quarta-feira, 5 de maio de 2021

DE ONDE SE FEZ AO LARGO A UNIVERSAL LÍNGUA MIGRANTE

                                                                            


        Quis o calendário gregoriano – e assim coincidiram os fastos nacionais e locais – que o “Dia da Língua Portuguesa” ganhasse o pódio central da semana maior da Capitania-Concelho de Machico, a Primeira da Diáspora Lusa, por outorga directa do Infante de Sagres a Tristão Vaz Teixeira, em 8 de Maio de 1440.

         Precisamente, hoje, 5 de Maio, hasteia-se a bandeira multicolor do nosso Portugal: “A Minha Pátria é a Língua Portuguesa”, já a definiu Fernando Pessoa. Por isso, outra lauda mais alta não haveria como esta de anunciar os “Anais do Município da Antiga Vila de Machico”. Porque as bucólicas “ Cantigas de Amigo” da poesia trovadoresca, a “Menina e Moça” de Bernardim Ribeiro, as crónicas de Fernão Lopes, o “Leal Conselheiro” de D. Duarte e. mais tarde, o génio de Camões e a eloquência  de Vieira ficariam confinados ao rectangular cadeado continental, se nas barcaças dos velhos lobos do mar e no seu bojo arrancado ao do pinhal de Leiria não viajasse o verbo atlântico e não balanceasse  o ritmo canoro da Língua-Mãe da nossa nacionalidade.

         De onde se pode inferir que, ao mesmo tempo que a Madeira se afirmou como baluarte e diocese de aquém e além-mar, até África, Brasil, Índia, também se deverá sinalizar Machico como epicentro propulsor do idioma português transmitido e multiplicado por esse mundo fora. Por aqui passou o rio subterrâneo do linguajar da gente lusa na demanda dos vastos horizontes do planeta.

         Merece, pois, redobrado aplauso a iniciativa da edilidade machiquense em dar à estampa o ‘Livro de Ouro’ do nosso Município, da autoria do escrivão municipal José António de Almada, publicado no periódico A Flor do Oceano, no cumprimento do Alvará Régio de D. Maria II (1819-1891) e determinação do Governador José Silvestre Ribeiro (1807-1891) Será o culminar das comemorações do “Dia do Concelho”, em boa hora reposto no seu galarim histórico (data da sua nascença oficial no quadro administrativo de Portugal) após largo debate e apreciação pública nas cinco freguesias do Município.

Por hoje, limito-me a este apontamento casual, permanecendo o intuito de reproduzir uma visão global dos “ANAIS”, em cujo  Prefácio deixei exarada a síntese do histórico documento. Entretanto, não resisto a sublinhar um dos aspectos mais impressivos do referido Prefácio:

“Uma nota peculiar perpassa, desde o início, nas páginas da obra identitária de Machico, o seu espírito autonomista e a indefectível resiliência da população na defesa dos seus direitos e legítimas prerrogativas, fosse contra a prepotência dos governantes, fosse nos conflitos jurisdicionais e/ou fronteiriços inter-concelhos, fosse ainda na reconstrução da sociedade local pós-epidemias e catástrofes naturais. Agradecemos ao autor José António de Almada o ter vincado este honroso carácter genético para os vindouros, também para nós, hoje, construtores de um Município evolutivo”.    

         Ficaria severamente claudicado este breve apontamento se não prestasse homenagem ao intenso trabalho de criteriosa análise dos Professores e Investigadores Ana Cristina Trindade, Carlos Barradas, Luisa Paolinelli, Paulo Perneta, Rui Carita, Naidea Nunes, Thierry Proença dos Santos.

         Justas saudações ao Presidente do Município Ricardo Franco e à sua equipa pelo manifesto serviço prestado à História e ao Povo de Machico.

