domingo, 13 de dezembro de 2020

LÍDER – PRECISA-SE !

                                                                     


Em tempo de crise, seja ela qual for, o que mais falta faz é a emergência de alguém que dê o peito às balas, que dispa todo o verniz e toda a pompa, que se atire à fera invasora e abra caminho às soluções libertadoras. Em suma, um Líder.

Ora, na hora em que vivemos, em tudo semelhante à de outras eras distantes, é-nos proposto um exemplar de liderança, protótipo de quem tenha a coragem de acender um facho luminoso, em vez de limitar-se a amaldiçoar as trevas. Precisamente neste fim-de-semana, o Livro (ao qual presto o meu culto hebdomadário) traz-nos a estatura desse a quem chamam “O Precursor”, João, de seu nome, apelidado de O “Baptista”,

É um outro João, o mais jovem militante de entre os Doze, é ele que toma a iniciativa de narrador para nos informar e caracterizar o perfil do líder e pioneiro daquele Mundo Novo que o Nazareno tentaria, mais tarde, implantar lá para os lados do Oriente. Amas, a um Natal segue-se outro Natal, a muitos presépios sucedem-se miríades de estrelinhas coloridas de mil presépios, a uma ‘festa’ alinham-se, perdem-se e outra vez reacendem-se outras ‘festas’. No entanto, quem se lembra da figura imponente, estóica e inquebrável  do primeiro a desbravar a massa bruta, informe, da ignorância reinante e a depressão pandémica do judaísmo palestiniano?... Subalternizada, minimizada e esquecida ou manipulada tem sido sempre a grandeza do “Baptista”.

No elenco dos seus predicados, sobressai o nobre estandarte da Justiça, brilha em contraste meridiano a Humildade e, na ponta da sua lança, agiganta-se o esplendor da Verdade. No seu programa constitucional e no seu plano de acção concreta, basta o tríptico fundamental de toda a sua vida: Justiça, Humildade, Verdade. Foi com estas armas que afrontou  o poder dos soberanos intocáveis de uma sociedade corrupta, que os alimentava, apresentando Aquele que, sendo o maior, vivia no meio do povo, sem que o próprio povo O conhecesse”. (Jo,11-28). E foi, pelos mesmos ideais, que deu a vida  nos patíbulos de Herodes. É a sina escrita no fundo dos abismos e que Reinaldo Ferreira sintetizou nestes termos: “O Herói serve-se morto”.

Figura cimeira da liderança entre os povos, João, “O Baptista”  abre o álbum exemplar e o caminho exacto para todos aqueles que, desde o bairro até ao trono presidencial, propuseram-se (ou foram obrigados) a tomar decisões em prol dos povos, seus constituintes. Nas circunstâncias actuais, quão embaraçoso e, até, suicidário significa o exercício de liderar! Impossível “agradar a gregos e troianos”. Quantos dos  governantes, actualmente (!) esperariam um passeio alegre e agora confrontam-se com um tsunami de convulsões sociais!... Quantos não desejariam voltar atrás?!... Talvez nunca imaginaram que no frontispício do  majestoso palácio por onde garbosamente entraram estava gravada a sentença que o épico italiano, Dante Alighieri, inscreveu nos portões do inferno da “Divina Comédia” :  Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate - “Deixai fora toda a esperança, ó vós que entrais,”  deixai todo o orgulho, toda a arrogância!

No fragor e na inconsistência da hora que passa, merecem os líderes a nossa atenção e o nosso apoio, desde que sigam os referenciais que João, “O Baptista”, deixou aos vindouros responsáveis da grei:

1)    Que atirem fora (direi, que vomitem, de vez) a fumaça balofa da vaidade e do ‘eu cá não tenho medo de nada’ e com  Humildade punham os pés no chão frio onde vive o povo.

2)    Que sejam honestos e clarividentes na identificação dos problemas, .na pesquisa de soluções, e que a Verdade seja o foco mais visível na informação e na acção.

3)    Que tenham  sensibilidade  e consciência distributiva na concessão dos apoios disponíveis, que não deixem para trás os mais fracos, os paralíticos sociais e que pela Justiça promovam a fraternidade entre os seus concidadãos.

     

Faz bem – até na pandemia – revisitar o “Precursor” durante este Natal!

 

13.Dez.20

Martins Júnior

 

 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

NOS 74 ANOS DA UNICEF: A GLÓRIA E O DRAMA DE SER CRIANÇA

                                                                       


“… Mas as crianças, Senhor,

Por que lhes dais tanta dor,

Por que padecem assim?...”

