domingo, 15 de agosto de 2021

QUANTIDADE versus QUALIDADE – TANTAS SENHORAS E TÃO POUCA “SENHORA”

                                                                         


Fazendo caminho, ao fim de semana, através das páginas do LIVRO, impossível passar adiante sem fixar o olhar no alto do Monte. Porque hoje é Dia da Senhora do Monte – uma designação autóctone e, por isso, só aplicável na Ilha da Madeira. Em todo o mundo católico, o 15 de Agosto tem uma outra direcção oficial: Homenagear a Assunção de Maria Senhora.

         No entanto, uma diversa antonomásia, de índole popular, classifica   esta mesma data como o “Dia das Sete Senhoras”, alusão ao número de festas dedicadas à mesma Personagem, mas sob outros tantos títulos, sendo um deles a “Senhora da Graça” no Porto Santo.

         São às centenas as vestes e os apelidos qualificativos que a imaginação dos crentes, secundada pelo magistério eclesiástico, atribui à mesma Senhora. Recorrendo a um axioma comum, dir-se-á que os títulos, a narrativa, alegorias e similares distribuídos à Senhora, Mãe de Jesus Nazareno, multiplicam-se como cogumelos por tudo quanto é canto. Proponho a leitura de um bem elucidativo opúsculo, da autoria do franciscano António Joaquim Dias, edição da ‘Paulus’, denominado ‘Santuários da Mãe de Deus’ .

Aí vem uma síntese dos incontáveis títulos dados à mesma Senhora. E uma das conclusões mais impressivas desse estudo é o facto sintomático de que cada país quer ter uma “Nossa Senhora” exclusiva, só sua, quase produto nacional, susceptível de exportação para o estrangeiro. Assim, a França tem a Senhora de Lourdes, o México a de Guadalupe, o Brasil a Senhora da Aparecida (de cor negra), a Polónia tem a Senhora de Czestochwa, Espanha a Senhora do Pilar, Itália a Senhora do Loreto, Venezuela a Senhora do Coromoto, Portugal a Senhora de Fátima e, para não alongar mais, a Madeira tem a Senhora do Monte, a cuja festa nunca faltam as engomadas e emproadas autoridades regionais, porque Ela também é a Padroeira da Ilha. É curioso motar que, além das “Senhoras” patrióticas nacionais, acontece que o povo crente cria outras, de carácter local, como a Senhora do Almortão, a Senhora do Fastio no alto Minho e, aqui no Funchal, a famosa “Nossa Senhora do Calhau”, a primeira capela construída na cidade.

Mas não fica por aqui a criatividade pietista da tradição mriana. O estudo que venho  citando traz um sintético cardápio, ao gosto popular, para todas as pessoas e circunstâncias da vida, tais como: A Senhora do Sim, a Senhora do Céu Estrelado, a Senhora do Céu Nublado, a Senhora das Quatro Estações, a Senhora dos Pobres, a Senhora dos Ricos, a Senhora dos Desempregados, a Senhora dos Quinze Anos, a Senhora das Lides Culinárias, a Senhora dos Filhos das Ervas, a Senhora das Brotas,  a Senhora do Engaranho, a Senhora da Agonia.  E fico-me por aqui porque quem me lê saberá de muitos outros nomes. Conta-se que, há 100 anos, o povo madeirense abalou a pé para a freguesia de Santana, porque correu a fama que Nossa Senhora teria aparecido a uns pastorinhos santanenses. Mas não pegou. Ao contrário, foi um logro pegado. Senão, teríamos hoje mais uma, a Senhora de Santana.

Reflectindo sobriamente: todos estes sobrenomes, embora folclóricos alguns deles, têm um fundo de devoção que não temos o direito de agredir gratuitamente. O problema é que os crentes ‘perdem-se’ e  comovem-se com as histórias, algumas vezes lendas e visões psíquicas, em vez de procurarem a verdadeira face de Maria, a autêntica, a sua personalidade íntegra e generosa, aquela que vem  descrita no texto do LIVRO. E esse é o perigo: desligam da Verdade e preferem correr atrás de ‘novelas’ piedosas. Já Paulo Apóstolo escreveu ao seu colaborador Timóteo, nestes termos: “Meu caro, mantém-te sempre vigilante, porque virá o tempo em que os homens não suportarão a doutrina sã e certa,  fecharão os ouvidos à Verdade para os abrirem às fábulas” .

