sexta-feira, 23 de abril de 2021

PÉTALAS DO MEU LIVRO NAS FOLHAS DO MEU CRAVO ! – UMA CANÇÃO DE ABRIL

                                                                              


Porque  é o DIA MUNDIAL DO LIVRO, tudo me atira às nuvens para daí tecer as mais altissonantes loas em louvor do oceano cultural que nos trazem as páginas escritas, soletradas, desfolhadas. Mas estamos também na Semana dos Cravos – os cravos que nascem na terra e a ela nos prendem. E logo senti que livros e cravos, folhas e pétalas são água da mesma nascente, são húmus do mesmo chão que todos habitamos.

Mas será que os Livros nasceram na mesma manhã dos Cravos?

Eis a questão que se, por um lado, nos inspira poemas lunares, por outro obriga-nos a descer ao terro da vida – ou das vidas: a de antes e a de depois do “25 de Abril de 1974”.

E quando me preparava para sinalizar a diferença abissal entre  “o Antes e o Depois”, eis que um acontecimento, para mim fortuito, veio buscar-me de novo para a beleza poética e comovedora de uma exposição em pleno centro da cidade de Machico. Foi esse vasto friso que enchia de cor o chamado “Largo da Vila”, o toque de mestre inspirador do poema que queria dedicar à nova atmosfera que respiram hoje os portugueses, a começar pelas crianças – o ar puro e rico da Cultura, não obstante os ventos áridos desta pandemia.

As crianças das Escolas Primárias do concelho, acompanhadas pelas suas professoras, trouxeram ao espectáculo público uma Exposição eloquente, subordinada ao título: “Como vejo o “25 de Abril”?.

Podia esta pergunta ser endereçada a cada um de nós, adultos. Que resposta a nossa?...

Da minha parte, faltar-me-iam as palavras para descrever o que meus olhos viam naqueles painéis abertos. Porque? E era por aqui que ia começar hoje esta crónica.

Sinteticamente: Nós, os do “Antes”, bem nos lembramos da escassez de instalações escolares, das dificuldades extremas em frequentar a escola e da total impossibilidade que condenava o filho de um trabalhador do campo ou do mar a ficar sem acesso ao ensino superior. Quem podia entrar numa Universidade? Só os afortunados do poder e do dinheiro, os filhos dos senhorios, dos ‘proprietários’, dos capitalistas e de alguns comerciantes. O regime vedava os olhos ao Povo, retirando-lhe os livros e as hipóteses de lê-los. Consideravam os donos  do regime um perigo público aprender a ler. Por isso, os mais velhos, que não puderam ter escola diziam: “O caderno e a caneta que meus pais me deram foi uma corda e uma foice para ir à serra apanhar lenha ou roçar erva comida para o gado”.

Assim se deseducou um povo a andar de cerviz curvada ao chão, como escravos do século XX! Os poderes públicos e a própria religião tiravam opulentos dividendos do obscurantismo popular. Mísera sorte, a dos nossos antepassados!

                                                          


Com “Abril/74”, porém, varreram-se as trevas da ignorância e do analfabetismo. Todos tiveram caminha aberto para a sua escola, para a sua Faculdade, enfim, para a Cultura. Merece um hino triunfal quando vemos o filho de um operário fabril, agricultor ou pescador, franquear as portas da Universidade e um dia ocupar a cátedra de Mestre, de Juiz ou  Cirurgião.       

         No Dia Mundial do Livro, vi diante de mim os Livros abrindo em pétalas de beleza infantil, vi também os Cravos vermelhos abertos como as páginas de uma imensa enciclopédia – a Enciclopédia da Vida.

Parabéns às docentes de todas essas crianças, artistas do “25 de Abril”. E que magnífica lição ali nos dão com a sua exposição!... Enquanto muitos tentam abafar e secar os Cravos da verdadeira Liberdade, os alunos do Ensino Básico do concelho de Machico ergueram bem alto a bandeira vitoriosa da Revolução dos Cravos! Viva!

 

23.Abr.21

Martins Júnior

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