quarta-feira, 13 de novembro de 2019

UMA PONTE ENTRE DOIS MUROS: É O QUE SOMOS E É O QUE FAREMOS


                                                      

    Fascina-me todos os dias o derrube daquele Muro da Vergonha que Novembro trouxe à Europa e ao Mundo, em 1989.  Mãos de gente  o levantaram e mãos de gente o abateram.
Muros e Pontes. Sem muros não há pontes.
Fico pensando, então, que será essa, talvez, a nossa sina: metade do que somos constrói muros e a outra metade une os dois extremos e nascem as pontes.
Neste inelutável refluxo construtivo, todos os dias formulo este voto escrito na face de todas as manhãs:
Que cada muro que levanto seja o princípio e o apoio de um novo arco no grande rio da história que passa na minha aldeia!
Se tenho de ser o Muro, serei também a Ponte!
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Escrito no dia comemorativo da morte do genial construtor das grandes pontes sobre os oceanos, o “Infante de Sagres”, em 1460.
13.Nov.19
Martins Júnior   

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

“VOCÊ QUE OLHA E NÃO VÊ” – UM CASO QUINHENTISTA


                                                                     

A toda a hora e a todo o mundo e em todas as épocas deveria repercutir-se o pré-aviso de Vinícius de Morais – “Você que olha e não vê, Você que reza e não crê” – em jeito de samba-canção, mas de uma força iluminante que nos faz despertar daquela letargia sonâmbula  a que tão facilmente nos acomodamos. É o reino do “Deixa passar”, do “Sempre foi assim” ou academicamente, a  invertebrada era do laissez faire, laissez passer, enfim, o vírus da indiferença e do imobilismo.  
         Em todos os domínios, mas particularmente no âmbito das crenças, o império do imobilismo conservador assenta arraiais e lança raízes, com a mesma violência do eucalipto que seca tudo à sua volta: sequestra o pensamento, paralisa os braços e mata o mais leve aceno de voluntarismo. Daí nascem os dogmas e afiam-se as lanças pontiagudas das ameaças e condenações contra quem pretenda ver e não apenas olhar. Casos, eles aí andam quase sem darmos por isso, sendo o mais incisivo o episódio do autor da Teoria Heliocêntrica, o genial astrónomo Galileu Galilei, julgado em tribunal eclesiástico com base no dogma bíblico de que o sol andava à roda do planeta Terra. “Sempre fora assim”!
         Não resisto ao impulso interior de repescar os dois relatos, também colhidos na Bíblia, os quais fizeram parte integrante das leituras de ontem, domingo, nos rituais litúrgicos. O primeiro: a proibição terminante de comer carne de porco. (Macabeus, cap.7) Quem transgredisse este normativo seria condenado por ofensa de lesa-divindade. O segundo: Se um homem, casado com uma mulher judia, fosse vítima de morte, o irmão dele era coercivamente obrigado a casar com a viúva, sua cunhada, portanto. E se este morresse, o irmão  seguinte (se o tivesse)  assumiria o mesmo mandato. Até ao sétimo irmão. Sob pena da lei divina! (Lc.cap.7)
         Gerações e gerações de hebreus viveram traumatizadas por imperativos legais, os mais absurdos, insuportáveis à inteligência humana. Com maior incidência, ainda hoje, gerações e gerações de crentes vivem obcecados, esmagados sob o peso de fantasmas e ferretes emanados da “Lei de Deus”…
         Trago a uma atenção crítica estes considerandos para relevar distintíssimas excepções ao status quo acomodatício: aqueles e aquelas que têm olhos de ver, que ousam quebrar o imobilismo cego e sequestrador. Ontem e hoje, na cidade de Braga, presta-se homenagem a um Homem que marcou a sua época, (1514-1590), insurgiu-se contra uma instituição estática, (a Igreja do séc.XVI), tendo ganho, por recompensa, a hostilidade dos seus pares. Era ele Bartolomeu dos Mártires, arcebispo de Braga e reformador incansável dos usos e costumes da sociedade de então, ainda marcada pelo obscurantismo medieval, não obstante o avanço das sucessivas conquistas da era quinhentista. Foi no Concílio de Trento (1545-1563) que mais se notabilizou através da vigorosa proclamação que ficou na história: Ecclesia sempre reformanda – “a Igreja deve estar sempre em reforma, sempre em contínua renovação”.
         Bento Domingues, na sua crónica semanal do Público, define-o bem:
“O Papa Francisco acabou por descobrir que Bartolomeu dos Mártires tinha vivido, na sua pessoa e na sua acção, o projecto da reforma da Cúria, do conjunto da Igreja e o tinha precedido no combate ao vírus do carreirismo eclesiástico”.
         Associo-me à memória desse Homem, eternamente jovem: de ontem, de hoje e de sempre. Associo-me ao entusiasmo do Papa Francisco na  campanha que promove  contra o dogmático e imobilista Sempre foi assim!  Associo-me ao pregão de Vinícius de Morais – Você que olha e não vê – e todos os dias leio o seu pré-aviso escrito no ar que respiro!

