sábado, 15 de janeiro de 2022

O ESPÍRITO DA DEMOCRACIA E A DEMOCRACIA DOS ESPÍRITOS

                                                                              


É inevitavelmente aí que havemos de chegar. Seja qual o gps do nosso passo ou o batente da nossa velocidade, sejam quais as veredas ou autoestradas que optemos percorrer, é lá que chegaremos.  Assim dita a biologia, assim determina o processo burocrático do trabalho (Max Weber), assim o crescimento sócio-cultural, a filosofia  e assim a própria teologia. Todos os segmentos da vida em sociedade convergirão para um único vértice de perfeição: o espírito democrático.

           Em mais um fim-de-semana, embarco de novo no LIVRO, à procura de mais uma centelha de verdade. E achei-a precisamente num dos textos propostos para este Domingo, 16 de Janeiro. É o de Paulo de Tarso numa das suas Cartas, a Primeira aos habitantes da grande cidade de Corinto. Poderíamos hoje titulá-la de Homem Algum é Uma Ilha, de Thomas Merton, ou de A Vida das Abelhas, de  Maurice  Maeterlinck, ou de outro extenso Manual de Sociologia.

         O que estruturalmente está em causa é este determinismo genético, chamemos vocação inata, da natureza, dos homens e das coisas: a interdependência de funções e contributos que, sendo parcelares e distintos uns dos outros, concorrem todos para a mesma meta - a compleição perfeccionista de um bem comum ao serviço da humanidade, seja numa família, num bairro, numa cidade, no planeta.

         Para os amigos e amigas que comigo conversam ao som deste teclado dos Dias Ímpares, excuso demonstrar mais provas científicas além do écran na minha frente: as conquistas da engenharia electrónica, a evolução da tecnologia, os milhares de investigadores, as ferramentas, os operários, enfim, o batalhão produtor deste portento onde se passeiam os meus dedos! Desde os mais singelos, por vezes até descartáveis objectos do quotidiano até aos altos voos da ciência, há esta corrente de persistentes elos indissociáveis desde o início até ao términus do seu percurso: o nosso bem-estar. Sensibiliza-me profundamente o que comemos à mesa, o pão que vem da terra e o pão que vem do mar. Quantos obreiros anónimos estão ali connosco!

         A frustrada ambição do Orgulhosamente Só, já a história tem demonstrado os escalavrosos frutos que produziu e ainda produz: a ditadura, a destruição, o suicídio. Tremenda e avisada lição para governantes e candidatos ao poder!... Toque a rebate à própria Igreja e à sua monarquia unipessoal, tendencialmente exclusivista e elitista, contra a qual tem lutado, quase debalde, o Papa Francisco, sobretudo na encíclica Fratelli Tutti.  A este propósito, surge em Portugal um valoroso sósia do Bispo de Roma, o Professor Padre Anselmo Borges, sobretudo no seu último livro: A Igreja e o Mundo, Que Futuro?  Imperdível a sua leitura.

         Perorando sobre o Espírito da Democracia inerente à constituição do Planeta e do Homem que nele habita, , verifico que não fiz ainda a prova de Paulo de Tarso na complementaridade dos espíritos, isto é, dos dons e talentos esparsos nas relações que determinam a vida em sociedade. Eis, pois, o que diz o Apóstolo das Gentes, na sua Carta aos Coríntios:

         Há uma diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. A manifestação do Espírito é dada a cada um para proveito comum. Assim, a um é dado o dom da palavra e da sabedoria; a outro o de operar curas e milagres; a outro, o dom da profecia; a outro, o do discernimento dos espíritos; a outro, ainda, o dom de falar diversas línguas e a outro, o de saber interpretá-las. Mas é o mesmo Espírito a operar em todos e cada um  para o proveito comum (I Cor. cap. 12).

         “Para o proveito comum” – aqui está o Tratado Perfeito do verdadeiro Espírito da Democracia Plena. “Navegamos todos no mesmo barco”!

 

         15.Jan.22

         Martins Júnior

           

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

SOMBRA DE SOMBRAS EM ECO DESDOBRADAS…

                                                          


antes que houvesse mar ou ilha

já Platão lhe dera a oval caverna

num outro éden de folhas secas espalmadas

 

mas a sombra criou-a ela

e sombra inteira assim ficou

sempre menina quase centenária

 

que azul fantasma havia nos teus olhos

para achares mais bela a sombra que o corpo dela?

