quinta-feira, 7 de outubro de 2021

APÓSTOLO DA INCLUSÃO – “EM VIDA” E PARA SEMPRE !

                                                                               


À hora que escrevo, estou a vê-lo em vida – “EM VIDA”, era o seu lema – descendo o templo do Campo Grande, com a estatura de um gigante e o semblante  transparente de uma criança que a todos nos tocava e prendia. No transepto, jazia o féretro de Maria Barroso, aquela que foi inseparável esposa de Mário Soares. Era a última despedida da sua igreja. Já lá vão seis anos feitos.

Entre a multidão imensa, Monsenhor Feytor Pinto deparou-se com um septuagenário, anónimo e discreto, também sacerdote, embora  proscrito pela hierarquia na sua ilha. E o Padre Feytor Pinto sabia-o bem.

- Então, vieste de tão longe?

– Sim, vim ao funeral da Dona Maria Barroso.

- Não fiques aqui, vai lá à frente, paramentar-te com os nossos colegas para a concelebração.

O septuagenário aceitou o generoso gesto do Pároco do Campo Grande, embora timidamente, pois lá estava a hierarquia nacional e vaticana concelebrantes das exéquias litúrgicas.

Jamais esquecerei a altitude evangélica e corajosa de Monsenhor Feytor Pinto, que sendo um alto dignitário da Igreja, recusava que o chamassem por outro título que não fosse o de simples Padre, Irmão e Pastor.

APÓSTOLO DA INCLUSÃO!

“EM VIDA” : com as crianças, os jovens, os casais, os doentes, os idosos. Vi-o e confirmei-o, todas as vezes que me recebia no seu gabinete, o seu Campo. Aí encontrei serena bússola para as duras encruzilhadas ocorridas na vida. Outros, muitos outros dirão o mesmo.

Campo Grande, a sua igreja. Mas ele era Maior que ela!

Por isso, beijo-lhe as mãos – gélidas da tumba, mas quentes do afecto que perpetuou no mundo.

Ficará sempre connosco, como “EM VIDA”!

 

07.Out.21

Martins Júnior

terça-feira, 5 de outubro de 2021

REPÚBLICA – ONDE MORAS ?

                                                                            


VIVA A REPÚBLICA! – proclamaram há 111 anos os revolucionários portugueses frente aos Paços do Concelho em Lisboa. Com o hastear da nova bandeira nacional levantaram-se, gloriosos, os valores republicanos, restituindo à grei o direito inalienável de marcar o futuro do seu país.

Cento e onze vezes têm-se erguido as vozes desse futuro sonhado em 5 de Outubro de 1910. Mas não são o brado nem o conceito que assentam os arraiais da Res-Pública.

Fiel ao seu registo histórico-etimológico é o Povo que faz a Rés, quer esta se chame coisa, facto, programa, projecto, palavra ou gesto. Por ser Pública, ela é nossa, de todos e de cada um! Se nós quisermos ela será o melhor de todos os mundos. E, da mesma feita, se nós a agarrarmos podemos fazer dela o pior de todos os regimes, mais corrupto que a monarquia.

República, irmã gémea – heterónimo perfeito – de Democracia!

República, onde moras?

E ela responde:

- No teu passo, no teu gesto, na tua mão, no teu esforço, na tua oficina, na tua mesa de estudo, na tua urna de voto, enfim, nos teus projectos.

Não procures a República fora de ti. Tu és o berço parturiente da República, não a mates à nascença. Deixa que ela irradie e se expanda pelo vasto chão onde ainda proliferam os obscuros vírus da monarquia e da ditadura.

REPÚBLICA somos nós!

E “5 de Outubro” é a nossa casa, restaurada e brilhantemente requalificada na alvorada do “25 de Abril”!

 

05.Out.21

Martins Júnior


domingo, 3 de outubro de 2021

OUTONO REVESTIDO DE PRIMAVERA NASCENTE – CERTEZAS E INCÓGNITAS

                                                                              


        Começar a semana quando começou o mundo: é inspirador e é premonitório. Porque sempre que o sol nasce ou a noite chega, há  a promessa de um amanhã novo à nossa espera. É o mundo que recomeça.

         Foi o LIVRO que nos trouxe hoje a inspiração, colocando-nos no ‘paraíso terreal’ como espectadores da criação dos dois  primeiro exemplares da nossa espécie: um Homem e uma Mulher. É meu propósito nesta fruição semanal, não a interpretação apologética do acontecimento, mas apenas um escopo serenamente didáctico sobre o mesmo.

