma saloia simulação do assalto ao Capitólio lisboeta.

E pronto! Conseguiu o que trazia entranhado ao peito, desde há muitos anos: pai, parteiro e padrinho nesta sala de partos, cuja hiperactividade congénita fez questão de  demonstrar, numa vertigem indomável de entronizar em primeiro-ministro o afilhado de partido, mesmo antes da assembleia de apuramento geral das eleições, em contravenção com os normativos constitucionais.

Chegámos a isto, 50 anos pós-25 de Abril! Quem na véspera da data eleitoral invadiu o ‘tempo de reflexão’ falando em estabilidade e governabilidade revelou-se o maior factor de desestabilização nacional. Aguardemos episódios futuros desta tragicomédia a-céu-aberto!

 

11-13.Mar.24

Martins Júnior