sábado, 13 de dezembro de 2014

DIA DE FINADOS E DIA DE NATAL Na Assembleia Regional da Madeira


Não é do meu gosto  escrever sobre as águas residuais, muito menos daquelas que escoam das políticas  mal cheirosas cá do sítio, já porque delas estão cheias os bidões da tinta impressa diariamente, já porque cada vez mais me convenço que estes esgotos não se limpam com paliativos de letra, mas com uma forte bombada de lixívia  anti-tarro velho. É nossa essa tarefa. De todo o povo esclarecido.
Mas hoje não podia deixar de assinalar o verdadeiro dia útil daquela inútil arrecadação que dá pelo nome de Assembleia Regional da Madeira. Esse, sim, dia “Ímpar”. o encerramento do debate do Plano e Orçamento para 2015,  anteontem .realizado. Curvo-me perante a dignidade e a verticalidade de toda a Oposição e repugna-me a maioria daquela maioria de sempre ( agora sovada e sem pio, porque dividida) e que, cega e surda, fica embasbacada perante o  “testamento vital” do ex-futuro exilado daquela casa. Segui-o, via RTP/M, coisa que nunca tinha feito, e fi-lo na esperança de lobrigar alguma luz de decência ao fundo de trinta seis anos e tal. Afinal, a mesma imundície da cabeça aos pés, isto é, desde o primeiro dia que lhe conheci naquela que ele transforma em caserna de um qualquer Biafra: a falta de nexo na conversa, a perda de rumo no discurso, a estafada “secreta triangular”, com a maçonaria à cabeça, seguida de uns rasgos lunáticos à espera que a Oposição reaja para lhe dar mais” guita”: depois, despe-se do verniz mínimo e aparece Gringo e Adamastor (pensa ele) e vocifera, espuma, esbraceja como um doido.
Doeu-me até à medula ver os esgares e os palavrões contra Edgar Silva, insultado por ter sido o primeiro na Madeira a insurgir-se contra os exploradores da pobreza infantil e da dignidade moral dos chamados “miúdos das caixinhas”. Só visto, contado ninguém acredita! Só eu sei o quanto de humilhação selvagem sofri no  antro do ex-futuro banido daquela tribuna, até ao ponto de me expulsarem da Assembleia por ter denunciado veementemente o roubo das pratas, essa tragicomédia que os DDT, os donos de tudo isso, da ALR, bem sabem onde param. Mas se muito deram,  mais apanharam, sobretudo naquele dia em que o Tribunal do Funchal deu razão à minha denúncia. e, subsequentemente, de cravo vermelho na lapela subi de novo  ao alto da tribuna diante daqueles que de lá me tinham expulsado.
O que fortemente me arrepiou foi ver o mais insolente caluniador e mais agarotado elemento daquela casa terminar o viscoso “testamento vital” citando o Evangelho de São Mateus, referente ao Juízo Final. Blasfemo! Não admira tamanha desvergonha da parte de quem deve tudo à Igreja do Paço episcopal,, aos bispos que o puseram no palanque e lhe tributaram idolátrica subserviência, a troco de uns pós de cimento e de uns órgãos para as igrejas.
Ele bem podia apostrofar (já que se pôs no trono do Eterno Juiz) com casos bem conhecidos seus:  ”Afastai-vos de mim, malditos, porque apenas engordastes os vossos amigos e serventuários… Afastai-vos, vós que vos banqueteastes e embebedastes em jarros de cristal à custa dos que passavam fome e sede… Afastai-vos, vós que decretastes a prisão de inocentes e protegestes criminosos do vosso partido… Afastai-vos”.
E afastado está, ao menos daquele púlpito. Dali já não sairá mais poluição. Nas minhas intervenções  sempre afirmei que, em termos de educação e civismo, o legado oficial deixado  aos jovens de hoje e de amanhã é  mais negro que o betuminoso das vias rápidas e mais sufocado que os vangloriados túneis sem luz ao fundo.
Podia continuar, mas deixai-me ficar por aqui. E logo concluireis do porquê de não querer falar das águas residuais cá do burgo. Tenho muito que contar. Talvez um dia!
De qualquer maneira, salvè o dia 11 de Dezembro de 2014, com a sua brilhante e contraditória simbologia: dia de finados para o obscurantismo despótico e dia de Natal para um Ano Novo parlamentar.
13.Dez.14
Martins Júnior

