quarta-feira, 13 de maio de 2020

GUARDADOR DA HISTÓRIA


                                                 

Porque Nicolau é de todo o Mundo e não morre
Porque é de Machico e aqui sempre há-de ficar
deponho nas suas mãos ainda quentes  o “Retrato” que no mais
intimo de mim mesmo lhe desenhei nas suas Bodas de
de Diamante  vivo.


Na ponta do teu indicador direito
Assenta o mundo todo
E no fundo mais profundo dos teus olhos
Entrou e ficou
O que o mundo tem de mais belo e perfeito

Nascido nas ondas da baía de Zarco
Da tua objectiva fizeste aquele barco
Onde foste almirante e pescador
De aquém e além-mar

Naufragaste
No planetário  aquário  dos cetáceos
Alcançaste os promontórios Selvagens
África Oceânea Índicos Atlânticos
Tudo arrastaste na rede azul das tuas viagens

Tudo o que é humano coube na tua lente
E mais ainda na concha do teu peito
Sorrisos infantis do sol nascente
E faces enrugadas
Mãos retalhadas
Onde a vida  já é  poente   

Quem desvendar o  santuário onde guardas
O tesouro ignoto das tuas mãos inquietas
Não achará só películas rolos chapas de umensos temas
Descobrirá o Grande Livro de Poemas
Doado às vindouras gerações

Andarilho das canções
Das lutas de Abril
Bandeirante e capitão
Em terras de Tristão
Serenatas e baladas
‘Rosas Brancas’   guitarradas

Contigo connosco
A vida é toda  aquele saudoso  ‘Sarau’

Ontem hoje e sempre
Grande e Nosso Nicolau
___________________________
Juntos
13.Mai.20

segunda-feira, 11 de maio de 2020

ESTE MAIO DAS SETE CRIANÇAS: 3 NO OLIMPO, 3 NO “ABISMO” E 1 ESTRELA NO MEIO DELAS


                                                           

            Hoje não há mesmo palavras. Palavra nenhuma daquelas que eu tinha guardado para voar mais alto. Mas hoje, tal como às “asas brancas” de Almeida Garrett, as minhas também olharam para a terra, pesaram e caíram. E por aqui fiquei mudo, exausto, perdido entre estrelas cadentes e olhando a abóbada dos astros que não caem.
         Neste nó cego da transição de uma semana para outra, esqueceu-se o ‘coronavírus’, descontaram-se as estatísticas, a reabertura de praias e mercados, até as igrejas e a Peregrina de Fátima. Em Portugal bateu-nos em cima da cabeça e estrangulou-nos garganta e coração o tumultuoso silêncio da Atouguia. Digo silêncio, porque é tal o estouro que não nos deixa falar. Encham, porém, desse negrume os jornais, as redes sociais, as anti-sociais e as criminais, que eu. por mim, deixo-me  ficar parado, gelado, olhando as Sete Crianças deste meio-Maio.
         Olho as três visionárias que projectaram no mundo o firmamento da Cova da Iria. E no mesmo lance vejo, atiradas para um abismo de tormentas, outras três Crianças, irmãs indefesas dentro de um antro de fogo e lágrimas.
         O mais doloroso  – Oh visão macabra e enternecedora, jamais vista! – é que não me sai da retina a Sétima Criança, uma estrela suspensa entre o céu delas  e o inferno dos homens:  a Valentina! Estrela morta, mas de um brilho inextinguível que penetra como um grito a arder na consciência colectiva de toda a humanidade, na hedionda história da crueldade humana: “PORQUÊ?”… MAS PORQUÊ?”.
         Entrechocam-se dentro de mim os mais contraditórios caminhos da infância e para a infância, abalam-me os raios faiscantes com que neste planeta se fulmina uma Criança logo à nascença. Desde o berço dela, aguardam-na monstros de fauces abertas preparadas para devorá-la…
         Rousseau acode e avisa: “O homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe”. Por isso alguém já entendeu que “Para amar e educar uma Criança é preciso uma aldeia inteira”, toda a cidade, o mundo todo. E Louis Pasteur vaticinava o futuro da Criança quando escreveu: “Diante de uma Criança sinto-me cheio de ternura por aquilo que ela é, mas cheio de respeito por aquilo que poderá vir a ser”.
         Faço minhas essas palavras e repito-as sempre aos pais, padrinhos e participantes no acto do baptismo de uma Criança, E acrescento: “O baptismo da Igreja pode esperar.  O  que a Criança não pode esperar, desde o primeiro instante, é o baptismo dos pais na vida de cada dia – educação, saúde, amor, cultura, respeito, fraternidade.”!
         Nesta noite, não quero mais palavras. Vou ficar de pupilas abertas fitando o olhar dessa estrela, suspensa entre o céu e a terra, que me interpela como juiz supremo: “Que fazes tu para que jamais se repita este crime?... Que farás tu pelos meus três irmãos da Atouguia?... Pelos teus e meus irmãos do mundo todo?” ...

