sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

QUE NATAL PARA OS JOVENS?


                                              

Foi animada e, sobretudo, elucidativa a reunião do arciprestado de Machico/Santa Cruz, realizada no templo e biblioteca da Ribeira Seca.
         Duas temáticas em confronto. De um lado, as preocupações dos párocos mais experientes, digamos que veteranos: “Quem é que vê  jovens interessados no ensino da religião nas escolas? Quem os vê na igreja? E quem os ensina?”… De outro lado, os clérigos menos rodados: “”É preciso usar bem os óleos do baptismo, marcar as confissões do Advento e da Quaresma, publicitar atempadamente os horários das missas do parto, organizar as procissões das velas no mês de Maio”. Os veteranos, “com um saber de experiência feito”, voltam à carga: “Mas o que mais se ‘vê’ é a sua ausência, o desinteresse dos jovens”.  Acede um outro, também veterano, entra no debate e sugere: “Há um outro dilema a montante. E é este: o que é que a Igreja tem para dar aos jovens de hoje?”.
         Embora transversal e omnipresente em todo o ano e em toda a vida, a questão formulada entre os colegas párocos suscitou-me, nesta quadra natalícia, a mesma incógnita: “Que tem o Natal a dizer aos jovens de hoje?... E que motivações lhes propõe a Igreja, enquanto mensageira e, de certo modo, delegada oficial do magno acontecimento?”…
         Se recorrermos às fontes inspiradoras e prenunciadoras da Grande Notícia, confrontamo-nos com dois cenários apelativos à juventude: primeiro, a beleza transbordante de um horizonte futuro, pleno de pujança e fertilidade, onde o amor e o fulgor brilham no cimo de cada montanha e abraçam toda a amplitude do globo terrestre. Um segundo projecto, vigoroso e libertador, sustenta o primeiro, apresentando-se como a factura pagante desse Mundo Novo: a fortaleza, a persistência, o arrojo e a entrega incondicional do Ser Humano na construção dessa nova era, incarnada no Natal de sempre. É em Isaías, Poeta e Profeta, que descobrimos a varanda de onde se avista o sonho antigo. E é em João, o Baptista, que se revela o lutador sem medo, austero, quer nos princípios quer no teor logístico quotidiano, no traje, na disciplina espartana dos costumes, quer ainda no intrépido afrontamento face ao corrupto poder instituído do governador Herodes. Os de ontem e os de hoje!
         Eis duas foças motrizes capazes de galvanizar a juventude! Há nelas um brilho mágico que agita o coração de um jovem garboso e decidido, nimbado “pela ânsia de subir, cobiça de transpor” (Goethe) até alcançar a estrela cimeira dos seus ideais. Há credos e há ideologias, portadoras desta dupla energia e de tal potência que atrai jovens generosos capazes de entregar a própria vida em prol de uma causa maior. Em contrapartida, a Igreja pouco mais oferece que o folclore paisagístico da ‘lapinha’, a opulência multicolor que sobredoura as avenidas, as missas do parto, cuja principal atracção nos adros não difere muito das ‘barraquinhas da (des)ordem’ e da poncha, nas praças do povo.
         Bem sei que o dia de aniversário não é palco de dramatização do aniversariante. Mas esquecê-lo e imobilizá-lo ao tronco de gráceis estatuetas ou de figurantes gigantões redundará em desprestígio da grande efeméride. Mais: é deixar de rastos pelo chão a nobre armadura dos heróis candidatos à vitória. O Natal não é só uma Criança!   
           
         13.12.19
         Martins Júnior

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

COMO SE ELE NASCESSE AQUI…



         Natais há muitos… Como os chapéus da feira.
         Há o Natal do das escadinhas, muito típico e muito nosso. Há o Natal do musgo e das ‘cabrinhas’ que cheiram a campo. Há o Natal da cidade, das barraquinhas, o Natal da poncha (Ah, que na cidade Natal sem poncha não é Natal), há o do bolo de mel e da ‘macia’. Ficam todos abraçados no Natal do Mercado. E na Consoada, onde o peru é rei e réu. Há ainda o pinheirinho que entrelaça o campo e a cidade. Há o Pai Natal, da chaminé, das prendas e do sapatinho. Que mais Natais navegam por esse mar fora?... Sim, há os das ‘missas do parto’, tão alienantes e anestésicos como os já ditos.
         Avança-se e entra-se numa dessas grutas mais sensíveis e temos o Natal do 25 de Dezembro, improvável porque convencional, o Natal de Belém, da Palestina, o de Maria e seu casto esposo José, o Natal dos pastores e das ovelhinhas, da vaca e do burrinho. E, no topo, o Natal das palhinhas e do Menino, de massa ou de pinho pintado, olhinhos ternos, rechonchudinho, (não há encanto maior!) fixando os anjinhos que lhe cantam por cima da cabeça como revoadas de chilreios em manhã de primavera.
         Tudo muito belo e divertido, a que a embriaguez das ‘mangueiras’ e dos néon´s emprestam a ‘pica’ que adormece as multidões!
         Mas haverá alguém por aí, com olhos de ver e ouvidos de entender, que sintonize o seu auto-receptor e capte a mensagem que vagueia no ar desde milénios à espera de quem a aceite e interprete: “Que veio fazer essa Criança a este planeta?”.
         Depois, para completar a resposta, confrontar-se-á com outra magna questão: “Poderia Ele, essa Criança, ter nascido na tua terra, na tua cidade, na tua aldeia?”.
         Será esse o mote para o nosso presépio, plasmado em relevo, luz e som:  “COMO SE ELE NASCESSE AQUI”…

