terça-feira, 17 de setembro de 2019

A MAGIA DA “RENTRÉE”… QUAL É A TUA?


                                              

Não foram as tropas de Junot  ou Massena que puseram em solo português a marca napoleónica que mais tarde se foi infiltrando até impor-se definitivamente no linguajar dos fins-de-verão de cada ano – a famosa Rentrée. Quer seja entrada ou reentrada, começo ou recomeço - é dela que falamos. Fica-nos até a tradução semântica da “rentrée” como a de uma primavera extemporânea, mas com a mesma intensidade da terra arável que se abre em promessas mil ou como o despertar de uma letargia hibernal para a energia fértil do sol da manhã.
Ei-las que surgem, as “rentrées” de Setembro: umas coloridas, vistosas, outras tímidas, expectantes, outras ainda silenciosas. A primeira é a “rentrée” política, aquela que deu  nome a todas as outras e, por isso, é a mais ruidosa, importuna e atrevida, que invade as casas, os adros, as rotundas, as avenidas, enfim, aquela que mexe com tudo o que mexe e vota. Segue-se-lhe a não menos retumbante, bombástica “rentrée” dos futebóis, dos fanáticos esgrouviados, dos intragáveis “doutores da bola” que agarram a segunda-feira de todas as estações televisivas. Chegam ainda as “rentrées”  das férias, voos e cruzeiros carregados de cansaço, com o espectro do trabalho à porta. Outras são as “rentrées” escolares, da pré-primária que deixa correr uma lágrima furtiva na face das mães quando deixam a criança na escola, a reentrada no liceu, o ‘privilégio’ da faculdade. Tantas e tantas são que marcam vincadamente a estação e a psicologia de cada “caloiro” ou “veterano” da vida! Até nos oásis oficiais do sagrado – leia-se hierarquia eclesiástica – as sotainas voam como pássaros extra-terrestres, de cor preta, vermelha ou escarlate, uns para as capelas rurais, outros para as nunciaturas ditas apostólicas (caso de Portugal) e outros para o purpúreo principado do cardinalato.
Reabrem-se as portas. Resta saber com que espírito entram todos esses corpos. Corpos que somos nós! Com que passo franqueamos a entrada ou reentrada? Faz toda a diferença não tanto o tempo mas o modo de atravessar o portão. Por isso, num outro dia deixei escapar aqui este desabafo: diz-me qual a tua “rentrée” e eu dir-te-ei quem és. Percorrendo as diversas alas descritas no parágrafo anterior, detectamos como são tão distintas, algumas até contraditórias, as “rentrées” de cada ser, de cada classe profissional, de cada estatuto social, de cada faixa etária! Há os que são levados pela sofreguidão do poder, outros cujas chuteiras andam e tresandam a livros de cheques, a cofres dos euros e dólares, ao purulento cancro da corrupção. E sentem-se bem nesse seu meio ecológico! Há, ainda, os criadores de sonhos, almejando o enriquecimento cultural, espiritual, o seu e o daqueles que usufruirão da sua entrega total. E, nos antípodas, há os mercenários e os que das alfaias sagradas fazem trampolim para os altares da fama, do poder e do dinheiro…    
Aqui chegados, à porta da nossa “rentrée” está a inexorável sentinela da nossa própria consciência, semelhante à misteriosa esfinge de Tebas. E pergunta:
Com que alma e coração reentras no “ano novo” que Setembro te oferece?...
Só saberá responder-lhe quem tiver a coragem de empreender a grande, a maior e sempre quotidianamente repetida viagem da vida: a viagem para dentro de si mesmo. Onde haverá por aí quem queira fazer a “rentrée” para dentro de si mesmo?!...
    
17.Set-19
Martins Júnior

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