terça-feira, 1 de outubro de 2019

COMEÇA EM OUTUBRO A TRILOGIA DA VIDA – NO DIA MUNDIAL DA ÁGUA, DA MÚSICA E DA TERCEIRA IDADE


                                   

Não sei se é semente
Ou   brilho de criança que nasce
Não sei se é  fruta madura
Ou tufo de folhas caídas
Mas o que vejo em plena estatura
É o tronco maior de todas as vidas

No éden terreal
Ou na amazónia dos tempos
Ninguém pode lá entrar
Sem  olhar o próprio espelho
Sem  escutar a voz sem eco
do tronco velho:

“Eu sou aquilo que serás
Aqui plantado desde os confins do mundo
Dos meus olhos correram e dos teus correrão
Rios de água tinta de sangue e lilás
Rubros de chama e paixão
Roxos também de amarga ilusão

Nas rugas do meu rosto
E nas minhas magras mãos esguias
Não vejas só retalhos do desgosto
Elas são passadas partituras
De moças melodias
Canções escritas ao ritmo dos dias
Que guardo neste tronco que tu vês

Já fui aquilo que tu és
E tu serás a seiva do tronco universal
Onde eu estou

Não te chamo ainda nem te espero
Mas sei que seguirás o rasto austero
Até chegares ao meu reino
Onde o tronco sem idade
Jorrará rios de água fértil
E árias de Bach de uma futura saudade”.

01.Out.19
Martins Júnior
   


domingo, 29 de setembro de 2019

“OS VAMPIROS” NA BÍBLIA


                                                     
                     
É nas manhãs de domingo que descubro a luz que irradia para a semana inteira. Ela – a luz – surge de dentro das folhas jacentes do Livro que vem de longe, das areias do Oriente. Livro, umas vezes  enigmático como a esfinge do Egipto, outras vezes assertivo e cortante como a espada de Dâmocles sobre a cabeça da humanidade.
Já na semana passada compus o debate aberto entre nós e José Saramago tentando contraditar, em parte, a tese do “nosso” Prémio Novel da Literatura quando sugere que a Bíblia é um estendal da atrocidades, as mais cruéis, desumanas, injustas e  que quem a lê perde a fé.
Não está longe da verdade histórica a afirmação de Saramago, pois a narrativa do povo judeu, que o Livro condensa, está ensopada em sangue inocente, com o aplauso do justiceiro Deus Iahveh. Mas há excepções. E demonstrei-o através de um homem corajoso, paladino do direito e da justiça social – o Profeta Amós.
Hoje, a estrada de domingo trouxe revérberos ainda mais intensos sobre esta questão. Pudesse eu reencontrar Saramago (como o fiz na sua casa da “Rua da Madeira”, em Madrid, um ano antes de morrer, a propósito do seu aniversário natalício no mesmo dia que o meu) e talvez me não reproduzisse a observação crítica que ele próprio tinha feito a um ilustre clérigo, hoje laureado na hierarquia eclesiástica: “O senhor dita dogmas, mas não responde às minhas objecções, não apresenta argumentos para contrariá-las”.
Pois, mais uma vez abro o Livro, em Amós, cap.6, 1-5) e fico atordoado com a veemência furibunda (nem as mais agressivas catilinárias de Cícero se lhe aproximam)  contra os magnatas governantes de Jerusalém, esses que vivem na opulência, sem um pingo de justiça e mágoa pelo povo que vive na miséria, arruinado de dia para dia.
Eis o que diz o Senhor omnipotente:
«Ai daqueles que vivem comodamente em Sião
e dos que se sentem tranquilos no monte da Samaria.
Deitados em leitos de marfim,
estendidos nos seus divãs,
comem os melhores cordeiros do rebanho
e os vitelos mais gordos do estábulo.
Improvisam ao som da lira
e cantam como David as suas próprias melodias.
Bebem o vinho em grandes taças
e perfumam-se com finos unguentos,
mas não os aflige a ruína do povo.
Por isso, agora partirão para o exílio à frente dos deportados
e acabará esse bando de voluptuosos».