         11.Dez.19
Martins Júnior

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

QUANDO O FIM JÁ É O PRINCÍPIO… BEM-VINDOS!


                                                        

Tal como os homens, também os factos não se medem aos palmos. Nem a sua real grandeza terá a medida da sua magnitude sísmica. Valem tão-só pelo muito ou pelo pouco que trazem dentro. Factos, pessoas, datas e coisas – em tudo – tudo está no invisível. E quanto maior a força do invisível mais bela e poderosa será a luminosidade da sua presença.
O ano de 2019, o último desta década, marcou o primeiro de uma renascença das mentalidades. Sobretudo, a nível ilhéu. Porque a mão de alguém desfez em pó o espesso negrume que ocultava aos madeirenses de boa-fé a luz que irradiava num pequeno vale dentro do grande vale de Machico. Alguém soprou o montão de cinzas que cobria o braseiro caloroso e fértil de um povo suburbano, quase rural.
Dezembro, terça-feira, dia 10!
O derradeiro mês do ano velho “virou Janeiro de Ano Novo, aliás, confirmou a viragem histórica já efectuada a meio de 2019. Amanhã, ao abrir da madrugada, o pequeno rincão da Ribeira Seca abrirá as portas da sua sala de visitas para receber o Arciprestado de Santa Cruz e Machico, isto é, todos os sacerdotes párocos das freguesias entre Caniço e Machico. Aparentemente e administrativamente, um acto rotativo e rotineiro que mensalmente passa por todas as circunscrições paroquiais desta área geográfica.
Nada de retumbante e espectacular aos olhos que apenas captam o visível e o aparente. São os que “olham e não vêem”. Mas para quem tem o cuidado de demorar-se um pouco (“o poeta em tudo se demora”) e mesmo não sendo poeta, há-de ler nas entrelinhas do invisível a Saudação que dirijo aos caros colegas visitantes que amanhã farão a sua recolecção mensal em terras da Ribeira Seca, coração dentro do coração de Machico:  
BEM-VINDOS, irmãos de missão e acção, a este vosso templo-presépio que, certamente nunca visitastes, por imposição injusta dos exclusores oficiais,
BEM-VINDOS às portas sempre abertas desta Casa-Comum, morada simbólica da Mãe, Senhora do Amparo, à qual os exclusores e-méritos não deixaram entrar a sua imagem. Entrai sem temor. Entrai pela mão de todo o Amor,
BEM-VINDOS a este “Chão Sagrado, Onde cantámos Vitória” , apesar da ocupação dos agentes da autoridade, durante 18 dias e 18 noites. Entrai. Respirai o ar puro da montanha e a força anímica da Liberdade,
 BEM-VINDOS porque ajudais a quebrar as grades da prisão onde os exclusores sacros nos quiseram manietar, sem o conseguir, pois nos sentimos sempre livres e como tais agimos, enquanto humanos e enquanto cristãos,
…………
Da minha parte, saúdo o Povo da Madeira e Porto Santo, os que olham o invisível, porque sei ser este o seu desejo – a pacificação das comunidades insulares, a libertação das mentalidades e o conforto de caminharmos juntos, em concórdia e júbilo, ao encontro da Felicidade Plena.
Aos dois amigos madeirenses, Padre Tavares Figueira e Padre José Luis Rodrigues (a que junto com toda a ternura o veterano professor, já falecido, Padre Alfredo Vieira de Freitas) eles, pedras de alicerce da nossa comunidade pelo apoio  e pela corajosa presença que nunca negaram ao Povo da Ribeira Seca.
Ao Senhor Bispo do Funchal – BEM-VINDO! – permita-me, em síntese, citar Paulo de Tarso, ressalvadas as legítimas assimetrias: “Por um só homem entrou a condenação no mundo. E por um só Homem entrou a salvação no mundo”!
Não fora o Segundo homem e a condenação do mundo pairava sobre esta comunidade… Só que a condenação dos homens significava para nós a Salvação de Deus!

