quinta-feira, 13 de novembro de 2014

“ISTO SÓ À BOMBA!” Antídoto contra a violência: vigilância



Na sequência do 9 de Novembro e quando se lhe batem efusivas palmas pelos seus 25 anos, que também são nossos, três episódios vieram  e vêm todos os dias ensombrar-me a alvorada nascente desse redivivo Dia D.  Vou compartilhá-los consigo, pois, estou certo, idêntica perturbação ronda à vossa porta:
O primeiro: na mais recente edição do Courrier Internacional (6-12 Nov.) a expressiva imagem de capa traz por título este, que não é agoiro, mas constatação da realidade: “Cinquante murs à abattre”. E logo descreve os mais notórios cinquenta muros da vergonha espalhados pelo mundo, desde Jerusalém a Belfast, desde o México ao  Bangladesh.
O segundo: a vertigem avassaladora de jovens estrangeiros, até europeus nossos, portugueses nossos, que se entregam voluntariamente à orgia sanguinária do Estado Islâmico.
O terceiro e mais próximo de nós, deixo para o fim.
 Venha alguém que nos explique esta contradição, esta contagiante granada explosiva que abala o planeta e que cria fantasmas (oxalá sejam só fantasmas) na mente e na pena dos analistas que já falam na terceira guerra mundial.
Se me permitem,  vejo a olho-nú, três focos de onde saem os fantasmas: o sono, a impunidade, a imunidade. E outra vez o sono. Quando acordamos já é tarde, a casa já está em chamas. Ao dizer sono digo  inércia,  passividade, é o “deixa-andar que isso não é comigo”. E aqui começa o vírus, aqui se instala a legionela endémica, que se faz desespero, pólvora e paiol pronto a rebentar. Do ventre da inércia colectiva sai a impunidade que alimenta a antropofagia corruptora e corrompida que se passeia de fato e gravata ,  de hissope e água benta e a quem nós, voluntários servos da gleba, cortejamos, veneramos, incensamos e até a colocamos no intocável trono da imunidade dos bràmanes. E, depois de tudo bem urdido, bem armadilhado, bem organizado, voltamos ao sono do “assim é que está bem”, o governo  governa e o povo obedece. Quando acordamos, “Aqui d’El Rei”, já não há armas para neutralizar o monstro que criámos, o cancro que deixámos minar todo o corpo social: são os banqueiros a quem confiámos as poupanças, são os governantes a quem (por acção ou omissão) demos o voto, são os juízes que absolvem criminosos e condenam inocentes, são os pontífices e eclesiásticos que nos roubam a terra e nos oferecem o céu. E calamo-nos todos perante esta fogueira que ateámos com as nossas próprias mãos, ao ponto de insultarmos os vigilantes que, à nossa beira, gritavam “fogo, aí vem fogo”. E quando as chamas tomam conta de nós, desesperamos, vociferamos, somos capazes de tudo, de pegar na caçadeira, de arrancar os olhos, de nos alistarmos, como cegos erráticos, num qualquer exército, islâmico ou curdo, sírio ou sunita. Mas já tarde. Quem nos salvará? Ficamos à espera que os correligionários coveiros da paz briguem uns com os outros, tal como aguardamos que o baluarte da  Al-Qaeda Ayman al-Zawahiri e o califa Abu Bakr al-Baghdadi se destruam mutuamente.
Tudo isto se passa entre nós, quer no macro quer no micro-cosmos, na cave, no rés-do-chão, do primeiro ao último piso do planeta que habitamos. Aqui na Madeira também. Há poucos dias --- e agora conto o terceiro episódio --- ao sair de uma visita ao Hospital encontro um septuagenário, com um perspicaz brilho nos olhos, que desabafa a sua pobre condição familiar, casos de injustiça social e remata, exasperado: ”Isto só vai à bomba”.
Tocou-me intimamente a respiração arfante e o corte da sua voz, o que motivou este meu “dia ímpar”. Tentei explicar por outras palavras o que acabo de escrever e acrescentei que o povo tem culpa de muita coisa. Deixamos que o caçador faça de nós a sua macia albarda. Hitler começou como simples cabo promovido a sargento, depois, com a armadilha do social-nacionalismo (traduza-se em madeirense vernáculo “regional-autonomismo) foi ovacionado como o salvador da pátria, o pai e protector do povo.
E deu no facínora mais horrendo da história.
Só há um código vencedor, sem armas nem sangue: Vigilância sobre todos os poderes: legislativo, executivo, judicial, financeiro, religioso.
A cada hora, a nossa voz.
 A CADA INSTANTE, A NOSSA  ACÇÃO.