Já vai longa esta descrição, em tempo da silly season. E falta o principal, ou seja, a que conclusão pretendo chegar, admitindo e respeitando (mesmo sem concordar) as opiniões contrárias.

É o que tenciono fazer no próximo dia ímpar, o do Senso&Consenso.

 

15.Ago.21

Martins Júnior

             

        

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

O SOL DE SÁBADO QUE QUEIMA O FEITIÇO DE TODAS AS SEXTAS DE AGOSTO!

                                                                              


“Ai, logo hoje, que é sexta-feira”- remexia-se Madalena  (e remexia os seus traumas) recostada no cadeirão da sala que dava para o Tejo agitado, quando avistava o bergantim que trazia o ‘seu’ Manuel de Sousa Coutinho.

Mas não foi só no “Frei Luís de Sousa” que Almeida Garrett desenterrou os fantasmas medievais da cultura popular. Deambulando pelas “Viagens na Minha Terra”, estacamos nos transes de pavor irreprimido da avó de Joaninha, sempre que Frei Dinis visitava aquela velha casa: “Ai, que se aproxima esse dia fatal e  aziago, a sexta-feira!”…

Não sei se os meus acompanhantes blogófilos (deixem passar o neologismo) ter-se-ão  lembrado dos quase-genéticos fantasmas, como o de “sexta-feira, dia 13”, que perseguem e desestabilizam o nosso normal estado psíquico. A verdade, porém, é que eles andam por aí à solta, como exemplares reincarnados, à espera das frágeis oportunidades em que se afundam as almas deprimidas. É desse ‘limbo’ escorregadio e, por vezes, fatalmente interminável, que se enchem consultórios de psicanalistas, psiquiatras e, para mal dos consulentes, os cubículos de curandeiros e charlatães bruxos das feiras.

Compulsando os insondáveis trilhos da literatura antropológica, descobrimos logo de entrada que o ser humano tem uma atração irresistível pelo mito,  seja fábula, parábola, voo esotérico, algo que, ao mesmo tempo que atormenta, também adormenta a vertigem do abismo desconhecido. Todos os povos e civilizações têm os seus, desde os mais recuados no tempo até aos mais, aparentemente, desinibidos e saudáveis da actualidade. Desconcertou-me, já lá vai meio século, a contradição mais flagrante entre dois mundos. Foi em Brasília: numa cidade ultra-moderna, plasmada em laboratório e transposta para o terreno, jardins paradisíacos conversando com a beleza harmónica das moradias, basílica e palácios saídos da mão mágica de Óscar Niemeyer – e logo    abaixo, às portas de um cemitério, todo um estendal de pescoços de galo preto, velas e castiçais, cruzes e cruzetas, tralha nauseabunda, um monumental aborto conta a ciência, a ecologia, a arte  da mais inspirada arquitectura que definem a capital do Brasil.

   Vem de muito longe a herança de arquétipos ancestrais, incrustados na psicologia humana. O LIVRO, a Bíblia, está repleta destas alegorias construídas ao gosto do povo hebreu, ardilosas, algumas delas, autênticos poemas híbridos, amálgama bicéfala entre o divino e o humano, de que é paradigma perfeito a cosmogonia da Criação e a narrativa do fruto proibido. E muitas outras, inúmeras.

Fenómeno deveras sintomático, comum a todas as religiões, é a sacralização de práticas pagãs, assentes nos mitos e nas tradições orais, as quais foram  assimiladas e incorporadas nas liturgias das mesmas religiões, destacando –se as famosas Saturnalia do culto pagão que deram origem ao Natal cristão. E uma vez que, nas suas maiores extensões, o Ser Humano não sobrevive sem o recurso ao mítico e ao mistério, não será de estranhar que o aziago Dia 13 tenha sido absorvido pelo Dia 13 de Fátima, à semelhança do 1º de Maio, Dia do Trabalhador, foi transformado no catolicíssimo Dia de São José, Operário.

         O importante e necessário é que o Homem se liberte dos traumas gratuitos, acumulados por sucessivas gerações e tome nas mãos o temão dos navegantes corajosos em demanda de porto seguro. Sem amarras imaginárias!

         Termino esta breve divagação, debruçado já sobre a varanda de sábado, evocando aquele jovem, amigo de infância que, estando marcado o dia do casamento para um dia de sábado, 14 de Agosto, tomou a firme decisão de afrontar os mitos e esconjurar todos os ridículos fantasmas, optando por antecipar a realização do casamento, precisamente, para o dia anterior: Sexta-feira, 13 de Agosto!   