09.Dez.19
Martins Júnior



sábado, 7 de dezembro de 2019

O SONHO DE UMA NOITE DE NATAL E A FRUSTRAÇÃO DE TODOS OS DIAS SEM NATAL


                                                            

        O Natal virou folhetim. Novela e folclore. Já ninguém passa sem ele. Até mesmo aqueles cujo credo passeia-se por outros valores – budistas, maometanos, agnósticos – até esses engrossam a manada festivaleira do folclore, dito natalício, embalados e anestesiados que vão na embriaguez multicolor do lampadário que toma conta das praças e rotundas. das avenidas e dos becos, onde sempre se aninha um simulacro de presépio para ilusão e surpresa do incauto transeunte,
         Por esta entrada, logo se adivinha que não é de novela nem de queima-foguetes a minha reflexão de hoje, inspirada nos textos do II Domingo preparatório do Natal. Muito ao contrário, é de inquietação e, mais que inquietação, é de frontal repúdio de todo o ‘feérico’ mural com que se pinta o Natal. É a abissal diferença que existe entre o sonho e a realidade.
         Vamos ao sonho. Houve, entre outros, um visionário de olhar penetrante, apanágio do espírito profético, que “viu” assim (e tornou público) o perfil do Líder criador do Natal futuro:
         Alguém, nascido da geração de Jessé, dotado de sabedoria e conhecimento, de conselho e  fortaleza, de ciência e justiça.  Será Juiz seguro, que não julgará pela aparência mas pela verdade de factos e pessoas. Afrontará e ferirá os tiranos e orgulhosos da terra, até implantar o reino da Justiça e do Direito”.
         Mas “viu” mais o Visionário Profeta  e não teve dúvidas ao anunciar que o Líder instauraria a apoteose inimaginável de uma “Nova Ordem” mundial, não só entre os homens, mas também no reino animal. Oiçamos:
         “O lobo habitará pacificamente com o cordeiro, o leopardo dormirá ao lado do cabrito, o leão e o vitelo comerão juntos, sem se agredirem. As próprias serpentes serão tão mansas que até uma criança desmamada poderá entrar nas suas cavernas, brincar com elas sem perigo de ser mordida”
Como analista da sociedade e conhecedor da dialéctica das relações humanas, o Vidente passa da linguagem metafórica ou da antevisão virtual para a realidade factual :
“Os habitantes do planeta não mais farão dano nem destruição entre si, nenhuma nação organizará treinos ou paradas de guerra, porque a Terra inteira ficará cheia da verdadeira ciência. Sob o estandarte do Líder (Ele será a bandeira dos povos) voltarão os exilados em paz às suas pátrias, todos os povos serão resgatados e acabar-se-ão todos os rancores e toda a inveja que destrói as nações”.
Eis o Natal – sonhado, inventado, programado por Isaías, 240 anos antes de chegar à Palestina o Desejado, o tal Líder anunciado!  Chegados que estamos ao Terceiro Milénio, alguém viu sombra desse sonho sobre este planeta que habitamos e conduzimos?...
O vaticínio de Isaías contava com o Deus Iahveh e o seu Messias para materializar a visão idílica do Profeta. Debalde. Impotentes, direi, alheios à arena dos mortais, eles não fizeram nada por isso. Nem farão. Os projectos humanos só braços humanos poderão realizá-los. A história o demonstra. Se o Mundo deu um passo em frentes fê-lo sob os pés calejados de homens e mulheres que nele se empenharam. E sofreram. Aí está o Nazareno, na sua vida existencial, concreta, a definir as linhas programáticas de acção. Ele cumpriu. E, para isso, pagou com a própria vida.
Hoje, aqui e agora, estão tantos braços erguidos, no trabalho, na ciência, na arte, nas praças públicas, lutando para que surja o Natal suspirado há milénios, desde que os humanos povoam a terra. Aí está Greta Thunberg e todos aqueles que em Madrid têm protestado, nestes dias, contra os ‘gigantes-monstros’ que matam o verdadeiro Natal dos povos. Aqui e agora, estamos nós, tentando tornar o sonho em realidade, ainda que saibamos que o Mundo continuará sempre em 24 de Dezembro…até ao fim dos tempos!
Apressemos o advento do Único, Autêntico 25 de Dezembro

07.Dez.19
Martins Júnior

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

“SENHORA PEREGRINA”



