terça-feira, 9 de junho de 2020

NADA SE MEDE AOS PALMOS ou “SMALL IS BEAUTIFUL”


                                                                     

          Não vou incomodar o repouso dos justos nem sequer remexer a terra ainda fresca e sadia, onde o nosso Padre Tavares ensaia o “seu soninho primeiro”.  Mas, do mesmo passo, não consigo remeter ao silêncio da morte quem não teve outro pulsar nem outro sentir senão a Vida – sempre viva, sempre jovem, sempre fértil, reprodutiva. Por isso, tentarei exumar a sua memória, mantê-la acesa e fecunda para todos aqueles que, inelutavelmente, continuam a marcha da vida, sem pensar (e bem!) que estão em lista de espera para o ‘confinamento final’.
         Foram imponentes as exéquias, participadas pelo Prelado, muitos colegas presbíteros, autoridades, muito povo. Como convinha ao protocolo solene, embora desadequado da singeleza e da transparência do homenageado. Porque para ele – e demonstrou-o na indumentária que escolheu na última viagem – o que importa é a essência e não a aparência, a seiva mais que a casca, a nudez eloquente mais que os ouropéis vazios e fugazes. No Padre Tavares, tudo era o elogio da verdade sem pregas, da natureza aquímica, da pequeneza franca contra a opulência barroca e bacoca.
         Sempre que olhava o Padre Tavares via na sua fronte o título que Ernst Friedrich Schumacher deu ao livro que publicou em 1973: Small is Beautiful. O título e o conteúdo. Dou-lhe uma tradução mais telúrica – “Nada se mede aos palmos” - precisamente para enaltecer o Homem e a Terra que ele incorporou em todo o seu percurso. Figura frágil,  meã, nascido na mais genuína ruralidade. Igual a ele, a terra pequena, resguardada nas montanhas, esquecida do mundo, apertada pela exiguidade de meios. Enfim, todos os arreios para ficar presa, anónima, geneticamente condenada ao ‘confinamento perpétuo”, sem direito ao cartão de cidadania.
         É esta aldeia  escassa e é este homem ‘pequeno’ que quero exaltar. “Cantando espalharei por toda a parte”, quem me dera poder fazê-lo como o nosso épico. Porque no mercado vilão das vaidades mundanas, só há palanque para os polvos gigantes, para os lagartos garimpeiros, para os que, envergonhados da terra onde nasceram, crescem à custa das altas cúpulas hospedeiras. Valorosos são os que do sequeiro fizeram rico vergel e da pedra extraíram pão.
         O Autor do Small is Beautiful traça as linhas programáticas para o futuro de um planeta habitável, o nosso. Ao examiná-lo, descubro, um por um, a personalidade criativa do Padre Tavares, o seu sonho sempre inacabado, mas já plasmado na terra e nas pessoas que a habitam. Ei-las, sucintamente:
         “A ecologia e o combate à poluição, Respeito pelos recursos naturais, Desenvolvimento rural, Ajuda eficaz (não apenas publicitária) aos países pobres, Criação de pequenas e médias empresas que evitem a desumanização dos trabalhadores, Educação como solução ideal”.
         Outro rumo não teve toda a vida do Padre Tavares. E se Ernt Schumacher o tivesse conhecido  tê-lo-ia proposto ao mundo como o mais eficiente intérprete do seu livro e como exemplar construtor do Mundo Novo que urge recriar, sob pena da destruição do planeta.
         Por isso e porque todos nós precisamos de referenciais iluminantes nos meandros obscuros do quotidiano, dedicarei os próximos escritos à Vida e Obra do lutador, pedagogo e arquitecto de um Mundo Melhor, o Padre Mário Tavares Figueira.