                                                                       Augusto Gil

 

“Diante de uma criança, sinto-me cheio de ternura por aquilo que ela é

E cheio de respeito por aquilo que ela poderá vir a ser”.

                                                                     Louis Pasteur                                                                     

 

“Não há nada mais terrível que o olhar de uma criança”.

                                                                   Antero de Quental

 

“O Homem nasce bom.

A sociedade é que o corrompe”.

                                                                Jean Jacques Rousseau

 

“Bem-aventurado aquele que pegar nas crianças deles e as esfacelar contra a rocha”

                                                               Santo Rei David, Salmo 136

 

“Maldito o dia em que minha mãe me deu à luz.  E maldito o homem que levou a notícia a meu pai e o encheu de felicidade, dizendo: Nasceu-te um menino!”.

                                                                                 Profeta Jeremias, 15, 14-18

    

                                                         


Foi em 11 de Dezembro de 1946 que nasceu a UNICEF.

No chão agridoce das 74 velas, estendo seis pensamentos produzidos ao longo dos séculos. Agridoces são também as palavras. E contraditórias. Tais como as sociedades e os comportamentos que estas têm mantido com as crianças. Até nos nossos dias.

Os relatos que nos chegam de perto e de longe, os atentados contra as crianças fazem-me ter vergonha de habitar este planeta. E se alguém  me viesse propor para voltar a ser criança, hoje, seria imediata a minha resposta: “Não, obrigado”.

Longa vida à UNICEF! Será, sem sombra de dúvida, o maior monumento de toda a história: construir a Criança, na sua dimensão global.

          A quinze dias do “Grande Dia”, oxalá a Criança da Gruta seja aquela que a UNICEF ostenta nas mãos da Humanidade!

 

         11.Dez.20

         Martins Júnior                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

QUANTOS ROSTOS TEM O NATAL?

                                                                  


Que rosto tem o Natal?

E que corpo tem a Alegria?

Estavam em franca euforia de um jardim de infância regressado, de há 70, 80 e mais anos. Os baloiços eram as mesas, suficientemente distantes umas das outras, com muitos lápis coloridos sobre folhas de papel onde aquelas mãos de dedos finos do trabalho árduo e grossos de rugas da idade desenhavam silhuetas de árvores, pássaros, telhados e jardins. Após o lanche, os tampos das mesmas  mesas  zuniam com o arremesso decidido das cartas vencedoras, à bisca ou ao cassino.

Os passos de dança, de pés arrastados para os estranhos, mas leves e saltitantes para eles e elas em plena sala, faziam retomar os ritmos esquecidos da recuada juventude. O dia era uma festa, já era a “Festa” anunciada. Para a vintena de anciãos ali felizes com o ambiente que a solidão do lar não lhes oferecia, perder um dia no Centro de Convívio era o mesmo que encurtar um ano na vida.

Por isso, quando a directora entrou e falou, uma nuvem pesada abateu-se na sala e esmagou toda a alegria reinante. Transformou-se em choro e lágrimas o que, momentos antes, era  descontração e saúde. Que terá dito a jovem directora?

“Queridos utentes deste Centro, muito nos custa dizer-vos, mas dou-vos a saber que vamos encerrar as nossas actividades daqui até ao fim do ano. Primeiro, porque estamos já perto do Natal, que é a Festa da Família. E depois, para evitar qualquer hipótese de risco ou contágio do covid. Nenhum de nós o tem, é verdade,  mas é melhor prevenir que remediar. E é isso que as nossas autoridades recomendam”.

Razão tinham para tamanha tristeza:

“Mais se quer ficar aqui. A minha família está toda pra fora. Não tenho ninguém em casa. Aqui é que é o meu Natal, todos os dias”.

Quem ouviu os lamentos, fora da sala, sentiu apertar-se-lhe o coração. A porta-voz e a própria psicóloga não se aguentaram de comoção e prometeram visitar os seus “pupilos”  durante a quadra natalícia. E lá se encaminharam, metidos em seus abafos, cada qual para casa, meneando a cabeça para a sala, como quem olha, já saudoso, para a pátria que deixou para trás.

A solidão, ai o amargo espinho da solidão!

As próprias paredes da casa, por mais abastada e farta, não saciam a fome de alegria de quem se vê só!... E não há lareira que aqueça o frio cortante da saudade.

