terça-feira, 15 de junho de 2021

IRONIAS E SÍNTESES DO MUNDO DESTE SÉCULO “PAN (EM) ET CIRCENSES”

 


PAN (DEMIA) E JOGOS

 


Assim vai o mundo.

Aos antigos, ao menos, davam pão.

Hoje contentamo-nos com pan (demia) e, à falta de pão, sobram-nos os euro-jogos.

Quem quer e quem ousa emergir do hibridismo pantanoso e divertido a que nos condenaram os deuses próximos que nos comem ao almoço, jantar e ceia? …

         15.Jun.21

         Martins Júnior

domingo, 13 de junho de 2021

PREVISÕES METEOROLÓGICAS PARA UMA ESTRANHA ÁRVORE

                                                                               


     

Início de uma semana marcada pelo olhar de um vidente, biólogo e agricultor de terras por descobrir. Como habitualmente, fico sempre atento ao LIVRO que, desta feita, vem em Marcos, capítulo IV.

         “A que hei-de comparar o meu Reino? Tão simples como isto: um grão de mostarda, a mais pequena de todas as sementes que a terra dá, mas em crescendo torna-se a árvores maior do jardim, ornada de ramos tão amplos e generosos que vêm fazer-lhe ninho todos os pássaros que há em seu redor”.

         Faço um  imperativo silêncio introspectivo, respiro profundamente e depois procuro com o meu olhar interior essa Árvore prendada pela previsão do seu plantador e cuidador omnipresente. Vou acompanhá-lo durante toda a semana e pôr-lhe-ei questões inadiáveis, incontornáveis, porque são tantas as árvores espalhadas no jardim da história, tantas que dificilmente lobrigo aquela à qual se referiu o Nazareno, nas suas previsões meteoro-sociológicas.

         Há-as opulentas de dorso troncudo, agarradas ao solo avaro. Há-as esguias e altaneiras, como misses dominadoras em desfile de figurinos botânicos, há-as pesadas de folhagem de oiro, oriundas de um filão aurífero escondido em terras de senhorio. E muitas outras há-as, tão sumptuosas que se confundem com o mármore das cúpulas e das colunatas barrocas, aonde nem os pássaros se aproximam com medo de serem devorados.

E onde está aquela, plantada e arroteada pelo seu Autor Primeiro?

 Árvore-Ecclesia, Assembleia-Reino, Igreja-em-Movimento Crescente! Em que solo? Com que fertilizantes? Com que folhas e flores e frutos?...

Iniciada com um punhado de trabalhadores, quase todos da beira-mar, regada com sangue de mártires, seiva libertadora de escravos que ganharam o estatuto inteiro de seres humanos, onde e como estará a Árvore?... Tertuliano, desde o século III, prognosticava: “O sangue de mártires é semente de cristãos”.

Mas a Árvore teve colonos que a enxertaram à medida dos seus desígnios de mercenários, colonizaram-na, leiloaram-na e até venderam-na a outros latifundiários e com estes fizeram pactos de condomínios reais, escandalosamente alheios ao seu Plantador original. Daí, proliferaram os troncos anafados, as folhas de metal sonoro em cofres bancários, os zimbórios de estilo judaico-cristão, enfim, estiolou-se a seiva interior de tal maneira que têm fadários redobrados aqueles que tentam restituir a Árvore ao seu húmus inicial.

Falo em linguagem parabólica, quase-gestual, tal como descreve o capítulo IV, supra-citado. E a minha inquietação consiste em descobrir o paradeiro da verdadeira Árvore, por entre as cópias fac-similadas que dela fizeram os homens e os crentes aceitaram sem qualquer esforço de discernimento. Evitando cair no pessimismo depressivo que assolou muitos dos que tentaram conscientemente alcançar as raízes da Árvore, também evitarei o tremendo equívoco de confundir a Igreja de Jesus Nazareno com os palácios pontificais, com os embaixadores vaticanos e seus apaniguados ou com a coreografia mundana do espectáculo pseudo-religioso.

Toda a semana fixarei a minha pesquisa e a minha inquietação  no único fertilizante prescrito pelo Autor e Cuidador da verdadeira Árvore: “Os adoradores autênticos do Meu Pai são aqueles que O adoram em espírito e verdade”. (Jo, cap.IV,23).         

 

13.Jun.21

Martins Júnior


sexta-feira, 11 de junho de 2021

“LIÇÕES DE ABISMO” - O CASO "MEDINA"

                                                                           


        Peço licença ao grande romancista brasileiro Gustavo Corção para adoptar um dos seus títulos mais famosos (1950) e colocá-lo como um escaldante talismã à entrada deste terramoto abissal que sacudiu o mundo civilizado, desde a consciência do cidadão comum até às mais sólidas estruturas dos Estados-Nações.

