segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

UM CARNAVAL AO CONTRÁRIO

                                                                      


No reino do Rei Otário

Uma lei foi dada ao vulgo

Carnaval será ao contrário

Assim o mando e promulgo

Outro corso e outro horário

O melhor do mundo julgo

Que até o Rio de Janeiro

Desistiu do pandeiro

 

A saída é de manhã

E vou mandar chover poncha

Para arrasar o ecrã

Daquela Lisboa trouxa

Hão-de ver o Grande Fã

Travestido à moda gouxa

A tocar o reque-reque

Al é Grande e o seu  Quéque

 

E na grande barafunda

Da noite das lantejoulas

O Rei das rosas inunda

Do perfume das papoulas

A miss, o barão e o corcunda

Abre o peito alça as ceroulas

E grita em língua de ilhéu:

Aqui quem manda sou eu!

 

Não há Terreiro nem Paço

Nem coisa que se o pinta

Aqui manda outro palhaço

Outro é o vigia da Quinta

Passa-me aí um fumaço

Enche-me os beijos de tinta

Eu não sou qualquer  joão

Meu bombo é mais que um trovão

 

Passaram a noite em refregas

Quem abria o carnaval

Encontrões e cabras-cegas

Por causa do enxoval

E ao cabo de muitas negas

Chegou um acordo final:

Será homem ou mulher

Quem Rei Otário quiser

    

 ……………………… Continua amanhã, quando sair o entrudo…..

 

         15.Fev.21

O  Espectador sem senso nem consenso

sábado, 13 de fevereiro de 2021

SEMEADOR DE ESTRELAS E PATRIOTA TELÚRICO

                                                                   


Gabriel Arcanjo!…

 A mãe lhe dera

Um nome e o mantivera…

Lindo nome!

Porque onde quer que ele chegasse, era a anunciação da Primavera.

A lealdade do sorriso, a transparência do olhar, o ritmo da sua voz!

Tão jovem – que jovem era!

Foi pensando nele e em todos iguais a ele que Fernando Pessoa escreveu “O Menino da sua Mãe”.  Como a luva que se desprende da mão, foi-se a luva e ficaram as mãos plenas de estrelas como um general e dóceis, humildes como sereno patriota servidor da grei.

Nos seus sonetos, Francisco Álvares de Nóbrega, “O Nosso Camões” , chamava a Machico “A Pátria do Autor”.

Gabriel Arcanjo bem podia dizer o mesmo. Em todos os gestos, em suas palavras, em suas emoções  - vi-o pessoalmente e por  tantas vezes -  palpitava um acrisolado amor pátrio à terra onde nasceu e cresceu.

 Não esqueço a sua presença imponente, sincera e emotiva quando em Lisboa apresentei os CD’s Machico, Terra de Abril e Viva a Vida, e ainda Poemas Iguais Aos Dias Desiguais. Onde estivesse Machico, lá estava Arcanjo Gabriel!

Que mágoa me ficou com esta partida tão cruel, que não nos permitiu concretizar a já programada iniciativa cultural autóctone… Cidadão do Mundo, ficou a sua obra de investigador exigente no respeito pelas fontes históricas.

Mesmo sem crer que nos já nos deixou, junto-me à sua volta, com seus pais, com seu irmão Mário Avelino, meu afilhado e a cujo casamento presidi (permitam-me este incontido estado de alma) e que tão cedo também transpôs a meta da existência. Junto-me aos familiares vivos, aos amigos – e tantos, tantos que eles são… para dizer num apertado abraço de homenagem e saudade: Morrer é só deixar de ser visto!

Como o Arcanjo Gabriel, na Anunciação, vaticinou a Boa Nova nascente, assim também sobre a lousa de Gabriel Arcanjo há-de ver-se um rasto luminoso a alumiar-nos enquanto houver caminho para os nossos passos…

13.Fev.21

Martins Júnior

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

VACINAS AO VENTO PARA DOENTES ANÓNIMOS – NO SEU DIA

                                                                              


Àquele que ditou em hora aziaga que “A vida é uma doença letal sexualmente transmissível”

eu, opositor de nascença, enfrento e digo:

A doença é um suplemento vital ascensionalmente invencível

 

Contra quem escreveu que “Sempre o pior mal é ter nascido”

peço a Gal Costa que cante e brade ao mundo o seu último poema:

“É preciso, ó doce namorada,

Seguirmos firmes na estrada

Que leva Nenhuma Dor”.