“Grandíloquo, alto e sublimado”, cito Camões. Arrebatador!
Milénios mais tarde, viria José Afonso e chamá-los-ia “Vampiros”
 “Que vêm em bando  pela noite calada
Comem tudo e não deixam nada…
Trazem no ventre despojos antigos
Bebem o sangue fresco da manada
Mas nada os prende às vidas acabadas…
Senhores à força, mandadores sem lei
Enchem as tulhas bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei…
Eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada…

Quem não vê na vigorosa canção de Zeca Afonso o libelo condenatório inexoravelmente lançado pelo Profeta Amós? Mas vai mais além na sentença inapelável: “Serão deportados. É preciso acabar com esse bando de parasitas”! (Sic).
Cuidado! A Bíblia não é só um cemitério de vítimas ou um rosário de preces. É também este grito de denúncia, esta sentença arrasadora das injustiças e este combate sem tréguas às assimetrias sociais! O que faz falta é saber ler. E agir, em vez de nos ‘deleitarmos’ no charco das lamúrias pias, estéreis. A este propósito, importa reter o pensamento do Prof. Doutor Anselmo Borges, o maior intérprete em Portugal da mensagem do Papa Francisco:
“É verdade que a crise é também, e talvez sobretudo, de cultura moral e espiritual, mas não é possível avançar sem uma implicação séria e a fundo na social. Não se pode pretender fugir ao problema social invocando apenas o caminho da crise espiritual e de valores. Citando o Papa Francisco, “Nada mais alienante e falso do que a religião desencarnada”. (Francisco, Desafios à Igreja e ao Mundo, Gradiva, pág. 240).
Belo caminho, Estrada da Luz, para a semana e para a vida!

29.Set.19
Martins Júnior

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

100 ANOS DE SONORA LIBERDADE !


                                        

 Irresistível, porque encantatório e libertador!
Após ter evocado no texto anterior os 100 anos do fascismo, soprou do firmamento da história uma onda azul que a todos nos envolveu e como que nos purificou do secular breu fascista. Aconteceu ali mesmo à beira-mar da cidade e, como que para ironia dos tempos, num local de outrora, denominado “Cais do Carvão”. Ali, num toque de magia, descarbonizou-se simbolicamente a grande noite do fascismo.
Porquê?
Comemoravam-se 100 anos da mítica colectividade que firmou a sua chancela na historiografia musical da Madeira, sob a designação de ORFEÃO  MADEIRENSE. Por isso lhe chamo Irresistível, Encantatório, Libertador a este dia memorável!
 São frágeis as palavras – e, por isso, parcas também serão – para desentranhar as emoções deste momento que perpetua um século de ritmos, baladas, árias, barcarolas, alleluias, marchas triunfais e melancólicas elegias. Quantas centenas, milhares, talvez milhões de vozes brancas, sopranos angelicais, timbrados barítonos e cavos ‘baixos’ profundos encheram a cidade e a ilha, fruto do labor intenso, inquebrável de homens e mulheres cujos nomes a memória do tempo esqueceu mas que ficaram gravados em caracteres de ouro nas divas aras de Orfeu! A todos os ouvi e ‘adorei’ dentro daquele velho ‘coliseu’ a-céu-aberto. Desde o seu fundador, o eminente musicólogo e intérprete Dr. Passos Freitas, até aos vários maestros dos quais recordo mais de perto o meu professor Pe. Dr. Rufino Silva e o colega e amigo Victor Costa.
Sensibilizou-me a interpelação da mais antiga orfeonista, ainda no activo, quando me perguntou: “Então, vem matar saudades do seu tempo?”… Lembrava-me ela a época (já lá vão algumas décadas) em que prestei a minha modesta colaboração como director artístico do Orfeão Madeirense e daquele inolvidável espectáculo de Fim-de-Ano na lagoa dos jardins públicos da antiga Quinta Vigia.
   E o “Cais do Carvão”!... Como eu o conheci, há cerca de 70 anos, o nosso local de passeio semanal, os muros em ruínas, a maquinaria da velha fábrica - ainda lá estão alguns vestígios – o mesmo mar ao lado galgando as mesma pedras do ‘calhau’…
Belíssima iniciativa do Orfeão em convidar o Grupo Coral de Machico e o Grupo Coral da Ponta do Sol para “damas de honor” do seu centenário.
E de tudo quanto vimos e ouvimos – outras são as vozes e outros os reportórios – o que fica é a grande lição da história: Valeu a pena! Talvez atravessar o “Cabo Bojador”, vencer baixios e nortadas, aguardar enseadas estratégicas… mas nunca desistir! Cada um de nós e cada geração somos um episódio na grande novela do Tempo!
Parabéns ao ORFEÃO MADEIRENSE!
Os vossos 100 anos de sonora liberdade contribuíram também para apagar o rasto de 100 anos de desafinada e desatinada escuridão.

