sexta-feira, 1 de novembro de 2019

O TRÍDUO CIRCULAR DE TODAS AS VIDAS – 31.OUTUBRO/1. e 2. NOVEMBRO


                                        

Saíram dos escombros que o bosão primeiro
 deixou cair no vácuo tenebroso, sem rosto.
cadáveres ambulantes, disformes, multiformes,
vaguearam toda a noite em desatino
desfloraram selvas incandescentes, virgens, nuas,
gelaram de pavor alcovas de crianças e leitos de libido

E amanheceram anjos translúcidos,
santos mil, milhões, e milhões mil
em pé de altar.
auréolas  na fronte e pão-por-deus nas mãos

Ao terceiro dia
secaram-se-lhes  os ventríloquos e os olhos  sem pupilas
finaram-se as asas de águia maga
e voltaram aos escombros do bosão primeiro
à espera do próximo halloween
                        
assim se divertem e revertem
                           os humanos mortais
                           no apertado cerco
                           onde se julgam imortais

31.Out/ 1-2. Nov.19
Martins Júnior
  


terça-feira, 29 de outubro de 2019

DOS MORTOS PARA OS VIVOS


                                                       

São os mortos os protagonistas deste acontecimentos. Mas não é para os mortos, não, o grito que sai dos túmulos. É para os vivos!
Vem de Espanha a notícia, para uns macabra, para outros gloriosa e necessária. Mas não é só para a Espanha o pré-aviso que dela vem. É para todo o mundo, para a nação, para a região, para o pequeno cantão que nós habitamos.
O acontecimento e a notícia dão conta da exumação (eu direi expulsão) do Caudillo Castelhano, Francisco Franco, o Generalíssimo, do Valle de los Caidos, o cemitério que ele próprio mandou construir para enterrar os milhares de vítimas da guerra civil espanhola (1936-1939) e muitos outros milhares de homens e mulheres assassinados durante a ditadura franquista (1939-1945). O mais repugnante e hediondo é o facto de ser ele mesmo a reservar, antes de morrer, um sumptuoso mausoléu encimado pelo mais alto cruzeiro, para servir de sepultura própria. Isto é: não satisfeito de massacrar e matar multidões de seres humanos, quis ele continuar a dominá-los, como carrasco soberano, até nas campas do cemitério! Abjecto. Imundo.
Já referi o acontecimento, no mesmo dia da exumação, saudando a decisão dos três poderes da Democracia – o executivo, o legislativo e o judicial – em mandar retirar do meio das vítimas o sádico ditador que as sepultou. Era  afronta demais  à dignidade humana consentir tamanho despudor! Foram precisos 44 anos para cumprir um imperativo básico da ética e da consciência político-moral de qualquer povo. Quem se opôs? Os herdeiros do fascismo espanhol, a direita e a extrema-direita e – pasme-se, mas é o costume – a Igreja Católica, com o falecido cardeal (sempre os cardeais) Rouco Varela, arcebispo de Madrid, a liderar o movimento pró-franquismo no Valle de los Caidos. Não admira. Foi a própria Igreja que cognominou o ditador Francisco Franco com o título Missus a Deo, o enviado de Deus às terras castelhanas.
O mesmo se passou com outros tantos magnatas do terror, torcionários incorrigíveis, endeusados pelos poderes temporais e pseudo-espirituais, os quais, após a morte, continuavam ‘canonizados’ nos altares do neo-fascismo. Nem todos os povos, porém, caíram na cegueira mais grosseira de perpetuar-lhes a memória. Pelo contrário, apagaram as pegadas criminosas dos facínoras autoritários, caso da Alemanha, que se empenhou em desnazificar o seu país. Em Portugal, tudo tem sido mais pacífico, inclusive a polémica sobre o eventual Museu em Santa-Comba-Dão.
O mais importante, nesta reflexão vai para os vivos. Para nós, individual e colectivamente. Não esperemos pela tumba dos ditadores para procedermos ao enorme dispêndio de forças e orçamentos destinados a retirá-los do meio das vítimas que eles ajudaram a matar. É preciso retirá-los, enquanto vivos. Expulsá-los do poder, se o não souberem exercer. O silêncio das vítimas engrossa o furacão dos poderosos incompetentes e, por isso, exigitivamente descartáveis. Nos governos, nas assembleias, nos municípios e, se possível, nos santuários.
Não esqueçamos que o mal, quando enraizado, lança os tentáculos muito mais longe que imaginamos. Subrepticiamente rasteja, enrola-se nos troncos futuros e injecta-lhes o vírus da prepotência e da intolerância, ambas caldeadas no verme da indiferença face ao seus serventuários. A geração de hoje será ré no tribunal da história se não estiver vigilante aos tiques de líderes de circunstância, encapuzados de salvadores, populistas, alarmistas de fantasmas imaginários em noites do Helloween!
Os espanhóis levaram 44 anos para, entre os mortos, separar o joio do trigo. Culpadas foram as gerações que os precederam. Deveriam tê-lo feito no tempo oportuno. É este o nosso tempo, é  esta a nossa Hora!
Esteja sempre inscrita em cada folha do nosso calendário a agenda (o que deve ser feito) sintetizada no princípio sócio-filosófico sobejamente conhecido: “o pequeno desvio de hoje resultará no fatal naufrágio de amanhã”.