         11.Mai.20
         Martins Júnior
        

sábado, 9 de maio de 2020

“JOÃO, EU VI-TE NASCER”!

                                                                         

O Velho Continente  – A Europa Unida – faz hoje 70 anos. E o João faz 50. Por muito alta e nobre que  seja  a  rainha e madre Europa – e  por muito humilde e rasteiro se afigure o operário João – hoje vou colocá-lo no vértice do Dia Ímpar, Os dois filhos,  bandolim e violão da nossa Tuna, brindaram o pai com sonoros parabéns.
Telefonei-lhe, manifestei-lhe amistosas congratulações  e não me contive: “João, eu vi-te nascer”.
Ele entendeu a mensagem e, comigo, sentiu-a no mais íntimo de si mesmo. Porque,  anos depois, é que lhe  contaram a noite em que veio ao mundo
Passava das 23 horas, quando bateram-me à porta “Venha depressa, sr. padre, que a Rosa está morrendo”. Lanterna na mão dos mensageiros, aos tombos por veredas e ribeiros, chegámos lá acima ao alto da Nóia. Já à distância os gritos de dor e pranto prenunciavam o pior. Entrei. Estarreci. Nem queria acreditar. Uma jovem mãe estendida, já morta, a cama esvaída em sangue e duas crianças renascidas, uma de cada lado: o João e a Rosinha.
Estava consumada a tragédia. O baque do coração lembrava-me o mesmo que senti quando no norte de Moçambique levantei do chão da picada  onze jovens militares do meu batalhão, vítimas de mina anti-carro.
A Rosa Perestrelo Nóia morrera. Por não haver assistência médica, nem estrada por onde circulasse uma ambulância…
Voltando a casa pelos mesmos cabocos, com o sentimento irreprimível de um derrotado,  o pavio da lanterna de rega incendiou dentro de mim um montão de chamas onde se misturavam lágrimas, desespero e gritos de revolta. “Porquê, Senhor? Não por Vós, mas pela incúria dos homens, pela desumanidade dos governantes”!  Só sei que, ao abrir da manhã, sem conseguir fechar os olhos da noite, decidi: “É aqui que devo ficar. Não posso voltar as costas a um povo que sofre, sem água potável, sem estrada e sem luz”. No ar da Europa Unida, ainda vogavam os acordes do Hino da Alegria, concebido por Beethoven. Aqui, porém, na Ribeira Seca, saíam  da terra e dos corações as mágoas inconsoláveis de uma pesada marcha fúnebre…
No entanto, a história fez a sua marcha. Os irmãos gémeos cresceram, lutaram pela vida, construíram a felicidade dos seus lares, o João na Madeira, a Rosinha  no estrangeiro. A Europa fez seu rumo entre expectativas e percalços.
E a Ribeira Seca também. Não foi fácil. E não será exagerado subscrever aqui o velho adágio: “O que o povo conseguiu foi a poder de sangue, suor e lágrimas”. Antes da alvorada de Abril e depois dela.
É esta também uma “Nau Catrineta” que tem muito que contar”…
Por mais incrível que pareça, a Igreja hierárquica diocesana proibiu a venda de hóstias à paróquia da Ribeira Seca, desde 1974. Onze anos depois, em 1985, o “Coronavirato” composto pelo Paço Episcopal-Quinta Vigia mandou 70 polícias fecharem a igreja, construída exclusivamente com  os sacrifícios desta comunidade. E – fez ontem dez anos! – o mesmo “Coronavirato” conluiado impediu que a Imagem Peregrina (em visita a todas as paróquias da Madeira) entrasse no adro e igreja da Ribeira Seca.
E muito mais teria de contar a “Nau Catrineta” desta gente que ainda hoje sobre os estigmas da marginalização e da unilateralidade acintosa dos poderes civil e religioso que até há pouco tempo minaram a ilha de notória e intolerável autocracia. Tudo isto, enquanto na Europa se construíam pontes, connosco armavam velhos muros da vergonha.
Felizmente, o Povo venceu! E continua a sua marcha. Transformou em música e coreografia as suas mágoas que, com a força do tempo e o garante da razão, desabrocharam em flores de esperança no futuro.
Como os 50 anos do João!
Como os 60 anos da Ribeira Seca!
Comos os 70 anos da Europa!