 

sempre a sombra corre mais depressa

sem nunca deixar de perseguir-me à rectaguarda

 

melhor ser sombra porque é eterna

dentro ou fora da oval caserna

neste baile de sonâmbulos amantes

tanto mais juntos quanto mais distantes

 

receba-te Platão no Olimpo das reais moradas

que nós aqui te olhamos e tocamos

no recorte da tua intocável etérea imagem

Sombra de Sombras em eco desdobradas…

 

14.Jan.22

Martins Júnior

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

ANÚNCIO E REALIDADE

                                                                              


Ora, eis aí o Espírito Renascentista que anunciei.

Domina-o um enorme ponto de interrogação, da autoria do galardoado arquitecto Souto Moura: a Dúvida – repetidamente interpelante - seja maiêutica, seja cartesiana, é sempre a Dúvida interrogante o princípio de todo o conhecimento, a raiz de todo o Espírito Renascentista.

E a primeira questão que se nos põe é saber se o exclusivo título corresponde ao real conteúdo deste ‘Código de Estrada Global’, isto é, se se restringe apenas  ao futuro de uma instituição.

Desde logo, cumpre informar que a amplitude inclusiva desta obra tem a medida do talento universalista do Professor Padre Anselmo Borges. Ouso acrescentar, sem risco de erro, que assim como os pioneiros do Espírito Renascentista romperam com o imobilismo obscurantista medieval e corajosamente abriram novos horizontes nas mais diversificadas esferas do conhecimento humano – Por Mares nunca dantes Navegados – assim também Anselmo Borges abarca os mais fundos labirintos da humana condição até alcançar  a altitude circular que o pensamento consegue atingir, numa síntese ascensional entre  Imanência e  Transcendência.

Dispenso-me de demonstrar e enaltecer (por ser sobejamente consabida) a vastidão enciclopédica de investigadores, cientistas, poetas, filósofos, teólogos que conferem solidez inquebrantável às teses – propostas e antíteses -  que compõem este Manual Profético do Amanhã. Interessa-me, sobremaneira, e julgo a todos interessar, primeiro, a determinação-objectivação dos temas em causa, depois a segurança de estratégias utilizáveis, até com uma aparente frieza na abordagem dos diversas coordenadas em jogo, culminando tudo na coragem linear, quero dizer sem subterfúgios, em atacar e defender, ou, numa linguagem bíblica, arrancar e plantar, destruir e erguer os alvos definidores da sua mundivisão, onde confluem as múltiplas valências do Ser Humano, desde o natural, o racional e o espiritual.

Dos 67 capítulos que povoam as 479 preciosas páginas, nenhum deles se pode perder. Pertencem - como raiz, tronco, ramos, flores e frutos – à mesma árvore de uma sabedoria contínua e em cada um deles corre a mesma seiva transformadora. Até os mais delicados, intrincados meandros do indivíduo em sociedade, Anselmo Borges percorre-os com olhos e sentidos de quem conhece a casa de cor, de tal modo que bem pode ele dizer como Aristóteles: “Nada do que é humano me é estranho”. E fá-lo com tanta acutilância e realismo quanta elevação e metamorfose valorativa!... Recordo-me, a título de exemplo, a apresentação no nosso Teatro Baltazar Dias do polémico livro “A Vagina”, bem como o prefácio para a edição d”A Relíquia” de Eça de Queirós.

Mas de todos, permito-me destacar, pela sua perspicácia, originalidade e criatividade interpretativa, o capítulo António Nobre e Francisco (pág.307), onde avulta o talento intemporal de Anselmo Borges, ao transpor para o século XXI vivências do século XIX, mais explicitamente, António Nobre, poeta português do SÓ,  o Papa Leão XIII, da revolucionária Rerum Novarum e o nosso Papa Francisco. Oportuna e assertiva a direcção da bala sobre uma Igreja autista, desencarnada!