 

A rocha bruta, informe, não sofre,

antes sofre e estremece a fina e frágil porcelana posta ao vento

Quando a Dor é de seu  trauma tangente faz-nos chorar e gritar,

mas quando é grande, enorme, a mesma Dor faz-nos mergulhar num silêncio esmagador  

 

E porque transporto, imaginando, toda a Dor do Mundo, calo a minha voz e abraço todos os enfermos, todos os náufragos, todas as vítimas deste enigmático roteiro que nos foi dado viver

 

Somos todos doentes que transportam doentes

até à suprema saúde letal!

 

Volto a Gal Costa, no seu ‘Canto do Cisne’:

“Minha doce e triste namorada

Minha amada, idolatrada,

Salvè, salvè o nosso Amor,

Sigamos firmes na estrada

Que leva Nenhuma Dor”.

 

VIVA A VIDA !!!

 

         11.Fev.21

         Martins Júnior

 

 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

NO PLANETA HORIZONTAL, TUDO É HORIZONTAL – NÓS TAMBÉM! HOMENAGEM A DUAS MULHERES

                                                                          


Já que não nos é permitido deambular por entre os fantasmas invisíveis que, a qualquer momento e em qualquer esquina, podem picar-nos a pele e a vida, então sentemo-nos. Façamos um poema. Ou pintemos uma aguarela. Ou viajemos na rota do sonho.

         Como ponto de partida, desde o nosso sofá, leiamos em rodapé a notícia de alguém que brilhou como estrela polar no teatro musical, do bailado, da arte. E que arte, a das Supremes. Seu nome: Mary Wilson. Morreu ontem.

                                                                    


         Mary Wilson!... Mas este nome não é este - passe a tautologia. Mary Wilson já lá foi. Em 1916. Homónimas na cédula de nascimento, heterónimas no percurso existencial, simétricas na horizontalidade do seu epílogo, ambas são hoje aqui reerguidas e lembradas. Aquela, pelo timbre da sua voz avassaladora, fundadora das Supremes, ao lado de Diana Ross e Florence Baillard, revolucionou a musica pop,  levou ao apogeu a música e a condição afro-americanas, ganhou o galardão no Rock and Roll Hall of Fame, na década de 60. Esta, Madre Mary Wilson, nascida na Índia, em 1840, após a formação académica nas melhores escolas europeias, a que juntou o  curso de enfermagem, aportou à Madeira em 1881, como acompanhante de uma idosa doente. Aqui, longe das ribaltas mundanas e sensibilizada pelo ambiente deficitário da ilha, revolucionou o assistencialismo tradicional, abriu escolas, hospital e farmácia, numa época dominada por crises sanitárias e sociais, tendo criado uma importante organização de mulheres, a Congregação  Franciscana de Nossa Senhora das Vitórias, cuja acção tem moldado notoriamente os contornos da sociedade madeirense.

                                                            


         “Estranhos fados tão diversos”! Tão desencontradas as pulsões, os movimentos, os meandros correntes e os meneios d’alma.  E, paradoxalmente, tão iguais o cômputo dos dias e arquitectura dos fins: Ambas terminam a marcha precisamente aos 76 anos de idade e ambas viajam na mesma direcção horizontal!

         É neste ecrã que hoje me demoro. Por mais voltas que dê ao mundo e por mais sensores que possa clickar à descoberta das mais longínquas  estações, acabo sempre no mesmo exíguo quarto da horizontalidade corpórea. Todo o mundo é horizontal.

         Perto de nós, Carlos do Carmo é a voz horizontal. Mais longe, Leonardo da Vinci é a paleta horizontal. Einstein é a relatividade horizontal. Camões é a epopeia horizontal. “Le Roi-Soleil”, mesmo vestido de astro-rei, não é mais que o poder horizontal. E Cleópatra, Joana Princesa foram e as intocáveis divas “Miss Universo” serão um dia voláteis estátuas horizontais.  

         Seremos todos exemplares jacentes – seremos  estáticos e impotentes infra-robôs irremediavelmente postos, num minúsculo palco, aos olhares dos transeuntes, nossos ex-companheiros de viagem. E tudo quanto tu e eu e nós escrevemos ou cantámos ou chorámos “tudo caberá num estreito baú de dois (ou sete) palmos” – perdoe-me Eugénio de Castro ter-me apropriado do emocionado soneto que dedicou ao seu menino, prematuramente falecido.