         11.Nov.19
         Martins Júnior  

sábado, 9 de novembro de 2019

MUROS DE BERLIM – MUROS DA GENTE


                                          

Quem os fez e os desfez?
quantos e quando cresceram e caíram?
muros da Babilónia muros de Jericó
muros de Jerusalém e das Lamentações
muralhas de Roma muralhas da China
de Caxias Peniche México Guantánamo
Quem os fez e desfez?

E quantos mais farão e desfarão?...
Enquanto houver ‘carne pra canhão’
e houver ossos pra queimar
muros não faltarão

na betoneira infrene a betonar
a dar a dar:
bocas famintas línguas amordaçadas
goelas secas de tanto gritar
mistura macabra
de mirrados crânios e dedos recém-nados
tudo argamassado regado
com sangue soluços e choro sufocado
tudo lá dentro ferve
e tudo serve
ao ciclópico furor do muro em ascensão
rebocado revestido do capital metal
capital letal

Muros somos nós
betão e betoneira são os nossos braços
mais os silêncios baços
de quem nasceu para falar brandir gritar

Treme o planeta e treme a consciência
Quando chegas à contraditória evidência:
Construir é destruir
E destruir é construir
Constróis o muro - destróis a gente
Destróis o muro - reconstróis um Povo

O muro nasce de ti, da tua ideia, da tua mente
Só o destrói o bater do coração
Muros de Berlim muros da gente!

09.Nov.19
Martins Júnior


quinta-feira, 7 de novembro de 2019

CANÇÃO DO TRÍPTICO UNITÁRIO


                                                                    

                                                             Para o Ano XXX
O quanto andei
Para aqui chegar
O tanto foi que me curvei
Para contar
As pedras do caminho que fizeste

Uma a uma ajuntei-as poli-as
E vi que eram de prata banhada de azul safira
Saída dos teus olhos

Guardei-as onde mais ninguém as vira
E agora trago-as
As pedras que são cânticos e mágoas
Sonhos rasantes e voos expectantes
Por sobre o chão de prata já lavrado

Toma-os nas mãos aperta ao peito
 Os godos roliços do passado
E da prata faz ouro fino
Porque já é tua a rua a rota o rio
Que hoje navegas
Rumo à baía de ouro que te espera

Finda a primeira estação no ano trinta
Deu-me Mestre Tempo a cor e a tinta
Para  compor a tríade unitária
Do futuro

Prata ouro e diamante
Assim será o tríptico da verdade
Com mestria dividido em simétrica igualdade

 Na tua mão
Tens a paleta e o condão
De fazer larga e bela
Aquela tela
Da hora que é presente e dos tempos que virão

07.Nov.19
Martins Júnior

terça-feira, 5 de novembro de 2019

EM HONRA OU DESONRA DO CARDEAL BURRUMEU OU BORROMEU E DOS SEUS PARES!


                                                       

Borromeu – nobre família romana. Ele era Carlos, nome real. Seu tio, subiu ao “trono de Pedro”, sob o título de Papa Pio IV  O rapaz não era padre, mas o tio conferiu-lhe o barrete cardinalício e fê-lo cardeal da Santa Sé,  Secretário de Estado do Vaticano, Conselheiro e Eleitor de Sumo Pontífice. Tinha então 22 anos de idade. Corria o ano de 1560. Depois de canonizado, tornou-se o Patrono da Banca e da Bolsa.
Eis os ingredientes que me fizeram delirar primeiro e, logo a seguir, pasmar, desde a puberdade dos meus 14/15 anos de idade. E todos anos, em 4 de Novembro, as borlas purpurinas do cardeal Borromeu barravam o meu caminho. Não me deixavam passar sem decifrar o enigma. Hoje, já octogenário, na oitava do “São Carlos Borromeu”, o enigma persiste:
Cardeal – nada tem a ver com o sacerdócio. Nem é preciso ser padre para lá chegar. Nem curso especial, nem tirocínio de espécie alguma.
Sobrinho de Papa – excelente passaporte para alcançar anel e barrete. Os historiadores chamam a isto nepotismo, previsto e punido pelo Código de Direito Canónico e pela ética mais elementar da relações humanas. Até nos governos laicos.
Canonizado – está na directa linha promocional do  Cardinalato/Papado. Tio e sobrinho.
Patrono da Banca e da Bolsa – é a inevitável “cereja em cima do bolo” da aristocracia capitalista.
E aqui temos a escultura perfeita de um Cardeal-Príncipe da Igreja de Cristo… Oh Bom Jesus, vem cá abaixo e vê se consegues lobrigar a tua face na marmórea pele do cardeal ou  um só dos teus ossos na púrpura das suas túnicas ou um espinho sequer da tia coroa no barrete cardinalício…
E… “Viva, Viva” em cada 4 de Novembro, o Cardeal Borromeu (foneticamente Burro Meu)  “Banqueiro-Mór” e Secretário de Estado do Vaticano! E Padroeiro dos banqueiros, cambistas e agiotas! Viva!