        

         13.Ago.21

         Martins Júnior

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

OURO, PRATA E BRONZE DE PORTUGAL NA CHAMA OLÍMPICA UNIVERSAL

                                                                         


Na moleza da estação dormente deste ano de 2021 coube-nos a dádiva de um acontecimento ímpar, cuja materialidade objectiva – o desporto atlético nas suas múltiplas dimensões – remete-nos para um estádio supra-humano, estruturalmente universal no tempo e no espaço. Falta ainda fazer a merecida apologia do esforço épico da civilização nipónica na organização dos Jogos Olímpicos 2020/2021. Sublinho os qualificativos “épico” e “civilização nipónica”, precisamente expressos na abertura de um país que empenhou o melhor dos seus recursos numa iniciativa que, em virtude da ausência de público e das restrições da ‘covid’, não viu o habitual retorno financeiro no seu tecido económico.

         A festa multicolor de todos os povos e etnias ali representados faz das Olimpíadas o abraço planetário da Fraternidade Global, a proclamação universal dos Direitos Humanos, maior e mais eloquente que todos os discursos de todos os areópagos internacionais. Na mão e na alma de todos e cada um dos onze mil participantes que responderam à chamada – mesmo os que não conseguiram subir o pódio vitorioso – brilhava o facho incandescente da harmonia entre os povos. E isso, para além dos resultados obtidos, constitui a medalha maior da sua participação.

         Neste enquadramento interpretativo, sobreleva-se o nome de Portugal. Não pelo somatório dos galardões (outros países conseguiram muitos mais) mas pela tonalidade dos troféus, reveladores do espírito civilizador da identidade lusa, agregador de culturas e valores autónomos, venham de onde vierem e seja qual ou tal a sua proveniência étnica. Suponho que a nenhum português passou desapercebido (ou “impune”)  o fenómeno singular da miscigenação dos mesmos troféus, patente nos três títulos maiores, o de Pichardo ouro,  Mamona prata e Fonseca bronze, a que se juntou, entre outros, o de Pimenta bronze.

As suas raízes não são portuguesas nem sequer europeias. O quanto de riqueza sociológica, política e humanista tudo isto encerra! O quanto de investimento altamente retributivo resulta do acolhimento dado ao ‘problema’ migratório! No Japão, Portugal consolidou a epopeia camoniana de um Povo, ‘valente e imortal’,  que deu novos mundos ao Mundo e, em contrapartida, o Mundo deu novos mundos a Portugal!

         A todas as tentativas ‘rascas’ (é o termo certo) de acirrar hostilidades e azedumes rácicos com que o radicalismo populista de certos grupos tenta manchar o universalismo da nossa bandeira, opõe-se a tríplice coroa do louro vencedor por sobre a paisagem lusa, que tanto enobrece o seu Povo.

         Perdoem-me a emoção, mas isto toca-me. Sobretudo, depois de ter conhecido em terras Moçambicanas a cabana-catedral da arte de Malangatana Valente e o olhar-verbo poético de José Craveirinha.

         Assim como António Gedeão, após análise química,  descobriu que a lágrima da mulher negra era em tudo igual às lágrimas de todo o mundo (e que tão bem sabe ouvir essa canção  na voz do saudoso Adriano Correia de Oliveira) assim  também os troféus portugueses alcançados nos Jogos Olímpicos 20/21, analisados no cadinho  da Razão, revelam a amplitude da mais lídima portugalidade em todo o planeta!

 

         11.Ago.21

         Martins Júnior

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

FILHOS PANDÉMICOS: POBRES DE POBRES, MENDIGOS DE MENDIGOS

                                                                                  


Em época de  silly season  (passe o anglicismo para sublinhar o relaxe da estação) distendamos o arco de caça porque, já de muito longe vem o aviso, “o arco sempre tenso perde a elasticidade”. Deitados na areia ou sob a copa verde das figueiras, de olhar colado à terra ou perdido no vasto oceano, rebobinemos o filme destes dois anos em marcha e tentemos descobrir o nosso lugar, o papel que desempenhamos no guião desta forçada fita, em que somos protagonistaoercivos.

         Não será preciso recorrer às técnica 3D para toparmos a olho nu que, em todas as cenas e por mais extremas que sejam as distâncias, lá estamos nós – todos e cada um dos figurantes terráqueos – no indesejável estatuto de condenados à mendicidade, pública ou privada.