Perdoem-me os meus amigos, companheiros nas jornadas bloguistas, mas achei reconfortante e útil partilhar convosco a comoção que me tomou por inteiro quando me contaram o ocorrido. E o quanto é necessário e consolador estar com aqueles que não têm ninguém com quem estar. Neste e noutros Natais. E com eles aprender que o “Natal é quando o Homem quiser”.

Procuro todos os dias a resposta à pergunta que me persegue: “Quantos rostos tem o Natal e que corpo tem a Alegria”?... Encontro-a escrita em cada pedra do caminho, em cada escarpa da falésia, em cada ausência carente. Acho-a também, por mais estranho que pareça, misticamente plasmada naquele cânon de Maomé: “Levar alegria nem que seja a um só coração vale mais que construir mil altares”. E eu direi: Que  presépios mil!

 

09.Dez.20

Martins Júnior


 

 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

VACINADA CONTRA TODOS OS VÍRUS!

                                                                              


Correndo o risco de perder, apostaria em que a esmagadora proporção dos cérebros viventes passa ao largo daquela estância ferial, designada por 8 de Dezembro. Dia de folga, associado  a efemérides voláteis consoante os lugares, os acontecimentos aí ocorridos, personagens particulares ou colectividades múltiplas, o que fica por saber e esclarecer são as raízes que lhe deram corpo.

Desde 1646, ano em que D.João IV depôs a coroa real e colocou-a na imagem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, em templo mandado construir pelo Condestável do Reino, Nuno Álvares Pereira após a vitória de Aljubarrota no século XIV, desde então o vitorioso monarca da Restauração proclamou-a Rainha de Portugal: é a reminiscência tetrassecular que sustenta o 8 de Dezembro, a qual foi repercutida noutras regiões e concelhos, entre os quais a cidade de Machico, de que é Padroeira.

Foi enorme a cruzada expansionista do culto à Imaculada. Penetrou com a mesma simpatia tanto na ruralidade das ermidas como nos palácios da nobreza, inclusive na cátedra dos intelectuais, chegando até à Universidade de Coimbra, onde os estudantes, ao ascenderem aos superiores graus académicos, incluíam “o juramento solene na Conceição Imaculada da Mãe de Deus”, uma práxis abolida após a proclamação do dogma, em 1854, pelo Papa Pio IX.  

 Mas em que consiste, afinal, o dogma da Imaculada Conceição?

E que ilações para os tempos que correm?

 Invertendo os termos da nomenclatura oficial – Nossa Senhora da Conceição – encontraremos a resposta: Conceição (ou concepção imaculada) de Nossa Senhora, querendo com este título significar que Maria de Nazaré, a futura Mãe do Nazareno, foi prendada, desde a nascença, por um privilégio especialíssimo,  jamais outorgado a nenhum outro mortal: o de nascer sem a ‘mácula’ (ou pecado original), o que, por sua vez, a tornou geneticamente livre de qualquer má tendência e demais deficiências hereditárias a que todos os seres humanos estão condenados “pelo pecado de Adão”. Trata-se de uma interpretação – esta do pecado original – congeminada por Agostinho de Hipona, no século IV, apoiada em premissas puramente indiciárias, cujo desenvolvimento e exegese não cabem neste breve apontamento.

O que importa decifrar é o alcance semântico da designação “Imaculada Conceição” (Concepção) desse pequeno-Grande Ser”, desde o primeiro instante em que Ana e Joaquim consumaram o acto de gerar e trazer  ao mundo Aquela a quem puseram o nome de Miriam ou Maria. Nos nossos dias, em que tanto se investiga e deseja a milagrosa vacina, poderemos compreender o tal privilégio: Maria nasceu já vacinada, desde a concepção no seio de Ana, contra toda a espécie de imperfeição, deficiência ou pecado. No limite, diremos que Maria foi predestinada para a perfeição absoluta, de tal forma, que mesmo que quisesse errar ou pecar, nunca poderia fazê-lo, por estar predeterminada para a suma perfeição.

Embora os monarcas portugueses tivessem usado a Senhora para fins bélicos e patrioteiros – uma tara incurável de todo o poder político – a realidade é outra, a concepção sem-mácula da jovem de Nazaré. Motivo de festa, coros angélicos, repiques argênteos de sinos nas catedrais, apoteose total. Mas, na base e no vértice, não são para Ela os clangorosos panegíricos, porque tratou-se de um privilégio puramente gratuito da parte do Supremo Ordenador do Universo. O antídoto anti-mal foi obra e graça de Outrem e não d’Ela.

