domingo, 13 de outubro de 2019

UM GENERAL, UM MILAGREIRO, UM OPOTUNISTA E UM DEUS JUSTICEIRO – E UMA ARMA CHAMADA LEPRA



Drama histórico em três Actos – Esboço
Em plena apoteose de romarias peregrinantes e milhares de pavios de cera ateando o incêndio da fé, trocada pelo tilintar pesado de brilhantes moedas, trago este simples mas tremendo guião para futuros realizadores de um filme improvável, porque impossível de vê-lo e ouvi-lo.
I ACTO
GENERAL
         Chefe de Estado-Maior do Exército. Poderoso, estimado pelo rei e pela grei. Mas leproso, sem hipótese de cura no seu país. Aconselham-no a procurar alguém no estrangeiro. Relutante embora, aceita e sai com uma imponente  comitiva. Leva consigo 350  Kg de prata, 68 Kg de ouro e, segundo o protocolo da época, 10 túnicas de festa. Tudo isto para oferecer a quem o curasse da lepra assassina. Bate à porta do Milagreira e clama para dentro:
Aqui estou, aqui me apresento, enviado pelo rei do meu país.
O MILAGREIRO
Não sai de casa, apenas dirige-se ao ajudante:
 Vai lá fora e diz a esse general o seguinte: “O meu senhor manda o senhor general tomar banho ao rio. Dê sete mergulhos e ele garante que ficará curado.
O GENERAL
Contrariado pela humilhação da receita, reage em tom arrogante e hostil:
Não vou. Tenho no meu país rios e águas muito superiores a esse rio que tu dizes.
Entretanto, vieram os conselheiros do rei e convenceram-no a aceitar o repto. E aconteceu que, após o sétimo mergulho, achou-se curado, a pele  fresca e macia como a de uma criança recém-nascida. Corre depressa, com toda a comitiva, à casa do Milagreiro. Prostra-se diante dele e. sem conter a emoção, diz:
Graças te dou! A ti e ao teu Deus. Nem sei como agradecer-te trago aqui 1  quilos de prata, 8 quilos de ouro e 10 ricas túnicas de festa. Tudo para ti e para o teu Deus.
MILAGREIRO
Indignado e  sentidamente ofendido, responde:
Juro pelo Deus Vivo: Não aceitarei nada disso! Estás curado. Pronto, vai em paz para a tua terra… E não insistas mais. Vai embora.
O General retira-se com a mesma comitiva.
II ACTO
O Ajudante do Milagreiro (depois revelou-se  um oportunista sem escrúpulos) ouviu a recusa do patrão, deixou o General afastar-se uma certa distância e, acto contínuo, correu atrás da comitiva. Foi o próprio General que de longe o avistou. Desce do carro e conversa com o rapaz.
O GENERAL
Então, que aconteceu? Está tudo bem? Algum problema?
O AJUDANTE
Está tudo bem. Apenas um pequeno caso. É um recado que o Milagreiro, o meu patrão, mandou-me dar ao meu General.
O GENERAL
Vá, diz depressa, estou ansioso. Alguma coisa que ele precisa?
AJUDANTE
Isso mesmo, adivinhou. O recado é este: “Diz ao tal senhor general que chegaram-me aqui a casa, imprevistamente, dois colegas meus, vindos lá de um monte distante. E eu, neste momento,  não tenho nada que lhes ofereça. Será que podia dar uns 35 Kg de moedas de prata e…”
O GENERAL
Não digas mais. Vais levar o dobro. Venham daí dois ordenanças, deitem em duas sacolas 70 Kg de prata e mais duas túnicas solenes. Carreguem tudo isso e sigam esse Ajudante do Milagreiro que me restituiu a saúde. Graças ao Deus desse homem!
III ACTO
Chegados ao lugar, o Ajudante mandou descarregar as sacolas na sua própria casa. Mais tarde apresenta-se, disfarçado e sereno, ao Milagreiro.
MILAGREIRO
Ó Rapaz, anda cá. Onde é que andaste até agora?
AJUDANTE
Em lugar nenhum, meu amo e senhor.
MILAGREIRO
Tens a certeza?
AJUDANTE
Tenho. Eu juro por Deus
MILAGREIRO
Indignado
Com quem estás a falar? Tu pensas que não sei o que se passou? O meu espírito viu tudo. Aquele senhor que desceu do carro e te entregou aqueles presentes todos!
AJUDANTE
Arrependido
Não me castigue, meu amo e senhor. Já vou buscar tudo a casa e entrego-lhe tudo, rudo.
MILAGREIRO
Quero lá saber disso. Fica com tudo. Estás rico com o dinheiro que ele te deu. Agora, já podes comprar terras, vinhedos, olivais, rebanhos, ovelhas, bois e tudo o mais. Até podes comprar escravos e escravas ao teu serviço. Ficaste com o dinheiro do General, certo. Mas vais ficar com ~mais alguma coisa. A partir deste instante, a lepra do General  caia toda em cima de ti. Para sempre!
E naquele preciso momento, a pele do Ajudante tomou a cor pálida da lepra.
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Não é esboço de drama, nem argumento de filme. Faz parte do texto bíblico (2º Livro dos Reis, cap.5), proposto para este Domingo, 13 de Outubro/2019. Trata-se de um facto concreto. Datado: século VII a-C. Identificado: o nome do General é Naamã, comandante da Síria. O Milagreiro é o Profeta Eliseu. O Ajudante é Giézi. E Deus?... Deus será o mesmo, enquanto promotor da saúde e da felicidade do ser humano. Mas, enquanto promotor da Justiça, já não será o Deus de outrora. Se o fosse, muita e ‘boa’ gente ficaria leprosa, há já muito tempo,  os simoníacos, os que vendem o sagrado, os que são tocados pela lepra do vil metal. Felizmente para eles… Infelizmente para nós e para o povo crédulo, que nunca vê a luz no “túnel da vida”!  
  