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

OS TRÊS PRIMEIROS E OS TRÊS ÚLTIMOS BISPOS DA MADEIRA Curiosas coincidências dos “500 anos” da Diocese


Não faltam temas e questões actualíssimas para comunicarmos mutuamente, desde os chamados “Dias Mundiais” (contra a violência doméstica, por ex.), os eloquentes e emocionantes prémios “Nobel da Paz”  (pensemos na  jovem Malala) e sobretudo a vasta inspiração que nos traz a quadra natalícia. São tantos os temas e os comentadores, que, da minha parte, prefiro debruçar-me sobre a tão proclamada “gesta” dos 500 anos da diocese, ainda quentes da celebração e da inauguração da estátua. E ouso, até, interpelar todo o católico madeirense sobre tal acontecimento: como o vê, como o lê, como o interpreta.
         Porque se, nas gloriosas efemérides da história profana, nos contentamos  com o festival de artifício em que se desenrolam, o mesmo não deveria acontecer com um fenómeno tão apelativo à consciência cristã como os cinco séculos de uma crença que nos legaram os antepassados. quais os conteúdos e os efeitos de tão respeitável tradição?  Já no anterior  artigo evoquei Camões, quando se referia ao enganado “povo néscio”  e, de novo, alerto  para que não  sejamos povo néscio, insensível, inconsciente.
Nas comemorações do V centenário, exaltou-se a proeminência da Arquidiocese funchalense por ter sido a Mãe de todas as outras dioceses criadas fora do território europeu, de “aquém e além-mar”: África, Ásia, Índia, Brasil, na América Latina. E,  para assinalar tamanha amplitude desse abraço ecuménico, aqui vieram bispos e cardeais, altos representantes dos citados continentes, iniciar com pompa e circunstância a largueza desse abraço.
Volvidos 500 anos, pergunta-se se cá dentro ainda existe a cultura do abraço inclusivo que a diocese-mãe de outros tempos  levou às mais longínquas paragens?
Em dois parágrafos apenas vou sintetizar uma possível resposta a esta pergunta:
Os três primeiros bispos da Madeira --- D. Diogo Pinheiro Lobo, (1514-1525),  D. Martinho de Portugal, parente do rei (1533-1547) e D. Frei Gaspar do Casal (1556-1569) --- dirigiram a diocese quase todo o tempo, a partir de Lisboa, onde tinham residência oficial. O primeiro e o segundo nunca puseram cá os pés e o terceiro acabou por  desistir do governo da diocese, após os últimos oito anos  de residência na capital. As distâncias  e  as dificuldades inerentes ao respectivo transporte impediram a assistência pessoal e continuada aos seus diocesanos.
Os três últimos bispos, os mais recentes, precisamente no pós-25 de Abril--- os prelados Francisco Santana, Teodoro Faria e António Carrilho --- nunca puseram os pés numa modesta igreja da Madeira, que fica a escassos 25 minutos do Funchal, apesar das inúmeras cartas dos paroquianos nesse sentido.  Chama-se Igreja de Nossa Senhora do Amparo, em Ribeira Seca, Machico.
Por agora, escusam-se mais comentários. Contra factos, sejam eles quais forem, não há argumentos. É caso para perguntar: após quinhentos anos, onde está   a Igreja inclusiva da  Diocese-Mãe de “todas as terras novas e a descobrir”? Como se confrontam as faustosas comemorações e os laudatórios monumentos com a realidade de três personagens que preferem acorrentar-se à carruagem do poder político em vez de proclamarem factualmente a liberdade dos filhos de Deus?
Para completar a farsa  perante um povo que julgam “néscio”, devo dizer que  achei muita graça quando um sacerdote intitulado vigário geral proclama, à porta da Sé e para as câmaras da TV, o corajoso apelo do Mestre “Faz-te ao largo”! Maior e melhor não podia ser a ironia das comemorações. De que largo estão a falar?  Do Poço… das Desertas, das Selvagens, das Índias, dos Brasis?
O “Largo” do Mestre fica ali tão perto, fica aqui mesmo na ilha!

11.Dez.14

Martins Júnior

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

“ACABOU-SE O QUE ERA DOCE” ADEUS, ADEUS, 500 ANOS!