No entanto e porque é de um novo Espírito Renascentista que decidi abordar a obra de Anselmo Borges, em contraponto ao medievalismo vigente em muitas estruturas da Igreja-Instituição, confesso que me tocaram, direi mesmo, abalaram-me as páginas-convicções da Parte IV, genericamente tituladas de UMA IGEJA OUTRA. Tocaram-me, precisamente pela ousadia, direi, apostólica com que o Autor faz a anatomia da Igreja Vaticana, em consonância perfeita com o espírito aberto e interventivo do Papa Francisco, da qual também eu, no modesto reduto que habito, me sinto solidário e militante. Ninguém em Portugal – teólogo ou leigo, bispo, cardeal, presbítero ou diácono – se alevanta com tanta clarividência e coragem como o Padre Anselmo na identificação dos valores do Evangelho e na sua deformação pelo Desenvangelho da Igreja institucional. Bento Domingues e Anselmo Borges, na vanguarda!

Deveria citar alguns excertos do livro em epígrafe, mas o figurino de um simples blog não mo consente. Tanto melhor, porque a quem ler deixo o convite e o apetite para sentar-se à mesa com Anselmo Borges e saborear a beleza e a suculência de uma ementa real.

  Em síntese, do supedâneo da minha pequenez, vejo na ara do Pensamento crítico, evolutivo e optimista do Prof. Anselmo Borges aquilo que já classifiquei de Summa Humanista-Theologica, aproximativa das Summa’s  dos grandes pensadores, como Tomás de Aquino. Entendo e daria o meu modesto contributo para que o Professor Padre Anselmo Borges formasse uma vigorosa Schola, que fizesse caminho seguro no nosso país. Por enquanto, vamos esperando aqui, na Madeira, a sua presença logo que as circunstâncias o permitam, afim de realizarmos essa apetecível Agape sobre a incógnita de sempre: A Igreja e o Mundo: Que Futuro?            

        

         11.Jan.22

         Martins Júnior

 

domingo, 9 de janeiro de 2022

O ESPÍRITO RENASCENTISTA DE TODO O BAPTISMO !

                                                                                


Apagaram-se todas as luzes da noite e, com ela, todos os dias do ano.

Ao surgir a primeira nesga de Vénus no cimo da matutina montanha, viu~se que um rio ensaiava, sereno e cristalino, a canção de uma Dia Novo. O rio chamava-se Jordão, como poderia vestir-se de Nilo. Tigre e Eufrates, Danúbio, Tamisa ou Tejo.

Neste início de semana, por convite do LIVRO (opção que nunca abandono) fixo-me no Jordão, onde Alguém, varão hebreu, protótipo do Homem Novo, mergulha nas águas correntes – também elas sempre vivas, renovadas – e, dizem os pergaminhos coevos, aceitou o Baptismo.

Baptismo, cronológica e estrategicamente bem colocado logo após o Nascimento, e ao qual sobreponho a adequada antonomásia de Renascimento!

No entanto, abstenho-me da água instrumental e mesmo do utente individual daquele mergulho regenerador no rio marginado de oliveiras. Citando o LIVRO, o único Baptismo não foi o de João, o Baptista, nem da água, nem da brisa olorosa das oliveiras de Jerusalém. Foi o Espírito envolvente - o Espírito do Baptismo - caracterizador da essência daquele  corpo renascido.

Ao abrir de um ano que se quer Novo, regresso a todas as passagens de nível da História Humana marcadas pelo signo da Renovação, seja ela pacífica como o reflorir da Primavera, seja ela traumática como o fragor de uma Revolução. A todos esses fenómenos em que da vulva virgem da terra sai um novo ciclo restaurador hasteio a bandeira global que traz inscrita a sua definição identitária: Espírito Renascentista.

É este Espírito Renascentista que auguro para mais um ano, em contraponto com o espírito medieval que inelutavelmente  todas as épocas e todas as gerações, por mais altas que sejam as suas conquistas. Oxalá possamos ultrapassar os resquícios e entornos da Idade Média dos nossos tempos e insuflar na sociedade a essência do Espírito Renascentista que nos é proposto no dealbar de cada ano. É a este gérmen revitalizador que eu chamo o genuíno Baptismo da nova era. É também este o “Virar de Página”  que está na ordem do dia.

Serve esta breve observação de abertura para a proposta de Renascimento que apresentarei no próximo ‘blog’, uma proposta de um autêntico e incansável Precursor de um Tempo Novo, do qual bem poderei dizer, não sem profunda mágoa, o que outrora foi dito: “No meio de vós, há alguém que vós não conheceis”.

