sábado, 13 de fevereiro de 2021

SEMEADOR DE ESTRELAS E PATRIOTA TELÚRICO

                                                                   


Gabriel Arcanjo!…

 A mãe lhe dera

Um nome e o mantivera…

Lindo nome!

Porque onde quer que ele chegasse, era a anunciação da Primavera.

A lealdade do sorriso, a transparência do olhar, o ritmo da sua voz!

Tão jovem – que jovem era!

Foi pensando nele e em todos iguais a ele que Fernando Pessoa escreveu “O Menino da sua Mãe”.  Como a luva que se desprende da mão, foi-se a luva e ficaram as mãos plenas de estrelas como um general e dóceis, humildes como sereno patriota servidor da grei.

Nos seus sonetos, Francisco Álvares de Nóbrega, “O Nosso Camões” , chamava a Machico “A Pátria do Autor”.

Gabriel Arcanjo bem podia dizer o mesmo. Em todos os gestos, em suas palavras, em suas emoções  - vi-o pessoalmente e por  tantas vezes -  palpitava um acrisolado amor pátrio à terra onde nasceu e cresceu.

 Não esqueço a sua presença imponente, sincera e emotiva quando em Lisboa apresentei os CD’s Machico, Terra de Abril e Viva a Vida, e ainda Poemas Iguais Aos Dias Desiguais. Onde estivesse Machico, lá estava Arcanjo Gabriel!

Que mágoa me ficou com esta partida tão cruel, que não nos permitiu concretizar a já programada iniciativa cultural autóctone… Cidadão do Mundo, ficou a sua obra de investigador exigente no respeito pelas fontes históricas.

Mesmo sem crer que nos já nos deixou, junto-me à sua volta, com seus pais, com seu irmão Mário Avelino, meu afilhado e a cujo casamento presidi (permitam-me este incontido estado de alma) e que tão cedo também transpôs a meta da existência. Junto-me aos familiares vivos, aos amigos – e tantos, tantos que eles são… para dizer num apertado abraço de homenagem e saudade: Morrer é só deixar de ser visto!

Como o Arcanjo Gabriel, na Anunciação, vaticinou a Boa Nova nascente, assim também sobre a lousa de Gabriel Arcanjo há-de ver-se um rasto luminoso a alumiar-nos enquanto houver caminho para os nossos passos…

13.Fev.21

Martins Júnior

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

VACINAS AO VENTO PARA DOENTES ANÓNIMOS – NO SEU DIA

                                                                              


Àquele que ditou em hora aziaga que “A vida é uma doença letal sexualmente transmissível”

eu, opositor de nascença, enfrento e digo:

A doença é um suplemento vital ascensionalmente invencível

 

Contra quem escreveu que “Sempre o pior mal é ter nascido”

peço a Gal Costa que cante e brade ao mundo o seu último poema:

“É preciso, ó doce namorada,

Seguirmos firmes na estrada

Que leva Nenhuma Dor”.

 

A rocha bruta, informe, não sofre,

antes sofre e estremece a fina e frágil porcelana posta ao vento

Quando a Dor é de seu  trauma tangente faz-nos chorar e gritar,

mas quando é grande, enorme, a mesma Dor faz-nos mergulhar num silêncio esmagador  

 

E porque transporto, imaginando, toda a Dor do Mundo, calo a minha voz e abraço todos os enfermos, todos os náufragos, todas as vítimas deste enigmático roteiro que nos foi dado viver

 

Somos todos doentes que transportam doentes

até à suprema saúde letal!

 

Volto a Gal Costa, no seu ‘Canto do Cisne’:

“Minha doce e triste namorada

Minha amada, idolatrada,

Salvè, salvè o nosso Amor,

Sigamos firmes na estrada

Que leva Nenhuma Dor”.

 

VIVA A VIDA !!!

 

         11.Fev.21

         Martins Júnior

 

 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

NO PLANETA HORIZONTAL, TUDO É HORIZONTAL – NÓS TAMBÉM! HOMENAGEM A DUAS MULHERES

                                                                          


Já que não nos é permitido deambular por entre os fantasmas invisíveis que, a qualquer momento e em qualquer esquina, podem picar-nos a pele e a vida, então sentemo-nos. Façamos um poema. Ou pintemos uma aguarela. Ou viajemos na rota do sonho.