Adoptei o amistoso ditado popular para dedicar estas linhas aos três “doces” anos --- longos, badalados, clangorosos 1096 dias --- --- que duraram e se arrastaram as comemorações dos cinco séculos da diocese do Funchal.
Não vou comentar hoje as ditas comemorações. Fá-lo-ei em breve, como é meu dever, porque os 500 anos também são meus, são de todos os madeirenses e, em minha opinião, cada madeirense  deveria apor a sua impressão digital neste Livro de Ouro quinhentista da sua ilha, enquanto cristão diocesano.
Contemplo apenas o fecho das festas. E tanto basta para aquilatar da sua essência. Finis coronat opus --- diziam os antigos que o fim é a coroa da obra, em termos mais nossos, é a cereja em cima do bolo. E que cereja!... que tem tanto de cerejão como de cerejinha pêca. Na realidade, onde estão os “atlantes” de além-mar, os filhotes da arquidiocese, espalhados por essas dioceses longínquas?...  Onde o rasto dos patriarcas,  núncios “apostólicos”,  enviados pontifícios? Esfumou-se o cerejão da espaventosa estreia para dar lugar à cerejinha da horta caseira, a prata doméstica, representativa dos medalhados locais --- os mesmos de sempre --- perfilados e emproados, à espera que o pontífice presidente lhes dirigisse a primeira palavra: “sr. representante de… sr.  presidente do… sr.  presidente da… sr. comandante daqui ou dali”… Só lhes faltavam as fofas almofadas vermelhas que, no meu tempo, punham aos pés do governador civil e do governador militar. Para lotar o templo, a coincidência aniversariante dos escuteiros que, pelo todo, farda, bandeiras e lacinhos, me trouxeram à lembrança a antiga Mocidade Portuguesa, especialmente no 1º de Dezembro, com todas as forças em parada. Da “legião” de presbíteros, os padres, poucas sombras brancas e até os dois bispos madeirenses, desconsolados e órfãos, aposto que incomodados, murmurando para a cruz peitoral:” Por que não eu, que sou madeirense, a presidir, em vez de um estranho algarvio que nunca teve a ver nada com estes cinco séculos da nossa bem-aventurada Madeira?!...
E para que nada fugisse ao protocolo do festim das comemorações autonómicas, faltava a estátua. E lá vai a caravana habitual das inaugurações, vira as costas a João Paulo II, passa à ilharga da grossa madona da Praça do Povo e arredonda-se na marca de “canto” do velho “Almirante Reis”, onde a água benta substitui a incenso para aclamar a gesta dos portugueses (mais uma aposta: alguns figurantes estariam  a dizer “cubanos”) que vieram trazer a esta ilha a Fé de Cristo nas caravelas.
Qual Fé?  Perguntem, se puderem, ao Zargo, ao Tristão, ao Afonso V, o “Africano” e ao próprio Infante D. Henrique, o que os moveu na ânsia das Descobertas. Império, Poder, Comércio, Riquezas exóticas. A Fé não passou de uma bengala do Império, tal como os capelães militares na guerra colonial,  tal como o Eminentíssimo Cerejeira servia de hissope a Salazar e os últimos três bispos para a Madeira mais não foram que manequins nas mãos do poder político regional.
Melhor comentário não acho para esta encenação babada e inútil, do que repetir a estrofe 95 do Canto IV dos Lusíadas:
Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos Fama,
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C’uma aura popular, que honra se chama!
………………………………………………………….
Porque tenciono voltar a este tema, faço minhas as duras, mas criteriosas observações do meu amigo Padre José Luís Rodrigues na sua página do “Banquete da Palavra”. E quando é que nós madeirenses abrimos os olhos, quando é que vamos acordar desta letargia com que se enchem igrejas, promessas  e procissões, em tudo talhadas à medida e embrulhadas nos pacotes  dos poderes mundanos, esses mesmos que nos carregam aos ombros com um peso maior que aquela cruz intrusa  a que chamam monumento aos 500 anos?
É ainda a estrofe 96 que, adaptada a este episódio, nos brada de longe e avisa:
Chamam-te Fama  e Glória Soberana
Nomes com que se o povo néscio engana
Obrigado, Luís Vaz  de Camões! Não queremos ser néscios ou parvos ou insensíveis.
9.Dez.14

Martins Júnior

domingo, 7 de dezembro de 2014

NATAL HAVERÁ SEMPRE! MAS DEUS… “DEUS AINDA TEM FUTURO ?