27.Set.19
Martins Júnior


quarta-feira, 25 de setembro de 2019

100 ANOS DE FASCISMO NUM CEMITÉRIO QUE AINDA SOBREVIVE !


                                                               

    O fascismo faz 100 anos. Há quem o tenha enterrado definitivamente,  mas há também quem lhe acenda 100 velas e lhe cante “Parabéns”. São os extremos em presença! Mas há outros – a grande multidão – que, inconscientemente, alimenta dentro de si resquícios, sementes  inatas de um culto ao fascismo reincarnado nos tronos dos regimes políticos e nos meandros do quotidiano relacionamento dos diversos agregados sociais. Umberto Eco analisou este estranho fenómeno da condição do homem-em-sociedade, no seu livro a que deu o expressivo título “O Fascismo Eterno” (1995).
         Num tempo movediço como aquele que o mundo vive, onde as estruturas governativas e as tensões internacionais ameaçam fazer colapsar o equilíbrio sócio-político e ambiental do planeta, será útil revisitar a génese do fascismo, o seu crescimento, as metamorfoses camaleónicas com que se disfarçou e, retomando Umberto Eco, a sua revivescência até aos nossos dias, talvez até sempre. Sobretudo, para lhe descobrirmos o embuste e a peçonha que nele se escondem.
         Itália – a pontifícia e sacra Itália – foi  seu berço. Em 1919. O pai: Benito ( Bento,Bendito) Mussolini. A ‘bíblia’ programática do fascismo foi publicada nas páginas de Il Popolo d’Italia, Junho 1919. Qual a atracção fatal do fascismo? É Ian Kershaw quem nos explica, em À Beira do Abismo, que na tradução espanhola se define como Descenso a los infernos:
         “O lado emocional, romântico e idealista  do fascismo, bem como o seu activismo violento e aventureiro, exerceram uma atracção desmesurada sobre os homens jovens que tinham sido expostos aos mesmos valores nos movimentos juvenis da classe média – quando não pertenciam já às organizações da juventude esquerda ou católicas”.
         O mesmo historiador continua e traça as causas conjunturais que deram origem ao movimento:
         “A vitória do fascismo dependeu do descrédito total da autoridade do Estado, de élites políticas fracas que já não conseguiam garantir que o  sistema defendesse os seus interesses, da fragmentação da política partidária e da liberdade para a construção de um movimento que prometia uma alternativa radical”. Andrea Rizzi, colunista do El País, acrescenta “outros objectivos louváveis, como o sufrágio universal, (e a elegibilidade das mulheres), as jornadas laborais de 8 horas e o salário mínimo”.
         Porque não está no escopo destas linhas escalpelizar a anatomia do fascismo, só importa aqui e agora erguer na amplidão do planeta um grito de revolta à espera de uma resposta que nunca chega: Como foi possível que  o movimento italiano chegasse ao cúmulo da barbárie, aos paroxismos do nazismo alemão, do salazarismo português, do franquismo espanhol?... (A propósito, saudemos a decisão da Justiça madrilena em retirar do ‘Vale dos Caídos’ o corpo do generalíssimo Franco, pois o assassino não é digno de ocupar o chão sagrado onde estão as vítimas que ele mandou matar)…
          A resposta deveria sabê-la cada um de nós. “Os homens fizeram o mundo assim”! O povo assim quis! O egoísmo, o oportunismo, a inércia, os silêncios cúmplices… E em muitíssimas circunstâncias, a nossa desatenção, os panem et circenses (pão, patuscadas, jogos, arraiais) que oferecem ao povo. E enquanto o povo se diverte, os seus inimigos manipuladores preparam na noite minas e armadilhas para tramá-lo. No dia do voto!... Todos os ditadores do fascismo ganharam o pódio na urna do voto. Para, de seguida,  meterem os votantes na urna do fascismo.
         Os madeirenses, de tantas décadas passadas, já são “doutores” nesta ciência política. Apetece cantar, a plenos pulmões, a proclamação de Fernando Lopes Graça: “Homens, Acordai”!
Homens, Mulheres, Jovens de todas as idades, Acordai!
         Após, 100 anos, “o fascismo não passará”!
25.Set.19
         Martins Júnior