Por isso, neste dia, em contraste e contra-luz, presto homenagem a todos quantos – homens e mulheres, novos e velhos – fazem da vida uma luta porfiada e sempre inacabada para corrigir erros, emendar caminhos, escalar montanhas e abismos até alcançar a perfeição possível a um ser humano. Admiro e ajoelho-me diante de quem nasceu nas trevas e carregado de traumas genéticos, mas depois consegue revestir-se de luz, de generosidade, de altruísmo heróico. Aplaudo os atletas paralímpicos e os vencedores anónimos que ultrapassaram as muralhas da sua deficiência e subiram ao vitorioso pódio da Vida. Saúdo Demóstenes, tartamudo de nascença, que macerando a língua com os calhaus da praia, tornou-se o Príncipe dos oradores atenienses. Saúde Madalena, a pecadora (todas as Madalenas) que venceu as pecaminosas esquinas da cidade de Jerusalém e tornou-se a apaixonada bandeirante das causas do Nazareno.

E, mais que pela concepção imaculada, saúdo Maria pela coragem em assumir a maternidade de um Homem contra o qual (e contra Ela) se atiraram como feras os poderosos deste mundo. Admiro-a pela sensibilidade de mulher atenta, aquando das bodas de Caná da Galileia. Adoro-a, pela fortaleza, “mais do que permitia a força humana”, acompanhando o Filho até à última gota de sangue, Ela, a inamovível Estátua da Dor no alto do Calvário!

Se grande é o Seu privilégio por nascer gratuitamente virada para o Sol Eterno, maior é o galardão dos que, nascidos nos antros da escuridão, guindaram-se ‘a passos de gigante e a golpes de montante’ até ao relativo Graal da Felicidade, a sua e a dos outros.

 

07.Dez.20

Martins Júnior

     

                       

sábado, 5 de dezembro de 2020

JARDIM SUSPENSO OU CEMITÉRIO DE ILUSÕES?... QUEM OS SEGURA?

                                                                 


Vê-la por entre a névoa nocturna e engrinaldada de todas as lâmpadas e de todas as cores baloiçando as ondas, a Ilha transporta-nos aos míticos jardins suspensos da Babilonia, magia da natureza e regalo dos deuses.   Mas, no mesmo olhar, logo que nela se põe o pé, sobem-nos as dúvidas, os medos, outras vagas agarram-se-nos  aos nervos e às mentes, ao coração e ao ouvido quando escutamos notícias, comunicados oficiais, lamentos de empresários e trabalhadores. A chave-de-ouro dos 365 dias do ano – o Natal -  cai ao chão e, em vez de abrir, fecha-nos o portão da felicidade. Tudo, por dentro, contrasta com tudo o que por fora salta aos nossos olhos de adultos regressados à infância. Tudo se nos oferece como desalentada ironia ao nosso sofrimento. E só depois de queimadas as ilusões do despropositado vendaval de fogo arraialesco é que ficará desenhado nas cinzas do chão o cemitério de tantas expectativas goradas.

         Seria oportuno investigar como é que os nossos antepassados reagiram às suas epi/pandemias. Recuperando velhas superstições pagãs, os crentes recorriam à fé, às rogações processionais, aos santos protectores. No Funchal, a São Tiago Menor; em Machico, ao Senhor São Roque, invocado em solene cortejo público para livrar da peste o município e, com base na tradição cultual, nomeado em 1728 Padroeiro de Machico, por votação da Câmara Municipal, conforme consta dos Anais do Município.

         Em tempos bíblicos, conta-nos o Livro, precisamente neste fim-de-semana, que foi Isaías Profeta quem segurou o povo de Israel dizimado após sucessivas derrotas em confronto com os invasores fronteiriços: “Levanta-te e segura o Meu Povo. Sobe à montanha mais alta, ó arauto de Jerusalém, e grita: Acabou a tua escravidão”! (Cap.40, 1 sgs).“. Mais tarde, já chegada a hora de aguardar o Líder Salvador do Reino Judaico, surgiu o Precursor João, homem austero, exigente consigo e com os outros, protótipo de Pedagogo e Condutor de multidões. O caminho, o código de conduta que impunha ao povo, era ele quem primeiro impunha a si próprio, como ler-se em Marcos, capítulo I.