        O abalo é, por si só, tão estrondoso e demolidor que nem me dá tempo para análises cirúrgicas nem para julgamentos sumários. Apenas oito emoções transcritas em oito parágrafos.

 

1.     Foi preciso chegar ao século XXI para saber que, além dos algoritmos, dos cibernautas e ciberterroristas, há  "Estados" subterrâneos a minar, na mais ordenada e maquiavélica clandestinidade, toda a vida de um anónimo cidadão! Quem poderá viver descansado?...

 

2.      Contrariando o optimismo produtivo da burocracia de Max Weber, os factos demonstram que a democracia burocrata desumaniza e mata!

 

3.     O chefe nunca dorme, nunca pode dormir. Mais que expectante, ele veste dia e noite o animus de vigilante, umas vezes agarrando o microscópio, outras o telescópio de antecipação para a acção!

 

4.     ´De minimis non curat praetor’ – diziam os romanos que o pretor (comandante, presidente líder) não se ocupa de minudências aparentes. Só que há ‘coisas mínimas’ assolapadas e às quais fazemos vista grossa, mas no fim explodem e despedaçam o Império. Tolerância ‘Zero?!

 

5.     No mais fino pano cai a nódoa – ensina-nos a filosofia de costumes e adverte-nos o veredicto da história. O líder nunca se deve iludir, sobretudo se atinge o cume mais alto da montanha. Saiba que às grandes altitudes correspondem as mais fundas depressões marinhas. Tudo quanto de belo, sumptuosos e útil construiu durante uma vida  pode ruir num furtivo relâmpago oculto nas nuvens ou latente debaixo dos pés. ‘Noblesse oblige’.

 

6.     Por isso, nunca esqueça que há um carreira de tiro organizada frente à porta da própria casa, pronta a disparar quando menos espera. O jornalismo escondeu na aljava as granadas de mão, desde Janeiro até agora!...

 

7.     Os corvos e os abutres aguardam, desde o princípio do mundo, o cheiro a carne moribunda ou feita cadáver. Nada fazem no terreno, mas puxam a ferros o lucro nas secretarias…

 

8.     Para que tal jamais aconteça, só há uma estratégia: Vigilância e Cidadania! E isto é connosco.

 

11.Jun.21

Martins Júnior

quarta-feira, 9 de junho de 2021

TÃO PEQUENA PARA UM TÃO GRANDE IMPÉRIO: CENAS SOLTAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA ENTRE MÃE E FILHA

                                                                                                                                              




  Não tarda muito e acordaremos todos em cima da campa rasa de Luís Vaz de Camões. Dão-lhe, ao 10 de Junho,  o épico e apoteótico  nome de “Dia de Portugal”.

         Quando os grandes acontecimentos passam no terreiro do nosso casebre e lhes seguimos as pegadas, eles perdem o brilho distante, parece que se desnudam e ficamos a descobrir-lhes as costuras e cicatrizes que de longe nos escapavam à vista desarmada. É o que desvendam, ontem, hoje e amanhã, os ilhéus herdeiros de Perestrelo, Zargo e Tristão Vaz. Basta um simples abrir e fechar de olhos para nos darmos conta do mito.

         Desde logo, o tremendo peso da Soberania materna no colo de uma frágil e esticada língua de terra-filha, perdida no oceano: os motores de guerra, as fardas luzidias nas medalhas acolchetadas ao peito, as bandeiras a secar ao sol da avenida, as botas cardadas estremecendo o asfalto, as trombetas “de Jericó”  em despique metálico com o troar dos canhões, enfim, uma tonelagem capaz de abalroar a minúscula canoa do Atlântico em volta.

         Mas a Ilha aguenta, porque  mais importante é o palanque – o ruído que rói a rolha da rádio, o olho mágico que se multiplica pelos campos e pelas cidades, pela metrópole e pelos continentes. É o palanque extático e é o palanque ambulante. Num, fisga a palavra patriótica, a de Portugal e, embrulhada pelo meio, a lamúria ‘matriótica’, a da Ilha. Oh, que emproado desfile de super-oradores, Cíceros e Demóstenes reincarnados! Oh que ribeiro de prantos infantis, hexa-seculares, enchendo as marés insulares! O outro palanque – o ambulante – comove e diverte ao mesmo tempo, tal o ridículo dos maldizentes de cá, agarrados por um cordão invisível, às ilhargas do Presidente Magno , dos Ministros médios e até das sotainas hierárquicas, tudo para que o Zé-Povo da baixa periferia  se embriague com esta premeditada ‘poncha’ verde-rubra, azul-amarela. Se os ecrãs deitassem cheiro, tresandavam ao olfacto do espectador as cenas de raspões e encontrões para ver quem se aperalta primeiro ao pé do Chefe…

         O máxi-Portugal de Lisboa enche o mini-Portugal do Funchal, inclusive vieram empolgar a Ilha as bandeiras de todos os países do Corpo Diplomático, representados pelo Embaixador do Vaticano, vestido ou revestido de Núncio Apostólico.