         Como ponto de partida, desde o nosso sofá, leiamos em rodapé a notícia de alguém que brilhou como estrela polar no teatro musical, do bailado, da arte. E que arte, a das Supremes. Seu nome: Mary Wilson. Morreu ontem.

                                                                    


         Mary Wilson!... Mas este nome não é este - passe a tautologia. Mary Wilson já lá foi. Em 1916. Homónimas na cédula de nascimento, heterónimas no percurso existencial, simétricas na horizontalidade do seu epílogo, ambas são hoje aqui reerguidas e lembradas. Aquela, pelo timbre da sua voz avassaladora, fundadora das Supremes, ao lado de Diana Ross e Florence Baillard, revolucionou a musica pop,  levou ao apogeu a música e a condição afro-americanas, ganhou o galardão no Rock and Roll Hall of Fame, na década de 60. Esta, Madre Mary Wilson, nascida na Índia, em 1840, após a formação académica nas melhores escolas europeias, a que juntou o  curso de enfermagem, aportou à Madeira em 1881, como acompanhante de uma idosa doente. Aqui, longe das ribaltas mundanas e sensibilizada pelo ambiente deficitário da ilha, revolucionou o assistencialismo tradicional, abriu escolas, hospital e farmácia, numa época dominada por crises sanitárias e sociais, tendo criado uma importante organização de mulheres, a Congregação  Franciscana de Nossa Senhora das Vitórias, cuja acção tem moldado notoriamente os contornos da sociedade madeirense.

                                                            


         “Estranhos fados tão diversos”! Tão desencontradas as pulsões, os movimentos, os meandros correntes e os meneios d’alma.  E, paradoxalmente, tão iguais o cômputo dos dias e arquitectura dos fins: Ambas terminam a marcha precisamente aos 76 anos de idade e ambas viajam na mesma direcção horizontal!

         É neste ecrã que hoje me demoro. Por mais voltas que dê ao mundo e por mais sensores que possa clickar à descoberta das mais longínquas  estações, acabo sempre no mesmo exíguo quarto da horizontalidade corpórea. Todo o mundo é horizontal.

         Perto de nós, Carlos do Carmo é a voz horizontal. Mais longe, Leonardo da Vinci é a paleta horizontal. Einstein é a relatividade horizontal. Camões é a epopeia horizontal. “Le Roi-Soleil”, mesmo vestido de astro-rei, não é mais que o poder horizontal. E Cleópatra, Joana Princesa foram e as intocáveis divas “Miss Universo” serão um dia voláteis estátuas horizontais.  

         Seremos todos exemplares jacentes – seremos  estáticos e impotentes infra-robôs irremediavelmente postos, num minúsculo palco, aos olhares dos transeuntes, nossos ex-companheiros de viagem. E tudo quanto tu e eu e nós escrevemos ou cantámos ou chorámos “tudo caberá num estreito baú de dois (ou sete) palmos” – perdoe-me Eugénio de Castro ter-me apropriado do emocionado soneto que dedicou ao seu menino, prematuramente falecido.

         Para que seja bela, transcendente a nossa horizontalidade, vivamos na mais decidida e crescente verticalidade. Do embondeiro mais alto da floresta, daí é que se alcançam os horizontes distantes. E é por isso que “as árvores morrem de pé”!

         Neste chão coalhado de monumentos caídos às ordens de “Sua Crueldade Covid/19”, algo façamos para que os viventes, candidatos como nós ao mesmo pódio, vejam na nossa inevitável horizontalidade  os nobres horizontes de uma vida que valha a pena viver.

Como as duas ‘gémeas Mary Wilson, unidas pelos cem anos que as separam. Que elas nos permitam dizer: I Am Mary – Je suis Wilson!

09.Fev.21

Martins Júnior

        

domingo, 7 de fevereiro de 2021

SINTOMAS E DIAGNÓSTICOS DE MILÉNIOS – “E NADA DE NOVO DEBAIXO DO SOL”

 

                                                               


         É o meu recanto e o meu observatório de cada início de semana, a qual, sendo numericamente repetida, ganha um halo sempre novo quando vista deste lugar cimeiro. Hoje,  no lugar cimeiro está o LIVRO e dentro dele, no dizer de Alfred Tommyson, “o mais belo poema dos tempos antigos e modernos”. Passando além das diversas interpretações críticas – história ou conto – vejo-o como uma bem argamassada alegoria épica que toca a grandeza e a miséria do Homem, a sua genética fragilidade e, ao mesmo tempo, a resiliência vitoriosa de que é capaz.

