sábado, 9 de janeiro de 2021

ÁGUAS MIL QUE LAVAM, PURIFICAM E FORTALECEM

                                                                           


Quem inventou o refrão  “Abril, Águas mil” nunca viu nem viveu um Fevereiro/2010, nunca passou um Natal e Ano Novo como a Madeira está agora atravessando. Águas mil empedernidas, que se transformam em túnicas brancas vestindo as montanhas e, cá em baixo, enchem regatos, ribeiros e faz das nossas ribeiras rios largos, generosos, como aquele rio grande, o Jordão, onde num dia longínquo um varão palestiniano, no vigor dos trinta anos, pediu para ser  batizado.

Por coincidência neste Domingo – farto de águas e magro de convivialidade – todo o mundo crente é interpelado por esse cenário, a um tempo romântico e perturbador: um Homem, um quase incógnito no meio de gente anónima, fura a multidão, desce ao rio e pede a um ser estranho, austero e visionário, agitador do povo, que O fizesse adepto seu, através desse gesto aquático e  simbólico, chamado baptismo. “Estamos juntos, identificados com a mesma causa e quero que hoje me apresentes assim a toda esta gente que te rodeia e segue!” – foi este o essencial compromisso e foi esta a credencial mais eloquente de todo o ritual protagonizado por João, o Baptista, nas margens do rio Jordão.

Motivo oportuno para fazer uma chamada desafiante ao dia do baptismo de cada neófito! Do nosso, também.  E porque já deixei nestas páginas largos considerandos sobre o mesmo tema, limito-me à expressão mais simples do meu pensamento sobre esta matéria: O cerimonial do baptismo, tal qual é feito actualmente às crianças, quase sempre bébés, constitui um solene atentado à dignidade da Criança e, em última análise, aos próprios Direitos Humanos. Devo confessar que se trata de um ritual que choca com o mais fundo da minha consciência quando me pedem (o mesmo que obrigam) a fazê-lo.

Porquê? – é a pergunta que necessariamente  ressalta de quem me lê. E vou tentar responder: o Baptismo é a expressão de um compromisso assumido. Qual compromisso? O de inscrever-se, pertencer e de querer sinalizar-se como adepto convicto da Igreja Católica. Escusado será perguntar: “Tem alguma criança capacidade de opção, sobretudo no âmbito de um compromisso muito maior e vinculativo que a inscrição num clube, num partido ou numa qualquer outra associação?”... Certo é que tem os pais e padrinhos-testemunhas como seus procuradores no acto litúrgico. Mas voltamos a questionar, tal como o faço publicamente e em voz audível: “Estais vós convencidos que esta criança, mais tarde, concordará com o compromisso por vós manifestado?”...

Questões sérias, dúvidas abissais sempre à espera de uma resposta assertiva e teologicamente  fundamentada para o baptismo das crianças!!!

Certo é, também, que o neófito terá oportunidade de no decurso dos anos ratificar, através do Sacramento da Confirmação, os compromissos registados no Livros oficiais da Igreja. No entanto – e é aqui que pretendo chegar e expor – questiono se não seria mais lógico e plausível aguardar que o baptizando ganhasse mais consistência de pensamento para, então, assumir de forma personalizada e intransmissível a sua fé e os seus propósitos dentro da Igreja à qual deseja pertencer?...

Corre-se o perigo de infantilizar o Sacramento, retirando-lhe o carácter de pessoalidade (e até de sociabilidade no colectivo da comunidade) que toda a acção sacramental deve possuir.

É que há outros baptismos, como os que vêm nos textos deste Domingo: o “baptismo de espírito” e de penitência, o de João (Mc.1,7)  ). O baptismo de justiça, como Pedro jubilosamente proclamou, ao sair da casa de Cornélio, um homem justo e bom, mas pagão ainda não baptizado: ”Agora descobri que em qualquer nação e em qualquer lugar, quem pratica o que é justo é aceite por Deus”. (Act. 10,34).

É na órbita do pensamento e no cadinho dos factos que nasce, vive e sobrevive o verdadeiro baptismo. Há o “batismo de fogo” de quem se imola por uma causa. Há pela mesma causa o “baptismo de sangue”. E em todos, ultrapassa e sobrevoa o “Baptismo de Amor”. (1ª Corint. 13).

Que resta do nosso baptismo e de qual deles somos militantes?...

         Em tempo de pandemia severa, bem precisamos de um baptismo de fortaleza, esperança e optimismo sempre renovado!

 

09.Jan.21

Martins Júnior

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