quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

O BAILE DE RODA DAS MISSAS DO PARTO COM A FAMILIA “FINAR”

                                                                      


Não há que fugir à onda. Quando se fizer a história do Natal/2020, mais do que do Menino há-de falar-se  de um outro e estranho ‘infante’ chamado Covid. E ao falar do Convid, lá estrarão ‘ontologicamente’- traduzam como condenadas à nascença – as suas dilectas associadas, as máscaras, as distâncias, os confinamentos e todos os seus derivados.

Já aqui o disse e reconfirmo, que a palavra de ordem  (convite ou estouro) que me põe em sentido neste Natal/2020 tem uma única direcção: “Preparar o Natal de 2021! E se queres ganhar o Natal/2021 trata bem o Natal/2020. De contrário, perderás os dois”!

Por isso, vou agarrar-me à trave-mestra do ano –CONFINAR – abraçá-la a ela e aos seus ‘filhotes’ e, em redondel, cantar as Missas do Parto. Numa ‘investigação’ rápida, encontrei seis deles. Ei-los:

Finar

Afinar

Desafinar

Confinar

Refinar

Desconfinar

 

            Serão estes os companheiros de viagem que levar-me-ão, como o cometa que guiou os Magos do Oriente, até à casa do Menino, em Nazaré da Galileia. Se alguém quiser trazer a lanterna do velho e sábio Diógenes, seremos mais um nesta jornada, sempre antiga e sempre nova. Amanhã, será mais uma madrugada de expectativa, em que o “Finar” estará connosco, como a vela acesa da saudade implantada  em cada coração, na Missa do Parto desta comunidade.

        

18.Dez.20

         Martins Júnior

 

           

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

NATAL DO NOSSO CONFINAMENTO E A PALAVRA DE ORDEM : PREPARAR O NATAL DE 2021 !

                                                          


Porque não é tempo de ler,

porque o tempo é de ver e correr

junto-me à voz de João, “O Baptista”, e de todos aqueles que bradam no deserto: “Preparai os caminhos do Senhor, endireitai as suas veredas”.

E, aqui e agora, só acho uma única tradução em vernáculo puro e duro: “Preparai – Preparemos – o Natal de 2021”!

Quem quiser entender que entenda.

Podem embebedar-se no mar de luzinhas tantas.

podem arrancar pinheiros mil até depenar os montes,

podem esvaziar até caírem de magras as prateleiras dos híper,

podem esgotar os partos e as missas deles até cansar as mãos dos obstetras sacros,

 

e podem subir a Marte e a Júpiter nas lágrimas do fogo louco, escarnecedor da nossa condição mortal,

Que eu apenas oiço e fico-me na  palavra de ordem que enche o deserto deste planeta:

“Queres chegar ao Natal de 2021?

Então, prepara-te já neste Natal de 2020.

Se o não tratares bem, nunca chegarás ao Natal de 2021”!

Será assim o Natal do meu – do Nosso - Confinamento.

 

15.Dez.20

Martins Júnior

domingo, 13 de dezembro de 2020

LÍDER – PRECISA-SE !

                                                                     


Em tempo de crise, seja ela qual for, o que mais falta faz é a emergência de alguém que dê o peito às balas, que dispa todo o verniz e toda a pompa, que se atire à fera invasora e abra caminho às soluções libertadoras. Em suma, um Líder.

Ora, na hora em que vivemos, em tudo semelhante à de outras eras distantes, é-nos proposto um exemplar de liderança, protótipo de quem tenha a coragem de acender um facho luminoso, em vez de limitar-se a amaldiçoar as trevas. Precisamente neste fim-de-semana, o Livro (ao qual presto o meu culto hebdomadário) traz-nos a estatura desse a quem chamam “O Precursor”, João, de seu nome, apelidado de O “Baptista”,

É um outro João, o mais jovem militante de entre os Doze, é ele que toma a iniciativa de narrador para nos informar e caracterizar o perfil do líder e pioneiro daquele Mundo Novo que o Nazareno tentaria, mais tarde, implantar lá para os lados do Oriente. Amas, a um Natal segue-se outro Natal, a muitos presépios sucedem-se miríades de estrelinhas coloridas de mil presépios, a uma ‘festa’ alinham-se, perdem-se e outra vez reacendem-se outras ‘festas’. No entanto, quem se lembra da figura imponente, estóica e inquebrável  do primeiro a desbravar a massa bruta, informe, da ignorância reinante e a depressão pandémica do judaísmo palestiniano?... Subalternizada, minimizada e esquecida ou manipulada tem sido sempre a grandeza do “Baptista”.