         Nesta hora, apraz-me tão só reconfirmar o veredicto do Rei Sábio, Salomão, quando se deu de contas de que  nihil sub sole novi – “nada de novo acontece debaixo do sol”.  Ajuda imenso ao equilíbrio do nosso composto psico-somático constatar que, antes de nós, ou longe ou perto, são idênticas as pedras do caminho e são os mesmos os contornos da viagem.

         Recomendo a leitura  do “Libro de Job”, todo inteiro, mas particularmente no caso em apreço, o capítulo 7, versículos 1-10. Aí estão os sintomas de toda a morbilidade humana, com um tal realismo e uma tal crueza que parecem escritos pela nossa própria mão. Até em tempos de pandemia:

         A minha vida é como o vento que passa … a minha pele está seca, gretada … toda a noite dou voltas na cama até de madrugada … os meus olhos nunca verão a felicidade … Os olhos (de quem me ama) não tornarão a ver-me … E quando os teus olhos me procurarem, eu já não existirei …Como a nuvem que passa e se desfaz, aquele que desce à sepultura nunca mais voltará a subir… nunca mais voltará à sua casa e o seu lugar jamais o conhecerá…

         Trágico, deprimente, assustador! Certo. Mas não menos certo é constatarmos hoje, século XXI que, já no século VII A.C., (há mais de 2.700 anos) gente como nós sentia no corpo e no espírito o aguilhão da dor e, no caso de Job, da mais dura desilusão e do mais pérfido desespero. A História, seja repetição ou mera sucessão de factos, nunca deixa de ser a roda gigante que toca a todos, seja no epicentro, seja na periferia dos tempos. Contrariando o clássico  axioma, ousarei dizer que a vida é o grande rio que passa muitas e tantas vezes debaixo da mesma ponte.

         Neste clima  (aparentemente) estranho, onde as expectativas alternam com os reais dramas diários, o grande avatar que nos povoa tem um nome de mil rostos: sofrimento. Ousar fugir-lhe é como fugir da própria sombra. Confrontá-lo, derrubá-lo ou ultrapassá-lo – eis a saída. Tal como o velho lobo do mar que na velas sabe captar o vento contrário para levar a bom porto a sua nau, assim também o viageiro inato que há dentro de cada um de nós.

         Recordo aquela manhã de sol, de há 50 anos, quando fui celebrar a Eucaristia à marinhagem de um vaso de guerra francês ancorado no porto do Funchal e aí citei o elevado pensamento do poeta Alfred de Musset: L’homme est un apprenti et la douleur est son maître. O “Livro de Job” prova-o, à saciedade: “O homem é um aprendiz e o sofrimento é o seu mestre”.  

         E se me ficou gravado o optimismo transformador de Musset, muito mais me ficaram a voz e a alma de Vinicius de Morais, em São Paulo, no memorável concerto com Toquinho e Maria Medalha:

         Quem passou pela vida e não sofreu

         Pode ser mais, mas sabe menos do que eu

Porque a vida só se dá pra quem se deu

Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu

        

         Vencidismo, passiva resignação?... Pelo contrário. Não resisto a reproduzir aqui o excerto do “Fado da Minha Rua”, escrito e cantado nas serenatas de Machico de outro tempo:

         O nome da minha rua

         Tem o tamanho da gente

         Corpo magro que recua

         E alma que grita: Prá frente!

 

         E já que estamos na esteira da poesia que faz a metamorfose da prosa dos dias, impossível obliterar a conclusão de Musset: La joie a pour symbole une plante brisée: Humide encore de pluie et couverte de fleurs – A alegria tem por símbolo uma planta ferida (quebrada) : húmida ainda da chuva, mas toda coberta de flores.

         Como Job que reconstruíu-se em plenitude, a partir de dentro de si mesmo, também cantaremos vitória de olhos sempre postos na meta! Per angusta ad augusta: Pelo meio dos apertados desfiladeiros, alcançaremos o cimo da montanha! Com o nosso esforço, com as nossas restrições, com o nosso confinamento!