09.jun.20
Martins Júnior
   
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domingo, 7 de junho de 2020

CORTEJO INCOMPLETO


Ao Colega e Amigo  que, partindo, nunca se apartará de nós
                                         

                                                                                         Foto-DGomes


     
Fosse maior que o mundo
Esse barco que te leva
Nele não caberia  teu corpo escasso
Porque mais largo e alto e fundo
Foi o teu espaço
Onde habitava todo o universo

Filho das raízes milenares
Foste Mário, foste Mária, o pleno de Todos os Mares
No coração Francisco de Assis
Na alma Teilhard de Chardin
Em cada ser que vias estava o teu país
E era tua a Terra-Mãe, a Terra-Irmã
Quanto mais agarrado a ela
Mais alto vogava a alma tua caravela

Pó caído nunca foste nem és
(Perdoe-me Vieira ‘Imperador´)
Pó erguido sempre
Bíblico rochedo contra ventos e marés
Na voragem das noites e dos dias
Davídico pastor serrano
Venceste sempre a caterva de todos os Golias

Vais para a tua casa
Dormir na tua  cama, a cama que fizeste
Os lençóis de verde vinha que teceste
Erva cidreira, flor da laranjeira
Almofada doce fruto da Figueira
E nos sete palmos do teu trono terreal
O perfume e o sabor daquele Sercial
Que trataste como quem ama
O filho a sua mãe, o amante a sua dama

Hoje é o teu cortejo triunfal
Que em vida sempre rejeitaste

Também vou contigo
Mas antes que eu vá, fica sempre comigo
Fica  connosco

E lá por onde caminhares
Feliz octogenário de sorriso infantil
Faz que cresçam  mil cravos de Abril
Faz que renasçam mil Padres Tavares
  
O7.Jun.20
Martins Júnior

sexta-feira, 5 de junho de 2020

QUE “POLÍCIA” QUEREMOS SER?... DEREK CHAUVIN?


                                                                    

       Não será preciso recorrer ao organigrama burocrático – no alcance semântico e empresarial que lhe deu Max Weber – nem também analisaremos ao microscópio a estreita relação o entre mais fino capilar e o estelar universo do cérebro, para compreendermos que nada no macrocosmos sócio-político-cultural em que nos movimentamos, nada acontece por acaso ou ingénua geração espontânea. Tudo gira na secreta redoma de causa e efeito, de empatia versus antipatia, de um comando à distância e de uma inexorável lógica executiva, mesmo que imperceptível a olho nu. As bases da pirâmide, por multiformes ou dispersas que nos pareçam, só ganham sentido se obedecerem à síntese unificada do vértice, bem como a sensibilidade da ponta de um dedo só se sente feliz se satisfizer a felicidade do centro operacional cerebral.
Falo do polícia assassino de George Floyd ou, mais explicitamente, daquele joelho dobrado, que tanto pode significar pedido de perdão como implacável instrumento de tortura. E se volto ao caso é porque, a propósito do escrito anterior, criticaram-me por não ter ido ao fundo da questão, ao exacto nó do problema. Certo que apenas – e não é tão pouco – procurei demonstrar a cruel tacanhez da condição humana que só se deixa impressionar pelo escândalo e pela anormalidade mais extrema e macabra.
Deixei para hoje, em breves traços, a dissecação do monstro. E de todos os outros e de todos os tempos, situados não no topo mas nas secções intermédias ou até nas bases da pirâmide do poder. Não errarei nem sequer a ponta de uma unha negra se disser que, na escala de transmissão de competências, os subalternos, desde os graduados aos rasos, em tudo quanto fazem têm presente a mão do chefe e, seja qual for a arma da tortura, usam-na com o sentimento de que estão agradando ao líder. Digamos que satisfazem-se com a plena felicidade da ‘missão cumprida”, à espera da comenda de ‘excelentes serviços’. Derek Chauvin aguarda a medalha em parada de gala…
O líder é o sistema. O regime. Não vale a pena iludirmo-nos com a farsa das “maçãs podres”, (e os outros são todos bons) como denunciava com veemência o rapper afroamericano. O problema não está só no indivíduo,  no  policial Derek Chauvin. O nó do problema é o topo, o vértice da pirâmide, o cérebro.  No caso vertente, Donald Trump. Correu pelas redes sociais (retirado depois) um exemplar perfeito de ilustração gráfica que, em vez do polícia, via-se Trump com o joelho estrangulando a estátua da liberdade caída no chão. Eloquente!
Se insisto no regime, estou insistindo connosco. Com cada um de nós. Porque Trump´s existiram e existirão. Por isso, não resulta apontar o dedo aos actores individuais, com que hipocritamente se deliciam comentaristas, analistas de bancada, jornais e afins. É muito cómodo atacar o indivíduo, quanto difícil e corajoso é enfrentar o sistema e os seus corifeus. E se não fizermos a nossa parte, somos todos Derek Chauvin!
Gerações de fibra arriscaram a vida, apodreceram nas prisões e foram deitados ao mar e ao exílio nos 48 anos de ditadura salazarista. Aqui na Madeira do pós 25 de Abril, foram quase tantos os mesmos anos em que foi preciso abalar o sistema, os ‘cristãos-novos’ da democracia, os ditadores herdeiros de ditadores, para que se respirasse um novo ambiente de salubridade cívica e política. Até – por incrível que pareça – no seio da própria instituição Igreja, também responsável por muitos abusos do poder autoritário insular!
Sei que é assunto de sempre, mas nunca é demais trazer à luz do dia,  proclamar na praça pública e no mais íntimo da consciência (nacional, regional e local) que são os cidadãos que constroem a sua cidade, os regimes e os líderes que merecem! É a esta campanha contínua e persistente que eu chamo o Ambiente. E neste Dia Mundial do Ambiente, ouso propor a cruzada do Bom Ambiente social, pela coragem e pelo amor à Terra e ao Povo, apoiando todos os contributos para uma sociedade arejada e produtiva, mesmo que nos seja pedido esforço, abnegação, quantas vezes em prejuízo pessoal, mas em saldo positivo de uma saúde global a que todos temos direito.