         Reconhecendo, embora, a presente comemoração como distinta e honrosa investidura nacional do nosso arquipélago (adjacente, assim lhe chamavam antigamente), assistir-se-á a um redobrado duelo de ‘violência doméstica’ entre a Nação-Mãe e a Ilha-Filha. Entrarão em fase mais aguda de pugilato político República e Autonomia. Nada de estranho desde a génese deste país, até porque, para haver Portugal-Nação, tiveram que terçar armas o filho Afonso e a mãe Teresa. O que de humilhante para nós vai ficar é o contraste entre a hipocrisia do ritual ora vigente e a ‘artilharia’ caseira  após o ‘regresso da República’ a Lisboa. É o costume...

         A este propósito, transcrevo a sensata ironia de Eça dirigida a Pinheiro Chagas sobre os falsos patriotas, a quem denominava de ‘patriotaças, patrioteiros, patriotadores, patriotarrecas’. Venha de novo Eça e substitua o prefixo pátrio por autonomisto, que quanto ao sufixo ficaremos muito bem elucidados.

         No Dia de Portugal, seja-me permitido erguer bem alto o glorioso padrão dos autênticos patriotas e lídimos autonomistas, os homens e as mulheres, jovens e idosos, que durante a vida aqui deram o melhor, os que no silêncio do seu lugar construíram a Nação e consolidaram a Ilha vulcânica, para o presente e para o futuro.

          Assim, Luís Vaz de Camões, em seu leito de morte, pobre e abandonado, em 10 de Junho de 1580 . Mas foi ele que perpetuou Portugal nas oitavas d’OS LUSÍADAS!

 

         09.Jun.21

         Martins Júnior

          

segunda-feira, 7 de junho de 2021

“LOUCO, DEMÓNIO… QUE NÃO CONHECE MÃE NEM IRMÃOS” – A HISTÓRIA QUE SE REPETE HÁ DOIS MIL ANOS”!

                                                                                   


        Quem queira argumento apetecível para protagonista  de um filme heróico tome os galões que compõem o título acima e logo terá trama suficiente para um sucesso (também se diz best-seller) de bilheteira. Dessa mesma substância se alimentam os episódios que avolumam a personagem ideal dos ecrãs:

Louco, porque não consegue comer nem dormir, assediado pelos que lhe batem à porta a pedir socorro. Demónio vivo, aos olhos dos carrascos todo-poderosos, porque o bem que faz ultrapassa as raias do humano normal, do política-e-socialmente correcto. Estranho, porque ao egoísmo étnico sobrepõe valores mais altos que a mediania omnívora.

Tudo isto qualquer argumentista pode encontrar no texto que no domingo passado serviu de mote  a milhões de comentários e escrituristas, cada qual à sua maneira. Vem no LIVRO e quem o narra é Marcos, capítulo 3, 20 e sgs.. É bem o retrato fidedigno do Nazareno nos melhores e nos piores entalhes do seu quotidiano.

Quem viu o extraordinário musical Jesus-Christ Superstar, de Andrew Llyd Webber , tocou-lhe  de certeza a azáfama trepidante do Mestre, afogado na multidão de homens e mulheres que o seguiam avidamente, esperando dele não só pão para a boca mas sobretudo alento de espírito para as suas sedes, lenitivo para as suas mágoas. E com tal premência que não havia tempo de comer ou de dormir. A própria família convenceu-se que Ele tinha perdido o controlo de si mesmo, enfim, que estava doido varrido. Depois, os doutores da lei, escribas, fariseus, sumos-sacerdotes orquestraram uma campanha capciosa (hoje diríamos, tipo máfia religiosa) para neutralizar o imenso sucesso do Mestre na cidade e nas aldeias circunvizinhas, injectando no povo o boato de que Ele tinha pactos satânicos com Belzebu e era, absolutamente, o demónio em traje humano. Finalmente, quando a “Mãe e os irmãos”  vieram ao local para retirá-Lo do meio  toda aquela gente que o rodeava mais que a um deus, Ele não conteve a indignação e respondeu como quem subalterniza a própria família biológica – “Afinal, quem é minha Mãe, quem são os meus irmãos?” – para recolocar em lugar cimeiro a família sociológica, a família ideológica, todos aqueles que cultivam os valores da vida e da solidariedade.

