quarta-feira, 9 de outubro de 2024

RECEPTADORES DE PROMESSAS E RICOS DE LEPRA: PEÇA EM QUATRO BREVES ACTOS NO II LIVRO DOS REIS

                                                                         


ACTO I

O General Naaman, Chefe das Forças Armadas da Síria, é acometido de lepra e não encontra no seu país nem médico nem curandeiro que lhe dêem cura. Aconselham-no a deslocar-se até à Judeia, onde habita o Profeta Eliseu, famoso pelos milagres que faz. Contrariado pelo orgulho de oficial superior, os oficiais subalternos  convencem-no da viagem. Leva consigo sacas de ouro e prata e, ainda, vestes sumptuosas, ao estilo da época, para pagamento em caso de sucesso..

Acto II

Eliseu recebe à porta de casa o General que mostra a sua desilusão e até indignação, porque o Profeta não fez nenhuma oração nem deitou nenhuma bênção: mandou-o tomar banho (sete mergulhos) no rio Jordão. Embora contrariado no seu orgulho de superior militar sírio, seguiu o conselho. E, qual o espanto, após o sétimo mergulho, o corpo achou-se limpo da lepra e “a sua carne ficou como a de uma criança recém-nascida”.

 

ACTO III

Volta o General à casa de Eliseu e pede ao Profeta que aceite as sacas cheias de ouro e de prata, bem como as vestes solenes, em pagamento ao Deus-Iahveh, preciosa oferta que Eliseu, sob juramento sagrado, se recusa a aceitar. Regressa o General à Síria com a sua comitiva.

 

ACTO IV

 

Giési, o ajudante (ou sacristão) de Eliseu, tinha assistido à cena, deixa Naaman afastar-se a alguma distância, monta o seu ginete, alcança a comitiva e diz ao General que afinal o Profeta aceita a oferta. Traz para casa a fortuna, esconde-a, mas Eliseu chama-o, interroga-o sobre o caso, Giési diz que não fez nada de censurável. Mas o Profeta dita a sentença, em nome de Deus: “Giési, eu vi tudo. Agora estás rico com a fortuna que do General recebeste. Mas vais ficar com mais outra coisa que ele te deu:  a lepra que ele tinha. E nesse mesmo instante Giési ficou completamente leproso.

 

Para mais pormenores, consulte o II Livro dos Reis, capitulo 6º na Bíblia Sagrada. E tire as suas conclusões.

O meu comentário consigna-se numa pergunta tão simples: Esse Deus, do Profeta Eliseu, esse Deus ainda existe?... E se existe, que faria Ele hoje?...

 

09.Out.24

Martins Júnior

 

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

FATÍDICO DIA 7 – ENTRE SETEMBRO E OUTUBRO !!!

                                                                               


Estranha contradição:  “7” na numerologia bíblica é símbolo de perfeição, acabamento, cúpula do ser – os Sete dias da Criação do mundo, os Sete candelabros do Templo de Jerusalém. Nos tempos que correm, o SETE entre SETEmbro e Outubro fala-nos de destruição, cheira a sangue e prenuncia morte.

         Nem me demoro na evidência bárbara que nos entra em casa a toda a hora: o massacre de 1.200 vítimas do terrorismo do ‘Hamas’ e os 42.000 assassinatos perpetrados pelo bombismo de ‘Israel’. Um avatar sangrento, cujos autores terão fim sem verem o fim do monstro que fabricaram!

         Em dia oportuno, prefiro recordar o 7 de Setembro de 1972, quando senti ‘ao vivo’ o patriotismo genuíno do povo brasileiro na comemoração da sua independência em 1822. Estando eu em Olinda e Recife, assisti a um espectáculo estruturalmente popular nas instalações e  jardins do Paço Episcopal, entregue à população  pelo Arcebispo Helder da Câmara, o tal, apelidado de “bispo vermelho, comunista”, defensor acérrimo da dignidade do ser humano em todas as latitudes e de quem ouvi este corajoso pregão, em tempo da ditadura militar e perante a grande multidão que ali estava: “Dizem os ditadores que eu não quero o progresso do Brasil. Falso! Eu quero o progresso do meu país, mas com os brasileiros, pelos brasileiros e para os brasileiros”. Uma Igreja, uma Religião pelo Povo e contra a ditadura.