05.Jun.20
Martins Júnior.
     

           

quarta-feira, 3 de junho de 2020

“UM HOMEM TEM DE MORRER”!!!


                                                           

Vem do fundo da história esta fatídica sentença: Alguém tem de morrer, para que a multidão aprenda a viver!… Homem ao mar, para toda a tripulação se salvar!... É preciso asfixiar (um só homem) para que todos saibam respirar!...
Em nada abona à espécie humana o vergonhoso Acórdão que ela própria carrega aos ombros, desde que o irmão Caim matou o irmão Abel. A família estremeceu, corou de pavor e de ignomínia, depois esqueceu. Até ao dia em que um outro irmão caiu assassinado no chão da própria casa… até àquela noite em que a criança foi barbaramente esquartejada…até àquela madrugada em que uma mulher agonizou exangue afogada na cama onde dormia… Ano após ano, século após século, até àquela hora em que os Doutores da Lei e os Legisladores de Jeová sentenciaram: “Ele, esse  infiel Nazareno, tem de ser morto, pois está escrito: Um homem tem de morrer por todo o povo”!
E a sina horrenda continuou, perseguindo os mesmos passos sem um lamento, sem um sobressalto.  Anos e anos, séculos e séculos. Entre guerras, tumultos, crimes inconfessados. Até ao século XXI… Até que foi preciso que um joelho, arrancado às entranhas cavernosas de outro mundo, cortasse o oxigénio a George Floyd!
O Planeta estremeceu, bradou, enfureceu! Porque um Homem morreu!!!.... E ninguém sente nem reage contra instituições e regimes desumanos, que todos os dias e todas as noites – talvez à nossa beira! – deixam jazer no chão da vida e a céu aberto, homens, mulheres, crianças, projectos, sonhos ideais, morrendo aos poucos. E nenhum de nós grita. E nenhum de nós dá a cara. Nenhum de nós os levanta do chão! Será preciso que o sangue de alguém corra diante dos nossos olhos e incendeie os nossos pés insensíveis, gelados de egoísmo?!
Tão cedo voltarei a face e o coração para os joelhos dobrados. Ai, joelhos que se baixam para valer a um paralítico jogado à valeta. Joelhos que se curvam, vergados ao peso dos anos. Joelhos que se baixam em reflexão e prece. Benditos, felizes, louvados sejam!
Mas … joelhos que sufocam, que esmagam e matam, atirai-os para longe da vista e do coração.  Ou deixai-os ficar, como um raio fulminante, atravessando o petrificado basalto do Planeta e despertem definitivamente a sensibilidade e a consciência da espécie humana!
Será preciso esperar outro George Floyd?
Será preciso esperar uma nova pandemia para oxigenar e amar  a Terra e o Ambiente, esta nossa “Casa Comum”?!
    