 

09.Jan.22

Martins Júnior

 

 

  

  

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

DESPEDIDA DA “JANGADA DE BASALTO”

                                                                       


Com o final dos “Reis” finam-se os festejos transitivos entre 2021 e 2022. Quer dizer que a mítica e tão almejada dupla “Natal/Ano Novo” fica confinada durante doze meses, não pelo ‘clássico’ vírus-19 mas pela repetida e sempre renovada coreografia de Maestro Tempo.

Mas antes que tudo fique em cinzas, como em Quarta-Feira de Carnaval – o dilúvio da luz trepando e descendo montanhas, a anestesia estelar dos túneis improvisados na cidade, os gigantones imagéticos tão desfasados da lapinha madeirense – enfim, antes que tudo se evapore, apraz-me registar algo e fixá-lo aqui, com o mesmo afã e carinho com que se guarda um fio de água de cristal  perdido num chão agreste.

     Imagine-se um mar vasto, sem linha de horizonte. Dentro dele navega um volume imponente, a quilha da proa abrindo cascatas de azul transformadas em festival de ondas virgens, sereias de antigos mitos, sedutoras dos argonautas de Ulisses.

Ei-la que passa à nossa frente, a Jangada, e até afrouxa a marcha para êxtase dos nossos olhos. Prende-nos logo o maciço da arquitectura naval, feita de pedra basáltica, onde assentam nove conveses simétricos em ascensão, convergindo todos no último convés, o mais pequeno que mantém a configuração miniatural do primeiro, mas o mais vistoso e soberano. À primeira vista, surpreende-nos com a mesma imponência e majestade de um transatlântico cruzeiro sulcando os oceanos.

São nove os decks ou balaustradas iluminadas, mas quem nelas assoma não tem traje humano nem fisionomia de exótico turista. Toma-lhes o lugar uma mui diversa estirpe terreal: o ouro da família citrina, laranjas, tangerinas no primeiro anel. Mais acima o verde-escarlate dos azevinhos, a fofa doçura dos musgos e líquenes inseparáveis do basalto, a leveza esvoaçante das estrelícias e, no topo do derradeiro tombadilho, as  sumarentas, orgulhosas maçãs coroando o elenco dos bizarros viajantes da Jangada.

Se nos surpreende, ao mesmo tempo nos intriga este vaso gigante que perpassa sereno no vasto Atlântico. Se olharmos, porém, para o mastro alto do navio, no lugar da gávea marítima, cresce jovem e a todos abraça um dos ex-libris mais representativos do que somos e do onde estamos. É ele que nos diz que naquele cruzeiro somos nós que também lá navegamos. O símbolo altaneiro, bandeira da Grande Nau, chama-se e abrilhanta-se para todo o mundo como a raiz e o fruto mais saboroso, elixir dos deuses: Sua Doçura Real, a Bananeira.

Eis-nos, pois, decifradores do enigma da JANGADA DE BASALTO. Desde a popa até ao arco da proa, lê-se, a estibordo, o perímetro de toda a extensão territorial entre a Ponta (ou Porto) do Moniz até à Ponta de São Lourenço, com o Porto Santo à ilharga. Para sinalizar cada centralidade, lá estão os estandartes  de todos os concelhos visivelmente implantados em todo o cenário flutuante, com especial e justificado destaque para as bandeiras de Machico e da Madeira.

Mas a Jangada tem astrolábio e destino marcado: o Mar da Galileia e, mais adentro, a Gruta de Belém. Por isso, ela inscreve no enorme Casco a permuta dos presentes entre a Ilha-Jangada e o ‘Rei’ da Manjedoura: das flores e frutos que transporta espera receber os supremos Dons Imateriais que Jesus-Menino lhe outorga, à Ilha e à História. Eles brilham  no bojo acolhedor do navio: Conhecimento, Fortaleza, Conselho, Perdão, Fraternidade, Justiça, Paz.

Já descobrimos e já entrámos no registo da misteriosa Grande Nau: “JANGADA DE BASALTO AO ENCONTRO DE BELÉM”.

Lá dentro, alguém quis saber a razão dos nove conveses daquela arquitectura naval. E do mais fundo do porão veio “o engenho e a arte” da exacta solução: nove os meses de gestação no seio de Maria, nove as Missas do Parto, nove Luas ao encontro do Sol Nascente.

Nesta breve anatomia da nossa JANGADA, construída à escala, talhada à orografia da orla marítima, em que o amor à Causa, a paixão telúrica e o empenho da Juventude da Ribeira Seca falaram mais alto que o esforço investido, quero deixar os mais saborosos Parabéns, na esteira do velho provérbio: “A melhor recompensa do dever cumprido é ter cumprido esse dever”!