1.     Da narração bíblica, que tem tanto de poético como de pitoresco e novelístico – é uma aberração imaginar-se, sequer, que a Mulher vale apenas uma costela do Homem – apraz-me citar o sábio teólogo Frei Bento Domingues: “Estas narrativas pertencem aos mitos de origem, não pretendem fazer ciência. Quem as lê como um dogma assinado por Deus perde o seu tempo e a ocasião de desfrutar da beleza destas peças literárias”.  Com efeito, a descrição de Moisés, no Génesis, (2,18-24) reflecte tão-só a mentalidade machista e patriarcal da civilização judaica e que foi severamente responsável pelo estatuto de subalternidade e servidão da Mulher através dos tempos, quer no judaísmo, no islamismo e na religião cristã e ocidental.

2.     O estigma genesíaco de ajudante ou auxiliar do Homem foi o pretexto para os fariseus proporem ao Nazareno a questão do “certificado de divórcio” que o marido tinha o direito de passar à Mulher, “despedindo-a por um motivo qualquer” (Ms.10, 2-16). Aí, o Mestre saiu em defesa da Mulher e instaurou o casamento monogâmico e indissolúvel, expressão máxima do Amor inquebrável, com todo o potencial de felicidade, entreajuda e plena realização que nele se contêm e, simultaneamente, com toda a gama de problemas, inibições e eventuais incógnitas que a vida traz.

3.     A este propósito – mormente os da vida conjugal – reproduzo aqui a observação que em África, Moçambique, no defeso das actividades militares, ouvi eu da boca de um emigrante europeu, aquando da Encíclica de Paulo VI, ‘Humanae vitae’ sobre a pílula e a limitação da natalidade: “Ó Capelão, explique-nos o que é que tem o Papa e o que é que tem a ver a Igreja para  se meterem na alcova do casal?”. Há segmentos e soluções que competem mais à ciência médica e psíquica do que à Igreja. Daí, a minha parcimónia no assunto, sem prejuízo do atendimento a quem o solicitar.

4.     Paralela a esta ideologia (e em contraposição) recordo aquele intelectual suíço que, há cerca de 60 anos no Porto Santo, confidenciou-me que dedicara a vida inteira  a neutralizar todas as tentativas de divórcio ou separação, convencendo casais problemáticos, quase  in extremis, a manterem a unidade conjugal. E justificou: “Ainda hoje sofro os traumas da separação dos meus pais, tinha eu apenas oito anos de idade”.

5.     “Maior milagre que mudar a água em vinho (como  nas Bodas de Caná da Galileia) é o milagre de unir duas vontades livres, essência do matrimónio. E suprema validade é o de conservá-lo por muitos e longos anos, contra ventos e marés.  Até os próprios pagãos, caso da Grécia Antiga, valorizavam a unidade conjugal personificada em Penélope e a tela que ela própria tecia durante o dia e desfazia-a durante a noite, sempre à espera do “seu” Ulisses levado para a guerra de Tróia. Com esse pretexto, evitou submeter-se ao veredicto do pai que pretendia casá-la com um príncipe pretendente.

6.     Nunca se sabe o que se passa dentro das quatro paredes de uma casa. Os tempos da pandemia que o digam. Por isso não nos é lícito julgar ninguém, muito menos na praça pública.

7.     E por isso também, Honra e Glória, palmas de Vitória a todos os casais que mantiveram acesa a chama do seu compromisso, superando dificuldades, atravessando vagas de mar alto, calcando sob os pés ensanguentados os espinhos e os abrolhos que se atravessaram no caminho.

 

Bem hajam todos aqueles e aquelas para quem a conjugalidade não foi apenas corpo. Foi também alma sempre viva e renovada !!!