         E, ainda no Brasil, trago à página o ocorrido em São Paulo, mais precisamente  no triângulo ABC (Santo André, São Bernardo e São Caetano), com maior incidência em São Bernardo do Campo, onde as eleições para a prefeitura dominam ontem e hoje os seus 810.000 habitantes. Cidade metalúrgica por excelência, “terra sagrada da classe operária”, como lhe chamou o presidente da maior central sindical do Brasil, Moisés Selerges, reconhecendo ele próprio o declínio da esquerda, uma bizarra conjuntura que o jornalista Meyerfeld, na edição de Le Monde de anteontem, resume nestes termos: “Durante cinco décadas consecutivas Lula e São Bernardo do Campo formavam um só. E na segunda volta das eleições presidenciais de 2018, foram 59,57% os sãobernardenses que votaram Jair Bolsonaro”.  

         Perante tão anómala situação, uma outra lhe dá o tom: o candidato indicado por Lula não é um cidadão afecto à esquerda e ao lulismo, mas um pastor evangélico, Luiz Fernando Teixeira, empresário de sucesso, fotografado entre fiéis da sua igreja e outros pastores ultraconservadores. Seu lema é “pela vida e pela família”. E proclama o seu ideário: “Leio a Bíblia todos os dias. A prioridade da minha vida é Cristo e depois o meu próximo”.  Está à vista de todo o mundo uma inquietante inversão de metodologias  sociológicas que se disfarçam numa tal mistela de opções, que o próprio Moisés Selerges comenta, não sem uma nesga de desilusão: “Os pobres acreditam e recorrem mais ao pastor do que ao delegado sindical”.

         Por seu lado, nos Estados Unidos da América, Luís Cabrera, pastor evangélico de uma considerável comunidade latina ( de antigos imigrantes) e fanático apoiante de Ronald Trump, declara abertamente que é dever da Igreja fazer campanha pelo ex-presidente. E fá-lo sem apelo nem agravo – e sem um pingo de pudor – nas homilias do ritual litúrgico a que preside: “Deus está a espera do voto dos eleitores. E não pode ser outro”.

         Enigmática, invertebrada e camaleónica religião que tanto dá para canonizar a vítima e o assassino, erguendo altar-cadafalso onde ao mesmo tempo se adora Deus e o Diabo!  Insuportável deturpação dos valores religiosos e deplorável inversão da estratégia libertadora da acção que ao homem – e só a ele – é devida e exigida.

         Dia “7”, da Senhora do Rosário. Em Roma, o Papa Francisco bem se esforça por chamar a Senhora para acabar a guerra na Ucrânia e na Faixa de Gaza. Podem esperar sentados, porque a casa de Maria, segundo a lenda feita história, já não está lá. Foi transportada pelos anjos para o Loreto de Itália.

          Faz agora um mês, também no dia “7”, que outros “cinco maléficos magníficos”, os do crime organizado, evadiram-se da cadeia de … Vale dos Judeus. Os judeus de Israel, os palestinianos do Hamas, os Lulas e Bolsonaros, os evangélicos da América invocam o seu deus, será o mesmo? O Papa Francisco apela à Senhora do Rosário. E a que deus ou a que  deusa terão prometido vela os celerados para saltar os muros de Vale de Judeus?...

         Até quando viveremos numa cegueira de fabrico próprio e, por isso, incurável ?!

         Quando aprenderemos a lição de um Profeta do século XX, Hélder da Câmara ?!     

    

         07.Out.24

         Martins Júnior

sábado, 5 de outubro de 2024

COMO PODE TER NORTE UM BARCO COM COMANDANTE DESNORTEADO?!...

 

Tão cedo interrompo o propósito de, nestas páginas, só dar guarida ao lado positivo dos acontecimentos, tal como aquela lua cheia subindo ao céu por sobre o inferno das montanhas a arder. Por isso, quero reduzir a  poucos parágrafos o espectáculo deprimente  de uma dobadoira rolante, sem direcção, que tem sido dado aos portugueses nestes dias últimos.