         Para que seja bela, transcendente a nossa horizontalidade, vivamos na mais decidida e crescente verticalidade. Do embondeiro mais alto da floresta, daí é que se alcançam os horizontes distantes. E é por isso que “as árvores morrem de pé”!

         Neste chão coalhado de monumentos caídos às ordens de “Sua Crueldade Covid/19”, algo façamos para que os viventes, candidatos como nós ao mesmo pódio, vejam na nossa inevitável horizontalidade  os nobres horizontes de uma vida que valha a pena viver.

Como as duas ‘gémeas Mary Wilson, unidas pelos cem anos que as separam. Que elas nos permitam dizer: I Am Mary – Je suis Wilson!

09.Fev.21

Martins Júnior

        

domingo, 7 de fevereiro de 2021

SINTOMAS E DIAGNÓSTICOS DE MILÉNIOS – “E NADA DE NOVO DEBAIXO DO SOL”

 

                                                               


         É o meu recanto e o meu observatório de cada início de semana, a qual, sendo numericamente repetida, ganha um halo sempre novo quando vista deste lugar cimeiro. Hoje,  no lugar cimeiro está o LIVRO e dentro dele, no dizer de Alfred Tommyson, “o mais belo poema dos tempos antigos e modernos”. Passando além das diversas interpretações críticas – história ou conto – vejo-o como uma bem argamassada alegoria épica que toca a grandeza e a miséria do Homem, a sua genética fragilidade e, ao mesmo tempo, a resiliência vitoriosa de que é capaz.

         Nesta hora, apraz-me tão só reconfirmar o veredicto do Rei Sábio, Salomão, quando se deu de contas de que  nihil sub sole novi – “nada de novo acontece debaixo do sol”.  Ajuda imenso ao equilíbrio do nosso composto psico-somático constatar que, antes de nós, ou longe ou perto, são idênticas as pedras do caminho e são os mesmos os contornos da viagem.

         Recomendo a leitura  do “Libro de Job”, todo inteiro, mas particularmente no caso em apreço, o capítulo 7, versículos 1-10. Aí estão os sintomas de toda a morbilidade humana, com um tal realismo e uma tal crueza que parecem escritos pela nossa própria mão. Até em tempos de pandemia:

         A minha vida é como o vento que passa … a minha pele está seca, gretada … toda a noite dou voltas na cama até de madrugada … os meus olhos nunca verão a felicidade … Os olhos (de quem me ama) não tornarão a ver-me … E quando os teus olhos me procurarem, eu já não existirei …Como a nuvem que passa e se desfaz, aquele que desce à sepultura nunca mais voltará a subir… nunca mais voltará à sua casa e o seu lugar jamais o conhecerá…

         Trágico, deprimente, assustador! Certo. Mas não menos certo é constatarmos hoje, século XXI que, já no século VII A.C., (há mais de 2.700 anos) gente como nós sentia no corpo e no espírito o aguilhão da dor e, no caso de Job, da mais dura desilusão e do mais pérfido desespero. A História, seja repetição ou mera sucessão de factos, nunca deixa de ser a roda gigante que toca a todos, seja no epicentro, seja na periferia dos tempos. Contrariando o clássico  axioma, ousarei dizer que a vida é o grande rio que passa muitas e tantas vezes debaixo da mesma ponte.

         Neste clima  (aparentemente) estranho, onde as expectativas alternam com os reais dramas diários, o grande avatar que nos povoa tem um nome de mil rostos: sofrimento. Ousar fugir-lhe é como fugir da própria sombra. Confrontá-lo, derrubá-lo ou ultrapassá-lo – eis a saída. Tal como o velho lobo do mar que na velas sabe captar o vento contrário para levar a bom porto a sua nau, assim também o viageiro inato que há dentro de cada um de nós.

         Recordo aquela manhã de sol, de há 50 anos, quando fui celebrar a Eucaristia à marinhagem de um vaso de guerra francês ancorado no porto do Funchal e aí citei o elevado pensamento do poeta Alfred de Musset: L’homme est un apprenti et la douleur est son maître. O “Livro de Job” prova-o, à saciedade: “O homem é um aprendiz e o sofrimento é o seu mestre”.  