Nem de propósito!
Vivemos a euforia pré-natalícia como que embalados naquela onda mítica que, mesmo na estação gélida, aquece o poente de cada ano que passa e a todos bafeja desde o berço  ao ocaso das nossas vidas. O Natal não acabará jamais. É a ternura do Menino, é o calor das “lapinhas” madeirenses, é o sortilégio multicolor nas ruas, nas varandas, nas árvores e é, sem falhar, o comércio das grandes e pequenas superfícies que se encarregam de tocar as campainhas publicitárias avisando que está  na hora de trocar prendas. O Natal tem, pois, futuro garantido.
Indagar-vos-eis, estou a ver, sobre qual estranho toque foi este de fazer tão questionável sublinhado: “DEUS AINDA TEM FUTURO?”.
A resposta vem no título do livro, lançado, dia 4 pp,, no Centro Nacional de Cultura, Lisboa, no qual tive a grata oportunidade de tomar parte e intervir. É uma edição da “Gradiva” e compendia  o colóquio de três dias realizado em Valadares, sob a proficiente coordenação do conhecido e amigo nosso Prof. Dr. Pe. Anselmo Borges. Inclui as prestações de abalizados teólogos, nacionais e estrangeiros, cientistas, agnósticos, crentes e não crentes, mas todos preocupados com o Ser, “um tema inesgotável, sem fim e eternamente recomeçado”, no dizer do grande Mestre Aristóteles. Não vou decifrar os vários capítulos das 333 páginas impressas, dado que, após Coimbra, Porto e Lisboa, esperamos que o Funchal mereça brevemente as honras da sua apresentação.
Refiro-me tão-só aos oradores presentes na mesa: além do citado coordenador, também o presidente do CNC, Dr. Oliveira Martins; o presidente do Conselho Nacional de Bioética, Prof. Dr. Oliveira e Silva e o neurólogo, filósofo, teólogo, Prof. Dr. Javier Monserrat, da Universidade Autónoma de Madrid e da Universidade Comillas, também de Madrid,
Quero supor que para grande parte das pessoas este é um assunto arrumado: os que crêem crêem e os que não crêem não crêem. Ponto final. Mas não será bem assim. Basta pensar, por mais vasta que seja a nossa imaginação, nos milhares, milhões. biliões, triliões de livros que passaram pelas mãos de pensadores e pelos prelos das tipografias sobre o enigma de Deus, designadamente após as novas teorias do bosão, do big-bang, da evolução das espécies --- a inextrincável dicotomia “creacionismo-evolucionismo”. Por outro lado, não esqueçamos as decorrências que advêm da existência de Deus: as religiões e o seu séquito de superstições, angústias, medos e depressões; os fanatismos geradores de guerras, de sanguinárias enormidades; os tronos e ditaduras que se ergueram “em nome do Pai”; os mártires que pagaram com a vida a firmeza das suas convicções; os mitos estripadores da inocência original da psicologia humana e subsequentes explorações financeiras, enfim, cuidado, muito cuidado em desvendar e traduzir a transcendência e/ou a imanência da Divindade para os nossos códigos infinitamente distantes do Supremo Ordenador do Universo.
Claro que --- como tenho dito aos que frequentam o nosso modesto templo --- dá menos trabalho rezar que pensar. Mas pensar é preciso, é urgente, neste  exíguo quadrado que é a nossa vida.
E, por isso, o Prof. Dr. Oliveira e Silva abriu a toalha sobre a mesa com esta pergunta nevrálgica: “De que Deus estamos a falar?” e, na mesma linha, os restantes oradores e intervenientes do vasto auditório. E por aqui me vou ficar, deixando a cada um de nós a mesma interrogação essencial: “Em que altar e a que Deus presto o meu culto e a minha vassalagem?... E como será a face do Deus dos outros?”...  Desde já previno que a floresta da dúvida e do conhecimento nesta matéria não é caminho chão. Mas vale a pena procurar a Luz! Condição “sine qua non” para seguir viagem nesta rota das estrelas, cito o Prof. Dr. Javier Monserrat: “é absolutamente indispensável baixar as armas e abandonar toda espécie de ditadura do pensamento: “Que os teístas não sejam dogmáticos nem os ateístas sejam irredutíveis”.
Peço desculpa por este aperitivo, talvez demasiado denso, para o Natal. Repousemos o nosso olhar nessa criança-adulto da gruta de Belém que trouxe um programa didáctico ao mundo e pelo qual deu tudo quanto tinha: mostrar uma das faces de Deus, aquela que antes e depois dele, as instituições encarregaram-se de denegrir.