 

         05.Mai.21

         Martins Júnior

segunda-feira, 3 de maio de 2021

O MILAGRE DA ARTE QUE HUMANIZA OS MILAGRES DO LARGO

                                                                        


É o Largo mais largo da nossa história insular, ali onde “a terra acaba e o mar começa”. Ali, onde pisaram chão primeiro os navegadores ‘achadores’ da Ilha. Ali, onde o Senhor Infante implantou a sucursal da ‘Ordem de Cristo”. Ali, onde as Misericórdias” da Rainha Santa estenderam além-mar as generosas mãos. E se, por cada ano, se medissem os quilómetros de história, o Largo guardaria uma biblioteca de  seiscentos quilómetros de extensão.

Sala-Nobre da Primeira Capitania da Madeira, fundada em 8 de Maio de 1440, o Largo foi também testemunha e vítima das convulsões anárquicas da Natura, tanto as que cavalgavam do mar para a terra como as que torrencialmente investiam da montanha para a baía quando adormecida. Desde 1803, porém, chamaram-lhe “Largo dos Milagres”, recordando a tenebrosa aluvião que arrastou para o mar revolto pessoas e bens, capela e imagens, posteriormente recuperadas - um acontecimento trágico ocorrido em Machico e no Funchal e que milhares de velas e archotes evocam na noite de 8 Outubro, num ambiente de compunção e de crente dramatismo.

 Hoje e de há mais de oito décadas – tantas quantos o conheço – o Largo é o centro de convívio dos homens do mar, pescadores no defeso da faina, também ponte de passagem obrigatória sobre o “rio” que separa as margens da cidade – “ribeira-rio” onde todo o ano corre a água. Estância de turismo acolhedor, o Largo no sítio da Banda d’Além, servido por típicos estabelecimentos abertos ao apetite e à sede de residentes e turistas, bafejado

pela saudável clorofila que os troncos centenários exalam e em cuja frondosa copa ouvia eu, na infância, o chilrear dos vistosos pintassilgos, hoje desaparecidos.        

Este é o palco e estas palavras são a cortina que abre a ribalta para um Acto Único do teatro existencial de uma população de seis séculos de vivências. Consumado neste domingo pela mão de artistas autóctones, o que atesta a autenticidade telúrica do Acto, trata-se de uma galeria de quinze figuras representativas dos lavores e tradições das terras de Tristão Vaz.                    


Para lá do apreço intrínseco da obra, merece inteira ovação o local predestinado para o efeito. O Largo é, sem sombra de dúvida, o meio ecológico e ecoestético para a sua implantação. Foi ali que Machico nasceu, cresceu e vive em evolutiva ascensão, dando cada geração o seu contributo para a construção da sua mais genuína identidade. Refira-se que o mesmo se pode dizer, não só de Machico, mas de toda a Madeira, pois “Foi Aqui que tudo começou”.

Sublinhe-se, prima facie, a feliz originalidade de situar as figuras em tamanho natural e a partir do solo empedrado, de modo que quem de ali se aproximar ver-se-á como que reflectido no azulejo representativo. Com efeito, a galeria é um desfile de personagens que espelham os diversos extractos sociais e profissionais da nossa história passada, presente e (pode seguramente afirmar-se) da história futura. A começar pelos barcos de pesca, o pescador, a mulher do pescador, o vendedor ambulante, as joeiras de outono, o traje e o folclore locais, a mulher de bilha junto ao fontenário público, o fato domingueiro, a vida rural e as crianças em redor, tudo ali está gravado para a posteridade.                                      


Parabéns aos artífices deste simpático painel de azulejaria, a juntar a outros grupos escultóricos mandados erigir pela edilidade machiquense. É a quinta-essência do serviço público: proporcionar aos moradores e visitantes fatias abertas do pão da cultura, disseminada e transmitida de dentro dos próprios muros da cidade.

Assim se completa a mensagem do Largo dos Milagres. Se uma vez por ano a fé dos crentes espiritualiza a vetusta devoção, por outro lado, a galeria azulejada diante dos nossos olhos humaniza as pedras da calçada e todos os dias enche de arte e história os que se sentam nos bancos do Largo para degustar o sabor de uma bebida e o ar puro das árvores seculares.