No elenco dos seus predicados, sobressai o nobre estandarte da Justiça, brilha em contraste meridiano a Humildade e, na ponta da sua lança, agiganta-se o esplendor da Verdade. No seu programa constitucional e no seu plano de acção concreta, basta o tríptico fundamental de toda a sua vida: Justiça, Humildade, Verdade. Foi com estas armas que afrontou  o poder dos soberanos intocáveis de uma sociedade corrupta, que os alimentava, apresentando Aquele que, sendo o maior, vivia no meio do povo, sem que o próprio povo O conhecesse”. (Jo,11-28). E foi, pelos mesmos ideais, que deu a vida  nos patíbulos de Herodes. É a sina escrita no fundo dos abismos e que Reinaldo Ferreira sintetizou nestes termos: “O Herói serve-se morto”.

Figura cimeira da liderança entre os povos, João, “O Baptista”  abre o álbum exemplar e o caminho exacto para todos aqueles que, desde o bairro até ao trono presidencial, propuseram-se (ou foram obrigados) a tomar decisões em prol dos povos, seus constituintes. Nas circunstâncias actuais, quão embaraçoso e, até, suicidário significa o exercício de liderar! Impossível “agradar a gregos e troianos”. Quantos dos  governantes, actualmente (!) esperariam um passeio alegre e agora confrontam-se com um tsunami de convulsões sociais!... Quantos não desejariam voltar atrás?!... Talvez nunca imaginaram que no frontispício do  majestoso palácio por onde garbosamente entraram estava gravada a sentença que o épico italiano, Dante Alighieri, inscreveu nos portões do inferno da “Divina Comédia” :  Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate - “Deixai fora toda a esperança, ó vós que entrais,”  deixai todo o orgulho, toda a arrogância!

No fragor e na inconsistência da hora que passa, merecem os líderes a nossa atenção e o nosso apoio, desde que sigam os referenciais que João, “O Baptista”, deixou aos vindouros responsáveis da grei:

1)    Que atirem fora (direi, que vomitem, de vez) a fumaça balofa da vaidade e do ‘eu cá não tenho medo de nada’ e com  Humildade punham os pés no chão frio onde vive o povo.

2)    Que sejam honestos e clarividentes na identificação dos problemas, .na pesquisa de soluções, e que a Verdade seja o foco mais visível na informação e na acção.

3)    Que tenham  sensibilidade  e consciência distributiva na concessão dos apoios disponíveis, que não deixem para trás os mais fracos, os paralíticos sociais e que pela Justiça promovam a fraternidade entre os seus concidadãos.

     

Faz bem – até na pandemia – revisitar o “Precursor” durante este Natal!

 

13.Dez.20

Martins Júnior

 

 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

NOS 74 ANOS DA UNICEF: A GLÓRIA E O DRAMA DE SER CRIANÇA

                                                                       


“… Mas as crianças, Senhor,

Por que lhes dais tanta dor,

Por que padecem assim?...”

                                                                       Augusto Gil

 

“Diante de uma criança, sinto-me cheio de ternura por aquilo que ela é

E cheio de respeito por aquilo que ela poderá vir a ser”.

                                                                     Louis Pasteur                                                                     

 

“Não há nada mais terrível que o olhar de uma criança”.

                                                                   Antero de Quental

 

“O Homem nasce bom.

A sociedade é que o corrompe”.

                                                                Jean Jacques Rousseau

 

“Bem-aventurado aquele que pegar nas crianças deles e as esfacelar contra a rocha”

                                                               Santo Rei David, Salmo 136

 

“Maldito o dia em que minha mãe me deu à luz.  E maldito o homem que levou a notícia a meu pai e o encheu de felicidade, dizendo: Nasceu-te um menino!”.

                                                                                 Profeta Jeremias, 15, 14-18

    

                                                         


Foi em 11 de Dezembro de 1946 que nasceu a UNICEF.

No chão agridoce das 74 velas, estendo seis pensamentos produzidos ao longo dos séculos. Agridoces são também as palavras. E contraditórias. Tais como as sociedades e os comportamentos que estas têm mantido com as crianças. Até nos nossos dias.

Os relatos que nos chegam de perto e de longe, os atentados contra as crianças fazem-me ter vergonha de habitar este planeta. E se alguém  me viesse propor para voltar a ser criança, hoje, seria imediata a minha resposta: “Não, obrigado”.