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

CONTRA O IMPÉRIO “MONO” – VIVA “SETEMBRO 22”


                                                              

         No princípio era a Ilha. – afogada pelo mar, o mesmo e único mar.
Eram os DDT, os ‘Donos Disto Tudo’, capitães Donatários.
Era e continuou a ser a Diocese. Aliada do Poder.
E domesticadora, castigadora, castradora do Povo.
Era a Monarquia de lá. Depois,  veio a República e veio a Democracia.
Mas continuou a Monarquia. A de cá.
Habituámo-nos e ‘gostámos’ do mar que aperta, do DDT (não de dois, mas de um, o Único) que nos garroteou e depois nos deixou órfãos. Gostámos das sotainas vermelhas que nos metiam debaixo delas para nos salvar.
Sitiados, anestesiados, domesticados até ao tutano, já não podíamos viver sem a grilheta que nos prendia à cela, sem a peneira que nos tapava o sol e sem o tapume de chumbo que não nos deixava respirar.
Quantos madeirenses puderam respirar o ar puro da liberdade ou sentir o cheiro álacre da sua verdadeira autonomia?... Quantas gerações?...
Até mesmo quando Abril rompeu as cadeias e soltou as rédeas do vento norte para enchermos de um novo sopro os pulmões da Ilha, deixámo-nos ficar acorrentados à sombra da bananeira, a mesma,  regados e untados com a mesma água-benta que lhe engrossava o troço… Durante 43 anos.
Mas alguém chegou e abalou as portas férreas da ditadura eclesiástica. E soltou um Povo!
Terá sido o prenúncio do novo ar que ontem, Domingo 22,  se evolou sobre os insulares? Oxalá! Seja a capicua da sorte o novo rumo desta Nau, chamada Madeira!
 Terminado o reino dos “Monos” – o monopoder absoluto, o monopartido, a monosotaina – abriram-se, enfim, as comportas, ainda incipientes, inseguras,  do diálogo, da cooperação, do respeito mútuo e da construção comunitária. Saibamos segurá-las, ampliá-las!
          