13.Out.19
         Martins Júnior



sexta-feira, 11 de outubro de 2019

PARA QUE SERVEM SÍNODOS E CONCÍLIOS?


                                         

É uma luva na mão dos dias aquilo que hoje me trouxe ao teclado ‘bloger’. Pelas razões que abaixo direi.
O Sínodo, ora em curso no Vaticano até 27 de Outubro, tem preenchido páginas, ‘écrans’, redes e capilares sem conta da informação global. E bem as merece o epicentro do magno acontecimento. Desde os bastidores até à ribalta do palco, é tudo um deslumbramento feérico, quase esotérico, extraterrestre, celestial: as vestes brilhantes, de um verde moço matinal nos ombros de septua-octogenários, as delicadas rendas agarradas ao escarlate das mangas, as mitras flamejantes, a plenitude salomónica dos coros que se misturam à mística do incenso oriental… Assim se abre e assim se há-de fechar um debate que, entre outros temas, tem a ver com as alterações climatéricas, o aquecimento global e os atentados ambientais, mais intensamente, os crimes do governo Bolsonaro na grande Amazónia.
Grandioso, belíssimo, laudabilíssimo o projecto pontifício que reúne a fina flor dos príncipes da Igreja, com destaque ascensional para bispos, arcebispos e cardeais. Da parte de Francisco Papa não duvido do seu empenho – repetidamente investido em incontáveis lições públicas -  sempre solícito em levar ao mundo a urgência inadiável do seu brado apocalíptico, consignado na encíclica Laudato Si: o respeito pela nossa “Casa Comum”, o Planeta.
No entanto, ouso colar-me à dúvida - se das centenas de antístites e purpurados ali reunidos em assembleia poderá surgir a nova seiva que irrigará e purificará a terra e o ambiente que habitamos. Para  amar a Terra – “ Irmãos, Amai a Terra”. já proclamava  Nietzsche – é preciso mergulhar dentro dela, “trazer o cheiro das ovelhas”, como disse Francisco, lutar frontalmente, ao lado daqueles que as defendem dos lobos devoradores. Não me parece que o cheiro das ovelhas e a transpiração do húmus  criador se acomodem à sumptuosidade das faustosas basílicas. Do mesmo modo, as reformas emanadas dos vértices altaneiros levam décadas e séculos a descer até ao chão onde assentam as bases das pirâmides. Outras vezes, nunca chegam. Não me sai da retina aquela cena (sempre religiosamente aceite) de ver uma grada e bem identificada sotaina vermelha na tomada de posse de Bolsonaro. A diplomacia palaciana não se dá bem ( e nunca deveria dar-se) com a verticalidade pura da Verdade!
Onde quero chegar  com esta minha reflexão?
Por mais sublimes e proclamatórias que sejam as grandes assembleias, os sínodos e as encendradas conclusões aí redigidas, tudo corre o risco de esfumar-se como incenso fútil se não for o povo, os cristãos de base, os pastores nas aldeias, os habitantes da terra a tomarem nas suas próprias mãos a vanguarda das operações. É nas raízes da árvore que reside a garantia de uma boa produção. Não é na ponta dos galhos ou na fronde da ramagem. Tenho para mim que o grande contributo, o maior, que a Igreja poderá dar à civilização é respeitar a identidade dos povos, a sua idiossincrasia, educando-os para assumir eles próprios o amor às causas justas e deixando-os, ampliando se for preciso, conduzir com dignidade e consistência o rumo dos acontecimentos. De pouco ou nada serve sobredourar excelentes citações bíblicas. Não esqueçamos que no Brasil foram, incrivelmente, os “Evangélicos” que deram o poder ao ditador destruidor do pulmão do mundo, a Amazónia.