         Hoje, as mentalidades já esclarecidas não procuram no hagiológio eclesiástico soluções sólidas para os grandes problemas que afligem a humanidade. Caminhamos nas sombras, tateando as veredas e sem certezas sobre o fim do túnel. Onde estão os líderes, os luzeiros, os salvadores da grei?

         Impressionou-me ouvir a Ministra da Saúde: “Não há noites mais duras, não há noites mais escuras que as do governo em busca de alternativas”!... Imagino a luta titânica, as contraditórias hipóteses que se entrecruzam, dias e noites a fio, sobre a mesa e sobre a vida, esperando como prémio as pedras do caminho nas mãos dos que não decidem e só contrariam. Meto-me na armadura branca de todos aqueles e aquelas, valorosos soldados da saúde e da paz, tentando esgrimir, derrotar e destronar o invisível ‘corona’ da morte.

         E, ao lado e acima de todos, curvo-me diante de cada homem e de cada mulher, seja qual a sua idade, o seu múnus ou o seu lugar, que se conduzem responsavelmente por entre os meandros deste jardim suspenso, promovendo com o seu esforço de confinamento, solidão e acção esta luta concentracionária e auto-contorcionária, para evitar que a Ilha se transforme num cemitério de ilusões, no crematório das nossas legítimas expectativas.

         Viver o Tempo – este o nosso tempo – aquele que nos coube viver.

         Vivamos hoje para Renascer amanhã: é isto o verdadeiro Natal!

 

05.Dez.20

         Martins Júnior

 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

HABITAR A INTERMINÁVEL PAISAGEM LOURENCIANA!

                                                          


Alcaide do tempo, ensinaram-me que “quando morre um idoso, fecha-se uma biblioteca”. Mas à porta do templo da sabedoria, também  aprendi que quando morre um homem, da estirpe de Eduardo Lourenço, seja qual a sua idade, abrem-se milhares de bibliotecas. O crepúsculo quase secular de uma vida prenuncia o  reamanhecer de um novo dia para quem fica.

         Por isso que, em vez de curvar-me lacrimoso sobre a tumba, perfilo-me reconhecido e galvanizado até ao mais íntimo quando vejo um humano mortal subir ao alto, descendo embora em cordas, e evolar-se no misterioso Olimpo inominado que povoa o Universo. Mais leve e límpida fica a minha interioridade se esse humano mortal deixa no seu rasto as marcas dos longos anos vividos, podendo inscrever-se na sua lousa tumular o mais belo de todos os poemas: MISSÃO CUMPRIDA! É então que apetece mandar calar os acordes plangentes da marcha fúnebre e fazer soar bem alto os clarins de uma Ode Triunfal.

         É assim que vejo o Adeus a Eduardo Lourenço. Sem mais panegíricos, sem mais lamentos.  Apenas com esta insanável incógnita: Por que não pode o cérebro do Sábio deixar, em concreto testamento sucessório, a ciência acumulada, a sensibilidade adquirida, a riqueza conquistada na centenar viagem de uma vida?!... Oh quem pudera beneficiar de tão estranha e ambiciosa clonagem!!!

         “Plantar uma árvore, escrever um livro, fazer um filho” – a grande pirâmide triangular que guarda o precioso testamento daqueles “que da lei da morte se vão libertando”! Preciso é ter apetência e coragem para entrar no mausoléu da Sabedoria, abraçar a herança e partilhá-la. Com alguns, com muitos, se possível com todos. De Antero de Quental dizia o seu amigo Eça que “ele tinha alma para sete famílias”. O mesmo dir-se-á de Eduardo Lourenço e de todos os semeadores de luz e de esperança.

         Fazer dos seus livros a alameda repousante das árvores da vida, lê-lo e amá-lo como se ama um filho e se o dá a conhecer ao mundo: eis o emotivo e único cortejo que Eduardo Lourenço espera de nós. Em roda livre, em movimento perpétuo, em abraço reprodutivo. Porque a luta árdua de um Homem-Só produz heróis, mas não cria civilização.

         É neste seu, muito seu “Labirinto da Saudade” que vamos encontrá-lo de novo, todos os dias, como a luz-ao-fundo do grande túnel da Vida!

 

         03.Dez.20

         Martins Júnior  

        

        

              

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

UM BERÇO NOVO PARA 2020 !

                                                                                 


Aguardei o “Dia das Livrarias e dos Livreiros” para, sem restrições de distância ou máscaras proibitivas, reunir a grande constelação alada que atravessa o invisível  do tempo e as muralhas do espaço, aquela mais directa – quase a única – capaz de bater-se contra o vírus que escorre do “corona”, o  demolidor vírus da solidão. Basta trazer as mãos limpas e o olhar sedento para beber o néctar escondido nas asas de cada página que gravita à nossa volta.