Que o mundo anda em transe neurótico é a evidência que começa no chão trágico de Gaza, do Líbano, do Sudão e entra nas nossas casas. Mas o que não se esperava é que fosse dos pacíficos jardins de Belém que rebentassem os fluidos gazes de desestabilização, tremores públicos, “instabilidade social”, numa palavra, de neurose colectiva. Tudo porquê?... “ Alerta, Portugueses! Aí vem o monstro, o furacão assassino, o Armagedon do Fim do Mundo”. E tem um nome híbrido: Dissolução do Parlamento-Convocação de Eleições.

Lá anda, por Seca e Meca, o Inquilino de Belém, entre Profeta da Desgraça e Velho do Restelo, como suprema testemunha de jeová, a ameaçar de porta em porta, de praça em praça, de feira em feira, “Por amor de Deus, evitem a catástrofe nacional”, o dilúvio europeu, que vem arrasar Portugal. Vade retro, abrenuntio!

Mas não é este o mesmo?, que há uns anos andou a pintar por quanto é muro da opinião pública os ferozes dinossauros da mesma Dissolução, campanha nauseabunda , repetida, ensandwuichada, nos media, até na tomada de posse de um governo legitimamente votado  pela população. Afogueado como um combatente e enxuto como um bacalhau, não hesita: desfaz mesmo o Parlamento Nacional composto de uma maioria absoluta, constitucional, segura, imbatível. No gabinete belenense, ele e só ele derruba o estável para dar lugar ao instável, o certo pelo incerto, enfim, a paz institucional pela guerrilha eleitoral, na paranoica sofreguidão de levar ao trono os seus gémeos partidários: ele, pai, parteiro e padrinho deste feitiço, que agora se volta contra o feiticeiro e do qual não pode livrar-se, tirando-lhe o pouco sono que ainda lhe resta, mendigando, rastejando “não caiam na loucura de chumbar o Orçamento”, até chegar ao cúmulo de faltar ao compromisso internacional assumido com a Letónia e a Polónia. Não pode abandonar o país, por dois ou três dias, porque julga-se Luís Vaz de Camões salvando com os braços no ar o Lusíada Orçamento da AD do ciclone que ele próprio desencadeou.

Por aqui me quedo, sem o mínimo interesse de entrar nessa hilariante arena ‘Orçamento ou Morte’, mas apenas para exprimir o que um qualquer  português  médio sente: não nos tomem por parvos e não projectem em nós o desconcerto que abala a(s) cabeça(s) mandante(s) em fim de ciclo.

E, sobretudo, para penitenciar-me por também ter votado no desconexo Dissolutor de Parlamentos.

 

05.Out.24

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

MACHICO NA BIBLIOTECA NACIONAL – LISBOA

                                                                     


               

Na realidade, o pódio magistral estava reservado a DANIEL PIRES, o “Mestre dos Investigadores”. E só por ele, Machico entrou no Átrio da grande catedral do livro, a Biblioteca Nacional, ao Campo Grande. Lisboa.

    Foi a chave de ouro que fechou o outonal setembrão. Lá dentro, uma coroa estelar de quinze escultores do verbo – escritores, filósofos, poetas, historiadores, cientistas, enfim, investigadores  - desenhou o perfil inteiro do “Mestre e Doutor”, cavaleiro andante que deambulou pelas terras e mares por onde naufragou  Luis Vaz de Camões e  pelas  cátedras da sábia curiosidade de Wenceslaw de Moraes, Camilo Pessanha e, antes, o visionário Fernão Mendes Pinto. Para quem se habituara a ver em Daniel Pires o cidadão pacato, humilde, quase anónimo no desenrolar do tropel quotidiano, ficou assombrado com o planisfério, mais amplo de ideia que de  geografia, em que navega Daniel Pires: desde a pátria de Elmano Sadino, Setúbal, até Glasgow e ao longínquo Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cantão, Goa e Macau.

