segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

PASSATEMPOS ONOMÁSTICOS E COINCIDÊNCIAS GRITANTES

                                                                       


Ultrapassadas as folias barrocas, falaciosamente alcunhadas de Natal e Reis Magos (Belém está morta e sepulta há 100 dias), regresso ao LIVRO, onde nos é patenteado no primeiro dia da semana o episódio em que o Nazareno, com trinta anos de idade e no início de uma vida aberta ao público, procura colaboradores e simpatizantes para a arriscada campanha do seu projecto reformador da sociedade judaica. Convida Pedro, André, João, Tiago, Bartolomeu e, entre os Doze, contacta com um jovem especial – Ele o disse – ao qual saúda com uma simpatia e uma emoção invulgares, expressas neste discurso directo: “Ora, aqui está um verdadeiro israelita, autêntico, genuíno, sem sombra de hipocrisia”. A nenhum outro teceu semelhante elogio. E agregou-o logo ao grupo. Seu nome próprio: Netanyahu.

            Há nomes, outrora conceituados, quase sagrados, que hoje nos arrepiam, só de ouvi-los. Neste caso:: Israel, Neta Messias (associado a Jair Bolsonaro) e Netanyahu. Que diria o mesmo Jesus acerca do homónimo assassino de 24.000 palestinianos, entre eles quase 10.000 crianças, conterrâneas do Menino de Belém?!...

                                                               


            Hipocrisia e sadismo – o mínimo que se pode dizer – mostraram-no os ecrãs do dia 6 de Janeiro, o Dia de Natal dos Cristãos  Ortodoxos, mais precisamente na catedral de Moscovo. Poucas palavras, para não encobrir o hediondo, o contra-natura dos factos e dos actos praticados pelos facínoras protagonistas em palco:  O patriarca Kirilos, paramentado com a opulência imperial das casulas bordadas a ouro, alça aos céus os círios flamejantes, balança em redondas volutas o incenso capitoso, enquanto escancara o mote gutural do Gloria in excelsis ao Menino Nascido em Belém e logo o coro levanta as bizantinas arcadas do templo. Um festival de fé mágica, de um misticismo retintamente oriental para um povo rendido, comovido, ‘fidelíssimo’  ao Menino.

             Mas não é esse o protagonista e chefe de orquestra daquele mítico “baile de máscaras”. É outro. E está bem na vanguarda do fiel rebanho russo, reunido naquela assembleia festiva.  Benze-se, curva-se. ajoelha-se e logo põe vela super-reverente em honra do Menino, antes de falar ao piedoso auditório. Tem nome sonante: Vladimir Putin, ex-chefe do KGB, presidente da Federação, Superior Hierárquico do Patriarca Kirilos e Comandante Supremo das Forças Armadas.  O mesmo, Vladimir Putin, que nessa noite matou (fê-lo o seu exército) várias crianças em território ucraniano.

            Não consigo continuar. A emoção e a repulsa paralisam-se as mãos. Só me lembra o LIVRO, de novo, quando Herodes e Pilatos, que  “eram inimigos, mas no dia em que julgaram e condenaram Jesus tornaram-se amigos”. (Lucas, 23, 12). Putin e Netanyau estão nos antípodas, um do outro. Rússia e Israel são rivais. Mas ambos associam-se no infanticídio, um na Ucrânia, outro na Cisjordânia. Ambos cobertos com a sacrílega cortina da religião.

            Para completar a minha indignação sofrida, olho perto e longe e, em diversa proporção, recolho esta amarga conclusão: é para isto que servem e é nisto que convergem as religiões institucionais. Todas, todas, todas!

 

            13-15,Jan.24

            Martins Júnior


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