Longa vida à UNICEF! Será, sem sombra de dúvida, o maior monumento de toda a história: construir a Criança, na sua dimensão global.

          A quinze dias do “Grande Dia”, oxalá a Criança da Gruta seja aquela que a UNICEF ostenta nas mãos da Humanidade!

 

         11.Dez.20

         Martins Júnior                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

QUANTOS ROSTOS TEM O NATAL?

                                                                  


Que rosto tem o Natal?

E que corpo tem a Alegria?

Estavam em franca euforia de um jardim de infância regressado, de há 70, 80 e mais anos. Os baloiços eram as mesas, suficientemente distantes umas das outras, com muitos lápis coloridos sobre folhas de papel onde aquelas mãos de dedos finos do trabalho árduo e grossos de rugas da idade desenhavam silhuetas de árvores, pássaros, telhados e jardins. Após o lanche, os tampos das mesmas  mesas  zuniam com o arremesso decidido das cartas vencedoras, à bisca ou ao cassino.

Os passos de dança, de pés arrastados para os estranhos, mas leves e saltitantes para eles e elas em plena sala, faziam retomar os ritmos esquecidos da recuada juventude. O dia era uma festa, já era a “Festa” anunciada. Para a vintena de anciãos ali felizes com o ambiente que a solidão do lar não lhes oferecia, perder um dia no Centro de Convívio era o mesmo que encurtar um ano na vida.

Por isso, quando a directora entrou e falou, uma nuvem pesada abateu-se na sala e esmagou toda a alegria reinante. Transformou-se em choro e lágrimas o que, momentos antes, era  descontração e saúde. Que terá dito a jovem directora?

“Queridos utentes deste Centro, muito nos custa dizer-vos, mas dou-vos a saber que vamos encerrar as nossas actividades daqui até ao fim do ano. Primeiro, porque estamos já perto do Natal, que é a Festa da Família. E depois, para evitar qualquer hipótese de risco ou contágio do covid. Nenhum de nós o tem, é verdade,  mas é melhor prevenir que remediar. E é isso que as nossas autoridades recomendam”.

Razão tinham para tamanha tristeza:

“Mais se quer ficar aqui. A minha família está toda pra fora. Não tenho ninguém em casa. Aqui é que é o meu Natal, todos os dias”.

Quem ouviu os lamentos, fora da sala, sentiu apertar-se-lhe o coração. A porta-voz e a própria psicóloga não se aguentaram de comoção e prometeram visitar os seus “pupilos”  durante a quadra natalícia. E lá se encaminharam, metidos em seus abafos, cada qual para casa, meneando a cabeça para a sala, como quem olha, já saudoso, para a pátria que deixou para trás.

A solidão, ai o amargo espinho da solidão!

As próprias paredes da casa, por mais abastada e farta, não saciam a fome de alegria de quem se vê só!... E não há lareira que aqueça o frio cortante da saudade.

Perdoem-me os meus amigos, companheiros nas jornadas bloguistas, mas achei reconfortante e útil partilhar convosco a comoção que me tomou por inteiro quando me contaram o ocorrido. E o quanto é necessário e consolador estar com aqueles que não têm ninguém com quem estar. Neste e noutros Natais. E com eles aprender que o “Natal é quando o Homem quiser”.

Procuro todos os dias a resposta à pergunta que me persegue: “Quantos rostos tem o Natal e que corpo tem a Alegria”?... Encontro-a escrita em cada pedra do caminho, em cada escarpa da falésia, em cada ausência carente. Acho-a também, por mais estranho que pareça, misticamente plasmada naquele cânon de Maomé: “Levar alegria nem que seja a um só coração vale mais que construir mil altares”. E eu direi: Que  presépios mil!

 

09.Dez.20

Martins Júnior


 

 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

VACINADA CONTRA TODOS OS VÍRUS!

                                                                              


Correndo o risco de perder, apostaria em que a esmagadora proporção dos cérebros viventes passa ao largo daquela estância ferial, designada por 8 de Dezembro. Dia de folga, associado  a efemérides voláteis consoante os lugares, os acontecimentos aí ocorridos, personagens particulares ou colectividades múltiplas, o que fica por saber e esclarecer são as raízes que lhe deram corpo.