Excelente forma de iniciar as comemorações do Dia do Concelho no próximo fim de semana. Calorosos e merecidos aplausos!

 

03.Mai.21

Martins Júnior   

  

 

sábado, 1 de maio de 2021

O 1º DE MAIO E O SACRO-FOLCLORE made in MADEIRA

                                                                            


Com o madeirês confinamento a meio-gás, esta nossa Ilha é rica em tradição e inovação para consumo interno. Desde o “ir a maio” e o brejeiro “saltar a laje” até ao São Tiago Menor (que neste ano 500 de culto ficou em dobrada abstinência), tudo é festança ou miniatura dela. Pelo meio, fala-se no Dia do Trabalhador e no São José Operário. E talvez o melhor e mais sustentável fica de fora. Respiguemos um pouco da História:

O Dia do Trabalhador teve a sua origem na luta dos operários mártires de Chicago, em 1886. O Dia de São José Operário instituiu-o a Igreja Católica por iniciativa do Papa PioXII, em 1955,  para ‘tapar’ ou sacralizar o 1º de Maio, apanágio (que não monopólio) dos regimes de esquerda. O Dia do “Voto e Procissão  da Cidade”  vem desde 1521 quando, por sorteio, a edilidade de então nomeou São Tiago Menor Padroeiro principal do Funchal na luta contra a epidemia  que dizimou milhares de vidas.

Na Madeira assentou arraiais a Festa de São Tiago Menor. Neste Quinto Centenário do “Voto” ou Promessa, projectam-se  iniciativas várias, entre as quais a famosa procissão entre a Sé e a igreja do Socorro (Santa Maria) a inauguração de uma nova imagem do Santo e, ainda, a viagem das relíquias (duas, diz-se) do mesmo Padroeiro, desde Roma até à Madeira, com itinerância garantida por todas as paróquias da Região.

Mas o que confrange as mentes mais atentas e apouca a autenticidade do culto ao Bispo de Jerusalém é a ligeireza de trato, quase sonegação tácita, da Carta que o homem escreveu ao seu povo. E porque vem mesmo a calhar neste dia da dignificação do trabalho, o 1º de Maio, vou transcrever alguns excertos que apontam de forma veemente para a instauração de um regime de justiça distributiva, sem exploração do homem sobre outro homem, advento de uma sociedade igualitária. Deixemos que a sua mensagem entre directa e limpa dentro de nós:

Atenção, irmãos: Não andeis com esse jogo duplo de querer conciliar a fé em Jesus e, ao mesmo tempo, fazer descriminação de pessoas. Vou dar-vos um exemplo: Suponhamos que entra na vossa assembleia, na igreja, um homem com anéis de ouro e bem trajado. Entra também um pobre muito mal vestido. Vós, dirigindo-vos ao que está magnificamente trajado, dizeis: ‘Amigo, chega-te mais e vem sentar-te aqui neste lugar confortável”.  E ao pobre dizeis: ‘Tu ficas aí, de pé’ ou então ‘Senta-te no chão, abaixo do meu estrado”.  Vedes como fazeis descriminação entre vós próprios, desprezais o pobre. E isso é pecado. Porventura não são os ricos que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais?... Não são eles que blasfemam o belo nome que sobre vós foi invocado?... (cap.2, 1-8).

Mais adiante, assim brada o Bispo Tiago, verdadeiro pastor que defende o seu povo e cujas vestes (diria o Papa Francisco) tem o cheiro do rebanho:

E vós, ricos, o que tenho a dizer-vos é  o seguinte: As vossas riquezas estão podres e as vossas vestes faustosas já estão comidas pela traça. O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se e a ferrugem devorará a vossa carne como o fogo. Porquê? – perguntais vós. E eu respondo: Porque não pagastes o justo salários aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos! Esse salário está a clamar todos os dias. E ficai sabendo que os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do Universo. Vós explorastes e matastes o pobre e achais que Deus não vai opor-se contra isso?!... (cap.5, 1-6).  