 

02.Out.21

Martins Júnior

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

DIA DA MÚSICA, DA ÁGUA E DA LONGA IDADE

                                                                         




          

Estuário inaugural onde desagua

A tríade sem tempo  e sem finito

 

Do som primeiro que feriu o espaço

Das ondas do vento das plumas e dos pássaros

E se tornou partitura de inacabado compasso

Violino rajão tambor acordeão

 

Das águas virgens saídas do genesíaco terraço

Que o demiurgo bosão abriu

E se fez fio, levada, lago e vasto rio

 

Da infância uterina sempre rediviva

Que mesmo ré e da morte cativa

Renasce das próprias cinzas

E volta  em cada manhã

Ao porto-seio donde saíu

 

Outubro

Maduro e rubro

No seu leito mais antigo e profundo

Espelha-se a idade toda do mundo

Nas três sílabas pesadas

Há a primavera de Vivaldi e a clave de todas as baladas

No estuário calmo do seu peito

Água Música Velhice

Juntaram-se  para que todo o mundo ouvisse

As sinfonias gémeas de um concerto perfeito

 

        01.Out.21

         Martins Júnior

 

 

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

POR QUE VOTAS? ……………………............................... POR QUEM VOTAS?....................................................

                                                                          


    São para os directórios partidários as análises, os contornos e as consequências dos actos eleitorais. E nisso andarão bem se tiverem a coragem (para os perdedores) e a sensatez (para os ganhadores) de pegarem pelas raízes os resultados das urnas, pendam eles para onde penderem.

         Limito-me neste breve observatório à visão concreta, direi telúrica e genuína, que terá levado alguém a deixar a sua casa, o seu passeio, o seu cómodo para traçar aquela cruzinha mágica num papel colorido que lhe cai nas mãos. Justamente por isso, porque a cruzinha tanto se assemelha a um sinal de trânsito, a um GPS, como nalguns casos a uma arma para derrubar tronos e erguer mausoléus! Sinal de trânsito ou GPS decisivos para a livre circulação de uma sociedade inteira. Como partilhante dessa mesma sociedade não posso ficar indiferente, muito menos inerte ao fenómeno pós-eleitoral.

         Eis-me, pois, aqui para perscrutar as poderosas motivações (cada eleitor tem o seu poder autónomo) das votações. E, como já tudo passou, o tempo indicativo presente – ‘Por que votas… Por quem votas? – transforma-se no pretérito passado: “Por que votaste?... Por quem votaste?”.

         O assunto daria trama para um ‘fac-símile’ dos Diálogos de Platão ou os Apólogos Dialogais  e Relógios Falantes de D. Francisco Manuel de Melo, ou qualquer outro discurso directo entre votantes. Certo, mas tudo quanto dissessem os personagens em cena sintetizar-se-ia em dois polos distintos, duas motivações opostas, dois vectores conflituantes, que passo a identificar:

         De um lado, o votante comum (comum porque ele pertence a todas as classes sociais) ou cidadão-caracol da couve fechada, que só vê o seu mini-espaço e faz dele o epicentro do mundo: o seu chão, o seu beco, o seu tubo de água, o terreiro do seu casebre. E o seu voto, aquele GPS social que atinge toda a comunidade,, não tem mais tamanho que a torneira, o terreiro, a vereda estreita. E é só por isso, que se desloca à assembleia de voto.

Do outro lado, o cidadão do mundo (seja a cidade, o município, a aldeia) aquele cujo voto tem a dimensão de um enorme periscópio e que lhe faz ver o todo da cidade, do município, da aldeia, a tal visão holística que tanta falta faz aos programadores sócio-paisagísticos.

Enquanto para o primeiro conta apenas a visão egoísta, oportunista, auto-utilitária do voto, para o segundo outros valores mais largos e mais altos se levantam, torna-se altruísta, expansivo e generoso. Para o primeiro, o cidadão-caracol, “não votei no partido X, porque não me acrescentaram o beco ou a vereda. Eram só dois metros”. Para o segundo, “não me deram nada, mas votei nele, porque o presidente deu prioridade a um problema que era de todos nós”.

Enquanto continuar a medrar no terro das nossas sociedades o joio da raça-cidadão caracol, teremos sempre titulares medíocres, egoístas, oportunistas a dirigir o povo, sabendo-se que ‘um fraco rei faz fraca a forte gente’, já vaticinara Luis Vaz de Camões, desde há quinhentos anos.  

O calculista votante-caracol das chamadas ‘élites’ quer mais, muito mais: o emprego ‘pró-menino e prá-menina’, o apoio e a benesse para a firma, o cheque-em-branco polivalente nas horas. Quanta podridão me enoja em certas maiorias esmagadoras!!!

   Parafraseando o velho ditado, ajuntarei:

Diz-me por que votas e eu dir-te-ei quem és”!