 03.Jun.20
Martins Júnior

domingo, 31 de maio de 2020

QUATRO BANDEIRAS QUE MOSTRAM E ESCONDEM O “DIVINO”


                                                     

Nunca o abstracto coabitou tão perto com o concreto. Nunca as sombras conviveram tão embrulhadas na luz. E nunca a matéria esteve tão consubstanciada com o espírito. De tal forma que não chega a saber-se onde acabam as sombras, o corpo concreto, a matéria e onde começam a luz, o abstracto, o espírito.
Refiro-me à osmose quase perfeita entre os dois opostos ou, mais explicitamente, entre o sagrado e o profano, entre o divino e o humano. Isto verifica-se, precisamente, hoje,  Festa do Espírito Santo, de cujos conteúdos fiz eco durante todos os “dias ímpares”  da semana transacta. Vou terminar, também hoje, aquilo que não tem fim - ou não deveria tê-lo.
O interesse da questão reside nos diversos figurinos com que a tradição crente vestiu um Ser supra, infinitamente supra-terrestre: O Espírito de Deus! Perante os episódios descritos nos três últimos blog’s, fica evidente uma estranha mestiçagem entre o infinitamente incorpóreo e o mais supinamente rasteiro, a roçar e ultrapassar o ridículo. No correr de muitos séculos, a devoção ao Espírito esteve empacotada, senão mesmo desbragada, em manifestações completamente contrastantes com o seu original, a sua essência. Eles eram folias e abusos, eles eram encenações grotescas simulando megalomanias imperiais à mistura com solenes pendões vermelhos e, sem faltar, camufladas extorsões pias do ‘vil metal’.
Trata-se de um sério study case (para usar a designação corrente) o qual, não cabendo nos estreitos limites deste escrito, tentarei sintetizar, após prolongada reflexão sobre o caso, sendo certo que tudo quanto se possa explanar cai sempre sob a alçada da vulgarmente designada “religiosidade popular”.
Como síntese que é, monitorizarei em quatro alíneas genéricas a interpretação ou anatomia deste composto híbrido da devoção ao “Divino Espírito” e da sua arreigada implantação em Portugal, sobretudo na Madeira e Porto Santo. Ei-las, como quatro estandartes que mostram e, paradoxalmente, escondem o “Divino”:
1º - A condição de dependência/contingência inata ao ser humano, em virtude da qual obriga-o, como náufrago abandonado em ilha deserta, a voltar-se para o Alto, a pedir socorro. E quanto mais abstracta for a ‘entidade seguradora’, maior o clímax de confiança por parte do impetrante. Embora transversal a todos os patronos e a todas aras, a petição endereçada  ao Espírito invisível, intocável e soberano ganha uma extensão maior e mais duradoura.
2º - A fome e sede de alegria, como lenitivo ou catarse natural ao caminhante nos desertos da vida, mormente ao cristão moldado nos estigmas do seu Crucificado. É preciso inventar oásis de conforto e praças da canção adequadas à mentalidade de cada aglomerado populacional. Cada qual cria o seu estilo.