    Paladino da Língua Portuguesa e da História, o “Príncipe dos Investigadores”, como também foi cognominado na Biblioteca Nacional, serviu ao público português a prestimosa  oferta de duas obras datadas no tempo: “Dicionário de Imprensa Periódica do Antigo Regime em Portugal” (1704-1807)  e a (já lançada em Machico, 2023, no 250º aniversário do nascimento do Autor) “Obra Completa de Camões Pequeno, Francisco Álvares de Nóbrega”.

    De registar a qualificada abrangência da parceria organizadora do evento – o Centro de Estudos Globais da Universidade Aberta, a Biblioteca Nacional de Portugal, o Instituto Europeu das Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes e o Centro de Estudos Bocageanos.

    Se na apresentação e análise  do acervo bio-bibliográfico mais vasto de Daniel Pires tiveram papel de charneira Miguel Real e José Pacheco Pereira, entre os prelectores, já no que concerne ao “Nosso Camões”, coube a José Eduardo Franco e a mim próprio  o elogio do sonetista maior nascido em Machico no ano de 1773. Não deixa de ser de  fino toque expressivo,, em termos de sintonia telúrica, que sejam dois autóctones de Machico a debruçar-se sobre a mensagem de um conterrâneo seu, duzentos e cinquenta anos após o percurso existencial do poeta nos mesmos caminhos e veredas que ele calcorreou.

    Pelo apreço manifestamente visível de todo o auditório durante a exposição da vida e obra dessa apaixonante personalidade, ficou patente o olvido a que gerações passadas  relegaram Francisco Álvares de Nóbrega, em Portugal Continental e, diga-se em abono da verdade, também na Madeira, se exceptuarmos Machico, onde já antes do 25 de Abril  se evocava a sua memória, em 30 de Novembro de cada ano. O conturbado período ante e pós- Revolução Francesa de 1789, cujas conquistas libertadoras puseram a nú contradições irredutíveis dentro da própria Igreja – lembremo-nos do grande número de clérigos madeirenses filiados em lojas maçónicas – foi essa anómala conjuntura que levou a Inquisição a condenar à prisão do Limoeiro, em Lisboa, o nosso conterrâneo, na mesma cela de outro notável intelectual, o poeta sadino Manuel Maria Barbosa du Bocage.

    Daniel Pires, num labor intenso,  expurgou dos arquivos da Torre do Tombo documentos e testemunhos inéditos que esclarecem a nebulosa em que sucessivos regimes mergulharam  a vida e obra de Francisco Álvares de Nóbrega, os quais estão patenteados ao grande público nesta edição, apresentada anteontem na Biblioteca Nacional.

    A título exemplicativo, transcrevo a mensagem dirigida da prisão do Limoeiro pelo poeta ao “Sereníssimo Senhor Dom João VI”, impetrando clemência e liberdade, soneto este que serviu de mote a outros quatorze sonetos, cinzelados de mestria literária e profundo queixume doloroso:

                            Príncipe excelso, em lúgubre masmorra

                            A que jamais dá luz do sol o facho

                            Gemo ao som do grilhão infame e baixo

                            Sem ter piedosa mão que me socorra.

 

                            Por mais e mais que pense e que discorra

                            Em minha vida um crime só não acho

                             Seja qual meu delito, o meu despacho:

                            Que me soltem, mandai, ou que enfim morra.

 

                            Quem culpa  cometeu é bem que pague

                            E a cadeia fatal que o pé lhe oprime

                            Com lágrimas de dor embora  alague

 

                            Porém não consintais que se lastime

                            Na mesma estância e em confusão se esmague

                            A singela inocência a par do crime

 

      03.Out.24

      Martins Júnior

terça-feira, 1 de outubro de 2024

SAIR POR CIMA – ALVORADA REDIVIVA!