           

29.Set.21

         Martins Júnior

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

PARADOXOS DA RESSACA

                                                                                  


A quem hei-de comparar aquelas duas mãos trémulas sobre um vulcão, impropriamente chamado ‘urna’,  vestida de negro?... E a que distância ficam uns dos outros, os parabéns, os choros, os traumas, os palanques, os esconderijos, as ambições e os trampolins que sobre a caixa negra se acobertam na ressaca das eleições – chamemos-lhe quarta-feira de cinzas de uma terça-feira de carnaval?!...

Enquanto os avaros contadores de boletins de voto apertam e salivam papéis com o mesmo afã como se fossem cheques bancários ou créditos  bitcoin, prefiro olhar o frenesi comum às incontáveis reações ao histórico (todos lhe dizem histórico, único, decisivo) domingo eleitoral. Aproximo-me da tenda-pipa do velho Diógenes e peço~lhe a chama do seu olhar pontiagudo para penetrar em dois patamares situados nos antípodas um do outro. E faço-o como quem procura serenar os ânimos atribulados da derrota ou refrear os estertores cavalares da vitória.

Olho, primeiro, a remota povoação de um genuíno “Curral de Moinas” e nele revejo todos os demais que se espalham por esse mundo fora. Lá estão derrubados a um canto os vencidos, o candidato ao bairro, ao beco, à sarjeta. Parece que o vulcão de ‘La Palma’ lhes caíu em cima. E agora, como vai ser isto?... Contam as espingardas, roem as unhas, queimam as pestanas sem sono, ‘eles hão-de pagar-mas’ – tudo somado, o planeta desabou.

Mas no mesmo dia, na velha Germânia e talvez na mesma hora, o SPD, a CDU, os VERDES, não têm pressa de formar governo. Com a fleuma que lhes corre nas veias, conhecem o peso que têm aos ombros, as exigências de uma economia alemã na esfera europeia, os delicados problemas diplomáticos com a Rússia, os Estados Unidos, a China. No entanto, apesar de terem o mundo no seu encalce, mantêm a serenidade, aparentemente impassível, perante os dilemas que os esperam.

Enquanto isso, em ‘Curral de Moinas’ discute-se a vereda, o poio, o tubo da varanda, o tacho pedido e agora perdido, a cunha ao presidente, a lâmpada fundida , questões ‘prementes’ que muitas vezes acabam em vias de facto e, contadas as ‘facadas nas costas’, as traições, os fura-votos, seguem~se perigosas guerras intestinas.   

 Bem sei que são os administradores das fábricas partidárias, com a habitual ganância empresarial, os autores incendiários das rixas e traumas em todos os “Currais de Moinas”, inclusive os directórios instalados que fomentam neuroses desmioladas até nas próprias cúpulas e são os mesmos que provocam depressões nos mais frágeis da população,

Ai, quantas emoções, negaças e ameaças, golpes baixos, mentiras e ilusões, promessas de compra e venda de consciência têm corrido nos subterrâneos das mesa de voto, ainda mesmo antes que o eleitor comum tenha lá chegado!...

Desdramatizemos essa passagem de nível - a votação – porque ela é feita para alcançar dias e rumos mais saudáveis e não para atirar pedras, cinzas e lavas na paisagem que é nossa. E também porque atrás de uma vem outra passagem de nível para inverter a meteorologia política em que deambulam sociedades e cidadão. “Há mar e mar...Há ir e voltar”!

 

27.Set.21

Martins Júnior

sábado, 25 de setembro de 2021

FÉ OU REVOLUÇÃO ?

                                                                           


É o LIVRO a minha praia de fim-de-semana. E maior é o meu prazer – quando não a minha enorme perturbação! – surfar sobre a onda gigante que do LIVRO corre.

Hoje, porém, picou-me sobremaneira um texto de Tiago Menor, que se- rá  lido em todo o mundo crente. Pela sua frontalidade e transparência, aí fica a mensagem, sem quaisquer comentários adicionais.

“Agora vós, ricos, chorai e lamentai-vos por causa das desgraças que sobrevirão contra vós.

As vossas vestes sumptuosas estão carcomidas pela traça.

O vosso ouro e a vossa prata cairão pelo efeito da ferrugem

Entendam:

Tudo isto acontece porque vós não pagais o justo salário aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos-.

Mas os protestos dos ceifeiros chegaram até aos ouvidos do  Senhor Deus do Universo”.  (Tiago, capítulo V).

 

25.Set.21

Martins Júnior