29.Out.19
Martins Júnior

  

domingo, 27 de outubro de 2019

FARISEUS E PUBLICANOS – É SÓ ABRIR OS OLHOS!

                                                  

        Nada tem de poético, muito menos de romântico. Nem está no carunchoso baú de passadas velharias.  É tudo muito fresco, muito vivo, embora repugnante e detestável, mas tudo do presente. E do futuro. Enfim, é a mísera condição da corcunda curvatura da sociedade ou parte dela (parte grande!) que se apresenta emproada e opada à custa do vácuo interior de que é feita.
Vamos à casuística. É o trabalhador, indiferenciado ou não, mas incompetente e dobre que se põe em bicos de pés diante do patrão que lhe passa perto, diante do chefe, do director, em hora premeditada, oportunista, na mira de obter benesses de circunstância ou subida de posto, É a raposa astuta que se amocha no pântano do partido, mexe e remexe, enrola-se e desenrola-se, agacha-se e empina-se com o mesmo anti-pudor, só para saltar às costas do companheiro e camarada e ser promovido pelo presidente. É, ainda, o devoto beato, o clérigo calculista, o que nunca se compromete em causas prementes e decisivas para o bem comum, só porque a  meta final é trepar o topo hierárquico, a mitra, o barrete e, se possível, a tiara.
Ei-los todos em fila super-indiana, super-alinhados, erectos, impecáveis de trato e táctica, ostentando opados papos-de-vento inútil e falacioso. Eles por aí desfilam em cortejos, procissões, de vistosos círios na mão, como estátuas ambulantes de cera mórbida.
Nos antípodas, estão os verdadeiros operários, os oficiais subalternos, os cumpridores de enraizada consciência profissional, os que mesmo longe do chefe ou do capataz realizam o conteúdo oficinal que lhes compete.
Quem ganha e quem perde neste combate silencioso, mas gritante, que se repete no quotidiano das diversas sociedades?... O mais desconcertante é que, no critério corrupto das nações, são os primeiros – os emproados, os malabaristas ventríloquios, os oportunistas – são eles que comandando a sociedade corrompem-na até à medula dos ossos.
Vem de longe esta notícia. Trágica notícia. O Nosso líder e Mestre de Nazaré fez ouvir hoje a sua voz, precisamente, quando invectivou as classes dominantes, os intocáveis da sociedade israelita. Vem no capítulo 18 do evangelista Lucas. Vale a pena consultar e reler a narrativa dos dois homens que subiram ao Templo de Jerusalém, o fariseu e o publicano. A arrogância do fariseu, auto-elogiando-se e ufanando-se dos seus atributos mereceu  o  repúdio da sua prece face ao Supremo Juiz. Em contraste, o publicano viu a sua lealdade e o reconhecimento da sua frágil condição aceites e compensados pelas instâncias superiores .
Para o dia de hoje, para toda a semana, para todo o ano, para toda a vida há-de ficar em nossa memória o veredicto do Mestre que tem perfeita e adequada tradução no sapientíssimo provérbio árabe: “A primeira e maior recompensa do dever cumprido é ter cumprido esse dever”!

27.Out.19
        Martins Júnior \                                                                              

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

CAMPO REDIVIVO DAS MANHÃS DE PÁSCOA



Os subterrâneos da morte ergueram-se em fúria e arrancaram do seu meio o facínora assassino de milhares de corpos ali soterrados. O carrasco não tem o direito de habitar o mesmo bairro onde moram as vítimas que ele próprio matou. Agora no “Valle de los Caídos” não há vencidos, só há vencedores!
Doravante, é sempre Sábado de Alleluia, será sempre Manhã  de Páscoa!