É preciso que, neste e noutros segmentos da vida em sociedade, as hierarquias não matem a iniciativa dos cristãos de base. Antes pelo contrário, deverão dar livre curso às suas justas reivindicações e estratégias de acção. Foi neste registo positivo que católicos brasileiros, reunidos em Belém do Pará, prepararam o documento reivindicativo que os seus bispos levaram ao Sínodo vaticano. Por isso, no penúltimo ‘blog’ referi-me a uma “Igreja incendiária, anti-bolsonária, revolucionária”! E interrogava-me: Que termos – sinónimos ou antónimos – usaremos para a Igreja europeia, romana, portuguesa, madeirense?
Termino, retomando a ‘luva’ dos dias, com que comecei. É que hoje, precisamente hoje,  comemora-se o dia do Papa João XXIII. Foi ele o Grande Promotor do Concílio Vaticano II. Constituiu o maior acontecimento da Igreja do século XX, a que deram inestimáveis contributos os grandes pensadores e reformadores, de dentro e fora da hierarquia romana. A todos João XXIII recebeu-os e transpôs muitas das suas sábias conclusões para os textos oficiais do Concílio. Na altura, falou-se numa verdadeira revolução de uma Igreja caduca, desencarnada do mundo e da vida. Disse-se mais: Que estávamos perante um Novo Pentecostes.
Era-o, de verdade. Mas, que é que fizeram dele? Alguém o vê por aí?
Os analistas, teólogos, liturgistas, filósofos são unânimes, pelo menos no tocante a Portugal, em afirmar que o Concílio Vaticano II ainda não chegou à Igreja Portuguesa. Ficou-se pelos titulares hierárquicos que o meteram nos arcanos das sacristias. Dizem que só com este Papa Francisco começam a florir as raízes conciliares. Passado mais de meio século!!!
O Concílio Vaticano II  iniciou-se em 1962 e encerrou-se em 1965.       
Sem bases, jamais haverá  vértice. As bases somos nós!    

         11.Out.19
         Martins Júnior

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

SENHOR DOS MILAGRES DE MACHICO – SENHOR BOM JESUS DA PONTA DELGADA – SANTO CRISTO DOS MILAGRES DOS AÇORES – CRISTO REDENTOR DO CORCOVADO…



A Quem cantarei?

                                 

A Quem agradecerei?


E Como agradecerei?


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“Que não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita” (Mt..6,3).
“Senhor, fazei que veja” (Lc. 18, 41).
Senhor esclarece e “aumenta a minha fé” (Lc. 17,5).

09.Out.19
Martins Júnior

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

TRADIÇÕES E CONTRADIÇÕES: NA AMAZÓNIA BRASILEIRA E NA ROMA VATICANA


                                       
 Uma Igreja incendiária?... Uma Igreja anti-Bolsonária?... Uma Igreja revolucionária?

