domingo, 15 de novembro de 2020

A MULHER E O HOMEM NA CONSTRUÇÃO CONTÍNUA

                                                                          


Chega o Domingo e o sol encima o pico da montanha para iluminar toda a semana. Enquanto lá fora os farrapos do anunciado  furacão “Theta” cobrem de negrume e chuva a paisagem, dentro de mim e, decerto, de muitos e muitos companheiros de jornada, surgem apelos de esperança e optimismo para os sete dias e sete noites que se seguem. Apelos, toques de clarim que advêm do Livro em cada domingo do ano.  

É, sem dúvida,  uma inspirada ode à liderança da Mulher o texto do “Livro dos Provérbios”, (cap.31, 10-31) para o qual remeto o conteúdo destes breves considerandos. Não fosse a sua autoria atribuída oficialmente ao Rei Salomão, (séc.VI-V a.C.) dir-se-ia tratar-se de uma página proclamatória do excepcional regime denominado Matriarcado.

Com efeito, a Mulher ganha foros de autêntica dominadora, plenipotenciária no âmbito da organização familiar, aliando a mais delicada feminilidade ao dinamismo executivo normalmente adstrito ao homem varão, cabeça de casal. Ela é a vigilante, a ecónoma, a provedora,  a benemérita sensível aos carenciados e indigentes, trabalha a vinha, lança-se ao tear, negoceia com os mercadores. E é por ela, que o “marido brilha às portas da cidade, entre os senadores do reino”. Numa sociedade astutamente tradicionalista em que à Mulher se impunha a condição de subalterna e frágil,  subjugada ao mais forte, o homem, ela surge imponente, pioneira, vanguardista. Vale a pena consultar o texto multissecular, precursor do papel que a Mulher ocupa no século XXI.

O segundo texto exalta a função meritoriamente produtiva do Homem, protótipo de todo o inquilino deste planeta. É a parábola dos talentos (Mateus, 25, 14-30)  em que o Mestre pretende demonstrar que, no seu Reino, a palavra de ordem é produzir, recriar, multiplicar a energia virtual escondida no terreno que pisamos, à espera que o Homem a descubra e desenvolva. Os escravos (na tradução de Frederico Lourenço)  promovidos a gerentes dos bens do patrão serão louvados e agregados aos assentos reais só e apenas pelo coeficiente produtivo que investiram na administração dos talentos recebidos. Só o trabalho é factor de riqueza  e digno de recompensa.

Certo é que há quem veja nesta parábola dos talentos uma apologia do capitalismo clássico.  E sectores da teologia protestante, com Max Weber na dianteira, entendem que o crente deve interpretar como vocação salvífica o enriquecimento pelo enriquecimento, mesmo que ele, enquanto  produtor, não venha a usufruir da riqueza produzida.

Sejam quais as interpretações, este Domingo trouxe-nos um olhar dinâmico do que significa crer e actualizar a nossa crença. Contrariamente a uma visão do Cristo estático, de vitrina ou relicário, derrotado no madeiro da cruz, sequioso dos nossos joelhos dobrados, é-nos apresentada  uma nova constituição programática do fenómeno religioso (chame-se catecismo, manual, breviário ou devocionário) em que a acção ocupa um lugar cimeiro e o cristão descobre o seu verdadeiro cartão de cidadania, integrando-se obrigatoriamente na construção da História, na compreensão e extensão do Reino. Quem pretende fugir a este trabalho de transformação social e cultural exclui-se farisaicamente do Reino. São os que (citando Francisco Papa) “não querem sujar as mãos na terra”, os puritanos que detestam “o cheiro do rebanho”.

Em tempo de confinamento compulsivo, este Domingo parece estar em contraciclo, tantos são aqueles que querem trabalhar e o momento não lhes consente. Mas, ainda que confinados, há  uma outra produção de riqueza por desvendar: investir nas pessoas, redescobrir a força reprodutiva da colaboração mútua e do amor prestativo, mesmo nas quatro paredes onde vivemos. Assunto sério, motivação desafiante que deixo aqui. Importa saber e sentir  que amanhã, o sol nasce de novo!...

 

15.Nov.20

Martins Júnior

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

“PAULO DE TARSO” NO AREÓPAGO DA MADEIRA

                                                                               


Quanto se escreva, quanto se fale e quanto se cale – seja tudo um golpe de asa dominando a onda do tempo. neste tempo de longas vagas! Se navegar é preciso, surfar é-o muito mais. Num livro, num olhar, num poema,  num toque, mudo ou sonoro, até no confinamento, indesejado mas aceite,  reinventar-se e vencer a fraga-praga do século – eis o que é preciso.