05.Nov.19
Martins Júnior

domingo, 3 de novembro de 2019

A TERRA É TODA BELA, TODA BOA E TODA SAGRADA!


                                                

 Não importa quem o disse. O caso é que  está dito:
“O mundo, este Planeta, é  como um grau de areia na imensidade do universo. É como uma gota de orvalho caído de madrugada. Mas é belo. É são. Digno de ser amado. E nunca odiado. Só o simples facto de existir merece o nosso enamoramento. E a nossa dedicação. Porque há um espírito etéreo, quase divino, que percorre todas as coisas e penetra-as até ao mais íntimo. Amar a terra, Amar a vida» – eis o que é preciso! É por isso que no ser humano, dotado de liberdade e poder de opção, torna-se necessário corrigir os desvios e fazê-lo regressar à pureza original para que foi criado”
         Que mais falta para erigir este parágrafo como o monumento à natureza, o mais expressivo panegírico à ecologia, ao ambiente?... Belo discurso, em defesa da Vida e do Amor! Transformar todos os códigos de conduta sobre a natureza e toda a ética ambiental  num poema de afecto ao Planeta e a tudo quanto nele habita! Daqui poderiam extrair-se as mais audaciosas pistas legais em defesa da Terra. Todas as cimeiras e todos os tratados contra as alterações climáticas, contra o aquecimento global cabem neste parágrafo, de tão actual e oportuno se apresenta. Imperativo e urgente.
         O que falta esclarecer é a dúvida formulada no início deste arrazoado: Quem o fez? Quem o escreveu?
         E aí reside o efeito-surpresa mais acutilante e mais impressivo: o texto tem milhares de anos. É desconhecido o seu autor formal. O que sabe é que vem no “Livro”, o da Sabedoria, capítulo 11, versículos 12-22. E se é desconhecido o seu autor formal, traz implícito o seu Autor material. Quem lançou ao papiro essas palavras fê-lo como se fosse a própria Divindade a assumi-las em discurso directo e ao vivo. É Ele, o Criador, que fala abertamente sobre o seu espírito que penetra todas as criaturas. E anula sem rodeios as superstições, as águas-bentas, todos os simulacros com que “o povo néscio se engana”.  Toda a água é benta e abençoada, desde que seja boa. Toda a natureza está imbuída do sagrado. “O que há é pouca gente que dê por isso”, bem poderia repeti-lo Fernando Pessoa.    
         Vale a pena reler o “Livro” da Sabedoria, que constituiu o texto litúrgico oficial deste fim-de-semana. Dá saúde ao corpo e ao espírito. Preenche a vida inteira. E regenera toda a Terra!

         03.Out.19
         Martins Júnior
        

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

O TRÍDUO CIRCULAR DE TODAS AS VIDAS – 31.OUTUBRO/1. e 2. NOVEMBRO


                                        

Saíram dos escombros que o bosão primeiro
 deixou cair no vácuo tenebroso, sem rosto.
cadáveres ambulantes, disformes, multiformes,
vaguearam toda a noite em desatino
desfloraram selvas incandescentes, virgens, nuas,
gelaram de pavor alcovas de crianças e leitos de libido

E amanheceram anjos translúcidos,
santos mil, milhões, e milhões mil
em pé de altar.
auréolas  na fronte e pão-por-deus nas mãos

Ao terceiro dia
secaram-se-lhes  os ventríloquos e os olhos  sem pupilas
finaram-se as asas de águia maga
e voltaram aos escombros do bosão primeiro
à espera do próximo halloween
                        
assim se divertem e revertem
                           os humanos mortais
                           no apertado cerco
                           onde se julgam imortais

31.Out/ 1-2. Nov.19
Martins Júnior