Mais que as curriculares e monocórdicas eleições de cada lugar irrompem as denúncias da Igreja do Brasil contra os crimes perpetrados todos os dias na Amazónia. A gravura mostra a reunião magna dos bispos e  leigos católicos brasileiros em Belém do Pará, encontro preparatório do Sínodo que ora decorre em Roma.
As corajosas decisões aí tomadas trazem-me à memória heróis de outrora, como o Padre António Vieira. Perseguido pela Inquisição e proscrito de Portugal por defender a dignidade dos judeus e dos chamados “cristãos-novos”, voltou-se para o Brasil, onde percorreu a vastidão da Amazónia em condições de extrema pobreza e salubridade, pugnando sempre na palavra e na acção pelos direitos dos índios brasileiros e daí sofrendo as arremetidas dos senhores das terras. Há 400 anos!
Na linha de uma tradição que vem de longe, é indesmentível o empenho intemerato da Igreja na luta pela justiça social e pela liberdade política, sobretudo no tremendo período da ditadura militar, o que motivou processos, prisões e martírios de padres e bispos. Recordo o bispo Duarte Calheiros, de Volta Redonda, arredores do Rio de Janeiro. Ao receber-me na sua humilde casa (não era palácio) confidenciou-me que já tivera três processos judiciais movidos pela ditadura. Vi chegar, nesse momento, um padre que acabava de sair da pesada prisão da Praia Grande de Santos, vítima do poder político. Jamais esquecerei a resposta que deu à minha pergunta: “Passei pela cidade e não vi a Sé Catedral da sua diocese. Onde fica?”. Trouxe-me à rua de onde se avistava a cidade – um vasto aglomerado com todas as características de um ambiente fabril – e disse-me: “Vocè, padre madeirense, vê acolá aquela fábrica com cobertura de zinco? Essa é uma das minhas catedrais. E ali, mais abaixo, aquele  quarteirão de grandes armazéns, onde trabalham milhares de operários? É também mais uma, duas, três catedrais da minha diocese”.  Percebi a lição. Isto há 47 anos. Quem me dera voltar a vê-lo, esse autêntico obreiro de um mundo novo. Tal como o bispo nordestino António Fragoso. Tal como o bispo de Goiás, falecido há um ano: simples, dinâmico, sem púrpuras nem cruzes peitorais, quando o cumprimentei ali, no meio dos camponeses. Um pastor que, como diz Francisco Papa, traz consigo o cheiro das ovelhas.
Tantos e muitos outros poderia juntar nesta mesa de memórias. Mais recentemente, Frei Beto e o grande intelectual e sociólogo Leonardo Boff que muitos de nós gostaríamos de vê-lo e ouvi-lo cá na Madeira.
É nesta positiva tradição que assenta a herança de uma Igreja que não tem medo, muito menos a falsa diplomacia, para enfrentar a tacanhez primária, quase tribal, de um Bolsonaro arrasador.
Mas não posso terminar sem chamar à nossa companhia HELDER DA CÂMARA. Ele, sem mais apresentações. Supérfluas. Lembro-me bem – e foi em Olinda e Recife, 7 de Setembro de 1972, dia maior da Independência do Brasil. Foi num palácio, de majestoso estilo colonial. O palácio era a sede-residência do arcebispo Hélder. Mas ele não residia lá. Cedeu todas as instalações aos movimentos diocesanos de acção pastoral, cultural e social. Foi viver para uma humilde casa rasteira, nos arredores do Paço Episcopal.
Mas nesse 7 de Setembro veio festejar o Dia Nacional com uma multidão de crianças, jovens, adultos, gente idosa. Música, dança, confraternização, alegria sertaneja nos logradouros do edifício colonial   O já ancião arcebispo Hélder circulava por entre a multidão, abraçando, beijando, cantando. Chegada a hora, sobe os degraus do recinto, a palavra saída daquele corpo franzino ecoava nas paredes exteriores do palácio, espalhava-se pela rua fora. De tudo quanto disse, recortei com maior incisão estas palavras que, em plena ditadura militar, constituíam matéria provocatória aos poderes públicos: “Eles dizem por aí que eu sou contra o Brasil, que não sou patriota. Mas não. Eu sou patriota. E mais do que eles. Eu amo o meu Brasil. Sou pelo Brasil. Com uma grande diferença: O que eu quero é um Brasil com os brasileiros, pelos brasileiros e para os brasileiros”!
Lapidar, tumultuosa condenação da ditadura!
Eloquente definição do regime democrático!
Aconteceu no Brasil de 1972. Onde é que tal se ouviu da cátedra dos bispos, arcebispos e cardeais deste “Jardim à beira-mar plantado”?
Por isso, tem toda a lógica a interpelação inicial: “Uma Igreja incendiária, anti-bolsonária?!… Uma Igreja revolucionária”?!
E por cá?... Será abusivo  fazer esta proposta: Procurem os antónimos? Veremos.