7.Dez.14

Martins Júnior

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

VELHO PREGADOR JOVEM REVOLUCIONÁRIO DE 400 ANOS HOJE MAIS PERTO DE NÓS!


A cada dia e a cada hora, em cada esquina na viragem da vida, encontramos, se quisermos, amigos do peito, companheiros da estrada que ali estão à nossa espera para dar-nos a mão e ajudar-nos a transpor as passadas do rio. Anteontem, foi o dia "ímpar" de José Afonso na "sua casa" em Lisboa, onde estivemos a apresentar o Cancioneiro e CD, "A Igreja é do Povo e o Povo é de Deus", a história do povo da Ribeira Seca, cantada e coreografada.
Ontem foi a vez de encontrar um outro"colega" de quatro séculos, na Aula Magna da reitoria da Cidade Universitária, também em Lisboa, a convite da Organização da Edição Monumental, em 30 volumes, de toda a obra do Padre António Vieira,  pelo "Círculo de Leitores"
Foi chão sagrado e fumegante aquele anfiteatro, Pressentia-se no ar o cheiro amazónico da palavra de António Vieira, seu vulto pairava sobre as nossas cabeças e enchia o nosso olhar longínquo, a que  os acordes da orquestra sinfónica da Universidade de Lisboa deram definição e espaço maior.
Dos oradores intervenientes, Eduardo Lourenço, Carlos Reis e Vasco Soromenho Marques --- qual deles o mais distinto ---  recolheu-se um monumento breve mas bem cinzelado do "Imperador da Língua Portuguesa", como o chamou Fernando Pessoa. Particularmente da parte de Soromenho Marques sobressaíram a coerência e o desassombro do missionário nordestino António  Vieira, com dobrado acento naquela que foi a denúncia da corrupção, na defesa dos marginalizados, na dignidade, oficialmente denegada e ofendida, dos índios e  judeus, além das invectivas veementes contra o colonialismo vigente, quer na Índia, na África ou no Brasil.
Um "Bem Haja, a toda essa pléiade de investigadores portugueses e brasileiros que, sob a direcção de Pedro Calafate e do nosso conterrâneo José Eduardo Franco, produziu durante dois esforçados anos um caudal de conhecimentos, sem paralelo, que vai inundar os dois países irmãos e todos aqueles que se debruçarem sobre o génio do escritor, político, diplomata, orador e missionário --- personagem excelsa que, em tão remotos tempos, ganhou, por direito próprio, o estatuto da dupla nacionalidade: português de nascimento. brasileiro de alma inteira.
Conhecer António Vieira enche a nossa condição humana e, mais do que isso, liberta-nos da moleza e da pusilanimidade com que a sociedade nos constrange. Faz-nos descobrir que a nossa curta passagem tem de deixar um rasto luminoso para todos os amanhãs.
Para completar estas duas horas e meia de contemplação activa, tivemos a palavra de António Vieira pela voz de um reputado ator do nosso teatro que disse perante o auditório o famoso "Sermão do bom ladrão", proferido em 1655 perante o Rei D.João IV e toda a sua corte, na Igreja da Misericórdia de  Lisboa, mas, como expressamente afirmou Vieira neste mesmo sermão, deveria ser pregado não ali, mas na Capela Real.

Já vai longa esta nossa conversação, Entretanto, ficaria tudo sem sabor se não reproduzisse, para si especialmente, este eloquente extracto do "Sermão do bom ladrão"
Ei-lo;
..."O que vemos praticar em todos os reinos do mundo é. em vez de os reis levarem consigo os ladrões ao paraíso, são os ladrões que levam consigo os reis ao inferno...
... O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao inferno. Os que só não vão mas levam são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam exércitos e legiões ou os governos provinciais ou a administração das cidades, os quais, já com manha, já com força, roubam e despojam os povos... Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo de seu risco, estes sem temor nem perigo.Os outros, se furtam, são enforcados, mas estes furtam e enforcam..."

Isto, há 359 anos!  Diante do Rei, dos ministros, dos juízes e conselheiros!