         E se me ficou gravado o optimismo transformador de Musset, muito mais me ficaram a voz e a alma de Vinicius de Morais, em São Paulo, no memorável concerto com Toquinho e Maria Medalha:

         Quem passou pela vida e não sofreu

         Pode ser mais, mas sabe menos do que eu

Porque a vida só se dá pra quem se deu

Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu

        

         Vencidismo, passiva resignação?... Pelo contrário. Não resisto a reproduzir aqui o excerto do “Fado da Minha Rua”, escrito e cantado nas serenatas de Machico de outro tempo:

         O nome da minha rua

         Tem o tamanho da gente

         Corpo magro que recua

         E alma que grita: Prá frente!

 

         E já que estamos na esteira da poesia que faz a metamorfose da prosa dos dias, impossível obliterar a conclusão de Musset: La joie a pour symbole une plante brisée: Humide encore de pluie et couverte de fleurs – A alegria tem por símbolo uma planta ferida (quebrada) : húmida ainda da chuva, mas toda coberta de flores.

         Como Job que reconstruíu-se em plenitude, a partir de dentro de si mesmo, também cantaremos vitória de olhos sempre postos na meta! Per angusta ad augusta: Pelo meio dos apertados desfiladeiros, alcançaremos o cimo da montanha! Com o nosso esforço, com as nossas restrições, com o nosso confinamento!

 

07.Fev.21

Martins Júnior

 

             

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

INFLAÇÃO PANDÉMICA: AJAM EM CONFORMIDADE E FAÇAM – A TRIPLICE LIÇÃO DO PASSADO

                                                                              


Eu, que não sou nada atreito a expor “estados d’alma” nestes dias ímpares, muito menos “despir-me” em público (até por isso detesto os estendais do facebook) venho hoje descarregar toda a bílis e todos os autoclismos em cima de tanto charco, de tanta sarna e de tanta babugem que os ecrãs, os opinadores, os ‘achistas’ os locutores e os loquazes políticos de alto a baixo despejam diante da nossa cara, presa aos noticiários.

É de uma interminável tragicomédia-de-rua aquilo que nos é servido, “ao almoço, jantar e ceia” (assim fala o dialecto madeirense), dando a impressão que cada cena é uma imbricada trança que reproduz outras tantas quantas os figurantes quiserem. Dá também a impressão que nós, os inquilinos terráqueos, não passamos sem isto, algo que faça faísca que produza o medo, depois a desconfiança e, no fim, a sentença no banco dos réus.

A Pandemia em três Actos, ao abrir o palco do século XXI.

Primeiro, o pânico que a todos nos tolhia, com a garra adunca da morte batendo à nossa porta e nós a esconder-nos como tímidas crianças nos biombos do confinamento. A seguir, o  intermezzo allegro ma none troppo que nos fez aliviar, tergiversar, divertir, para logo nos fecharmos como monges orantes acendendo velas nas aras da Pfizer, da AstroZeneca, da Moderna e afins. E elas vieram. E foi o Terceiro Acto: quando se esperavam solos de trompetes e marchas proclamatórias, eis que por causa de uns escorregadios “chico-espertos” (isso é algo tão estranho que não rime com o português  decerto?…) por causa desses mosqueteiros de pacotilha e alguidar volta outra vez a guerra, os quilómetros de fita em estúdio,  as quadraturas, as circulaturas, os eixos maléficos e os réus de lesa-magestade.

Poupem-nos. Poupem-me. Façam o que têm a fazer e andem para a frente! Já há traças demais com que nos coçar.

Por tudo isso, preferi outras companhias. Sabia que as encontro todos os anos nesta viagem tricircular, entre 4-5-6 de Fevereiro,  Em 4, assisto ao nascimento do fundador do moderno Teatro Português, Almeida Garrett, no ano de 1799. Em 5, acompanho à última morada em 2003 o maior poeta moçambicano, José Craveirinha, depois de o ter visitado em Maputo, três anos antes. E em 6, de 1608, saúdo a natividade do ‘Imperador da Língua Portuguesa’, o Padre António Vieira. Sinto-me bem, ouvindo as oportunas mensagens de cada um deles. Tão oportunas e frescas como buganvílias roçando os nossos ombros, quer dizer, plenamente aplicáveis à pandémica e babélica barafunda que anda por aí. Ofereço-vo-las, de bom grado;

                                                   


De Almeida Garrett, de ironia cáustica sobre os políticos e seus apaniguados:

Dizia-me um secretário de Estado, meu amigo, que para se repartir com igualdade o melhoramento das ruas por toda a Lisboa deviam ser obrigados os ministros a mudar de rua e bairro todos os três meses.