É de livros, autores, livreiros, compositores gráficos – e na mesma linha, de leitores -   que hoje desejo preencher este fim de tarde., relevando em primeiro plano a profusão de títulos lançados ultimamente aqui na ilha e no território continental. Recuso-me a macular e a misturar com o interesseiro ‘mercado de natal’ as produções literárias saídas dos inspirados talentos que as criaram. Ao invés, elas trazem-nos o melhor antídoto sazonal contra a solidão: os autores, ao apresentarem as suas obras, estão a dizer-nos que, mesmo presos nas grades do confinamento, nunca estiveram sós. Eles bem podem repetir o vitorioso desabafo que Gilbert Cesbron põe na boca de um dos seus personagens: “A minha prisão é um reino”.

O livro libertou-os. E é dessa libertação que partilhamos nós, os que temos fome e sede dos seus poemas, das suas incursões históricas, das suas ilustrações artísticas, também do seu humor saudável. Todos eles abriram os braços e entregaram-nos, benfazejos, sementes de esperança.

Porque é de lampejos de esperança e torrentes de dinamismo que precisamos neste finar de 2020, tão auspicioso e tão deprimido.

É por isso que, de entre todos os títulos recentemente publicados, destaco os 181 poemas do Padre José Luís Rodrigues, atados num sugestivo feixe, com toda a propriedade baptizados de “PEDAÇOS DE ESPERANÇA”. Sublinho ‘atados’ porque no dentro de todos os poemas, abertos ou divididos em quatro braços, há um mesmo rio que os une para, na foz, desaguar em delta identitário: “O Meu Retrato”.

Devo confessar o meu olhar perante a poesia: a Poesia não se discute, não se mede nem se pesa, muito menos é objecto de anatomia laboratorial. A poesia, na sua fonte originária e no seu términus, não se discute, sente-se. Porque é, acima de tudo, coração, sensibilidade, sétimo céu de cada homem, de cada mulher. Sempre me impressionou António Correia de Oliveira quando escreveu: “Fez-se um soneto enquanto o coração bateu catorze vezes!”. Todo o poema é um universo de sabores e saberes. Até o coração de uma criança tem o tamanho do mundo! 

Por isso, da Poesia - gosta-se ou não se gosta.

E eu gosto dos “Pedaços – chamaria ‘tsunamis’ – de Esperança”  e com eles me identifico. Porque o Autor em tudo vê nascer e crescer o “verde viçoso” do desejo, feito espiga promissora do pão futuro. José Luís Rodrigues cumpre em plenitude o nobre guião do vidente Sebastião da Gama: ”O Poeta em tudo se demora”, não enrolado sobre si mesmo em onírico narcisismo, mas aberto ao mundo, qual trombeta altissonante no alto das montanhas, convocando-nos à grande cruzada: “Esta é a hora de um novo mundo”.  E é por isso que “0 meu desejo acolhe cada ente que se contorce ferido … e se vejo faltar o chão ao pobre, não me calo por nada deste mundo”.

Não cabe no estreito espaço desta página aprofundar o pensamento do Autor. Já o fizeram, com mestria, os Professores Luisa Polinelli e Nelson Veríssimo, aquando da apresentação pública. No entanto, não posso silenciar a pujança, umas vezes subtil, outras incontida e aos borbotões, que se desprende de cada poema, assinalando a trilogia retomada, como refrão vibrante, ao longo de todo o livro: “Fogo…Luz…Amor” – estes os “Pedaços” com que JLR constrói o monumento da “Esperança”.

Faz bem ao corpo e ao espírito alimentarmo-nos deste pomar de Poesia. E mantenho a ‘receita’ que o Autor sugeriu na sua página: “É melhor ler que ingerir ansiolíticos”.

O Padre José Luís Rodrigues honra o clero madeirense, essa plêiade de pensadores e escritores que conheci nos recuados tempos da minha juventude e que hoje tanto escasseiam, a olhos vistos. Bem haja, ilustre poeta e pedagogo,  pelo  precioso antídoto em tempo de pandemia. E mais: na hora de comemorar a Restauração da Soberania Portuguesa em 1640, saborear “Pedaços de Esperança” é um dos caminhos para conquistar a autêntica Soberania do espírito humano!

 

01.Dez.20

Martins Júnior