            Estaremos despertos e vigilantes ao longo das comemorações dos 500 anos de culto a São Tiago Menor. E vamos guardar, interiorizar a sua Carta.

 

         01.Mai.21

         Martins Júnior

 

 

 

quinta-feira, 29 de abril de 2021

A MITRA, A SOTAINA, A MÁQUINA FOTOGRÁFICA E O ‘CASSE-TÊTE’ - CENAS DE UM ESTÁDIO CRISMAL

                                                                          


O título, em linguagem-cripto, toma a parte pelo todo ou o instrumento pelo utente, a figura de estilo chamada sinédoque/metonímia. Propositadamente, para não ferir os olhos do espectador/leitor com este quarteto tão bizarro: um Bispo, um Padre, um Fotógrafo e um Polícia. O “estádio crismal” designa o lugar do crisma, em contraponto com o estádio desportivo do Moreirense.

Pois, esta crónica vem mesmo a propósito do sucedido no referido recinto, após o jogo Moreirense vs Porto, precisamente aí, onde se consumou o escandaloso ataque de um tal Pedro Pinho ao operador de imagem da TVi. Acompanhei os comentários subsequentes, entre os quais, o de um ouvinte da ‘Antena 1’ – ao entrar no futebol, parece que as pessoas  ficam em estado de hipnose – e as adequadas extrapolações dos especialistas José Manuel Meirim e Manuel Queirós: casos destes passam-se noutros cenários e noutras circunstâncias.

O “Meu Caso” (diria José Régio) ou aquele que vou contar passou-se em 1977, num templo histórico e  espaçoso, repleto de adolescentes e adultos preparados para uma festa-espectáculo, denominado sacramento do crisma.

Entram em cena os quatro personagens supra-citados: um Bispo (a mitra), um Padre (a sotaina), um repórter foto-jornalista (a máquina fotográfica) e um Polícia (o “casse-tête”). A multidão (espectadores) inicialmente ficou no templo, mas depois também  envolveu-se  na trama. O epicentro da acção é a sacristia do referido templo. E foi assim:

O Padre, convidado para ser padrinho de um dos crismandos, foi impedido de assumir a função, apesar de estar munido do título comprovativo, passado pela entidade eclesiástica competente. Não te admito como padrinho. E não começo a cerimónia sem saíres da igreja, tens 5 minutos para abandonar a igreja – sentenciou o Bispo. E organizou, de imediato, um mini-tribunal popular, composto por dez homens que, para surpresa geral, não subscreveram a sentença. O Bispo, vencido, aproxima-se do Padre, aperta~lhe o pescoço com os dois punhos. Neste preciso momento entra o repórter fotográfico, em serviço de um jornal diário, e bate a chapa à agressão tentada. Acto contínuo, o Bispo ‘liberta’ o Padre e atira-se ao Foto-jornalista, puxa-lhe a máquina em repetidos soquetões e com tal violência, cujo resultado foi este: o Bispo fica com a máquina e o Fotógrafo com o estojo pendurado ao pescoço.

A cena continua. O Fotógrafo solta-se em altos brados: Quero a minha máquina, estou em serviço do diário, aqui está a minha credencial, quero a máquina, é o meu ganha-pão. Parte da população, impressionada, com o ruído dentro da sacristia, começa a invadir o recinto. Mas o Bispo, imperturbável, respondia pausadamente ao Fotógrafo: Não se preocupe, vou devolver-lhe a sua máquina, mas só depois de tirar o rolo. E se bem o disse, melhor o fez: extraiu o rolo. E aqui é que entra o Polícia, comandante do posto concelhio da PSP. Diz-lhe o Bispo: Senhor Sub-Chefe, pegue-me este rolo, fica à sua guarda.

O caso tem mais desenvolvimentos e contornos muito expressivos, até ao desfecho final, mas hoje ficamos assim. Vamos ao essencial, ou seja, o motivo desta crónica: dar razão aos comentários dos especialistas desportivos retro-mencionados quando referiram que não é só no calor do futebol que surgem idênticas reações comportamentais.