09.Mai.20 -  Dia da Europa
Martins Júnior



quinta-feira, 7 de maio de 2020

MACHICO, PRIMEIRA CAPITANIA DA MADEIRA


                                                       

Esperei até ao fim do dia ímpar para poder chegar às portas do dia oitavo e abri-las de par em  par com esta nova: “Alvíssaras, Machico! Chegou o teu dia, o da Proclamação do teu nascimento autónomo para a História”.
Eis-me aqui, feito estafeta, moço do Infante, transportando o extenso e solene ‘alvará’ da identidade primeira de Machico:

CARTA DE DOAÇÃO

“Eu, o Infante Dom Henrique, Regedor da Ordem de Nosso Senhor Jesus Christo, Duque de Viseu, Senhor da Covilhã……………………….
Faço saber a quantos esta virem que dou cargo a Tristão, Cavalleiro da minha caza, na Ilha da Madeira des além do Rio do Caniço, de passar, como váe, pelo rio acima até à ponta de Tristão, que elle mantenha, por Mim, em Justiça e Direito, e morrendo elle, a Mim praz que o seu filho 1º ou 2º se tal fôr, tenha este Cargo por guiza SUSODETA e assim descendentes por linha direita……………….....................................
ITEM Me praz que todos os fornos de pão………………………………………
ITEM Me praz, que tendo elle sal para vender…………………………………     
ITEM Me praz, que elle possa dar por suas contas Cartas …………………………
Outro si Me praz, que os gados bravos possam matar os da Ilha ……………………
Em testemunho disto, lhe mandei dar esta Carta assignada por Mim e sellada de Meo sello. Feito em Santarém aos oito dias de Maio. Ayres Pires a fez, ãno de 1440. O INFANTE D. HENRIQUE”.
         Daqui, do século XXI, o nosso olhar deverá alcançar mais longe e divisar no pico mais alto da nossa história não só o 2 de Julho de 1419, do Achamento da Ilha e desembarque na nossa baía, mas mui particularmente aquele “8 de Maio de 1440”, porque ele atesta o marco da supremacia de Machico em toda a Madeira, dado que ao Funchal foi outorgada tal distinção, dez anos depois, em 1450.
         Em boa hora, os machiquenses, através da sua edilidade, colocaram  no seu devido trono a efeméride maior do seu percurso hexa-secular. Cientificamente está provado que persistir no grave lapso de “1803” significaria amputar a Machico 400 anos da sua existência.
Seria esconder a personalidade dos machiquenses, demonstrada em muitos expressões de resiliência face a poderes exógenos que pretendiam afectar a sua autonomia e os seus direitos. Seria ignorar a elevada consideração do Infante D. Henrique por Machico quando pessoalmente recomendou ao Prior de Tomar, D. Frei Pedro Vaz, enviasse o Padre Frei João Garcia como primeiro vigário da paróquia de Santa Maria de Machico. Recomendação esta que foi  reiterada pelo Infante D. Fernando em carta escrita ao novo Prior de Tomar, D.Pedro de Abreu, em 12 de Setembro de 1469.
Começar o Dia Áureo de Machico pelo “9 de Outubro de 1803” corresponderia ao esquecimento total das restantes freguesias do concelho. Consideremos a data da criação da Freguesia de São Sebastião, do Caniçal, por alvará d’El-Rei D. Sebastião em 12 de Setembro de 1564: ou a de Santa Beatriz, de Água de Pena, por alvará régio de  D. Sebastião, em 14 de Junho de 1572;  ou, ainda, a de Nossa Senhora da Guadalupe, do Porto da Cruz, por alvará do mesmo monarca, em 26 de Setembro de 1577. De registar a anexação da Ribeira de Machico  à  Freguesia de Santo António da Serra, por deliberação da Câmara de Machico, de 18 de Dezembro de 1781.
Perante toda esta síntese de dados colhidos nos Anais de Machico, o Dia do Concelho nunca poderia começar por 1803, visto que estaríamos a criar um pequeno monstro e uma enorme falácia, isto é, os filhos e filhas (as freguesias) teriam nascido primeiro que o cabeça-de-casal…
Seria um longo estendal de memórias a evocação do grande oceano que é a nossa história. Não poderei, seja por que for, deixar de formular esta interrogação – que acaba por ser um veemente canto exclamativo: Como esquecer todo um passado, ao saber que já em 1633, o vimaranense Manuel Tomás, no seu poema épico “INSULANA”, celebrava a beleza acolhedora da nossa baía!? O mesmo direi de um outro vate, madeirense de gema, nascido em 1768, Francisco de Paula Medina e Vasconcelos na sua obra “ZARGUEIDA”. Nesta galeria de poetas, ergue-se, como príncipe dos vates de Machico e da Madeira, o exímio cultor do “Soneto”, Francisco Álvares de Nóbrega, nascido aqui em 1773!
Quanta gente, quantos vultos distintos, estrelas de primeira grandeza ficariam no obscuro se se contasse Machico, só a partir de “1803”…
Da minha modesta mas patriótica Proclamação por Machico não verei a tradução apoteótica que merece este Dia. Assim nos obriga o confinamento do “Covid-19”. Louvam-se as iniciativas particulares, as actuações musicais  e as mensagens da edilidade transmitidas pelas redes sociais. Da nossa casa, do nosso jardim, da nossa janela ou da nossa varanda saudemos entusiasticamente o Nosso Dia. E se o “19 do Convid” não nos deixa juntar na praça pública, levantemos mais alto um outro “19” - o do Achamento - e o “8 de Maio de 1440” – a bandeira autonómica da Nossa Capitania, a Primeira da Madeira!