                                                                             


Dantesca, arrepiante e, ao mesmo tempo, inspiradora aquela    de horror e êxtase que nos trouxe Agosto em  chamas. Um fogo cachoeiro sem freio transforma em inferno horrendo  a cúpula cimeira das montanhas, E um todo-nada mais além e mais acima a placidez de uma lua de ouro cheia, serena e bela, subia a sua rota. Medonho contraste que, para apaziguá-lo, outro bálsamo não me ocorreu senão os alexandrinos que  Guerra Junqueiro dedicou Aos Simples:

                                                       


E a lua branca além por entre as oliveiras

Como a alma de um justo subia em triunfo  ao céu

        

         Do cenário observado e repetido nos incêndios da ilha e que aqui se descreve resulta uma conclusão geradora de um olhar optimista sobre a paisagem da vida e da história, qual seja o de sair por cima dos obstáculos e afrontamentos com que somos agredidos pelas vicissitudes cíclicas do percurso existencial.

         Assim, passarei ao largo das guerras, dos tumultos, dos incêndios, das torrentes diluvianas que inundam os media e perturbam o nosso equilíbrio neurovegetativo e darei guarida preferencial às ideias, iniciativas e movimentos que, como a lua positiva  por sobre  o lume destruidor, nos dão ânimo para prosseguir viagem.

         Por hoje, trago a notícia libertadora de meio-século daquele “Dia inteiro e limpo”, evocada em Machico pela Associação Cultural “Mãos d’Arte”., no Fórum local. O programa, ligeiro de tom mas rico de conteúdo, teve por mérito impressivo três momentos distintos: informação, coreografia e música. A informação esteve a argo do Doutor Bernardo Martins que, com mestria e acurado sentido pedagógico, transmitiu ao auditório o historial de “Machico no 25 de Abril de 1974”, aliás, a sua tese de Mestrado, relevando como protagonista dos acontecimentos a entidade “Povo”, sem o qual não teriam sucesso as conquistas então alcançadas, na esteira da Revolução dos Cravos pelos militares de Abril. Particularmente esclarecedora foi a entrevista a Manuel Gonçalves, um militar mobilizado na guerra colonial que, em certa medida, despoletou a reconquista da liberdade em todo o território português.

         A coreografia encheu o palco e a alma dos presentes com a exibição de um grupo de adolescentes numa linguagem gestual  demonstrativa da agilidade artística e mental caracterizadora da liberdade renascida no solo madeirense, na pátria portuguesa.

                                                                          


         A mensagem universal que a música representa em todos os tempos esteve ali  bem patente  em dois painéis complementares ‘ao vivo’: a nível vocal, pelo coro infantil “Flores de Maio”, do Porto da Cruz, que surpreendentemente, para mim e para o público, interpretou num estilo diáfano, angelical, uma rapsódia bem sequenciada das canções e dos cantautores de Abril. A nível instrumental, evidenciou-se a “TCM-Tuna de Câmara de Machico”, crianças, adolescentes e jovens da Ribeira Seca, que interpretaram a emblemática Grândola, Vila Morena, intermediaram com uma viagem melódica por Portugal Continental e Insular, terminando com a apoteose de “Machico, Terra de Abril”:

                                      A terra é toda verde

                                      O mar é azul de anil

                                      Machico verde verde

                                      Como um cantar de Abril

         O mais expressivo desta iniciativa e de maior alcance para a vivência concreta da sociedade é o facto de ter sido realizada, não no ápice das comemorações espectaculares da Revolução dos Cravos, mas no normal currículo dos dias. Não com a retumbância campanuda dos anúncios luminosos ou dos ecrãs publicitários, mas no aconchego familiar da comunidade machiquense. Porque o “25 de Abril” não é foguete de estalo nem jacto explosivo de lantejoulas cadentes: é o pulsar dos dias e das horas, é o ar que se respira e a manhã que se renova. E é o sol do meio-dia sobre o lume e as cinzas da noite!

         Hoje, 1 de Outubro – Dia do Idoso -  regressa também a alvorada da vida naquelas e  naqueles, como eu, que navegaram já os mares por outros navegados e por outros que neles demandarão as estâncias e os escolhos que nós já ultrapassámos. Glória aos Velhos, testemunhas redobradas do “Dia inteiro e limpo”!

              E no Dia Mundial da Música, canções mil – acordes vibrantes que derrubam barreiras e abrem clareiras de esperança no porvir das gerações!