         Ora, aconteceu aqui, Madeira, cidade do Funchal, julgo que em nenhum outro país ou região tenha acontecido. Foi o Padre José Luís Rodrigues quem sulcou a maré cheia e corajosamente içou a bandeira olímpica na praia primeira do poder político da Madeira. Pela sua mão e pela sua intuição, o ilustre sacerdote, figura prestigiada do clero madeirense, conseguiu arvorar em plena sala magna do Parlamento Regional  a Palavra da Verdade, a nova Constituição Planetária – por isso lhe chamo bandeira olímpica – a última encíclica do Papa Francisco, FRATELLI  TUTTI.

         Concorde-se ou não (a Religião para o púlpito e a Política na tribuna, advogam os opositores) o certo é que se tratou de um facto histórico, único no percurso de 44 anos de Autonomia, o qual ficará indelevelmente gravado nos Anais da Assembleia Regional da Madeira. Por dois motivos: pelo local, sede do poder autonómico e, com maior pertinência, pelos protagonistas intervenientes no evento, precisamente os representantes dos partidos com assento no Parlamento e respectivo Presidente. A estes dois motivos, adiciono um terceiro, o nuclear, ou seja, a mensagem de fraternidade e justiça social do Papa Francisco, como caminho para a Paz Universal.

         O registo visual do Padre José Luís Rodrigues, na qualidade do moderador, ladeado pelos  líderes parlamentares, só me fez evocar o Grande Paulo de Tarso, o Apóstolo das Gentes, em pleno Aerópago de Atenas, a Academia dos pensadores, filósofos, artistas e políticos da Antiga Grécia. Vem no capítulo 17, 15-34 do Livro dos Actos dos Apóstolos.

         Mas, tal como em Atenas, também aqui seria sumamente útil verificar quais os reflexos desta prestimosa investida doutrinal na nossa “Casa das Leis”. É ali, rigorosamente, o meio ambiente ideal para fazer a semeadura das palavras do Bem, pondo por escrito o pregão pontifício da Justiça e Paz, através de propostas, recomendações e decretos. Resta saber se a encíclica FRATELLI  TUTTI  entrou ali para ficar ou foi apenas réstia de um sol de  outono que alumia mas não aquece. Enfim, sol de pouca dura. Para quem já passou por essas bandas, sabe por observação directa, quantas e tantas vezes os delegados do Povo aprovam ou matam o que a consciência desmente, o que o Povo recusa. Que lhes diria o Papa Francisco se ali estivesse na galeria do público?... O xenófobo, racista e tribal Trump também se apresentou diante duma igreja, de bíblia na mão…

         A sublinhar o arrazoado aqui produzido, cito uma das mais dramáticas interrogações da encíclica: “Que significado têm hoje palavras como democracia, liberdade, justiça, unidade?... Foram manipuladas para usá-las como instrumentos de domínio”. Temo que todos os partidos, de um extremo a outro, se apropriem das palavras do Papa, não para confrontar-se a si próprios, mas para servirem de arremesso aos adversários. Coisa assim parecida com os solenes discursos presidenciais na República. Todos aplaudem, mas quando tocam na ferida é sempre com os outros…               

 

Voltando ao Areópago ateniense, quando se preparava para aprofundar a sua mensagem libertadora, Paulo de Tarso  foi convidado a sair  do salão nobre com um diplomático articulado: Audiemus te iterum, ouvir-te-emos outro dia… No Parlamento madeirense, a iniciativa do Padre José Luís Rodrigues foi aplaudida lá dentro e muito mais fora dele. Fica por saber o sucesso de tamanho esforço. Roçando as raias de um pessimismo fundamentado, permitam-me recorrer a um velho aforismo da gíria corrente entre clérigos acerca dos retiros anuais: “Não há nada mais inútil que pregar a padres e bispos. Nenhum se converte”. E se isto se diz de uma comunidade recomendada, que se não há-de dizer da classe política?...

No entanto, é preciso surfar, “semear canções ao vento que passa”. Algo há-de ficar! Todos nós faremos por isso. O Povo é quem mais ordena!