 

07.Fev.21

Martins Júnior

 

             

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

INFLAÇÃO PANDÉMICA: AJAM EM CONFORMIDADE E FAÇAM – A TRIPLICE LIÇÃO DO PASSADO

                                                                              


Eu, que não sou nada atreito a expor “estados d’alma” nestes dias ímpares, muito menos “despir-me” em público (até por isso detesto os estendais do facebook) venho hoje descarregar toda a bílis e todos os autoclismos em cima de tanto charco, de tanta sarna e de tanta babugem que os ecrãs, os opinadores, os ‘achistas’ os locutores e os loquazes políticos de alto a baixo despejam diante da nossa cara, presa aos noticiários.

É de uma interminável tragicomédia-de-rua aquilo que nos é servido, “ao almoço, jantar e ceia” (assim fala o dialecto madeirense), dando a impressão que cada cena é uma imbricada trança que reproduz outras tantas quantas os figurantes quiserem. Dá também a impressão que nós, os inquilinos terráqueos, não passamos sem isto, algo que faça faísca que produza o medo, depois a desconfiança e, no fim, a sentença no banco dos réus.

A Pandemia em três Actos, ao abrir o palco do século XXI.

Primeiro, o pânico que a todos nos tolhia, com a garra adunca da morte batendo à nossa porta e nós a esconder-nos como tímidas crianças nos biombos do confinamento. A seguir, o  intermezzo allegro ma none troppo que nos fez aliviar, tergiversar, divertir, para logo nos fecharmos como monges orantes acendendo velas nas aras da Pfizer, da AstroZeneca, da Moderna e afins. E elas vieram. E foi o Terceiro Acto: quando se esperavam solos de trompetes e marchas proclamatórias, eis que por causa de uns escorregadios “chico-espertos” (isso é algo tão estranho que não rime com o português  decerto?…) por causa desses mosqueteiros de pacotilha e alguidar volta outra vez a guerra, os quilómetros de fita em estúdio,  as quadraturas, as circulaturas, os eixos maléficos e os réus de lesa-magestade.

Poupem-nos. Poupem-me. Façam o que têm a fazer e andem para a frente! Já há traças demais com que nos coçar.

Por tudo isso, preferi outras companhias. Sabia que as encontro todos os anos nesta viagem tricircular, entre 4-5-6 de Fevereiro,  Em 4, assisto ao nascimento do fundador do moderno Teatro Português, Almeida Garrett, no ano de 1799. Em 5, acompanho à última morada em 2003 o maior poeta moçambicano, José Craveirinha, depois de o ter visitado em Maputo, três anos antes. E em 6, de 1608, saúdo a natividade do ‘Imperador da Língua Portuguesa’, o Padre António Vieira. Sinto-me bem, ouvindo as oportunas mensagens de cada um deles. Tão oportunas e frescas como buganvílias roçando os nossos ombros, quer dizer, plenamente aplicáveis à pandémica e babélica barafunda que anda por aí. Ofereço-vo-las, de bom grado;

                                                   


De Almeida Garrett, de ironia cáustica sobre os políticos e seus apaniguados:

Dizia-me um secretário de Estado, meu amigo, que para se repartir com igualdade o melhoramento das ruas por toda a Lisboa deviam ser obrigados os ministros a mudar de rua e bairro todos os três meses.

 

                                                        


De José Craveirinha, o seu ânimo libertador e a esperança no dia futuro, como um girassol por entre os espinheiros da exploração humana:

Do ódio e da guerra dos homens

Das mães e filhas violadas

Das crianças mortas de anemia

e de todos os que apodrecem nos calabouços

cresce no mundo o girassol da Esperança

                                                  


E do maior e mais eloquente Orador da Pátria Lusa, este pregão tão solene e imperativo como uma Encíclica Urbi et Orbi:

Nós somos o que fazemos. O que não se faz não existe.

Portanto, só existimos nos dias em que fazemos. Nos dias em que não fazemos, apenas duramos.

Agir em conformidade. Fazer. Alumiar.  No 4-5-6 de Fevereiro faço o meu Tríduo Pascal antecipado, com aqueles “que da lei da morte se vão libertando” e, por isso, continuo a vê-los e ouvi-los no ecrã planetário onde todos os dias nasce a Luz e ”Cresce o Girassol”!