23.Set.19
         Martins Júnior




sábado, 21 de setembro de 2019

QUANDO SARAMAGO NÃO TERÁ RAZÃO…


                                                                        

Será mesmo neste fim-de-semana, entre 21 e 22 de Setembro/2019. Estivesse vivo entre nós e pediríamos ao “nosso” Prémio Nobel de Literatura falasse connosco:
- Lembras-te, ilustre José Saramago, daquela vez em que apostrofaste a Bíblia Sagrada e solenemente afirmaste que quem a lesse perderia a fé?
- Sim, lembro-me perfeitamente. E reafirmo com a mesma convicção. O Livro Judaico é um estendal de crimes, atrocidades e escândalos capazes de tirar a fé ao mais fanático dos crentes.
-  Como assim?
- Então não vedes vós aquela apologia das guerras, umas fronteiriças, outras fratricidas,  em que é o próprio Deus Jeová armado até os dentes, feito comandante das tropas israelitas até ao cúmulo de o proclamarem “Senhor Deus dos Exércitos”?!... Lede, por exemplo, o bárbaro Salmo 135, onde o  “Santo Rei David”  roga a Deus que premeie com o céu  quem despedaçar  contra a rocha  as crianças de peito, filhas dos combatentes  do exército contrário, só para vingar a derrota infligida às tropas israelitas.   
- Certo, porque é a história dos judeus contada pelos próprios. Mas há outra narrativa, paginas brilhantes, proféticas, em que a justiça distributiva ocupa o topo da revolução social.
- Provem-mo, dêem-mo um único exemplo.
- Nem de propósito. Se estiver atento às leituras bíblicas deste fim de semana, ilustre José Saramago, há-de encontrar o texto do profeta Amós, cap. 8, 4-12:

“Escutai bem, vós que espezinhais o pobre
e quereis eliminar os humildes da terra.
Vós dizeis:
«Quando passará a lua nova,
para podermos vender o nosso grão?
Quando chegará o fim de sábado,
para podermos abrir os celeiros de trigo?
Faremos a medida mais pequena,
aumentaremos o preço,
arranjaremos balanças falsas.
Compraremos os necessitados por dinheiro
e os indigentes por um par de sandálias.
Venderemos até as cascas do nosso trigo».
Mas o Senhor jurou pela glória de Jacob:
«Nunca esquecerei nenhuma das suas obras».

E comina com uma série de maldições os opulentos feitores do capitalismo selvagem:
“Não estremeçará a terra por causa disto?
Cobrirei as vossas terras de trevas sem pleno dia.
Converterei as vossas festas em luto.
Porei uma navalha sobre todas as vossas cabeças.
Os cânticos dos vossos palácios serão gritos de aflição”…

Estas e outras mensagens condenatórias, sublinham os comentadores, têm como destinatários os poderosos de então e, entre estes, na primeira linha, ”o clero e a nobreza”. Compulsando muitos outros lugares paralelos, encontramos nos textos bíblicos episódios de relevo, mesmo no Velho Testamento, portadores de uma veemência arrebatadora contra os exploradores do povo, os ditadores, os soberbos detentores do poder. Só que, ao longo dos séculos, a Igreja escondeu aos olhos dos crentes o embrião revolucionário implícito nas páginas do Livro.
Foram essas sementes escondidas que os mensageiros autênticos desentranharam do subsolo bíblico e lhes deram força e clarividência para entrar decididamente na luta por uma sociedade justa, igualitária em direitos, deveres e oportunidades.
Excelente reflexão para este fim-de-semana!
E perdoe-me o laureado Prémio Nobel  da Literatura esta ousadia de circunstância, explicável apenas pelo que de oportuno e construtivo ela pretende traduzir.

21.Set.19
Martins Júnior

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

… “REABRIR DE JANELAS QUE JULGAVA FECHADAS”…


                    

Não há portas nos muros da cidade
Nem janelas nas areias do deserto
Muros e portas são as mãos que as fazem
E dentro delas
Nascem e morrem todas as janelas

Se for no mar fundo o teu castelo
Eu serei as ameias
Por onde verás todas as luas-cheias
Da abóbada celeste

E se no ermo mais agreste
Fizeres térrea a tua choça
Eu serei o velho postigo
Para deixar entrar o chão de estrelas
Que trago comigo

No reino dos dias inteiros
De um tempo sem ponteiros
Não há muros nem janelas
Nada é fechado
Porque tudo é verdadeiro
    
19.Set.19
Martins Júnior