 

                01.Out.24

Martins Júnior

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

O ESPÍRITO DE ANTÓNIO ALEIXO NO CORPO DO TRABALHADOR ! Respigos de um memorável encontro em Loulé






 Oportuno, estratégico, semeador de férteis colheitas a haver.

         Foi em terras de Aleixo, aquele que da rude terra e das palavras por polir fez de Loulé a oficina do pensamento crítico e lançou para o mundo ouro fino e pedras de jaspe duro atiradas à consciência universal, seja qual o tempo, seja qual o lugar.

Contado ao pormenor, resume-se a cerca de uma vintena de Aprendizes do Saber, Professores, investigadores, filósofos, psicólogos, historiadores, sociólogos, homens, mulheres, vindos de diferentes azimutes, de Coimbra, do Porto, de Lisboa, de Paris, do Brasil. E um único polo agregador: o universo laboral, mas explicitamente, a problemática do Trabalho. Em fim de férias e reinício da actividade – reabertura do ano escolar e do novo ano judicial, retoma dos programas áudio-visuais, debate  do Orçamento - do Estado, das Regiões, das Autarquias – nada de mais oportuno e estratégico do que fazer incidir o olhar clínico sobre o eixo propulsor de toda a transfiguração do Humus original, da Natureza primeva, em síntese, de tudo quanto existe: o Trabalho.

Desde a antiguidade, as forças produtivas e a relação da promoção, no regime ateniense, até à conceptualização do Trabalho no pensamento dos teorizadores da revolução industrial, a antinomia Capital-Trabalho, a ambição do lucro e a “empresa-máquina de moer trabalhadores”, o trabalho nocturno e suas sequelas, génese e desenvolvimento do sindicalismo, enfim, o percurso de um lustro de investigação, codificado este ano entre 3 e 6 de setembro, sob a égide da infatigável realizadora Raquel Varela e do sociólogo Roberto dela Santa, com o apoio da Câmara Municipal de Loulé. Da minha parte, coube-me o papel da Igreja Católica, particularmente em Portugal, sobre tão momentoso tema e respectivas implicações sociais.

Aguardamos a publicação, em livro, das incursões e perspectivas de acção traçadas ao longo destes cinco anos de análise e aprofundamento.

                                                     


  

Deveras revelador, para mim, o testemunho do Presidente do Município de Loulé, a encerrar a conferência do Prof. Dr. Duarte Rolo sobre a temática do encontro, partindo da obra de Adorno, o que motivou a interessada participação de munícipes, inclusive dos jovens, que encheram literalmente o salão nobre da Câmara.

Relevo a intervenção do Presidente Victor Manuel Gonçalves Aleixo – não fosse ele próprio neto do famoso e lúcido poeta António Aleixo – pelo vasto conhecimento das matérias focadas (situação rara em políticos da esfera executiva) e pela coragem frontal, esclarecida, dos módulos estratégicos a implementar para a vitória contra a supremacia hegemónica do mais forte, da ditadura capitalista. Confesso que me senti regressar à juventude e ao afã de outrora na luta pela recuperação do poder popular, no sentido mais positivo e construtivo deste termo.

Parabéns aos promotores, participantes e apoiantes desta nobre e promissora iniciativa.

 

07.Set.24

Martins Júnior

 

                 

   

                 

  


quarta-feira, 4 de setembro de 2024

60 ANOS PLENOS A SERVIR EM 90 BREVES ANOS A VIVER!

Merecia-a plenamente. E da forma como a organizaram: singela, sentida, vivida. E pelo palco

escolhido. E pela qualidade dos participantes. E pelo programa adequado, explícito, preciso.

Refiro-me à homenagem prestada ao Cónego Manuel de Freitas Luís Júnior, por ocasião do seu

90ª aniversário. O respeitável sacerdote passou por diversas paróquias da diocese, onde deixou

marcada a sua actividade, a diversos níveis: religioso, catequético, cultural e social. Mas, de todas,

aquela que hoje me proponho exaltar é a sua paroquialidade na, então, recém-criada jurisdição

canónica da Ribeira Seca.