Vem de novo, velho pregador, jovem revolucionário.
É  DESSA  REVOLUÇÃO QUE O MUNDO PRECISA!

3.Dez.14
Martins Júnior  
                           

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

DIA PAR QUE SE TORNOU “ÍMPAR” Rua de São Bento, 170, LISBOA


Foi o que se deu ontem, dia 2, o qual, sendo par, fez-se “dia ímpar”, tomando esta adjectivação na sua dimensão semântica mais ampla. E de tal forma que hoje, já no sentido numérico do termo, ocupo o habitual dia ímpar com a feliz notícia ontem acontecida: o abraço, em Lisboa, de duas mensagens gémeas: a de Machico, Madeira, com a de Coimbra, Setúbal e Lisboa, conjuntamente na sede da delegação da “AJA - Associação José Afonso”, Rua de São Bento, 170. Cito apenas estas cidades, mas  poderia citar muitas outras vilas e aldeias, por onde o imorredoiro “Zeca Afonso” deixou  bem impressas as suas pegadas.
Após a apresentação no Teatro Municipal do Funchal e no Solar do Ribeirinho em Machico, surgiu  a iniciativa de levar a mesma ideia até ao continente português mostrando páginas sonoras da história da comunidade da Ribeira Seca, especialmente o último “Cancioneiro Breve” e respectivo CD intitulado “A IGREJA É DO POVO , O POVO É DE DEUS” que se completa  com o refrão:
“Queremos a Igreja sempre ao nosso lado
Como Deus viveu com o povo explorado”

E tal como reconheceu o próprio presidente da AJA, Francisco Fanhais, foi este o meio ecológico perfeito para fazer emergir na capital a voz de um povo que, nas mesmas pegadas de “Zeca Afonso”, lutou e continua a lutar e a afirmar o seu direito à  dignidade e à cidadania inteira, não pela violência mas pela arte, poesia, música e dança. Num ambiente minado pela mesma energia anímica que a todos tocava, projectaram-se no palco as imagens da coreografia com que os jovens interpretam na sua terra a história da suas gentes. Foi visivelmente emocionante constatar o interesse a identificação dos presentes com os conteúdos transmitidos na tela.
Os depoimentos calorosos de duas testemunhas oculares da nossa história local --- Fanhais e Frei Bento Domingues, que viveram “ao vivo” momentos altos  da Ribeira Seca --- encheram-nos de um conforto e de uma alegria tamanha. Aliás, foi Bento Domingues que fez a gentileza de apresentar o nosso trabalho. E fê-lo com a profundidade analítica que se lhe reconhece nos livros e nas crónicas semanais do “Público”.  Mas o mais sensível para nós foi a manifestação de proximidade que estabeleceu entre a mensagem do nosso “CD-Cancioneiro” e a abertura do Papa Francisco ao mundo, citando uma página inteira do último livro das homilias do Papa em Santa Marta, onde reprova o legalismo que mata e exalta o sentido profético, dinamizador, da Palavra e da Vida.
Surpreendente notícia que nos trouxe Francisco Fanhais foi a indizível alegria que sentiu, nessa mesma tarde, na sede nacional da AJA, em Setúbal, quando recebeu em mão o original, escrito pelo próprio punho de Zeca Afonso, em 1975, daquela canção “Os Índios da Meia-Praia” que fez parte da banda sonora do filme “Continuar a Viver” de António Cunha Telles. Preciosíssima descoberta e feliz coincidência no mesmo dia da nossa presença em “casa” de Zeca Afonso!
Tendo por fundo o mural pintado, em 2013, na Ribeira Seca, pelo artista continental António Alves, (e que reproduz nesta página) encerrou-se este encontro histórico, com a proposta mutuamente sugerida de criar-se na Madeira uma extensão da AJA, constatando que entre nós ela já existe no pensamento e na acção, faltando-he apenas a existência formal, com os respectivos  sócios e estatutos.
Aqui fica, para quem ler esta auspiciosa notícia, o convite para que se junte à grande família  “Zeca Afonso”, aquele que, abraçado lado a lado à estátua de Trisão Vaz Teixeira, encheu o centro da cidade com a sua e nossa “Grândola, Vila Morena”!

      3,Dez,14
      Martins Júnior

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

POR QUAL INTIMAÇÃO AMPUTARAM O 1º DE DEZEMBRO?