Desde 1646, ano em que D.João IV depôs a coroa real e colocou-a na imagem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, em templo mandado construir pelo Condestável do Reino, Nuno Álvares Pereira após a vitória de Aljubarrota no século XIV, desde então o vitorioso monarca da Restauração proclamou-a Rainha de Portugal: é a reminiscência tetrassecular que sustenta o 8 de Dezembro, a qual foi repercutida noutras regiões e concelhos, entre os quais a cidade de Machico, de que é Padroeira.

Foi enorme a cruzada expansionista do culto à Imaculada. Penetrou com a mesma simpatia tanto na ruralidade das ermidas como nos palácios da nobreza, inclusive na cátedra dos intelectuais, chegando até à Universidade de Coimbra, onde os estudantes, ao ascenderem aos superiores graus académicos, incluíam “o juramento solene na Conceição Imaculada da Mãe de Deus”, uma práxis abolida após a proclamação do dogma, em 1854, pelo Papa Pio IX.  

 Mas em que consiste, afinal, o dogma da Imaculada Conceição?

E que ilações para os tempos que correm?

 Invertendo os termos da nomenclatura oficial – Nossa Senhora da Conceição – encontraremos a resposta: Conceição (ou concepção imaculada) de Nossa Senhora, querendo com este título significar que Maria de Nazaré, a futura Mãe do Nazareno, foi prendada, desde a nascença, por um privilégio especialíssimo,  jamais outorgado a nenhum outro mortal: o de nascer sem a ‘mácula’ (ou pecado original), o que, por sua vez, a tornou geneticamente livre de qualquer má tendência e demais deficiências hereditárias a que todos os seres humanos estão condenados “pelo pecado de Adão”. Trata-se de uma interpretação – esta do pecado original – congeminada por Agostinho de Hipona, no século IV, apoiada em premissas puramente indiciárias, cujo desenvolvimento e exegese não cabem neste breve apontamento.

O que importa decifrar é o alcance semântico da designação “Imaculada Conceição” (Concepção) desse pequeno-Grande Ser”, desde o primeiro instante em que Ana e Joaquim consumaram o acto de gerar e trazer  ao mundo Aquela a quem puseram o nome de Miriam ou Maria. Nos nossos dias, em que tanto se investiga e deseja a milagrosa vacina, poderemos compreender o tal privilégio: Maria nasceu já vacinada, desde a concepção no seio de Ana, contra toda a espécie de imperfeição, deficiência ou pecado. No limite, diremos que Maria foi predestinada para a perfeição absoluta, de tal forma, que mesmo que quisesse errar ou pecar, nunca poderia fazê-lo, por estar predeterminada para a suma perfeição.

Embora os monarcas portugueses tivessem usado a Senhora para fins bélicos e patrioteiros – uma tara incurável de todo o poder político – a realidade é outra, a concepção sem-mácula da jovem de Nazaré. Motivo de festa, coros angélicos, repiques argênteos de sinos nas catedrais, apoteose total. Mas, na base e no vértice, não são para Ela os clangorosos panegíricos, porque tratou-se de um privilégio puramente gratuito da parte do Supremo Ordenador do Universo. O antídoto anti-mal foi obra e graça de Outrem e não d’Ela.

Por isso, neste dia, em contraste e contra-luz, presto homenagem a todos quantos – homens e mulheres, novos e velhos – fazem da vida uma luta porfiada e sempre inacabada para corrigir erros, emendar caminhos, escalar montanhas e abismos até alcançar a perfeição possível a um ser humano. Admiro e ajoelho-me diante de quem nasceu nas trevas e carregado de traumas genéticos, mas depois consegue revestir-se de luz, de generosidade, de altruísmo heróico. Aplaudo os atletas paralímpicos e os vencedores anónimos que ultrapassaram as muralhas da sua deficiência e subiram ao vitorioso pódio da Vida. Saúdo Demóstenes, tartamudo de nascença, que macerando a língua com os calhaus da praia, tornou-se o Príncipe dos oradores atenienses. Saúde Madalena, a pecadora (todas as Madalenas) que venceu as pecaminosas esquinas da cidade de Jerusalém e tornou-se a apaixonada bandeirante das causas do Nazareno.

E, mais que pela concepção imaculada, saúdo Maria pela coragem em assumir a maternidade de um Homem contra o qual (e contra Ela) se atiraram como feras os poderosos deste mundo. Admiro-a pela sensibilidade de mulher atenta, aquando das bodas de Caná da Galileia. Adoro-a, pela fortaleza, “mais do que permitia a força humana”, acompanhando o Filho até à última gota de sangue, Ela, a inamovível Estátua da Dor no alto do Calvário!