Não se esgotou no “Ano 33” a saga heroica do Nazareno. Ela repete-se, Ele está em agonia até ao fim dos tempos, bem  definiu Blaise Pascal. Muitos foram os homens e mulheres que, no seu tempo e lugar, subiram a mesma encosta pedregosa, sem comer nem dormir, atirou-lhes  o Status Quo os nomes mais insultuosos, desde estranhos, loucos e demónios. Só porque agiram como família ideo-sociológica do Líder Jesus de Nazaré.

O que acima trago escrito, faço-o como imperativo de consciência e afecto ao nosso Herói, Padre Mário Tavares Figueira. Fez ontem um ano que o seu corpo se foi. Tudo o mais ficou connosco. O seu espírito, a sua abnegação sem limites, a sua inteira doação às causas e à Casa-Comum. Também lhe atiraram os mesmos insultos – só porque fez o bem, só porque deu a mão aos que a injustiça e a exploração obrigavam a rastejar. Recordámo-lo aqui na Ribeira Seca, à mesma hora em que em Câmara de Lobos era evocada a sua memória.

Ele também ficará connosco até ao fim dos tempos !!!

 

07.Jun.21

Martins Júnior

sábado, 5 de junho de 2021

O AMBIENTE É UMA CRIANÇA…

                                                                     


          

No Dia Mundial do Ambiente prolonga-se e confirma-se o Dia Mundial da Criança, um tríptico cronológico, 1-3-5, que nos transporta para a simetria perfeita entre uma e outra sinonímia  e que me inspirou o  título deste blog de fim-de-semana: o Ambiente é uma Criança.

         E é-o, em toda a linha, porque no ambiente ecológico mais puro, tudo se renova, tudo renasce, desde as profundezas do oceano até à magnitude da esfera celeste. Mas, no jogo mais íntimo dos contrastes, não será menos certo afirmar que a Criança é o Ambiente, se por Ambiente condensarmos todos os segmentos e valências em que o homem nasce e cresce, desde a sua concepção no silêncio uterino do seio materno.

         Nesta mais ampla semântica ambiental, relacionada com a criança, tem sido paisagem idílica, emotiva - repetida e diferida por todo arquipélago da Madeira e Açores – que dá pelo nome sacro-romântico de “Primeira Comunhão”. Optei por este qualitativo, porque todo o ritual que envolve o acontecimento exala um perfume de encanto primaveril, em que a criança é rainha e a flor a sua dama-de-honor, grinaldas infantis e os pais em volta, formando o séquito de pajens improvisados. É, sem dúvida, a aliança mais genuína entre o sagrado e o romântico.

         Mas há quem não se deixe ficar embevecido na envolvência etérea do Tabor ou na revoada tangente do cenário primo-comungante. Por mais estranho que pareça, eu estou nesse grupo. Vejo algo mais além da beleza ternurenta dos neo-comungantes. Vejo e quase toco em plena evidência empírica a grande incógnita da pedagogia da Criança, no seu sentido holístico, em que se integra a educação espiritual, também designada educação religiosa. Sou daqueles que não se contentam com liturgias baptismais de bebés, com especiosas logísticas de Primeiras Comunhões ou com o ‘mestrado’ dos Crismas apa/amadrinhados. Recordo a judiciosa observação de um bispo, algures no continente português, acerca desta mesma questão: “Colegas (falava aos bispos presentes) não nos iludamos: o Sacramento do Crisma é, para grande parte dos jovens, a porta de saída da Igreja. Desaparecem, E se voltam é só para serviços pontuais e esporádicos”.

         O que decididamente me preocupa não é o acesso à Mesa Comunitária, bem como o espectáculo que a rodeia. O que importa, acima de tudo, é o que fica na substância daquele ‘Pequeno-Grande Ser’ que acede ao acto sacramental, ou seja,  o conteúdo espiritual  que deixe a Criança serena, segura e feliz. E mais: que ela deseje voltar ao convívio fraterno e interprete o sagrado, dentro dos limites da sua capacidade intelectiva, sem temores e sem ilusões.

É grande o perigo. Por experiência própria, garanto que é mais fácil dar uma aula ao 11º/12º ano do que dar uma catequese esclarecida e à medida de uma Criança. Porque se há campos propícios às chamadas fakenews, a religião ou as religiões são dos mais férteis. Muito cuidado e muita ponderação quando se fala do sagrado! A este propósito, cito Vittorino Andreoli, em “AO LADO DAS CRIANÇAS”: “Para a Criança, todo o mundo é mistério e cada ensinamento pode assumir as características de uma mensagem sagrada”.