Passei as horas com a intermitência do 1º de Dezembro nas encruzilhadas do meu pensamento diário.
Digo intermitência, querendo dizer uma certa tensão ideológica interior entre o dever comemorar ou não essa data. Explico porquê.
"In illo tempore" (como diria Trindade Coelho") isto é, na minha juventude, estas datas --- 1º de Dezembro, 10 de Junho, 5 de Outubro ---  deitavam  um mofo incómodo, por, de um lado, representarem o império salazarisa e, de outro, a edificante  (para o zé-povinho) e escandalosa (para nós) promiscuidade entre o poder da Igreja e o poder do Estado, visto que a imponente cerimónia tinha duas caras de "feijão-frade": uma, em frente da Sé Catedral, com todas as forças em parada, Exército, Marinha, Polícia, Mocidade Portuguesa (a que ironicamente nas latadas da Queima em Coimbra apelidavam de Mocidade Perdida), depois os escuteiros, enfim, "a força do público e o público à força" (literatura também da Queima). Cá fora, nesse ano de 1962, foi (era quase sempre) orador o consagrado escritor madeirense Horácio Bento de Gouveia, que exaltava com abundante gesticulação os pergaminhos da Pátria.  Dentro da Sé, o solene Te-Deum pontifical, com grande instrumental, Bispo a presidir, Cónegos ostentando nos cadeirais  vistosas meias vermelhas. governador civil e governador militar na proa do altar-mor e, claro, na primeira fila, os graduados e condecorados do regime. A mim, ainda padre-caloiro, convidou-me o distinto professor do Liceu,dr.Emanuel Paulo Ramos, presidente da delegação na Madeira da Sociedade Portuguesa de Geografia, encarregada do magno evento, convidou-me, dizia, a proferir a Oração de Sapiência, ou seja, o solene sermão de homenagem ao 1º de Dezembro que, como da praxe, devia ter por fundo o amor pátrio secundado ou, mesmo identificado, com o fervor religioso. O texto, dei-o ao dr. Paulo Ramos que mo pediu para publicar no Boletim da Sociedade. Até hoje! Só me lembro que, em virtude das afirmações ditas do alto do púlpito, recebi "guia-de-marcha" para a ilha do Porto Santo que, à época, era mais "colónia penal" do que "estância turística".Entretanto, enganaram-se porque os paroquianos porto-santenses transformaram-me o deserto em paraíso.

Até aqui, o lado pitoresco e, ao mesmo tempo enfadonho que nos (e a mim principalmente) causavam as celebrações patrióticas das referidas datas oficiais.

No entanto, hoje penso de outra forma. E penso-o, no cenário da actual globalização em que vivemos, mais particularmente na esfera da europeização do nosso país dentro da CE. Os sociólogos e filósofos contemporâneos mais conceituados na área da modernidade e pós-modernidade são unânimes em considerar que a "globalidade significa o desmanche da unidade do Estado e da sociedade nacional, novos conflitos e incompatibilidades entre actores e unidade do Estado nacional" (Ulrich Beck, in "A Sociedade do Risco",1986). Por sua vez, Zygmunt Baum, na sua eloquente "Modernidade Líquida", (2001)  insiste em que "a modernidade não é mais que a extensão totalitária da lógica dos mercados a todos os aspectos da vida...Os mercados financeiros globais impõem as suas leis e preceitos ao planeta...À globalização interessam Estados fracos mas "independentes" ...Todos têm interesses adquiridos nos Estados fracos".

Perguntar-me-ão o que é que tudo isto tem a ver com o feriado, amputado, do 1º de Dezembro.
Pois tem. E muito! Quando um Estado politicamente independente se entrega ao regime tendencialmente totalitário, o europeu inclusive, começa a perder a sua soberania. Portugal continua marionette apetecida da centralidade europeia. E quanto mais se abaixa, mais se degrada. Agora, depois de ter visto as sucessivas subserviências do governo português ao consulado de Merkel, nada me  custa a crer que a amputação do 1º de Dezembro, ícon da nossa independência, tenha sido decretada nos directórios europeus, como sinal e até escárneo da perda da nossa soberania.
Bem haja António Costa que promete repôr o feriado nacional como apelo ao povo português para que não curve alegremente a cerviz à nova "Castela" sediada em Bruxelas.

                          1,Dez.14
                          Martins Júnior