 

13.Nov.20

Martins Júnior

 

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

DA AGRESSÃO AO ABRAÇO NUMA HISTÓRIA DE GUERRA E PAZ

                                                                         


Pode o pequeno arbusto romper a terra onde nasceu, que nem um ai se lhe sente em redor. Cresce, avoluma-se o tronco, alarga os braços, sobe ao cimo das torres seculares, torna-se gigante da montanha… e nem um leve sopro se levanta na construção da enorme pirâmide verde que domina a floresta.

         Na diversificada orografia da paisagem humana, casos há que valem não pelo fragor atordoado que produzem, mas pela silenciosa ascese da seiva que sobe das raízes subterrâneas e alcança as nervuras das folhas distantes. Não há peças de artilharia sonante, nem passadeiras vermelhas à entrada, nem sequer palavras… A alma das coisas e das gentes sobrepuja o corpo de onde saiu.

         Ocorreu ontem neste exíguo vale, incrustado no grande vale de Machico. Para o grosso da multidão, “nada de novo a leste”. A leste da ilha. Mas no vasto terreno da história – uma história semi-secular – aconteceu apenas isto: a Assembleia mensal do presbitério pertencente ao Arciprestado de Machico-Santa Cruz. Todos os párocos desta circunscrição diocesana marcaram presença: Caniço e Eiras, Assomada, Gaula, Achada de Gaula, Santa Cruz, Água de Pena, Machico, Piquinho e Preces, Ribeira Seca, Caniçal e Santo António da Serra. Sob a presidência do Bispo da Diocese, assessorado pelo Vigário Geral.

         Palavras dispensam-se para qualificar o evento.

         Foi emocionante a Oração de “Tércia” naquela igreja – antes, igreja amaldiçoada pelo poder religioso e pelo poder político da Madeira… e, agora, templo de Oração Sacerdotal. Padres – antes, implicitamente proibidos de oficiar na igreja da Ribeira Seca… e, agora, em paz fraterna, debaixo do mesmo tecto, unidos “numa só alma e num só coração”!

         Prosseguiu a Ordem de Trabalho, no salão-biblioteca, sob os ‘olhares’ inspiradores  do (para mim, santo) Padre António Vieira e os não menos veneráveis Nelson Mandela, Luther King, Mahatma Gandi, Teresa de Calcutá e a ‘supervisão’ do Papa Francisco.

         Assim como dispenso mais palavras, também passo ao largo dos considerandos e relevantes interpretações que este, aparentemente, mero caso de rotina suscita e merece , sobretudo tendo em conta o cenário de fundo que lhe está associado. Ficarão, por enquanto, ao critério de cada observador.

         De tudo, porém, solta-se esta onda luminosa e apaziguadora: a agressão reiterada durante quase meio-século contra esta porção do “Povo de Deus” deu lugar ao abraço. A Paz, uma paz dinâmica e esclarecida, dissipou enfim as sombras paralisantes de uma guerra injusta.

         Em tempo de pandemia, esta é uma variante da vacina que cura o espírito.

 

          11.Nov.20

Martins Júnior

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

TRÊS PARÁGRAFOS PARA SÓ UMA EMOÇÃO

                                                                          


Não, não sou e não serei o único a sentir na pele, desde a ponta dos dedos até ao vértice craniano, aquele baloiçar do azul atlântico, quando um povo multicolor colocou na mão pacífica de Joe Biden o calhau decisivo atirado ao charco que infestava o mar do Novo Mundo. Curvei-me, apaixonadamente rendido, à nomenclatura dominante: Uma pedra lançada na costa americana enche as marés de todos os continentes. Chegou aqui também a onda azul. E de tal forma que, assim como eu dizia “Je suis Charlie Hebdo”, também agora, no reverso da medalha, proclamo garbosamente: “I am American, I am Biden”!

Porque é “Hora de respirar um pouco de ar puro”… Peço ao nosso romântico intérprete que não pare a canção, enquanto vou sorvendo, a plenos pulmões, a brisa suave e gostosa que milhões de homens e mulheres, crianças, jovens e anciãos respiram em liberdade, tão ampla e  avassaladora que nem o corona vírus consegue travar.  Acabou-se o terror, dissipou-se o espesso fantasma, os punhos cerrados como feras, os esgares tribais, as calúnias mais repugnantes, a espuma e o vómito pelos dentes fora contra jornalistas, contra quem “se lhe atravessasse no caminho”. Acabou-se o sacrílego refúgio nas igrejas, de bíblia numa mão… e a arma na outra.