Corria o ano de 1961, quando o Padre Luís Júnior, (sabe-me melhor esta designação mais

genuína) natural de Santana, chega à velha Capela do Amparo, construída em 1692, por Francisco Dias

Franco, morgado daquele burgo e capitão-secretário da Câmara Municipal de Machico. O primeiro

sacerdote residente da nova paróquia encontrou um povo bom e trabalhador, mas sem as mínimas

condições de existência: sem estradas, sem água potável, sem luz eléctrica, sem escolas. E pior ainda, a

própria capelinha, sede provisória da paróquia, estava muito degradada pelo tempo, até chovia dentro

e o próprio Padre Luís Júnior teve de pernoitar na sacristia, onde também caíam bátegas de chuva,

sobretudo na altura de tempestades torrenciais que impediam passar a vau o leito dos ribeiros, pois

nem pontes havia.

Foi visto o esforço do jovem pároco na construção da vereda junto à levada de rega, único

acesso à Capela do Amparo. O próprio padre carregou pedra do fundo da ribeira, ao lado dos

paroquianos, para o calcetamento da mesma vereda.

Imagino o sacrifício ingente do colega Luís Júnior, eu que, oito anos depois, fui nomeado para o

seu lugar, pois que ainda encontrei um povo desumanamente privado de água, luz, estrada. Imagino

ainda e pressinto na pele a árdua tarefa de construir a nova igreja em 1963, sem apoios nenhuns, além

das escassas poupanças e muita mão-de-obra do pobre povo da Ribeira Seca. Foi sobre este trabalho

porfiado que procedi em 1999 à requalificação e ampliação do referido templo.

Insisto em que foi esta passagem do Padre Luís Júnior pela Ribeira Seca como a sua ‘medalha de

ouro’ ao serviço da Igreja e do Povo de Deus. Dele pode dizer-se o adágio popular: “Comeu o pão que o

diabo amassou”. Porque nada havia e ele tudo teve de fazer para sobreviver e valorizar aquela gente.

Ele, o verdadeiro pioneiro da nova centralidade ali criada por decreto do Bispo David de Sousa!

Por isso, merecida foi a homenagem dos seus 90 anos. Aconteceu na paróquia de Santo Amaro,

no Funchal, lugar da sua residência pessoal. Sem espectacularidade, sem anúncios publicitários, sem

ostentação mundana, até sem a presença do bispo diocesano. Felizmente, ali compareceu o bispo de

Leiria-Fátima, José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, natural do Porto da Cruz,

juntamente com muitos habitantes da mesma freguesia. onde o homenageado tinha sido pároco muito

estimado pelo valioso contributo dado á Igreja e à Cultura. Paroquianos de outras localidades por onde

passou marcaram também presença simpática.

O Padre Luís Júnior a todos agradeceu, na sua alocução final, de improviso e sem esquecer

ninguém. Afectado pela cegueira física, parece que cresceu a sua visibilidade intelectual, a sua notória

espiritualidade.

Da minha parte, permita-se-me recordar três etapas da vida deste homem de Deus. Primeiro,

termo-nos conhecido no Seminário do Funchal: estava ele no 3ºano, quando eu entrei para o 1º.

Convivemos como bons colegas durante nove anos. Mais tarde, em 1961, era eu ainda seminarista e ele

pároco da Ribeira Seca. Vi-o mais de uma vez entrar na Câmara Municipal, com as costumeiras “botas-

de--água”, certamente ia ao presidente reclamar da falta de pontes nas ribeiras e de acessos condignos

para a população.

O terceiro episódio leva o selo da minha gratidão: Quando celebrei a minha Primeira Missa, em

1962, na igreja matriz de Machico, o Padre Luís Júnior foi um dos sacerdotes concelebrantes. Guardo

essa feliz memória, agora, 62 anos depois. Um abraço fraterno e o preito da minha sentida homenagem!

Aproveito a oportunidade para saudar, hoje, 4 de Setembro, as bodas de prata sacerdotais do

Rev. Cónego Manuel Gonçalves Ramos, natural do Porto da Cruz e que esteve também na homenagem

ao Cónego Luís Júnior. Venham outros 25!


04.Set.24

Martins Júnior