         A condição humana da contingência biológica põe-nos cinturados com a enorme pulseira de presos - mãos e, até, pés estendidos ao primeiro viandante que passa. Digam-no os milhões de milhões que pesam nos braços de médicos, enfermeiros, assistentes operacionais, condutores de  ambulâncias e, no limite, das agências funerárias que, deixando fora toda a esperança, não podem fechar os ouvidos a quem lhes pede viagem até à próxima e última estação. Digam-no todos quantos imploram, dentro ou fora de casa, um olhar perto, um abraço, uma carícia,  um beijo, mas a melhor esmola que lhes podemos dar é afastarem-se, condenados que estão ao suplício de Tântalo que, ao aproximar a boca sequiosa, via secar-se a água do lago onde estava mergulhado. Redobrado castigo sem crime!

         E o pão, o prato, o leite para as crianças, o vestuário, a renda da casa, a receita da farmácia?... Benditos, porque generosos e solidários, os cabazes familiares, os apoios vicinais, os polos comunitários. Pobres que ajudam pobres.

         E pobres que ajudam ricos!... Ironia dos tempos, a geração pandémica apeou das carruagens os que olhavam de revés o pobre povo andar descalço por caminhos poeirentos. Senhores Empresários, poliglotas Hoteleiros, emproados Banqueiros, Comércio, Indústria, Aviação, Transportes miúdos e graúdos – todos esperaram de mão estendida “à porta da Sé” estatal. Lembraram-se, então, que o cheque do Estado não era do Presidente ou do Primeiro: ficou na conta do contribuinte pobre, o operário, o pescador, o agricultor, o trabalhador indiferenciado?!...

         Palavras de outrora, de sempre: ‘É-se sempre o pobre de alguém’!

         E porque estamos espreguiçados  à sombra da palmeira de uma ilha imaginária,  (a nossa doméstica silly season) deixo a quem lê a tarefa-passatempo de continuar a descobrir outros mendigos auto-biográficos neste enredo em que nos ‘enredou’ a pandemia. Foi preciso um choque traumático na segunda década do século XXI para chegarmos a esta catarse , a um tempo deprimente mas libertadora e sumamente transfigurante: somos pobres uns dos outros!

E um outro rumo, uma ‘Nova Ordem Mundial’, aquele almejado Ethos Global de que nos falou o grande e humilde Hans Kung!   

 

         09.Ago.21

         Martins Júnior        

 

sábado, 7 de agosto de 2021

DISSONÂNCIAS DE UM CONCERTO INTEMPORAL

                                                                              


Elias, em desespero, pediu a morte… deitou-se no deserto, à sombra de um zimbro. Uma voz despertou-o: “Levanta-te e come, porque é longo o teu percurso”. Então, viu a seu lado um pão cozido nas brasas e uma bilha de água fresca. E andou  quarenta dias e quarenta noites pelo deserto até chegar ao monte Horeb.

                                                    (Do PRIMEIRO LIVRO DOS REIS, cap.19)           

 

Quantos desertos além do teu

além do meu

à míngua da ignota gota de água trazida pelo vento

 

E quantos rios glaciares sem freio

aquém do meu e do teu

gritando um grão de areia que os devore e aqueça

 

Ai, os estilhaços em brasa-lava tresloucada

com ânsias de um vazio mudo que os entenda

 

Ai, os  escombros de silêncios-solidões

à escuta de uma breve almofada palavra

palavra pão

palavra pedra

palavra água

palavra luz

palavra sombra

palavra ela e o seu contrário

conforme a fome a sede a noite o gelo  e a chama

que somos

 

Entre a nascente e a foz

estou eu, estás tu  estamos nós

na repetida opereta dos dias contraditórios

 

O7.Ago.21

Martins Júnior

 

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

CHOVE EM AGOSTO… HOMENAGEM PÓSTUMA A UM HOMEM DA LUZ E OBREIRO DA PAZ

                                                                   


 

    Serena, leve, quase imperceptível, cheirando à flor do crisântemo, esta chuvinha miúda bate à janela do quarto e da memória. Traz-nos o arco-íris de “gente que a gente conhece” e nunca se esquece. Alguns foram os que partiram para sempre, mas voltam na filigrana líquida desta chuva de Agosto.

      Hoje, peço licença ao cartório do além-túmulo para transladar nesta página a memória de um Homem que, em vida, brilhou pela sua ausência: ausência de palcos, alergia à espectacularidade, aversão aos fogos fátuos do folclore a que chamam fama e com a qual “o povo néscio se engana”. Porquê?... Porque no mais dentro de si mesmo, só havia carácter, persistência, trabalho, acção. E, tudo somado, dava um nome e um vértice: Paz e Solução!