Descendo ao chão da vida, jamais esquecerei o desabafo de uma das mães dos neo-comungantes: “O mais importante disto tudo é transmitir valores às crianças”.  Volto a citar o mesmo Autor: “A Religião ou o contacto com Deus não devem ser limitados ao âmbito restrito da missa dominical ou da oração em caso de necessidade, mas como trama de todo o tecido da vida”. Aqui entra a mundividência dos valores.

Ao ouvir aquela mãe, gente do povo, ocorreu-me a Carta Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa, em 6 de Janeiro de 2002, onde refere que “a educação religiosa deve lançar as bases sólidas para os valores espirituais e humanos, onde se aprende a ser pessoa e viver em relação comunitária e em espírito de serviço ao homem  à sociedade”. Na mesma direcção, poderia desdobrar outras tantas propostas que me preocupam na pedagogia espiritual dos mais novos. No entanto, prefiro trazer o testemunho de quem, antes de mim, teve as mesmas intuições transformadoras:

“Se a paróquia (Igreja) conseguisse comunicar o princípio evangélico de comportamento humano, cumpriria uma função diria quase terapêutica em relação a uma sociedade como a nossa, demasiado cheia de individualismo, narcisista e esquecida das oportunidades que o facto de pertencer a uma comunidade de exercer o direito ao amor e ao perdão oferece”. (Vittorino Andreoli).

No Dia Mundial do Ambiente, eis uma preocupação e um anseio perante o encantamento das Crianças convidadas à Mesa Eucarística, na esperança de que cresçam e se desenvolvam numa plena atmosfera de espiritualidade saudável.

 

05.Jun.21

Martins Júnior       

quinta-feira, 3 de junho de 2021

DIAS ÍMPARES DE JUNHO PORQUE TODOS SÃO DIAS DA CRIANÇA

                                                                         


 

1-3-5: Três marcos luminosos colocados no mês que assinala o coração ao meio de um ano inteiro! Ímpares e luminosos, trazem na fronte o signo do futuro: a Criança. No dia 1, a oficial homenagem mundial ao “Pequenino-Grande Ser”. No dia 3, a festa mimosa das 19 crianças que pegaram mais de perto os valores da Eucaristia, a “Boa Graça” de cada dia. E o dia 5, também de frescura infantil, porque sempre se há-de constatar e dizer que o Ambiente é uma Criança.

Antes que o dia esmoreça, permitam-me deixar aqui a expressão de quem num simples olhar se lhe depara a leitura toda a geografia humana de uma determinada região, de um país, quiçá de toda a história. É um despretensioso desabafo o que hoje transmito, para justificar o enunciado que acabo de escrever.

Tão simples quanto isto: sempre que, nas minhas funções pastorais, presido ao Baptismo ou Primeira Eucaristia de uma criança, ao olhar o protagonista do acto sacramental – o neófito ou o neo-comungante – transcendo o tempo e vejo-os já com a estatura e compleição dos pais que os trazem ao templo. E, como que num exercício de antecipação quase-profética, interpreto aquele momento circunstancial como um cântico de parabéns pelo futuro anunciado daquela criança.

Pois bem (e continuo nesta transparência de estado de alma) hoje eclodiu em pleno silêncio de emoções indescritíveis a confirmação daquela visão de outrora. Diante de mim, uma criança, várias crianças aguardando a Primeira Eucaristia. A seu lado, os pais. Quem são os pais? – pergunto-me a mim próprio. E a memória selectiva responde-me: “Eles são aquelas crianças que há vinte ou trinta anos estavam sentadas nos mesmos bancos aguardando diante de ti a recepção da Primeira Eucaristia”.

É nesse momento, a todos os títulos intensamente histórico, que sinto o pulsar de gerações, a transitoriedade da existência e a poderosa influência – poderosa e tremendamente responsável – perante a trajectória de uma família, de um povo, de um país. 

“Homem algum é uma ilha” e, se alguma vez nos sentimos como tal, então corrijamos a interpretação: todos nós somos um incomensurável arquipélago, não de rochedos meramente habitáveis, mas de seres vivos, em crescimento evolutivo, obrigados a alimentarem-se dos nutrientes que nós, adultos ou idosos, lhes pomos na mesa do amanhã: os valores que sustentam a vida e a alegria de viver num estaleiro sempre em construção, que é o mundo que nos coube nesta encruzilhada da história.

O futuro (o das crianças) há-de um dia pedir-nos contas do presente (que somos nós)!

03.Jun.21

Martins Júnior