Analisemos sucintamente as semelhanças: um agressor, o Bispo (agredir não significa apenas e necessariamente esmurrar ou fazer sangrar); dois agredidos, o Padre e o operador de imagem, o Foto-jornalista; um instrumento de trabalho, a máquina fotográfica e (cereja em cima do bolo) um agente da ordem, o Polícia que, tal como o GNR, viu tudo e não interveio em nada.

Mas de onde teria surgido o Polícia?... Desde o princípio de tudo, lá estava ele, discreto, quase imperceptível, na periferia dos intervenientes. O público logo concluiu: Estava tudo combinado, ele estava ali ao serviço do Bispo. E tirou as mesmas ilações, há 44 anos, iguais ao jurista que ontem comentou na TV o incidente ‘moreirense’: A Justiça (neste caso, o agente da ordem pública) é forte com os fracos e fraca com os fortes.

Desconhecemos, por enquanto, o desenrolar dos eventuais processos criminais em curso. Quanto ao sucedido em 1977, sabe-se que o Foto-jornalista interpôs processo em tribunal. Entretanto o arguido Bispo morre, ficando extinta a causa. Esclarece-se, ainda, que os quatro intervenientes têm nome, sendo, porém, (e por assumido pudor) desnecessária a sua identificação, excepto a do cronista que, para memória presente e futura, é o mesmo que subscreve estas linhas.

 Finalmente, não pode passar desapercebida a diferença abissal em relação ao “lugar do crime”: de um lado, o profano recinto desportivo e, de outro, o sacro templo do crisma. Por onde se prova que, muito diferentes que nos queiramos parecer, somos todos iguais quando a hipnose do poder e a neurose da arrogância tomam conta do nosso Ser.

Quando mudaremos o Mundo?!

29.Abr.21

Martins Júnior

 

 

        

 

 

 

 

 

 

 

 

 

             

 

terça-feira, 27 de abril de 2021

SEMENTES DE JUVENTUDE NA PLANÍCIE DO FUTURO !

                                                                              


Contei os milhares de cravos-actos – são  17.167 – que cada português terá plantado à sua porta desde 1974, se em cada dia tiver realizado um acto correspondente ao espírito do “25 de Abril”. Porque é só isso que importa: actualizar=pôr em accão, sob pena de ficar esse memorável acontecimento confinado às poltronas dos parlamentos ou às ‘promenades’ vistosas de uma tarde de domingo, 25.

.E se, para uns, murcharam os cravos passados, para outros há sempre  ‘alguém que resiste’ algures e há sempre quem semeia cravos ao vento que passa e que se reproduzem depois nos canteiros onde vegetam pomos de depressão social. Muitos heróis que desconhecemos, que nem chegam à ribalta da publicidade, mas que mantêm na pele e na alma a transfiguração que Abril trouxe a Portugal! Outros há que nos chegam através de protocolares actos oficiais que, desdizendo em parte a raiz genética do “25 de Abril” do Povo, no entanto servem para trazer ao mundo distraído valores e mensagens libertadoras.

A Madeira acaba de vê-los, esses bandeirantes da liberdade e da estética global, em duas personalidades cimeiras do pódio regional, nacional e internacional. Vêm de longe e por onde têm passado ficam as marcas indeléveis do seu talento, tocado pela magia da descoberta, da utopia sem a qual o mundo não sonha nem avança.

Lourdes Castro, um nome que se pronuncia como quem apela à divindade criadora da beleza. Desde 1955, a sua primeira exposição no Funchal, tem navegado pelos arcanos da arte, conquistado vários prémios, com exposições em galerias e museus, tais como Londres, Paris, Havana, Belgrado, Varsóvia, Gulbenkian, Serralves. O toque definidor da sua mão situa-se no reino das sombras, no mistério escondido que estas condensam, a partir do comum quotidiano, metamorfoseando os passos e os gestos que o olhar baço do vulgo não consegue decifrar. Alexandre Pomar define a sua arte como a “visão em acto - apenas ver sem mácula e sem medo”. É assim que a revejo em “O Guardador de Rebanhos” de Alberto Caeiro E é assim que a pressinto em Sebastião da Gama: “O Poeta em tudo se demora”.