Finalmente e porque “Jangada” é nomenclatura que vem de longe, associamo-nos ao Centenário de José Saramago, prestando homenagem ao título que nos serviu de mote, a famosa “JANGADA DE PEDRA”. (1986).

 Mas a “JANGADA DE BASALTO” não terminou o seu roteiro. Ela continua, mundo fora, nos nossos emigrantes e em todos quantos fazem da Ilha uma estação mais luminosa, mais criativa, mais Imaterial. Por isso, a nossa Jangada balança nas ondas do “Torna Viagem”  (1979) do nosso Horácio Bento de Gouveia e na epopeia rural da “Eternidade” (1933) do imortal Ferreira de Castro.

       

07.Jan.22

Martins Júnior

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

ESTIRPES REAIS: SOMOS TODOS “VÉSPERA E DIA DE REIS”

                                                                 


     

                                        Se vós não sabíeis

                                        Agora sabeis

                                       Que é do dia cinco

                                       Para o dia seis                        

         Que se ‘canta’  Os Reis

 

         E lá vamos nós, em romaria, de terra em terra, de mar em mar e de casa em casa, ostentando na cabeça a coroa cravejada de falsos brilhantes ou o folclórico barrete-de-orelhas, com os búzios, os machetes, o reque-reque e os ferrinhos, arregimentados em orquestra sinfónica para o desfile real.

         De terra em terra, de mar em mar e de casa em casa…  É por aqui que eu vou. E vejo que é por aí que, assumidamente ou não, vamos todos nós. Não numa onda de mera diversão pós-natalícia, mas como expressão de um estatuto promocional, inerente à condição humana.

         Subentende-se facilmente que é outra a minha visão desta noite de Reis e do lugar que nela ocupamos. Deixo para outros a magia dos Três do Oriente, o pré-concebido tributo dos magnatas árabes, desde a mais recuada era profética, ao Menino de Belém. Deixo também largas aos cantadores da ruralidade genuína, alguns deles ‘capturados’ nos palcos urbanos para consumo turístico.

         Hoje, a minha noite de Reis é inspirada na vocação mais radical e íntima do ser humano, inscrita no nosso ADN, desde a sua génese, cantada por poetas como Goethe - “a nossa ânsia de subir, cobiça de transpor” – e alcandorada nas páginas do LIVRO, entre as quais, a apologia que Pedro faz da sua comunidade: “Nação escolhida, estirpe real, povo adquirido”!

         Se ontem considerei RedOOOndOOOs como zero os votos robóticos e hipócritas com que a farsa social bombardeia a passagem de ano, hoje rendo homenagem a todos os homens e mulheres, jovens e idosos, profissionais de todas as classes laborais, de todas as latitudes, de todos os continentes, de todos credos e de todas as etnias, “Povo escolhido, Geração Régia” que carreia, sem estrondo, para 2022 todo o seu talento, a sua força braçal e a sua energia emocional afim de tornar verdadeiramente Novo o novo Ano, Renovado este Planeta, seja qual o território ou o ofício da sua especialidade.

Nos bastidores de cena a que o actual momento nos obriga, contemplo esse cortejo interminável  de romeiros artífices, caminhantes anónimos - esses que vão de terra em terra, de mar em mar e de casa em casa - ostentando a coroa real de quem constrói e comanda o Mundo!

         Para eles, não haverá apenas a “noite do dia cinco para o dia seis”: todos os dias e todas as noites pertencem-lhes, de direito e de facto.

Serão Dias e Noites de todos os Reis!

 

         5-6.Jan.22

Martins Júnior

                           

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

VOTOS REDOOONDOOOS !!!

                                                                              


         Se alguém gravou a euforia do Fim-de-Ano 2000/2001, pode ‘puxar para trás’ e achar-se-á na palavrosa rotunda onde se espadanam os votos de Feliz Ano 2021, Ano Novo Vida Nova, Virar de Página e Mudar de Menu, enfim, um dicionário de sinónimos derivados da 18ª letra do alfabeto: renascer, recriar, reinventar, reformular – tudo, menos repetir. E o mais sintomático é que, se puxar ainda mais atrás, 2019/2020, a surpresa atinge um clímax de paranóia colectiva accionada pelos estalos e pela embriaguez das lantejoulas pirotécnicas, porque o arraial do Fim-de-Ano era então para uma década: Viva a Nova Década, Um Novo País para Uma Nova Década, Alvíssaras Vamos Virar a Década.