07.Out.19
Martins Júnior    

sábado, 5 de outubro de 2019

OUTUBRO/68 – ANO/51! VIVA!!!


                                                                   

Enquanto os ares de Portugal e do mundo estão lavados de faustosas comemorações, palpitantes expectativas e clangorosas homenagens, recolho-me no horto marchetado de perfumadas violetas e vejo desfilar a multidão anónima de homens e mulheres curvados silenciosamente sobre o chão da vida, semeando o pão, abrindo clareiras, lutando pela justiça, sem que alguém lhes teça quaisquer tributos ou, mesmo que breves, saudações. Para todos, eles e elas, aqui deixo a minha homenagem, na pessoa do eminente sacerdote Padre José Luís Rodrigues – eminente, não de título, mas factualmente genuíno e justo  – por ocasião do seu 51º aniversário natalício, lembrado ontem, 4 de Outubro, dia dessoutro obreiro de um mundo novo, S. Francisco de Assis.  

Junto ao cruzeiro alto do jardim serrano
O Tempo Demiurgo deixou cair
Sementes bravas que deram em terro humano
Este rebento novo de um mundo a abrir


Lume de festa e luta é o que tu és
Um nome certo te deram, o de Luís
Inquebrável e firme, bem podias ser Moisés
Sereno e franco, serias Francisco de Assis


Retomas cada dia o teu bordão sem medos
Os teus anéis são calos dos teus dedos
Dardejando flechas no teclado
Rubra e plena é a tua púrpura
Igual ao sangue pisado dorido e belo
Guardado na aljava desse eterno duelo
Universal batalha do Povo que trabalha
Ergo feliz a minha taça, ergamos todos um a um
Saudando Outubro 68, cantando o ano 51

05.Out.19
Martins Júnior



quinta-feira, 3 de outubro de 2019

VIOLÊNCIA, SÓ VIOLÊNCIA… DO PRINCÍPIO AO FIM !