Se grande é o Seu privilégio por nascer gratuitamente virada para o Sol Eterno, maior é o galardão dos que, nascidos nos antros da escuridão, guindaram-se ‘a passos de gigante e a golpes de montante’ até ao relativo Graal da Felicidade, a sua e a dos outros.

 

07.Dez.20

Martins Júnior

     

                       

sábado, 5 de dezembro de 2020

JARDIM SUSPENSO OU CEMITÉRIO DE ILUSÕES?... QUEM OS SEGURA?

                                                                 


Vê-la por entre a névoa nocturna e engrinaldada de todas as lâmpadas e de todas as cores baloiçando as ondas, a Ilha transporta-nos aos míticos jardins suspensos da Babilonia, magia da natureza e regalo dos deuses.   Mas, no mesmo olhar, logo que nela se põe o pé, sobem-nos as dúvidas, os medos, outras vagas agarram-se-nos  aos nervos e às mentes, ao coração e ao ouvido quando escutamos notícias, comunicados oficiais, lamentos de empresários e trabalhadores. A chave-de-ouro dos 365 dias do ano – o Natal -  cai ao chão e, em vez de abrir, fecha-nos o portão da felicidade. Tudo, por dentro, contrasta com tudo o que por fora salta aos nossos olhos de adultos regressados à infância. Tudo se nos oferece como desalentada ironia ao nosso sofrimento. E só depois de queimadas as ilusões do despropositado vendaval de fogo arraialesco é que ficará desenhado nas cinzas do chão o cemitério de tantas expectativas goradas.

         Seria oportuno investigar como é que os nossos antepassados reagiram às suas epi/pandemias. Recuperando velhas superstições pagãs, os crentes recorriam à fé, às rogações processionais, aos santos protectores. No Funchal, a São Tiago Menor; em Machico, ao Senhor São Roque, invocado em solene cortejo público para livrar da peste o município e, com base na tradição cultual, nomeado em 1728 Padroeiro de Machico, por votação da Câmara Municipal, conforme consta dos Anais do Município.

         Em tempos bíblicos, conta-nos o Livro, precisamente neste fim-de-semana, que foi Isaías Profeta quem segurou o povo de Israel dizimado após sucessivas derrotas em confronto com os invasores fronteiriços: “Levanta-te e segura o Meu Povo. Sobe à montanha mais alta, ó arauto de Jerusalém, e grita: Acabou a tua escravidão”! (Cap.40, 1 sgs).“. Mais tarde, já chegada a hora de aguardar o Líder Salvador do Reino Judaico, surgiu o Precursor João, homem austero, exigente consigo e com os outros, protótipo de Pedagogo e Condutor de multidões. O caminho, o código de conduta que impunha ao povo, era ele quem primeiro impunha a si próprio, como ler-se em Marcos, capítulo I.

         Hoje, as mentalidades já esclarecidas não procuram no hagiológio eclesiástico soluções sólidas para os grandes problemas que afligem a humanidade. Caminhamos nas sombras, tateando as veredas e sem certezas sobre o fim do túnel. Onde estão os líderes, os luzeiros, os salvadores da grei?

         Impressionou-me ouvir a Ministra da Saúde: “Não há noites mais duras, não há noites mais escuras que as do governo em busca de alternativas”!... Imagino a luta titânica, as contraditórias hipóteses que se entrecruzam, dias e noites a fio, sobre a mesa e sobre a vida, esperando como prémio as pedras do caminho nas mãos dos que não decidem e só contrariam. Meto-me na armadura branca de todos aqueles e aquelas, valorosos soldados da saúde e da paz, tentando esgrimir, derrotar e destronar o invisível ‘corona’ da morte.

         E, ao lado e acima de todos, curvo-me diante de cada homem e de cada mulher, seja qual a sua idade, o seu múnus ou o seu lugar, que se conduzem responsavelmente por entre os meandros deste jardim suspenso, promovendo com o seu esforço de confinamento, solidão e acção esta luta concentracionária e auto-contorcionária, para evitar que a Ilha se transforme num cemitério de ilusões, no crematório das nossas legítimas expectativas.

         Viver o Tempo – este o nosso tempo – aquele que nos coube viver.

         Vivamos hoje para Renascer amanhã: é isto o verdadeiro Natal!

 

05.Dez.20

         Martins Júnior