 

05.Fev.21

Martins Júnior

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

NÃO CHORO PELA SUA MORTE… CHAMO PELA SUA VIDA !

                                                                        


Em cinzas dorme a couraça do guerreiro.

Só a couraça, porque o resto (e o resto é tudo!) não ficou nas cinzas, crepita e canta no braseiro que nunca se extingue.

         Amândio Silva – 82 anos. Toca-me, invade-me, projecta-me.

         Sem nunca nos cruzarmos na vida, agora reconheço que somos vidas cruzadas. Abria a década de 60 do século XX. E enquanto eu subia os degraus da Sé do Funchal para começar a servir uma Igreja que subservia o fascismo de Salazar (tão ingénuos que nós éramos)  o jovem Amândio alçava-se aos céus da lusa nação no famoso avião ‘Super-Constellation’ (desviado entre Casablanca e Lisboa) para, com outros cinco corajosos patriotas, lançar um grito de alarme (mais um!)  contra o regime totalitário do ditador que, não satisfeito em esmagar o “Bom Povo” na metrópole, enviava para o matadouro da guerra colonial o sangue novo de Portugal.

         Já antes, em 1959, Amândio da Conceição Silva perfilara-se na histórica “Revolta da Sé Patriarcal de Lisboa”, solidário com o movimento de sublevação anti-salazarista, convocado por católicos inconformados com a situação do país e contra o manifesto colaboracionismo do Cardial Cerejeira.

         Sem nunca o ter encontrado na vida, os nossos caminhos entrecruzaram-se nas rotas de um ideário libertador. Tentei seguir as mesmas pegadas, ainda que não lhes conhecesse o autor, tal como se abraçam no pleno da luta todos aqueles que, perto ou longe, sonham com um mundo melhor, a “Casa Comum”, aberta a todos e por todos igualitariamente respirável.

         E um dia chegou – 27 de Abril de 2019 – uma multidão de ‘íntimos desconhecidos’   em frente dos fatídicos portões da cadeia de Caxias! A festa não podia ser maior: toda aquela gente estava ali para comemorar os 45 anos da Liberdade, aquela manhã memorável em que eles, os mesmos ali presentes, tinham alcançado o Dia Novo pelo qual tanto haviam sonhado, lutado, sofrido. Um deles: Amândio da Conceição Silva!

           Inesquecível, avassalador, sublime foi ver abrirem-se os portões verde-escuro e logo irromperem em alvoroço 45 crianças, de cravos em punho, gritando “Liberdade, Liberdade”! Eram netos saindo dos escombros onde os avós aprisionados ganharam essa mesma Liberdade.

         Nunca exaltaremos suficientemente o nome e a memória daqueles que expuseram o peito às balas da ditadura e afrontaram os monstros da opressão. “Não viemos do nada – dizia-me hoje, de longe, essoutro sonoro construtor de uma “Terra Prometida”, outra “Jerusalém” - Francisco Fanhais. “Antes de nós, outros deitaram raízes e regaram-nas com muito sofrimento e muita luta”.

         Esquecê-los é anularmo-nos a nós próprios. É com eles que libertamos os inocentes condenados pelo império da força. Precisamos hoje e sempre  dessa couraça de heróis para arrancar de todas as cadeias todos os Navalny’s que ainda jazem neste planeta.

         Amândio Conceição Silva:

A teu lado, em Caxias Libertada e na Vida que te chama a toda a hora!

           

         03.Fev.21

         Martins Júnior

 

domingo, 31 de janeiro de 2021

QUEM NOS AJUDA A PASSAR A(s) PONTE(s)?...

                                                                              


Onde há muros há pontes. Porque não há pontes sem muros. Eles são os pilares, são as guardas e os guias atentos para quem tem de atravessá-las em segurança.

Entre Janeiro “velho” e um Fevereiro “novo”,  precisamos de um guia que nos ajude a transpor sem medo essa estreita e movediça passagem. E não só essa, mas todas as outras, porque a vida outra coisa não é senão ganhar ânimo para ultrapassar quantos arcos se nos deparam no percurso.