         25.Out.19
         Martins Júnior

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

“O PAPA JOGADO AO RIO”



Decididamente o Papa é o elo mais fraco.
Quem o faz assim, frágil, isolado, alvo fácil, bradando aos quatro ventos, qual náufrago erguendo o poema heróico no meio das ondas revoltas? Não são os agnósticos, não são os homens da ciência e da arte, nem mesmo os ateus. Quem o difama, então,  quem o chama de herege, quem o ataca tão ferozmente que nem a centenária guarda suíça do Vaticano consegue defendê-lo?... São os seus próprios fâmulos, os da sua casa, sucedâneos dos intolerantes “Familiares da Santa Inquisição”. Eles são cardeais e bispos, eles são “funcionários de Deus”,  amanuenses  clericais e, na base e em força, os fundamentalistas da fé, também chamados de “ultraconservadores católicos” .
”Vimos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar” – apetece cantar, gritar a plenos pulmões a canção que fez renascer o autêntico animus evangelicus, uma alma nova para a Igreja e para o mundo, aquando da proclamação do Concílio Vaticano II, entre 1962-1965. Pois, hoje também  vimos, ouvimos e lemos o que acaba de acontecer em Roma: Católicos ultraconservadores roubaram de uma igreja e deitaram ao rio Tibre  cinco imagens oriundas da Amazónia, as quais representavam a gestação e a exaltação da vida.
Porquê?
Porque  no Sínodo que ora decorre em Roma até 27 de Outubro, o Papa  recebeu com honras oficiais um grupo de  representantes dos povos indígenas da Amazónia… Porque aos que criticavam a sua indumentária nativa, inclusive as vistosas penas ornamentais, o Papa fez saber que elas ali  não eram menos dignas que os barretes cardinalícios… Porque tomou a defesa da ecologia e do respeito pela floresta da Amazónia, contra aqueles que queriam ver o Papa amarrado à sacristia e ao palácio “apostólico”… Porque o Papa censurou e emendou a passividade dos que tornam obrigatória a práxis dogmática do “Sempre foi assim e nada se pode mudar”… Por tudo isto e pela abertura à verdade, à ciência, à natureza, à nossa “Casa Comum”, levantam-se agora os ultraconservadores (nome demasiado pomposo para designar os atrasados costumeiros, paralíticos do espírito) fariseus autocráticos, ditadores intolerantes (como veremos no próximo domingo) que se arrogam ter Deus preso no congelador dos seus crânios e a Religião embalsamada na naftalina do velho baú dos defuntos ignorantes.
A essa “estirpe” de brâmanes intocáveis, o Mestre da Galileia se hoje cá voltasse repetiria com a mesma veemência: ”Raça de víboras, sepulcros caiados por fora e podres por dentro. Vós  não entrais no reino e não deixais ninguém entrar”!
Por isso, repito o que deixei incluso no texto de anteontem: o Papa é o elo mais fraco. “Coitado do Papa Francisco – dizia-me um amigo teólogo -  não o deixam fazer nada, logo lhe caem em cima os corvos e os abutres do Vaticano”. Ao atirarem ao Tibre as cinco imagens que ele acolheu com carinho, foi a ele próprio que os católicos “exemplares”, os ultraconservadores  deitaram ao rio! Temos que resgatá-lo, dar-lhe força e apoio, não apenas recebendo com entusiasmo as suas instruções, mas antecipando-nos na descoberta da verdade, mesmo que isso cause fissuras no castelo de marfim, carunchoso e insalubre de velhos preconceitos com que a ignorância e a deformação do tempo nos marcaram. Tal como o servo ou o subalterno, em qualquer segmento produtivo, adivinha e pressente a vontade última do seu senhor, assim seremos nós, vigilantes e criativos na demanda da verdade, à luz da ciência, da história, do esclarecimento global.
Até em ambientes restritos da nossa quotidiana vivência colectiva, podemos abrir clareiras na paisagem anímica dos nossos “Compagnons de route”. Lendo, estudando, esclarecendo. Connosco, os ultraconservadores (que os há no meio da gente, sobretudo ignorantes) nunca se atreverão a deitar ao mar o Papa Francisco!