Assim Lourdes Castro, visionária das sombras no seu recanto de cenobita solitário. Quanto à comenda que lhe foi entregue, faço minhas as palavras do eminente  Professor Manuel Morais, no facebook. Quem lha outorgou não conhece de certeza a altitude soberana da arte de Lourdes Castro. Um dia, hão-de os poderes públicos emendar a mão e colocar no devido trono os 90 anos, férteis e mágicos,  desta nobre madeirense, cidadão do mundo.

  Trago no mesmo braçado de cravos vermelhos Alguém que tem semeado (por vezes incompreendido até na sua própria terra) notícias redivivas de “Abril” - o escritor polígrafo madeirense, Viale Moutinho, a quem acaba de ser atribuído o Prémio “D. Dinis” pelo livro “Cimentos da Noite“. Dos muitos cultores da escrita no nosso país, nenhum se aproxima da extensa versatilidade literária de Viale Moutinho, conjugando géneros e estilos de tão larga onda criativa, que vão desde o conto, o jornalismo interveniente, o ensaio, a historiografia, os rimances e lendas tradicionais, sobretudo da Madeira, até aos cumes da poesia e do romance. Quem fizer a história da literatura madeirense terá de reservar uma volumosa estante para assinalar a produção literária do incontornável, incansável trabalhador intelectual Viale Moutinho.

Felicito-o efusivamente pelo último sucesso. Há muito que não nos vemos e ainda hoje me pergunto por que esta ilha não aproveitou o filão dinamizador deste ilustre madeirense, enquanto cá residiu. A notícia do novo livro e o respectivo prémio  assumiram, para mim, a dimensão e o espírito de um Grande Cravo de Abril.

  É o que nos aguenta – e aguenta o ânimo nascido há 47 anos – ou seja, os actos e as pessoas que corporizam aqui e agora o feito heróico de há quase meio século! Poderia juntar aqui tantos outros passos na estrada, gente anónima, velhos e novos, que não deixam apagar a chama de um passado recente. Apontei estes dois exemplares, como protótipos de uma geração que promete continuar a marcha decidida, mais a mais numa altura em que os cadavéricos fantasmas de novos fascismos arquejam por abrir as fauces.

A terminar, melhor sopro de Abril não poderíamos ter do que a vitória judicial do professor Joaquim de Sousa, o intrépido docente da Escola do Curral das Freiras, saneado por um elenco de repressivos herdeiros do antigo regime. Ergamos a vitória do Professor-Lutador como o Cravo mais fresco da “Alvorada de Abril” !!!  

 

27.Abr.21

Martins Júnior

domingo, 25 de abril de 2021

17.167 !!!

                                                                               


Só haverá “25 de Abril” se em cada dia houver mais um cravo plantado pela nossa mão na terra onde vivemos. 

À semelhança dos alleluias da Páscoa, o “25 de Abril” está cansado de palavras. Ele quer actos, estatura, substância. Corpos e almas transubstanciados no húmus que alimenta os cravos e transforma as sociedades.

Se, desde 1974, plantámos um cravo em cada dia de vida, temos um imenso canteiro emoldurado de 17.167 cravos vermelhos que reproduzir-se-ão vitoriosos na planície do Futuro.

Cada acto – um cravo!

É o que tem feito o “Jardineiro” – nado e criado no Jardim da Serra – Padre José Luís Rodrigues, no Porto Santo, na Madeira e no mundo, através das redes sociais. E hoje homenageado num recanto de Abril: Machico e Ribeira Seca. Tal como fez o seu conterrâneo, o saudoso Padre Mário Tavares Figueira.

Serão úteis estas palavras se forem traduzidas em actos concretos. Sempre!!!