Líderes, guias, seguranças – eis o que o mundo procura e tão raro encontra. Eu achei-o, ao aproximar-me da Fonte – o LIVRO – como é propósito meu em cada fim-de-semana. Achei-o, em primeira abordagem, no Deuteronómio (um dos cinco livros do Pentateuco, atribuído a Moisés), remetendo o leitor para a sua melhor interpretação, onde se conta que  para evitar que o povo morresse de pavor, como no Monte Sinai, quando Iahweh falou no alto  da montanha em chamas e a toda terra a tremer, foi passado o testemunho ao profeta, com este solene e drástico pré-aviso (Deut. 18, 15-20) :

‘Porei as minhas palavras na sua boca e ele dirá ao povo só aquilo que Eu lhe ordenar. Contudo, se o profeta ousar proferir alguma palavra em Meu nome, que Eu lhe não tenha mandado falar, esse profeta será réu de morte’.

Tremendo paradoxo! O povo liberta-se do medo terrífico do Monte Sinai, mas o procurador de Iahweh, o Seu mensageiro exercerá a liderança mantendo-se fiel à matriz original, sob a ameaça de pena capital!...

Só pode ser líder e guia nas periclitantes passagens de nível da vida quem mantiver a lucidez no olhar e a corajosa frontalidade de remover os obstáculos adversos. Sem tibieza, sem híbridos subterfúgios diante dos poderosos. Como Moisés frente ao Faraó. Como Pedro e Paulo perante o Sinédrio. Como Jeanne d’Arc no tribunal dos bispos inquisidores. Como Luther King e Mandela. Como tantos heróis desconhecidos na turva noite dos ditadores.

E a Igreja?... As Igrejas?... Pesado, inexorável Tribunal da Consciência!... Quantas vezes os auto-proclamados procuradores do Além falaram, decretaram, impuseram normas e pesadelos aos ombros dos crentes, como se fossem preceitos divinos, quando não passavam de grosseiros interesses classistas, requintados privilégios mundanos, cedências sacrílegas no altar dos poderosos, dos exploradores, príncipes do capital e do obscurantismo!!!

Protótipo perfeccionista, ao mais alto nível, de líder e libertador do ser humano, traz-nos também o LIVRO neste fim-de-semana:

‘Que nova forma de ensinar! – diziam, extasiados, os judeus ao ouvir o Nazareno na sinagoga de Jesrusalém – E que autoridade nas suas palavras. Tão diferente dos nossos doutores da Lei’. (Mc.1,21-28).

Com que  “Autoridade”!

A condição incontornável do líder é dirigir com “Autoridade”. Coloco entre comas, porque Autoridade não é, como usualmente se diz, não é sinónimo de Poder. Há uma diferença abissal entre Potestas e Auctoritas. Potestade-Poder  apoia-se nas armas, na força, na tortura, no dinheiro. E com esta armadura produz a guerra, o medo. A “Autoridade” é algo intrínseco à liderança, ao espírito com que se dirige, ao humanismo inerente a cada palavra e a cada decisão. E aí nasce a paz, floresce a liberdade. De entre as muitas aproximações deste ideal programático, cito a mensagem de Joe Biden, na tomada de posse, em 20 de Janeiro p.p.: ‘A América deverá afirmar-se no mundo não pelo exemplo de força mas pela Força do Exemplo’!

Excelente paradigma comportamental em tempos de pandemia!

Para isso e só com isso se consegue realizar a optimização das relações sociais, expressa na assimilação dos dois polos opostos: governantes e governados. Grau máximo na cotação da liderança mundial seria quando os actuais responsáveis das nações não precisassem de ser autoritários para exercer a verdadeira “Autoridade” diante do seu povo. Mas aqui é o povo quem subecreve e confirma a “Autoridade”. Sem ele, campeia o autoritarismo inútil.

Antes de chegar à outra margem – Fevereiro à vista – quero erguer o monumento da gratidão global a esse enorme, gigante da verdadeira “Autoridade” que produz a educação cívica da Humanidade: João Bosco, o pedagogo, o Santo, o condutor da juventude, sobretudo nesta ilha, onde chegou a sua inspiração, com a fundação da Escola Salesiana. Também por ele, no seu dia, é grande e memorável o 31 de Janeiro!

  

     31.Jan-01.Fev.21

         Martins Júnior