sábado, 1 de maio de 2021

O 1º DE MAIO E O SACRO-FOLCLORE made in MADEIRA

                                                                            


Com o madeirês confinamento a meio-gás, esta nossa Ilha é rica em tradição e inovação para consumo interno. Desde o “ir a maio” e o brejeiro “saltar a laje” até ao São Tiago Menor (que neste ano 500 de culto ficou em dobrada abstinência), tudo é festança ou miniatura dela. Pelo meio, fala-se no Dia do Trabalhador e no São José Operário. E talvez o melhor e mais sustentável fica de fora. Respiguemos um pouco da História:

O Dia do Trabalhador teve a sua origem na luta dos operários mártires de Chicago, em 1886. O Dia de São José Operário instituiu-o a Igreja Católica por iniciativa do Papa PioXII, em 1955,  para ‘tapar’ ou sacralizar o 1º de Maio, apanágio (que não monopólio) dos regimes de esquerda. O Dia do “Voto e Procissão  da Cidade”  vem desde 1521 quando, por sorteio, a edilidade de então nomeou São Tiago Menor Padroeiro principal do Funchal na luta contra a epidemia  que dizimou milhares de vidas.

Na Madeira assentou arraiais a Festa de São Tiago Menor. Neste Quinto Centenário do “Voto” ou Promessa, projectam-se  iniciativas várias, entre as quais a famosa procissão entre a Sé e a igreja do Socorro (Santa Maria) a inauguração de uma nova imagem do Santo e, ainda, a viagem das relíquias (duas, diz-se) do mesmo Padroeiro, desde Roma até à Madeira, com itinerância garantida por todas as paróquias da Região.

Mas o que confrange as mentes mais atentas e apouca a autenticidade do culto ao Bispo de Jerusalém é a ligeireza de trato, quase sonegação tácita, da Carta que o homem escreveu ao seu povo. E porque vem mesmo a calhar neste dia da dignificação do trabalho, o 1º de Maio, vou transcrever alguns excertos que apontam de forma veemente para a instauração de um regime de justiça distributiva, sem exploração do homem sobre outro homem, advento de uma sociedade igualitária. Deixemos que a sua mensagem entre directa e limpa dentro de nós:

Atenção, irmãos: Não andeis com esse jogo duplo de querer conciliar a fé em Jesus e, ao mesmo tempo, fazer descriminação de pessoas. Vou dar-vos um exemplo: Suponhamos que entra na vossa assembleia, na igreja, um homem com anéis de ouro e bem trajado. Entra também um pobre muito mal vestido. Vós, dirigindo-vos ao que está magnificamente trajado, dizeis: ‘Amigo, chega-te mais e vem sentar-te aqui neste lugar confortável”.  E ao pobre dizeis: ‘Tu ficas aí, de pé’ ou então ‘Senta-te no chão, abaixo do meu estrado”.  Vedes como fazeis descriminação entre vós próprios, desprezais o pobre. E isso é pecado. Porventura não são os ricos que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais?... Não são eles que blasfemam o belo nome que sobre vós foi invocado?... (cap.2, 1-8).

Mais adiante, assim brada o Bispo Tiago, verdadeiro pastor que defende o seu povo e cujas vestes (diria o Papa Francisco) tem o cheiro do rebanho:

E vós, ricos, o que tenho a dizer-vos é  o seguinte: As vossas riquezas estão podres e as vossas vestes faustosas já estão comidas pela traça. O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se e a ferrugem devorará a vossa carne como o fogo. Porquê? – perguntais vós. E eu respondo: Porque não pagastes o justo salários aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos! Esse salário está a clamar todos os dias. E ficai sabendo que os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do Universo. Vós explorastes e matastes o pobre e achais que Deus não vai opor-se contra isso?!... (cap.5, 1-6).  

            Estaremos despertos e vigilantes ao longo das comemorações dos 500 anos de culto a São Tiago Menor. E vamos guardar, interiorizar a sua Carta.

 

         01.Mai.21

         Martins Júnior

 

 

 

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