23.Out.19
Martins Júnior  

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

DEPOIS DE UM POEMA DE EUGÉNIO DE ANDRADE… AGORA


                               

Agora que os silêncios são a cinza
De um chão que nunca foi
Agora que a saudade já não dói
E o nada
Nada  mais é  que a campa rasa a nossos pés
É aí  que nascem  as palavras infinitas
Soltas aladas e  nunca ditas
Mas prenhes de loucura desmedida
Daquela que não cansa nem acaba
Porque nunca foi ao cais da Despedida

Agora as palavras são janelas
Por onde entra e sai o mar
Por onde as manhãs casam com o luar
E o sol estende toda a noite as cortinas do desejo

Agora as janelas reabertas
São nómadas ubíquas sem  paredes certas
E todo o mundo é o seu lugar
…………..
Janelas de par em par
Nunca mais hão-de fechar !

21.Out.19
Martins Júnior


sábado, 19 de outubro de 2019

HÁ MAIS VIDA ALÉM DA RELIGIÃO


                                           

Os recentes atentados do Daesh contra os Kurdos na faixa nordeste da Síria trazem de novo o pesadelo atávico de um passado tribal, onde à barbárie dos homens se junta a bênção de Alá. Esta tenebrosa relação entre guerra e religião é o deformado produto da condição primária do ser humano - contingente, frágil e impotente perante os comportamentos estranhos com que a natureza lhe amedrontava o normal quotidiano.  Era, na escala de Augusto Comte, o “estádio teológico”, por força do qual a divindade era a única explicação de todos os imprevistos, sobretudo as calamidades ocorridas à sua volta. O nosso épico imortal, em plena época renascentista, interpretando a ingénua crença dos marinheiros lusos, atribui ao santo tutelar os fenómenos atmosféricos que os assolavam nos oceanos, chegando a nomear os relâmpagos como o “fogo de Santelmo” – São Pedro Gonçalves Telmo, o guardador das gentes do mar.
A ignorância, o medo, a impotência perante o desconhecido tomaram conta dos mortais, tolheram-lhes os anseios de desvendar os “segredos da natura”. Esqueceram o mandato do Criador – “ Crescei e dominai a terra que vos dou”  (Génesis, 1, 28) – para apenas submeter-se ao estranho veredicto do Juiz Supremo – “Não toqueis na árvore da ciência, porque no dia em que comerdes do seu fruto, morrereis” (Génesis,2, 17).
Por inércia e comodismo, alimentados por outros tantos aprendizes de feiticeiro e/ou auto-proclamados  mensageiros do divino, o homem acomodou-se à crédula almofada das religiões e deixou-se ficar por aí, remetendo todas as suas referências para a superestrutura de um deus-à-sua-maneira. Até que, mercê do esforço de homens e mulheres, tocados pela intuição genesíaca – “Dominai a Terra” – ultrapassaram a fase transitória do “estádio teleológico” e implantaram no terreno da história a idade áurea do pensamento científico, o “estádio positivo”, em virtude do qual o homem assumiu a condução do seu destino, naquilo que lhe foi dado pelo Criador, penetrando nos caminhos da ciência e assim “dando novos mundos ao mundo”. Abandonou-se o império fatalista dos fantasmas ocultos, subiu-se a pedregosa  montanha da investigação e do saber e, dali, viu desdobrar-se diante dos nossos olhos um horizonte de perspectivas e poderes nunca antes alcançados.
É este a paisagem onde felizmente se movimenta o tempo que nos foi dado viver e que os nossos avós não tiveram a dita de atingir. Sabemos que os valores religiosos não são nem a exclusividade nem a totalidade da condição humana. Parafraseando um axioma do recente património português, diremos que há vida, mais vida para além dos padrões religiosos. Pelo menos, há vivências paralelas que não podem ser engolidas, apagadas ou esmagadas sob o jugo gratuito de epifenómenos episódicos, por mais piedosos que se afigurem, mas que serão sempre acidentais no percurso essencial de um povo.   Há os valores científicos, há as referências históricas, há a  nascença e a identidade de cada pátria, de cada burgo ou região.
Na época que é a nossa, da procura científica da verdade histórica, sobretudo no que concerne às raízes ancestrais que nos definem como cidadãos herdeiros de um passado, seria extrema e paupérrima veleidade ceder às tentações populistas de tempos obscurantistas, sob pena de trairmos a história  e sacrificarmos a verdade no cepo da mais crassa ignorância.
Já lá vão, bem distantes, os defuntos modelos do sincretismo religioso que retardou a marcha da história. Somos adultos. Somos esclarecidos. Longe de nós  a obsessão da falsa fé e do fanatismo islâmico que hoje perseguem o mundo civilizado.

19.Out.19
Martins Júnior