Ninguém, por certo, perguntar-me-á o porquê desta emoção sem limite. Não me perguntam, “mas eu adivinho”. E apresso-me a dizê-lo. É que “eu sou daquele tempo”… O tempo em que conheci um ridículo sósia de Trump: com os mesmos pavores disfarçados de furores, a mesma raiva (já não disfarçada) contra “quem se atravessasse”, os mesmos arrotos paranóicos na sala nobre do povo, os mesmos olhares estrábicos contra jornalistas e, cópia perfeita, a mesma manta sacrista servindo de escudo defensivo. Enfim, o super-imaginário Trump, dono de uma América de 741  Km2 e 250 mil habitantes.

Por isso, “Não, Não sou o único”  a respirar o ar puro que me traz o Atlântico, lá das praias americanas. Só espero que, um dia antes da partida, chegue a hora de poder  ver a ilha definitivamente azul. Porque, até hoje, essa hora ainda não chegou…

 

09.Nov.20

Martins Júnior      


sábado, 7 de novembro de 2020

RECEITUÁRIO EXTRA-FARMÁCIAS

 

                                                           


Não tem magias nem metáforas o receituário que trago para este fim-de-semana. Porque é puro e duro o material de me ocupo hoje: o chão trepidante que pisam os nossos passos, o quotidiano inseguro, pré-neurótico que nos domina na rua, nas esplanadas, nos transportes, nos hospitais e até dentro das quatro paredes do nosso quarto. Nada nem ninguém para nos ajuda ao auto-domínio, muito menos à auto-estima.

Neste ar rarefeito que respiramos, tudo ou quase tudo à nossa volta traz o aperto da insatisfação e do medo, com o espectro da morte no fim da ‘picada’. E é aí que nos sobressalta. É verdade que, para alguns, chega a alvorada do ‘nirvana’ através da eutanásia, mas para a grande multidão dos mortais o pavor do desconhecido abismo sepulta-nos o corpo e, antes dele, afoga-nos a mente e a sensibilidade. Onde iremos? Como iremos?

Ora, há um antídoto, sem quaisquer danos colaterais, a que podemos ter acesso. Não é sedativo, mas é reconfortante, apaziguador. Direi mais: é dinâmico, como a fénix da lenda faz-nos renascer das próprias cinzas. E quem o traz é, como sempre, o Manual hebdomadário de cada sábado-domingo, pela voz do Nazareno. Vem em Mateus, capítulo 25.

As dez raparigas convidadas pelos noivos para fazer guarda-de-honra quando estes chegassem ao solar do banquete nupcial, espelham a dualidade comportamental da condição humana: cinco delas, antecipando os imprevistos e as eventuais dilações do protocolo, acautelaram-se e muniram-se de todos os ingredientes logísticos para o efeito, nomeadamente o azeite-combustível  destinado aos archotes do ritual judaico. Estas eram as chamadas “virgens prudentes”. As outras cinco, certamente eufóricas com o prestigioso convite para a boda, lançaram-se apressadamente na corrida até aos portões do solar. Mas os noivos demoraram, as jovens dormitaram - e os archotes quase sem pingo de azeite. Quando chegaram os nubentes, as cinco prudentes entraram para o festim. E as outras cinco? Tinham ido à cidade comprar azeite. Quando chegaram, ninguém lhes quis franquear a entrada “Ide embora, não vos conheço de lado nenhum” – respondeu, lá dentro, o próprio noivo. Dura sanção, inapelável, irrevogável!

Onde está o receituário prometido em título?

Vem todo implícito, direi “claramente visto”, nas entrelinhas da narrativa. Questionemos: que é que pediram os noivos àquelas distintas donzelas, convidadas especiais? Que empunhassem os archotes acesos à sua chegada, consoante a etiqueta cerimonial. Mais nada. Nem discursos, nem cânticos angélicos, nem figurinos exóticos, nem orações. Só os pavios acesos. E por que foram severamente punidas as outras cinco? Por não oferecerem ricas baixelas, somas avultadas, anéis e braceletes de oiro persa? Nada disso. Só as lâmpadas acesas. De nada lhes serviram as correrias à cidade, o dinheiro que deixaram ao azeiteiro. Tudo baldado. Faltou o essencial e o mais fácil: os pavios acesos.

Inigualável pedagogo o nosso Mestre!