         Esta minha homenagem comporta um misto de encantamento, por um lado e, por outro, de sombrio desencanto, que lhe aumenta o valor. Enfim, um claro-escuro, de que é feita a vida. Pretendo, apenas, relevar aqui o sinal mais, o traço luminoso da narrativa.

         Corria o ano de 2004. No adro da Ribeira Seca, seis vistosos projectores iluminavam o templo e todo o logradouro público em redor. Foram os serviços da Empresa de Electricidade da Madeira que os colocaram, em substituição das modestas lâmpadas  que, anos antes, foram oferecidas como ‘prémio’ pelo esforço denodado da população que deu a mão-de-obra para a construção da torre do primeiro transformador ali construído.  Entretanto, aconteceu o imprevisto que deu lugar ao pânico e à revolta. Sem que ninguém desse por isso – era a hora do almoço – trabalhadores da mesma EEM vertiginosamente subiram aos postes e arrancaram, levando consigo, os projectores. Chegada a noite, a população amotinou-se, a indignação subiu de tom, marcou-se uma vigília de protesto para a noite seguinte. Não foi tarefa dócil conter a multidão que se apinhou no adro e arredores.

         Amanhecendo o dia,  dirigi-me ao presidente da EEM, a quem dei conta do ambiente tenso, vivido pelo povo. Pedi explicações. Vi claramente a “amarração” (uso aqui a bem apropriada expressão popular) e a quase angústia do presidente (“Eu não tenho nenhuma culpa disto”). Foram longas as conversações, em busca de uma solução pacífica. Estou a vê-lo, a cabeça apertada entre as mãos, perplexo, preocupado, como eu, em acalmar a situação. Até que, da boca do “Homem da luz” surgiu uma luz ao fundo do túnel. E aqui ficou-me para sempre gravado o talento, mais que diplomático, autêntica intuição de mediador entre dois polos em duro litígio: “Por favor, compre-me os projectores, vendo-lhos por metade do preço e os nossos homens vão lá colocar de novo”. Apressei-me em trazer à população a proposta do presidente que foi aceite pela maioria, embora com algumas vozes discordantes a exigirem a reposição pura e simples, sem mais encargos.

         Na cedência mútua de interesses conflituantes, pacificou-se a população. Descobriu-se a Paz. O “Homem da luz” transfigurou-se em “Obreiro da Paz”. Diante de casos como este, lembro-me de José Régio naquele tão mimoso e tocante poema “Colegial”: “Isto de ser grande não é como se nos pinta”.

Nunca mais tivemos oportunidade de falar. Quando a comunicação social  noticiou a sua morte (nos ainda jovens 68 anos de idade) curvei-me sentidamente diante da sua memória e da sua humildade criadora de soluções, predicados tão raros em quem exerce o poder. À chuva miudinha, pranto de Agosto, que me traz estas reconfortantes reminiscências, peço-lhe que lhe leve o preito sincero da minha homenagem.

           Post Scriptum: para não empanar o brilho deste momento evocativo, ainda não satisfiz a dúvida latente nalguns leitores, ou seja: Por que razão foram retirados, tão bruscamente e sem aviso prévio, os projectores do adro da Ribeira Seca? Respondo muito sucintamente: Porque, no dia anterior, tinha havido Eleições Regionais na Madeira – e nas assembleias de voto da Ribeira Seca saiu, como sempre, perdedor o habitual ganhadores da Região… “Malhas que o Império tece”!...

 

terça-feira, 3 de agosto de 2021

DOIS DISCURSOS “APOSTÓLICOS” – AVISO À NAVEGAÇÃO DIOCESANA

                                                                            


Ouviu-os a abóbada azul do céu ilhéu, iluminou-os o sol primeiro de Agosto, assimilou-os o chão livre da ‘mãe-terra’ de São Roque! Dos dois guardiões do Templo da Palavra – ‘sentinelas da madrugada’ da Vida – brotaram feixes torrenciais que inundaram a atmosfera envolvente daquela tarde estival.

         Devo confessar que, em 60 anos de percurso presbiteral e mais 12 na escola de tirocínio para a missão nos bancos dos Seminários Diocesanos, em cerimónias idênticas, jamais escutara eu mensagens proféticas tão eloquentes e persuasivas como as proferidas pelo Padre José Luís Rodrigues e pelo recém-ordenado Padre João Gonçalves, respectivamente  pároco e paroquiano, em cuja linguagem era visível o filão de água inspiradora que liga a nascente ao rio, tal como o genoma de uma paternidade espiritual transmitida ao filho iniciático, confluindo ambos num mesmo pulsar de  emoções, ideias e projecções.