 

         25 de Abril de 2021

Martins Júnior                                            

sexta-feira, 23 de abril de 2021

PÉTALAS DO MEU LIVRO NAS FOLHAS DO MEU CRAVO ! – UMA CANÇÃO DE ABRIL

                                                                              


Porque  é o DIA MUNDIAL DO LIVRO, tudo me atira às nuvens para daí tecer as mais altissonantes loas em louvor do oceano cultural que nos trazem as páginas escritas, soletradas, desfolhadas. Mas estamos também na Semana dos Cravos – os cravos que nascem na terra e a ela nos prendem. E logo senti que livros e cravos, folhas e pétalas são água da mesma nascente, são húmus do mesmo chão que todos habitamos.

Mas será que os Livros nasceram na mesma manhã dos Cravos?

Eis a questão que se, por um lado, nos inspira poemas lunares, por outro obriga-nos a descer ao terro da vida – ou das vidas: a de antes e a de depois do “25 de Abril de 1974”.

E quando me preparava para sinalizar a diferença abissal entre  “o Antes e o Depois”, eis que um acontecimento, para mim fortuito, veio buscar-me de novo para a beleza poética e comovedora de uma exposição em pleno centro da cidade de Machico. Foi esse vasto friso que enchia de cor o chamado “Largo da Vila”, o toque de mestre inspirador do poema que queria dedicar à nova atmosfera que respiram hoje os portugueses, a começar pelas crianças – o ar puro e rico da Cultura, não obstante os ventos áridos desta pandemia.

As crianças das Escolas Primárias do concelho, acompanhadas pelas suas professoras, trouxeram ao espectáculo público uma Exposição eloquente, subordinada ao título: “Como vejo o “25 de Abril”?.

Podia esta pergunta ser endereçada a cada um de nós, adultos. Que resposta a nossa?...

Da minha parte, faltar-me-iam as palavras para descrever o que meus olhos viam naqueles painéis abertos. Porque? E era por aqui que ia começar hoje esta crónica.

Sinteticamente: Nós, os do “Antes”, bem nos lembramos da escassez de instalações escolares, das dificuldades extremas em frequentar a escola e da total impossibilidade que condenava o filho de um trabalhador do campo ou do mar a ficar sem acesso ao ensino superior. Quem podia entrar numa Universidade? Só os afortunados do poder e do dinheiro, os filhos dos senhorios, dos ‘proprietários’, dos capitalistas e de alguns comerciantes. O regime vedava os olhos ao Povo, retirando-lhe os livros e as hipóteses de lê-los. Consideravam os donos  do regime um perigo público aprender a ler. Por isso, os mais velhos, que não puderam ter escola diziam: “O caderno e a caneta que meus pais me deram foi uma corda e uma foice para ir à serra apanhar lenha ou roçar erva comida para o gado”.

Assim se deseducou um povo a andar de cerviz curvada ao chão, como escravos do século XX! Os poderes públicos e a própria religião tiravam opulentos dividendos do obscurantismo popular. Mísera sorte, a dos nossos antepassados!

                                                          


Com “Abril/74”, porém, varreram-se as trevas da ignorância e do analfabetismo. Todos tiveram caminha aberto para a sua escola, para a sua Faculdade, enfim, para a Cultura. Merece um hino triunfal quando vemos o filho de um operário fabril, agricultor ou pescador, franquear as portas da Universidade e um dia ocupar a cátedra de Mestre, de Juiz ou  Cirurgião.       

         No Dia Mundial do Livro, vi diante de mim os Livros abrindo em pétalas de beleza infantil, vi também os Cravos vermelhos abertos como as páginas de uma imensa enciclopédia – a Enciclopédia da Vida.

Parabéns às docentes de todas essas crianças, artistas do “25 de Abril”. E que magnífica lição ali nos dão com a sua exposição!... Enquanto muitos tentam abafar e secar os Cravos da verdadeira Liberdade, os alunos do Ensino Básico do concelho de Machico ergueram bem alto a bandeira vitoriosa da Revolução dos Cravos! Viva!

 

23.Abr.21

Martins Júnior