7/8.Mai.20
Martins Júnior   


terça-feira, 5 de maio de 2020

PALAVRAS QUE SÃO RIOS E SÃO ASAS


Na minha boca nascem rios gorgolejantes
Babélica harmonia
Da fonte de Hipocrene
Da velha Lácio e do seu seio solene
Que Eneias dócil e o fogoso Ulisses
Arrastaram às  praias lusitanas
Das Tágides camonianas

Zargo e Tristão
Encheram gávea e porão
E as vestais romanas e as musas de Atenas
Chegaram à Baía dos Amores
Puseram na minha boca cânticos de mil cores
Estrelas sonoras de novos mundos e outras eras

Partiram de novo as caravelas
E todos os rios foram com elas

Hoje
Onde houver terra ou mar
Aí alguém há-de cantar
Em cadências de Homero e acordes aos milhões
As rimas de Camões
E os ritmos de Pessoa

E há-de saber o Quinto Império
Que as asas de fogo
Que  inundaram o sul-hemisfério
Antes que voassem ao corpo de Vieira
Ancoraram primeiro em Machico da Madeira

Por aqui passaram as falas migrantes
Dos rios gorgolejantes
De aquém e além

Hoje
A minha língua navega
Como vela desgarrada
Sem porto nem amurada
E sem temer uma só vez
Porque
Nos oceanos do verbo
Todo o Mar é Português

  05.Mai.20 -  Dia Mundial da Língua Portuguesa
 Martins Júnior

domingo, 3 de maio de 2020

MAIO – ROSA DOS VENTOS E ROTA DE MIL RUMOS


                   
     
As rotas que Maio abriu!
No primeiro domingo, abriram-se as rosas, soltaram-se os ventos e em todas as pétalas voava escrito o nome de Mãe. Porque em toda a sua extensão, as vinte e quatro horas trouxeram falas de ternura, mas não só. Marcaram também rumos decisivos nas paredes do planeta e nas folhas pesadas e  ásperas da história de ontem, de hoje e de amanhã. Foram também outras falas ditaram nomes como lideranças,  e pastores, dinheiro e assaltos, mercenários e ladrões.
Hoje, a literatura oficial transmitiu-nos o interminável duelo que opõe, desde o princípio do mundo, as duas rotas nevrálgicas para o futuro das sociedades. Duas rotas desenhadas por dois estatutos irredutíveis: os bons e os maus líderes. Neste domingo fomos chamados a ponderar o magno problema do mundo, de cuja solução depende o sucesso ou a degradação da nossa “Casa Comum”. Por outras palavras: a grande crise de todos os tempos é a crise das lideranças. Cada época traz o selo indelével do seu líder. Já o nosso épico, referindo-se ao frágil D. Fernando,  definiu n’Os Lusíadas que “Um fraco rei faz fraca a forte gente” (Canto III, 138).
Muito antes de Camões, já nas planuras da paisagem palestiniana o Nazareno separava “o trigo do joio” da sociedade judaica, quando frontalmente invectivava os líderes político-religiosos do seu tempo, em enunciados veementes como estes: “O povo precisa de pastores e não de mercenários. Porque o pastor enfrenta o lobo e dá a vida pelas suas ovelhas. O mercenário, não. Esse foge e deixa os lobos devorar as ovelhas. Porque ele é ladrão, só lhe interessa o dinheiro”. (Jo.10,1-10).
Melhor que qualquer sociólogo ou doutrinador revolucionário foi o Mestre que pôs o dedo na ferida e propôs-lhe o antídoto. Líderes – genuínos e corajosos - eis o de que o mundo precisa. Ele sabia-o, “de um saber de experiência feito” (por isso cobraram-lhe a vida como preço da sua liderança) e previa-o até ao fim dos tempos.
Líderes, pastores vulgo dictu, nos tronos e nos púlpitos, nos parlamentos e nos ministérios, nos batalhões e pelotões. Líderes, pastores nas cátedras, nos consultórios e blocos operatórios, nas empresas, estrategas na terra, no mar e no ar. Nas encruzilhadas mais dramáticas da história (esta em que vivemos, por exemplo) é que se detectam os chefes pedagogos, os genuínos condutores dos povos. E os nossos olhos têm visto, a olho nu, os que “dão a vida”, corpo e alma pelos seus constituintes e, do outro lado da barricada, os mercenários, os irresponsáveis e demagogos que pouco ou nada lhes dói a ruina do país.
 Nesta preocupante pesquisa das lideranças empenhadas em estruturar e fazer subir a humanidade, deparo-me com uma modesta porção de terro, de onde emergem quatro paredes habitadas. Ali mora uma família. Esta, outra mais além, outra ao lado, muitas iguais e mais acima, juntas, irmanadas. Em cada uma vejo a célula originária de todas as lideranças. Um homem e uma mulher, princípios denominadores comuns da vida e da civilização. Ali começa e cresce a árvore de todos os amanhãs. Ali não moram mercenários. Ali, só há entrega incondicional!
Peço licença para entrar e nas mãos daquela que tem hoje o seu Dia marcado (todos os dias são dela) depositar uma das muitas rosas que os ventos me têm trazido ao longo dos anos, as rosas singelas saídas do coração da MÂE:

     Tudo o que a vida tem
     Tem dentro dela
      O nome de Mãe


Mãe-água    e Mãe-terra
Mãe-céu      e Mãe-luz
Mãe-corpo  e Mãe-alma
Mãe-Deus   - Mãe-Mulher


Em tudo o que houve e houver
De aquém e de além
Tu és princípio e fim
Força criadora do Sim
Eterna essência de Mãe

03.Mai.20
Martins Júnior
   

sexta-feira, 1 de maio de 2020

A HERANÇA DO TRABALHADOR


                                    

Era o tempo da infância do tempo primeiro
Quando o Demiurgo sem Tempo
Troou solene ao único herdeiro:
“Astros e mares
Terras lumes  e ares
Tudo é teu
O meu braço intangível
O fez e to deu
Eu sou o Presente já passado
Tu és o presente Futuro
Agora
É tua a foice, a selva e teu é o arado
Agora
É a tua parte
Quero vê-la
E mais tarde perguntar-te
Quanto fizeste dela
Da minha herança:
Se um antro onde te afundam e devoram
Se a alta montanha de onde o meu Império se alcança”

…………………………………………………….

“Eis-me aqui - rei sem trono atado ao cepo vil
Depois de ter subido caído reerguido
Todos os ares, lumes e mares vezes mil
A antiga herança que me deste

Fiz  da montanha agreste
Hortos de amor colinas de saudade
No chão frágil do tempo
Espelhos de eternidade
Cavei rios onde  dançavam trigais como poemas
Saídos das tuas mãos
Das pontes que lhes fiz
Via-se o pesponto das varandas do teu país

Mas um dia
Maldita foi essa manhã
Ou rasto de serpente ou garra de Satã
Bebeu todo o suor
Com que eu regava a terra
E do ventre dela antes materno
Brotaram poalhas de ouro e prata
Logo fundidas em arsenal de inferno
Que tudo arrasa e tudo mata.
Das árvores pão e pomar que plantei
Cascaram papel sonante comido às dentadas
Roubado à mesa das lareiras apagadas

 Eis-me aqui, rei sem trono  herdeiro proscrito
Torceram-me os braços em arame farpado
E o coração antes ardente apaixonado
Ficou mais duro que o granito
Que não conhece irmão nem o sente ao seu lado

Milénios de socalcos moldaram os meus pés de Operário
Sobre a madrugada doadora
Daquela herança que ainda aqui mora

Esgotámo-nos e esgotámo-la
Desfigurámo-la e já não a reconheces
Oh Demiurgo sem Tempo

Quero voltar à infância do tempo primeiro
Nas asas do invisível mensageiro
Que aí vem

Operários de um Tempo Futuro
Voltemos à Terra-Mãe”

Dia do Operário - 01.Maio.20
Martins Júnior