3º - A cumplicidade do Sagrado. A diversão (sempre os resquícios de uma vã pedagogia cristã) impele o crente para um vago sentimento de culpabilidade, se se aproximar das (muitas vezes, inexistentes) linhas vermelhas. Aí, se o mesmo crente descobrir (ou fabricar) um suposto “habeas corpus”,  isto é, uma sensação de que a Entidade Sagrada  está de acordo e também se diverte com os machetes, os bailado, as folias e até perdoa  os excessos “em louvor do Divino” – então aí todas  as inibições somem-se como por encanto e  as demasias abrem os cordões à bolsa. Define-o bem Miguel Real: “O espectáculo barroco, exuberante, copioso, ludicamente excessivo, torna-se assim, a única categoria estética capaz de mostrar o deus escondido, de intermediar o deus silencioso. Redunda no  excesso e na desproporção. Manifesta o drama do desequilíbrio  da razão”.
4º - A nostalgia do “Quinto Império”. É este um dos aspectos mais secretos, porque imperceptíveis à multidão, mas (segundo os investigadores) sedimentados no inconsciente colectivo do povo português.
Voltando ao figurino cultual do Espírito Santo, notamos toda uma nomenclatura e uma cenografia tendencialmente monárquicas: o Imperador, os Reis, as Damas da Corte, os Pajens, o Marechal, a Coroa, as Bandeiras e os Pendões. Não esqueçamos que a saga devocional ao Espírito foi iniciativa da Rainha Santa Isabel e seu marido D. Dinis, desde Alenquer. Outrossim, na Madeira, foram  Zargo e o fidalgo Esmeraldo os construtores dos primeiros templos dedicados ao Espírito Santo. Leiamos agora, o nosso filósofo Agostinho da Silva: “O messianismo, filosofia de exilados e infelizes, mas também de forte afirmação espiritual, tem-se revelado uma das persistentes  expressões do espírito português, desde Os Lusíadas, assumindo várias formas, uma das quais foi o sebastianismo propriamente dito”. E Miguel Real acrescenta: “Agostinho da Silva defende que a introdução do culto do Espírito Santo é o símbolo do futuro reinado do amor universal, que rapidamente se generalizaria entre as populações como celebração de festa do futuro através da entronização do menino como Imperador do Mundo, o bodo geral e a abertura  dos portões das prisões. Entende-se agora muito bem que o Português tenha tido uma paixão, não pelo previsível Pai ou previsível Filho, mas por aquela coisa, aquela pomba errante, que vai para onde quer, como o português”…
Já vai longa esta síntese. Talvez possa desenvolvê-la noutra reflexão, porque a questão não é tão romântica ou superficial como se possa imaginar. Génios do pensamento luso, como o Padre António Vieira e Fernando Pessoa revelaram-se acérrimos defensores de Portugal à cabeça do Quinto Império. Messianismos hoje completamente fora do léxico político internacional, mas que deixaram arquétipos no subconsciente latente de um povo, mais a mais injectado por inconfessados interesses de regimes ditatoriais, não muito distantes de nós.
É nesta órbita que se situa toda a teatralidade esfuziante do chamado “Espírito Santo” na Madeira e Porto Santo. No entanto, dando de barato todo o folclore, superstições, foguetórios, danças e andanças “em louvor do Divino” e consideradas as quatro alíneas descritas, é legítimo e até imperativo apelar ao discernimento e à sã pedagogia teológica para separar o trigo do joio e tratar com dignidade os rituais que a merecem.
A este propósito, cito dois fiéis intérpretes da ortodoxia em Portugal, o Padre Joaquim Alves Correia e Frei Bento Domingues, ambos unânimes nesta judiciosa observação: “A religião dos portugueses não é só uma compensação imaginária de uma frustração, como alguns pretendem. Temos também uma imaginária compensação da falta de religião”.    
          