Ei-la que vem sobre “as salsas águas”, formosa e segura, ardente mas serena, qual ninfa de um Tejo novo acenando às novas gerações. Argonauta-Mulher, Senhora e Mendiga da terra, do mar e do ar, ela não vem só. Com apenas 16 dos verdes anos, não conseguiu acumular força e poder, capazes de mover o planeta. O poder que ela detém não é dela, mas de quem lho deu. E quem lho deu foi a consciência universal imanente em cada inquilino desta “Casa Comum”. Foi a ciência, mãe e pedagoga do crescimento humano. Enfim, foi a voz da Terra, esse Império dos Três Reinos, que nos foi dado de empréstimo e do qual tantas vezes nos jogamos fora.
            Digam o que queiram os detractores a soldo do negacionismo profissional, essa menina irrompeu, qual Joana d’Arc dos tempos hodiernos, por entre o tropel dos  invasores do planeta e veio desbravando espessos negrumes, tenebrosos mares de opulentos adamastores, eles mesmos estranguladores da vida que a todos pertence. Merece, pois, esta Senhora Peregrina todo o apreço e, mais que o apreço dela, merece que lhe oiçamos o apelo lancinante em defesa do Futuro. De passagem, hoje, por Lisboa, deu a Portugal aquele “clic” que nos enobrece, sim, mas sobretudo nos alerta e põe em marcha.
            Promissora geração esta que lidera o Dia Novo!
            No entanto, se algum espinho se aninha, remordendo,  lá no fundo de mim mesmo, é  aquele que Jean Jacques Rousseau já expressara, com fatal determinismo: “O homem nasce bom,  a sociedade é que o corrompe”. Digamos que Greta Thunberg é uma criança e são crianças as multidões que militantemente a acompanham. Crescerão, serão jovens, adultos. O chamado “mundo do trabalho” será o seu trunfo e o seu troféu, será ainda o seu pão e o seu abrigo. Os Donos do Trabalho, os benfazejos “dadores de trabalho” far-lhes-ão negaças e benesses: “Vens para a administração da minha empresa, da minha siderurgia, dar-te-ei garantias seguras nas minhas oficinas de armamento, abrirás a bom preço sucursais das minhas petrolíferas, ganharás o suficiente para não te preocupares com  esses efeitos de estufa. Tens o futuro nas mãos, o futuro, o capital, enfim, tens tudo a ganhar”, etc., etc..
            E temo que este cantar das sereias do harém dos adamastores sem escrúpulos, destruidores da vida, alicie os jovens que hoje juram corpo e alma pelo ambiente, contra as alterações climáticas… e se pervertam em anestesiados e, depois, entusiásticos aliados dos estranguladores do planeta. O capital, o poder, a ganância dos “Donos Disto Tudo” não têm limites. E a ‘necessidade obriga’…
            Tenho conhecido – e o público também – casos flagrantes de “estadistas”,  inicialmente incondicionais militantes das extremas-esquerdas, revolucionários incorrigíveis,  que mais tarde acabaram nos engordorados braços das direitas e garimparam até ao éden dos “GoldmenSachs”… Enfim, o anátema latino : “Corrutio optimi, pessimi”.
            Faço meu o apelo de Greta Thunberg e acrescento-lhe um voto: Que dos jovens que a seguram nenhum deles confirme o axioma de Rousseau. Para ela, a autêntica Senhora Peregrina dos tempos novos, canto-lhe o fado da paixão  e da coragem, bem português: “Que nunca a voz lhe doa”!
            03.Dez.19
            Martins Júnior
                 
           
           

domingo, 1 de dezembro de 2019

“INDEPENDÊNCIA OU MORTE” ?...


                                           

No 1º de Dezembro de Portugal concorrem e agigantam-se todos os Gritos do Ipiranga e todas as Proclamações de Revolta que sobressaltaram e libertaram a Humanidade. Desde a mais remota antiguidade, desde as mais férreas ditaduras, desde os mais sofisticados impérios sacro-profanos. Para abatê-los, alguém, alguns, uma multidão teve de sacrificar a própria vida.
Entre Independência e Morte não há disjunção, mas tão só conjunção. Formam um só corpo e uma só alma.
Independência e Morte!
Morte e Independência!
“Hipostaticamente” unidas.  De tal forma que a Primeira nunca subsistirá sem a Segunda. Tal como a mimosa flor que terá de morrer para dar lugar ao fruto nascente.
“Sine effusione sanguinis non fit remissio” – Sem efusão de sangue nunca haverá remissão. (Heb.9,22).
“Para dar fruto, (espiga e pão), o grão de trigo terá de morrer”.(Jo,24,12)
“Se o teu olho… o teu pé…a tua mão te escravizarem, corta-os e atira-os para longe”. (Mat.18,8)
Para seres livre, algo terás de renunciar.
Para seres autónomo e independente, algo terás de sacrificar. Tu, a tua casa, o teu Povo. Talvez a própria vida!
INDEPENDÊNCIA E MORTE!...
MORTE E INDEPENDÊNCIA!...

01.Dez.19
Martins Júnior