Colocados no miradouro da existência, perante a imensa paisagem de opções, sonhos, projectos .- segundo o axioma goethiano “ânsias de subir, cobiças de transpor” – fixemos o nosso olhar, todo o capital do nosso investimento, no preciso quadro do nosso estatuto, aquele que pertence à realização possível da nossa condição, limitada, é certo, mas aberta ao meio circundante, à comunidade que espera o contributo do nosso talento. Aí chegados, podemos descansar a agitação febril do mundo que nos cerca, como a suave almofada ao fim de um dia de trabalho, como o merecido repouso dos heróis.

O heroísmo não se mede aos palmos nem a preciosidade do monumento se avalia pelo tamanho das formas. E porque a breve novela das dez raparigas da boda nupcial tem a ver com a finitude dos nossos dias, repudiemos os temores vãos, os tribunais além-túmulo, os fantasmas de um Além nunca esclarecido com que os charlatães dos púlpitos e os ‘halloweens’ das consciências  amedrontam os viajantes da barca de Caronte. Cumpramos o nosso lugar. Age quod agis – faz bem o que fazes – diz a antiguidade dos sábios.

Sejam os feitos do nosso quotidiano os archotes luminosos a arder na noite escura, enquanto não chega a madrugada. Na pedagogia do Nazareno reflecte-se a intuição de Pessoa:  

Para ser grande, sê inteiro: nada

        Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

        No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

        Brilha, porque alta vive.

     

Em todo o tempo – de pandemia ou de euforia, de juventude ou de velhice, de encanto ou desencanto – eis a receita segura, empoderada, para a saúde dos pulmões e para a liberdade do espírito.

 

07.Nov.20

Martins Júnior

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

“SURFAR” A ONDA GIGANTE

                                                                       


Tornou-se o planeta uma onda total, parece que reservada aos que tiveram o privilegio de habitar a praia do século XXI.

Somos nós. Cada um de nós.

Quem habita a praia não pode fugir à vertigem magnética das marés, sob pena de auto-traição e consequente destruição. Forçoso – galvanizante e libertador! - é rasgar a onda, amarrá-la aos braços, subir com ela e mais alto que ela, até cantar vitória  precisamente no trono da mítica potência que nos queria derrubar.

Neste palco-promontório, de que somos  parte provisória, mas única e intransmissível, olhemos o anfiteatro oceânico da praia-rainha da Nazaré. Fixemos as vagas.

Uma delas é a nossa: mais bravia ou oscilante, mais matreira ou mais amante, mais pandémica ou mais oculta, colada ao peito, aquela que ninguém vê – enfrentemo-la sem trégua e, qual McNamara gigante, façamos da vaga, seja a primeira, segunda ou múltipla, e façamos dela o cavalo-alazão, puro sangue, que nos transportará ao olimpo dos dias futuros.

Surfar é preciso.

Para depois navegar no mar alto!

 

05.Nov.20

Martins Júnior

terça-feira, 3 de novembro de 2020

CEMITÉRIO DESCONFINADO

   


Vi-os entrar

Braçados de flores nas mãos

Lágrimas no rosto enxugadas

E breves

 

Só lhes senti o peso das passadas

Caídas nos meus ombros

Quando o silêncio falou

 

Eram preces, vagidos, soluços

Promessas não nascidas

Juras interrompidas

E tantas tantas que ficaram por dizer

 

E eram palmas éclogas vilancetes madrigais

Adágios e Allegros triunfais

Que a saudade tudo cria e nutre no seu seio

 

Por um instante

Descobri-me infinito Campo-Santo

Onde morrem sobrevivem ressuscitam

Homero e Camões Petrarca e Pessoa

Da Vinci Vieira e Pascal

 

Levou-me a lanterna de Diógenes

À campa rasa dos heróis

Corpos de argila braços salgados do mar

Levou-me à cerca-violeta das mulheres

Trigueiras Divas do Povo

E às algemas ainda não quebradas dos escravos

 

Não acompanho a romagem-espectáculo

Do dia dos finados

Porque em meu cérebro correm

Os rios subterrâneos de todos os cemitérios

Vencidos e vincendos

Não há lousa maior nem mausoléu

Como este imenso e meu

Estreito panteão

Que aperto entre uma e outra mão

Gótico verde na interior alameda dos ciprestes

 

No cemitério desconfinado que eu sou

Só me falta encontrar

Os sete palmos de terra

Onde toda a noite morro

Para todo o dia ressuscitar

 

02/03Nov.20

Martins Júnior