  31.Mai-01.Jun-20
Martins Júnior

sexta-feira, 29 de maio de 2020

VAMOS À FESTA DO ESPÍRITO CONTRA A LUTA DE OUTRO “SPIRITUS”!... VIAGEM AO PORTO SANTO


                                                     

É na Semana do Espírito que continuamos a viajar, entre 24 e 31 de maio. Mas tão estranha esta viagem, comparada com a de outros tempos e até mesmo com a do ano transacto! Antes, era a azáfama inquietante, saltitante, dentro e fora dos templos: as bandeiras, os arcos floridos nos adros, nos caminhos. E nas casas, as receitas dos avós, os manjares para receber fidalgamente  os mordomos, as saloias, a orquestra folclórica, enfim,  o cortejo “imperial”, como ficou demonstrado na anterior narrativa. As usanças de Alenquer trouxeram-nas para a ilha os primeiros povoadores, entre os quais Zargo em Câmara de Lobos e Esmeraldo em Ponta do Sol.
E o mais curioso é o paradoxo por todos aceite, quer na Madeira, Açores e Portugal Continental:  Na Festa do Espírito  o protagonista era o corpo dela, isto é, o barroco, o ruidoso, o espectacular, a apoteose da folia popular e o arrecadar do “vil metal”  nos sacos vermelhos, da cor das bandeiras do “Divino”.
Assinalável, pela sua original simbólica, foi a vivência que tive na ilha do Porto Santo, com a visita domiciliária das “insígnias”. O imponente cortejo saía   do templo seiscentista do Espírito Santo, orago do lugar. Dezoito homens compunham o “Pelotão do Divino”. À frente, pendão e bandeira, os pajens segurando a coroa numa salva de prata, as saloias  precediam o Imperador  que  ostentava, ufano e altaneiro, a vara da liderança dos mordomos. A formatura fechava com o vigário, ladeado pelo  Marechal e seu Ajudante. Surpreendido pela designação da mais alta patente militar para um homem rural quase octogenário, perguntei-lhe o porquê de tal promoção, ao que ele prontamente e garbosamente respondeu: “Sabe, sou eu que mando marchar toda essa gente que vai à nossa frente”. Caprichosa e deliciosa explicação!
Em cada casa, a visita começava com o “Hino ao Divino” que compus expressamente para o efeito. Trocavam-se abraços familiares e saudações vicinais. Um dos mordomos recolhia a oferta, enquanto a dona da casa metia nos cestinhos das saloias uma mancheia de ovos. No final, após um brinde frugal, erguia-se a voz do Marechal: “Pessoal, Ála”! Devo confessar, passados já 57 anos, o que mais vincadamente me ficou no subconsciente e que ainda hoje ecoa dentro de mim: o coro daqueles homens, a sua voz timbrada e solene, apanágio das vozes portossantenses,  entoando o Hino dentro de cada habitação, que comovia até ao íntimo, prolongando-se depois pelos campos de trigo, à beira dos caminhos, com o acompanhamento ritmado  da rabeca, rajões e violas de arame.
Manda a verdade dizer que, durante os dois anos consecutivos em que cumpri a tradição daquela ilha, o “Espírito Santo” concitava o júbilo imanente dos corações, a saudade dos ausentes, o bulício das crianças, enfim, uma variante de catarse psico-sociológica que contagiava a todos, sem os excessos de outras regiões, como os citados  no blog último.  
 E tudo o vento levou… Foi preciso chegar ao Ano da Graça de 2020 para que um outro spiritus (vento) invisível destronasse e afastasse da torre imperial  o Grande Espírito que fazia rodar corpos e almas nas ondas da sua bandeira. Foi o estranho e intocável CoVid que apeou o invisível Div’Espírito do palco da  espectacularidade cultual. E não haverá por aí e por aqui quem, nesta  impiedosa quarentena devocional, tenha a coragem de apostrofar o spiritus letal  para descobrir a essência do Espírito Imortal ?
Eis a questão geradora de mil questões: Quem é e Como é esse Espírito?... Tem Castelo e tem Bandeira?... Qual a cor e o tamanho dela?...
A quantos centímetros Te reduzimos e porquê?...
Onde moras, onde moras?...
Ficarei desperto e vigilante até à madrugada de Domingo – o Dia do Espírito – para aguardá-lo na curva do caminho da Vida e perguntar-lhe como é que O fizemos tão pequeno, tão venável e tão histriónico?!
Perguntar-lhe também onde quer e como quer se faça a Sua Festa?!

29.Mai.20
Martins Júnior

     

quarta-feira, 27 de maio de 2020

“CLERO, NOBREZA E POVO NO BAILE DO DIVINO ESPIRITO SANTO”…


                                              