         Chamo-lhes discursos “apostólicos” porque, face aos tempos actuais, vejo-os semelháveis ao realismo sociológico da Carta de Tiago, à apologética de Paulo no Areópago de Atenas e à abrangência ecuménica de Pedro após a visita à casa do pagão Cornélio. E da mesma forma que estes pioneiros da Palavra desassossegaram a inércia do mundo de então, também não restam dúvidas de que a mensagem vigorosa dos dois pregoeiros do Evangelho tem a beleza e o fragor do vento norte capaz de fazer mexer as águas tépidas em que navega a Diocese da Madeira. E é aí que reside a força propulsora do ‘fermento que leveda toda a massa”.

         Que provas maiores tenho a dar do que citar o Padre José Luís Rodrigues na sua incisiva saudação ao neo-colega, Padre João Gonçalves:

         “Para os tempos sombrios que nos assolam, o Padre João é um sinal de esperança. E, particularmente, para nós, padres do Funchal, esperamos que seja uma lufada de ar fresco para dentro de um presbitério oprimido pela tristeza, pela divisão e pelo desencanto. E, às vezes, inverosímeis maldades de uns contra os outros. As chagas do síndrome de ‘bounot’ clerical do nosso presbitério precisam do óleo rejuvenescido da tua esperança, sabedoria e entusiasmo… E quanta falta faz pessoas assim a uma Igreja da Madeira, onde escasseia a reflexão amadurecida e o pensamento diversificado e livre! Já me deste provas de coragem e determinação. São fortes princípios basilares da idiossincrasia do ‘ser padre’. Bem hajas por essa surpreendente lucidez e coragem.

         Vale a pena abrir o “Banquete da Palavra” e o canal “Contar com letras” (da autoria do Padre José Luís) para saborear e assimilar a energia clarividente do seu discurso que termina com esta ‘chave de ouro’ de oratória e evangélica utopia:

         “Por tudo, caro Padre João, bem vindo ao regaço do sonho transformador pelo serviço corajoso da partilha da vida feita pão partido do amor, distribuído por todos sem fazer aceção de ninguém. E que te ofereças sempre inteiro à religião emanação do Espírito e da vida  (contra  a busca da fama ou a fome das importâncias dadas por tachos e títulos anacrónicos). Sinto uma pena enorme por causa de não ter existido vontade e engenho para uma maior valorização em estudos fora do reduto ilhéu da menoridade em que vivemos. E temo que o teu valor se reduza outra vez à condição de pião que andará de paróquia em paróquia apenas”.

         Não menos impressiva, intimista e, ao mesmo tempo, globalizante foi o discurso do novo sacerdote. Destaco a sua opção cimeira pela condição periférica da condição humana. Não lhe percamos uma só palavra:

“O futuro do cristianismo passa muito por assumir a fronteira não como um lugar a transpor, mas como a sua própria situação e que seremos fermento no meio do mundo, na justa medida em que nos tornarmos periféricos, renunciando à lógica da maximização de lucros, otimização de recursos e massificação de crentes… Que o Senhor Jesus nos ajude a não ter medo da fronteira e que a sua graça nos ensine a habitá-la na sua rudeza, mesmo se incompreesível”.

E termina na cúpula da mais estrénua espiritualidade crística, genial justificativo da sua opção pastoral:

“Porque foi o próprio Senhor Jesus um marginal errante, um Deus nómada”.

Guardem estas palavras! Guardemo-las como joias monumentais, reprodutivas, desde a Primeira Missa, a Nova, até à última que o Padre João celebrar aqui na terra.

Respiremos a “lufada de ar fresco”, como disse o Padre José Luís, por sobre aquela tarde de domingo escaldante. O apoio manifestado por colegas presentes traduz à evidência que, na Diocese da Madeira, algo de novo surgiu no primeiro sol nascente de Agosto de 2021.

Da minha parte, este único voto:

Um “João Gonçalves”, o Zargo, descobriu a Ilha, na periferia do Reino. Outro “João Gonçalves”, o Padre Irmão, fará da Ilha um novo Reino onde todos terão lugar, desde os marginais mais ‘próximos’ até aos periféricos mais longínquos!

 

03.Ago.21

Martins Júnior