 

                                                        


De José Craveirinha, o seu ânimo libertador e a esperança no dia futuro, como um girassol por entre os espinheiros da exploração humana:

Do ódio e da guerra dos homens

Das mães e filhas violadas

Das crianças mortas de anemia

e de todos os que apodrecem nos calabouços

cresce no mundo o girassol da Esperança

                                                  


E do maior e mais eloquente Orador da Pátria Lusa, este pregão tão solene e imperativo como uma Encíclica Urbi et Orbi:

Nós somos o que fazemos. O que não se faz não existe.

Portanto, só existimos nos dias em que fazemos. Nos dias em que não fazemos, apenas duramos.

Agir em conformidade. Fazer. Alumiar.  No 4-5-6 de Fevereiro faço o meu Tríduo Pascal antecipado, com aqueles “que da lei da morte se vão libertando” e, por isso, continuo a vê-los e ouvi-los no ecrã planetário onde todos os dias nasce a Luz e ”Cresce o Girassol”!

 

05.Fev.21

Martins Júnior

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

NÃO CHORO PELA SUA MORTE… CHAMO PELA SUA VIDA !

                                                                        


Em cinzas dorme a couraça do guerreiro.

Só a couraça, porque o resto (e o resto é tudo!) não ficou nas cinzas, crepita e canta no braseiro que nunca se extingue.

         Amândio Silva – 82 anos. Toca-me, invade-me, projecta-me.

         Sem nunca nos cruzarmos na vida, agora reconheço que somos vidas cruzadas. Abria a década de 60 do século XX. E enquanto eu subia os degraus da Sé do Funchal para começar a servir uma Igreja que subservia o fascismo de Salazar (tão ingénuos que nós éramos)  o jovem Amândio alçava-se aos céus da lusa nação no famoso avião ‘Super-Constellation’ (desviado entre Casablanca e Lisboa) para, com outros cinco corajosos patriotas, lançar um grito de alarme (mais um!)  contra o regime totalitário do ditador que, não satisfeito em esmagar o “Bom Povo” na metrópole, enviava para o matadouro da guerra colonial o sangue novo de Portugal.

         Já antes, em 1959, Amândio da Conceição Silva perfilara-se na histórica “Revolta da Sé Patriarcal de Lisboa”, solidário com o movimento de sublevação anti-salazarista, convocado por católicos inconformados com a situação do país e contra o manifesto colaboracionismo do Cardial Cerejeira.

         Sem nunca o ter encontrado na vida, os nossos caminhos entrecruzaram-se nas rotas de um ideário libertador. Tentei seguir as mesmas pegadas, ainda que não lhes conhecesse o autor, tal como se abraçam no pleno da luta todos aqueles que, perto ou longe, sonham com um mundo melhor, a “Casa Comum”, aberta a todos e por todos igualitariamente respirável.

         E um dia chegou – 27 de Abril de 2019 – uma multidão de ‘íntimos desconhecidos’   em frente dos fatídicos portões da cadeia de Caxias! A festa não podia ser maior: toda aquela gente estava ali para comemorar os 45 anos da Liberdade, aquela manhã memorável em que eles, os mesmos ali presentes, tinham alcançado o Dia Novo pelo qual tanto haviam sonhado, lutado, sofrido. Um deles: Amândio da Conceição Silva!

           Inesquecível, avassalador, sublime foi ver abrirem-se os portões verde-escuro e logo irromperem em alvoroço 45 crianças, de cravos em punho, gritando “Liberdade, Liberdade”! Eram netos saindo dos escombros onde os avós aprisionados ganharam essa mesma Liberdade.

         Nunca exaltaremos suficientemente o nome e a memória daqueles que expuseram o peito às balas da ditadura e afrontaram os monstros da opressão. “Não viemos do nada – dizia-me hoje, de longe, essoutro sonoro construtor de uma “Terra Prometida”, outra “Jerusalém” - Francisco Fanhais. “Antes de nós, outros deitaram raízes e regaram-nas com muito sofrimento e muita luta”.

         Esquecê-los é anularmo-nos a nós próprios. É com eles que libertamos os inocentes condenados pelo império da força. Precisamos hoje e sempre  dessa couraça de heróis para arrancar de todas as cadeias todos os Navalny’s que ainda jazem neste planeta.

         Amândio Conceição Silva:

A teu lado, em Caxias Libertada e na Vida que te chama a toda a hora!

           

         03.Fev.21

         Martins Júnior