Sempre me interessou a anatomia das crenças, a forma e o fundo, o coração e a pele, por outras palavras, a ideia e o símbolo. Mas, se sempre esta dicotomia perseguiu os meus passos, muito mais nesta que considero providencial conjuntura, em que foi superiormente e dogmaticamente decretada greve geral às igrejas. É o que se vê: os templos quase vazios, mesmo quando é permitida a ocupação parcial das instalações. Para o comum dos chamados “fiéis observantes” é uma mágoa igual ao toque a finados. Insere-se neste luto e com notória estranheza a amputação das vistosas e fartas “Visitas do Espírito Santo”, que teriam o seu ponto alto nesta semana que antecede o Pentecostes. Tanto para os devotos como para as hierarquias, representa um pesado ‘deficit’: naqueles, de devoção,  folclore e alegria; nestas, de baixa nas finanças da comissão fabriqueira, assim designada nos cânones eclesiásticos.
Mesmo pressupondo a indiferença generalizada que o tema suscita, elegi como denominador comum de toda a semana  um esboço de estudo sócio-antropológico deste movimento buliçoso que faz dançar, de lés a lés, as nossas ilhas de Madeira e Porto Santo. No escrito anterior rememorei, em verso co-produzido pela população onde vivo, a encenação de tais visitas, em cujo conteúdo fica bem ao rubro a fusão entre o material e o imaterial, a divertida invasão, sem apelo nem agravo, do profano sobre o sagrado. Digo profano, mas mandam certos factos dizer: a deturpação do espírito pelos instintos da carne.
Sem desvalorizar de modo algum o empenho e a alegria espontânea que as pessoas põem no asseio das casas e dos caminhos por onde passarão as bandeiras ou “insígnias”, os rituais da praxe ufanam-se em ostentar abastança, mesas cheias, copos a rodos, sobretudo os envelopes tripartidos  (um para o padre, outro para a igreja e um terceiro para a festa do Espírito Santo) não faltando ainda a arrematação das ofertas, novamente mexida e não menos regada. Eram frequentes os abusos, chegando-se ao ponto de serem proibidos certos usos e costumes.
Por exemplo, nas “Ilhas de Zargo”, obra do ilustrado historiador madeirense Padre Eduardo Clemente Nunes Pereira, lê-se expressamente que “na Madeira, excedeu-se essa folgança e luzimento com tantos desmandos e abusos, que mereceram a intervenção do Governador Civil, porque as chamadas esmolas que se extorquiam por sortes de grande valor, os sumptuosos teatros púbicos que se erigiam, as competências de luxo neles,  as gulas, as ebriedades e as demasias que até à noite do Espírito Santo se cometiam e até a concorrência de ambos os sexos que, em noites sucessivas, vinham por entre sombras com muitas ofensas a Deus… tudo isto foi regulado com a proibição”. Noutra altura, foi a própria autoridade eclesiástica, o Bispo D. Manuel Agostinho Barreto, que “por provisão diocesana, restringiu as insígnias das visitas domiciliárias apenas à Bandeira e ao Pendão, com o fim se evitarem despesas, irreverências e abusos, exigindo ainda  o exame das músicas e dos cantores desses actos”, o que manifestamente evidencia os deslizes chocarreiros, senão mesmo brejeiros, a que tais visitas se prestavam, sempre “em honra do Divino Espírito Santo”.
Mas não só na Madeira. Fortunato de Almeida, na sua monumental e única “História da Igreja em Portugal”, em quatro volumes, descreve o aparatoso cortejo da Festa, em que “desfilava o Imperador, assistido de dois  Reis,  quatro Pagens, que traziam as coroas, uma delas dada pela própria rainha Santa Isabel, e acompanhados da nobreza e do povo... Duas donzelas honestas acompanhavam o Imperador e dançavam durante todo o préstito, por isso se lhes dava dote para o casamento. No fim, havia folias e bailes para os nobres e para o povo”.
“Nos tempos modernos – continua Fortunato de Almeida – o Imperador era um menino, cognominado de bispo inocente, porque vestiam-no com as vestes e insígnias  episcopais, governava o clero até ao dia seguintes, visitava as paróquias como se fora o prelado da diocese, deitava bênção, etc.. Era uma folia, de que o povo ria e que afinal foi proibida por diversos concílios”.(Op.citada, II vol. pg.556-557).
Ridicule, mais charmant – poderíamos, aqui também, classificar estes episódios que têm tanto de ridículo como de engraçado, talvez ingénuo e encantador,  aos nossos olhos. Mas a verdade é que eles existiram, há cem, duzentos anos. E ainda persistem,  resquícios mitigados, por certo, mas portadores dos mesmos estereótipos sócio-antropológicos. Seja em Alenquer, seja em Viseu, seja nas Ilhas, seja em Alcântara do Brasil, como documenta a foto.
É a pergunta que fica: O que estará, de mais íntimo e estrutural, pegado ao osso e ao coração da devoção que o povo nutre pelo Espírito Santo? Ontem e hoje?! … Ou, numa visão mais ampla e naturalmente holística: Quais os alicerces do edifício a que chamamos a “Nossa Religião?”. Por outras palavras: E a pandemia, será ela capaz  de  abalar esses alicerces?
Porque, em terras do Porto Santo e na Madeira, experimentei no terreno os vestígios, ao menos parciais, de quanto foi acima narrado, continuarei no próximo “dia ímpar” a incursão sobre este mesmo tema.

27.Mai.20
Martins Júnior