    Não estava previsto no currículo da semana. Mas, nesta quinta-feira,  entendi antecipar-me aos ventos de domingo próximo. Assim ditou a circunstância do dia. Já não é preciso recorrer ao terrífico “Jornal do Incrível” ou à agoirenta estação televisiva  das desgraças de beco, para ficarmos estarrecidos, gelados de nojo perante as notícias de hoje: duas mulheres assassinadas pelos companheiros, uma de 93 anos, a outra abandonada na rua, dentro de uma mala. Aqui, em nosso bairro ilhéu, um banco assaltado de madrugada, já antes o sessentão que mata o irmão, diante da própria mãe, por causa de um computador. Mais além os muros da vergonha americana, as cobras e os lobos em cima dos refugiados que rastejam como toupeiras para ‘furar’ o arame farpado. O furor do dragão chinês, na febre asiática, solta as garras e escancara as fauces para engolir quem reclama a sua justa autonomia em Hong Kong. Depois, as guerras urbanas, as guerras comerciais, as traições! Quem poderá suportar tamanha violência?... É caso, motivo urgente para clamar: “Tirem-me deste filme”!
         Nada de novo, porém, debaixo do sol. Domingo próximo, em quase todo o mundo, ouvir-se-á o brado de há 2700 anos, um grito de dor e impotência de alguém no estertor de um desespero fatal:
         “Até quando, Senhor, clamarei por Vós, sem que me escuteis?... Até quando  clamarei ‘Violência, Violência’, sem que me atendais? Por que me mostrais diante dos meus olhos o espectáculo da iniquidade e contemplais Vós mesmo estas desgraças?... Diante de mim só vejo opressão e violência, outra coisa não há senão discórdias, guerras e contendas!... Por isso, a Lei perde a sua força e não se acha mais a Justiça!... O ímpio prevalece sobre o justo e o direito sai falseado”!
         O quanto aí vai de esmagador! O quanto aí vai de afrontamento aos poderes públicos, aos fornecedores de armamento, aos promotores da guerra. E a denúncia  do poder judicial, dos anarcas e corruptos intérpretes da Justiça!
         É seu autor um líder do povo, um oposicionista aos governantes da época, um vigilante social, enfim, um Profeta. Seu nome Habacuc, testemunha presencial dos conflitos bélicos do poderosíssimo Nabucodonosor contra os territórios limítrofes, incluindo Jerusalém, nos séculos VII-VI a.C..
         Não obstante o conforto de uma visão optimista do futuro, o que mais confrange e destrói o Profeta é a sensação de derrota total, a impotência do homem perante a prepotência da iniquidade, do sangue derramado nas ruas, da miséria de toda a nação. E a tal extremo vai esta deprimência que o Profeta chega a acusar a própria Divindade de estar a “divertir-se” com tão horrendo “espectáculo”!
         Nada de novo debaixo do sol! O amargo desabafo de Habacuc bem poderia ser escrito hoje mesmo, quinta-feira, 3 de Outubro, perante os deploráveis comportamentos do “bicho-homem” dos nossos dias. Parece inscrita no ADN de cada homem/mulher, de cada sociedade esta sina incurável de uma violência inata na espécie humana, desde que Caim, filho de Adão e Eva, matou o próprio irmão Abel. Não por causa do computador – passe a ironia – mas pelo ciúme de que os animais oferecidos por Abel eram aceites por Deus e os de Caim não. No relato do Génesis ressalvo a hermenêutica mais ampla do texto e não a simplista interpretação literal.
         Que fazer? Acreditar na visão futurista de Habacuc, sonhando com um mundo de paz e felicidade globais?... Talvez. Mas nem assim se apagará o pérfido talismã gravado na espécie humana.
         No mesmo Domingo, encontraremos uma solução parcial do problema: cada ser pensante realizar a tarefa de bem servir, preservar o meio, construir pedra-a-pedra o grande monumento de uma sociedade respirável. E após a realização deste “poder-dever” social, ganhar a consciência do dever cumprido e dizer baixinho: “Somos servos normais  (inúteis, exagera o texto). Apenas fizemos o que devíamos fazer”      
            Numa época de busca desenfreada de títulos, comendas e troféus, até em sociedades ditas humildes e ascéticas, onde o que mais importa é a pantalla publicitária – como é belo e reconfortante ouvir este “louvor” da boca  do Nazareno, sem vara nem trono!

terça-feira, 1 de outubro de 2019

COMEÇA EM OUTUBRO A TRILOGIA DA VIDA – NO DIA MUNDIAL DA ÁGUA, DA MÚSICA E DA TERCEIRA IDADE


                                   

Não sei se é semente
Ou   brilho de criança que nasce
Não sei se é  fruta madura
Ou tufo de folhas caídas
Mas o que vejo em plena estatura
É o tronco maior de todas as vidas

No éden terreal
Ou na amazónia dos tempos
Ninguém pode lá entrar
Sem  olhar o próprio espelho
Sem  escutar a voz sem eco
do tronco velho:

“Eu sou aquilo que serás
Aqui plantado desde os confins do mundo
Dos meus olhos correram e dos teus correrão
Rios de água tinta de sangue e lilás
Rubros de chama e paixão
Roxos também de amarga ilusão

Nas rugas do meu rosto
E nas minhas magras mãos esguias
Não vejas só retalhos do desgosto
Elas são passadas partituras
De moças melodias
Canções escritas ao ritmo dos dias
Que guardo neste tronco que tu vês

Já fui aquilo que tu és
E tu serás a seiva do tronco universal
Onde eu estou

Não te chamo ainda nem te espero
Mas sei que seguirás o rasto austero
Até chegares ao meu reino
Onde o tronco sem idade
Jorrará rios de água fértil
E árias de Bach de uma futura saudade”.

01.Out.19
Martins Júnior