            E agora, Ano da Graça de 2022, cá andamos nós, robots autómatos, repetindo de olhos fechados a mesma litania, como que subjugados ao medo supersticioso de que alguma desgraça nos caia em cima da cabeça, se não balbuciarmos o assintomático FELIZ ANO NOVO !!!... Nem nos damos conta da ponta de ‘Alzheimer’ que nos acomete nesta transição e que nos varre da memória a real sucessão dos então, futuros (hoje, passados) 730 felizardos dias que tanto almejámos.

         Ora, socorrendo-me de Fernando Tordo, o Futuro foi aquilo que se viu… esse futuro que nos deu de presente o presente que se tem:  primeiro e sem sair da pele que nos veste, o riso mefistofélico desse invisível rosto redondo, camaleónico que, derrotado como delta, reaparece vitorioso como ómicron,  deixando sentados no banco os investigadores, os analistas, os médicos, os políticos, os programadores, os turistas, os chef’s e as cartomantes. De que serviu o voto de Março/20: no Natal, vai ficar tudo bem  ou, frustado o 20, Em 21, o Natal será outro e melhor o  Janeiro/22 ???...

         Tudo votos redondos, RED000ND000S. atribuindo à definição a exacta grafia algébrica: zero!

         E se formos à barra do planeta, onde é que param as Felicidades Futuras de 2020 e 2021?… Alguém, decerto, dirá que hoje não me recomendo, mas não sou eu que procuro as dissonâncias ou as falências dos votos, porque são elas que todos os dias batem ao écran dos nossos televisores: as mesmas ameaças/atentados do mais forte sobre o mais fraco, Israel destruindo os palestinianos; a China expandindo ao mundo a supremacia económica e o férreo poder de matar jornais em Hong-Kong com a mesma indiferença com que esmagou mortalmente centenas de jovens em Tiananmen; o cancro provocatório, aninhado entre a Rússia e a Ucrânia, eventual epicentro de um vulcão de ebulição europeia e americana. Fiquemo-nos por aqui.

         E ao ficar por aqui, no nosso país, chegamos ao (in)sucesso das venturas desejadas (só nos restou um(a), de trambolhado palavreado) ao ponto de assistirmos à morte antecipada, por traição, de um projecto governamental feito para durar o dobro do tempo. ‘Juntaram-se os dois à esquina’ (a extrema esquerda e a extrema direita)  para acrescentar ao vírus pandémico outra virose política, um absurdo somado a outro absurdo, tão desadequados à época. Até no futebol, os votos de um Benfica “de arrasar” acabaram num Benfica arrasado e, enquanto um Jesus nascia em Belém, outro Jesus ‘morria’ em Portugal.

         Ironia das ironias, se não fora o trágico do caso, vem do Colorado longínquo: aquele fogo devastador que superou todas as previsões meteorológicas, afinal, bastou uma nuvem transformada em nevão para resolver aquilo que todas as corporações de bombeiros não conseguiram. Oh, as fragilidades da nossa ‘omnipotência’, onde quebram inanes os nossos mais deslumbrantes votos gratuitos!

Votos REDOOONDOOOS com que nos iludimos alegremente… Não menos flácidos e rotundos os do nosso Presidente da República, tão elásticos e úberes que todos os partidos, de um a outro extremo, vão lá tirar a sua gota de leite político-partidário.

         Resta-nos apenas – e isso é mais que toda a esquizofrenia dos Votos Redondos – resta-nos a força de vontade, o esforço porfiado de cada um de nós para cumprir o que de há muito venho repetindo: “Não peças nem perguntes ao Ano Novo o que tem reservado para ti. Antes, pergunta-te a ti próprio o que tens para fazer de 2022 um Ano estruturalmente Novo, Venturoso e Feliz para ti e para o Mundo”!

         Os que se estonteiam com as passas da Meia-Noite bastam-lhes os oito minutos de arraial ‘à americana de Trump’, um milhão de euros  pagos por um povo que carrega aos ombros a condição do “mais elevado risco de pobreza deste país”…       

 

         03.Jan.22

         Martins Júnior