13.Nov.14
Martins Júnior

terça-feira, 11 de novembro de 2014

4x25= SONHO PERFEITO

7.XI.89

Ao Telmo José, cujo nascimento em 7,
prenunciou o 9 de Novembro de 1989

                                               
foi nesse berço
redondo e na plena e pura
e mais que  perfeita  quadratura
que reveste  a vida sempre renascida: 
o menino  nasceu  e  o   muro negro buliu
abriu os olhos logo estremeceu o férreo muro
deitou o  primeiro grito e  o muro-vergonha caíu
marcou-te  então os passos com a pressa do futuro
                       
e hoje ---   nas  25  viragens da viagem  ---- a vida
vives  ----  nos  25  noves-de-novembro --- o berço
e tens ------nos  25  lusos cravos  rubros -- de avós
o sonho --- nos  25  sinos-de-dezembro –--  manhã

outras muralhas voltarão   mais duras  que o betão
das armas letais abutres  até dos sacros capitais
cercar-te-ão a ti aos viventes e aos vindouros
chegará então aquela hora a dos lutadores
e quando o muro  invadir o teu espaço
afoga-o na raiz  lança alma e braço
tens no berço sol e quadratura  
a tua armadura             
                                                   


11.Nov.14
Martins Júnior         

domingo, 9 de novembro de 2014

HOJE E SEMPRE DIA DE ORÇAMENTO PARTICIPATIVO PESSOAL E INTRANSMISSÍVEL


É de orçamento que hoje vamos conversar, desde o nascer ao morrer deste dia ímpar. Não de orçamento municipal, regional ou nacional, muito menos europeu. Talvez --- e até está na moda --- se possa classificá-lo de orçamento participativo, super-participativo. Logo, hoje, domingo?...Estou a ver e ouvir o espanto de quem comigo conversa. E eu confirmo: é isso mesmo! Trata-se do nosso orçamento, o de cada um, o orçamento da vida. Porque, hoje é domingo e porque na trajectória sequencial destes entretenimentos procuro alinhar o pensamento pela proposta do texto bíblico que leio aos participantes da mesma mesa no templo da Ribeira Seca, a minha proposta tem a ver com o estar vigilante e, daí, preparado para entrar na última e inalienável, intransmissível reforma da vida: a morte. Optimista e positivo, o nosso J:Cristo conta, a propósito, aquela quase hilariante cena das dez raparigas solteiras que, na tradição judaica, foram especiosamente seleccionadas para a guarda de honra dos noivos, à meia-noite. Cinco, as prudentes, acenderam as lanternas da praxe e preveniram-se levando uma reserva de azeite, para qualquer avaria superveniente. As outras cinco, mais divertidas, mas boas moças (eram todas virgens, diz o texto) não deitaram contas (fizeram mal o orçamento) não levaram reserva de combustível, as lanternas apagaram-se, ainda correram à cidade para comprá-lo, entretanto chegam os noivos, a porta fechou-se. E quando chegaram, ninguém lhes abriu a porta. Moral da história, rematou o Mestre: “Estai preparados porque não sabeis qual o vosso dia e qual a vossa hora”.
Estas palavras, lembro-me bem, foram espremidas até ao tutano pelos pregadores do povo para meter medo às pessoas mais crédulas que viviam em trauma constante e, em desesperada  urgência, lá vinha a “Emir eclesiástica”, à pressa, com óleos e unguentos “dar a Extrema-Unção” --- já o moribundo, quantas vezes inconsciente, tinha o corpo e o espírito voltados para o outro lado.    
Porque, quando jovem, também assim me formataram, hoje  considero criminosos (talvez, coitados, também eles inconscientes) os promotores desta psicose traumática perante o Além. “O que vai ser de mim no outro mundo???!!!”. Os pontos de interrogação e exclamação significam o pavor que cheguei a ver nos olhos angustiados de muitos doentes idosos.
E, por isso, fui descobrindo antídotos e pistas de saúde física e mental para este desassossego inútil. Em primeira mão, deixar de fazer da morte um tenebroso tabu. Não vale a pena perder tempo com ela, porque ela não se esquece de nós. Quando vier que venha. Ninguém descobrirá jamais a geografia do além-túmulo. Em segunda prospecção, concluí que  só morre bem quem vive bem, não no sentido epicurista do termo, mas na realização do nosso orçamento existencial. Neste orçamento temos por receita as nossas capacidades, a saúde, a energia, o talento, seja ele intelectual ou braçal, enfim, todo o capital humano, legado hereditariamente ou adquirido no exercício quotidiano. A despesa, essa realiza-se-a no nosso posto de trabalho, seja ele qual for: são todos dignos os serviços prestados à causa comum-. Tive, em adolescente, um professor. capitão do exército, que morreu diante de nós, repentinamente, na aula de matemática. Foi um pavor. “Sem confissão nem extrema-unção”, comentávamos, transidos de medo. Mais tarde percebi que essa foi uma morte  santa, heróica, perfeita. No seu posto. Ocupar o nosso posto, não tanto na mira de alcançar uma gorda benesse no Além, nem mesmo por místicas sublimações. Eça de Queiroz retrata magistralmente esta postura no diálogo entre o velho sábio agnóstico Afonso da Maia e o abade Bonifácio acerca da educação do netinho Carlos. Mais recentemente, Manuel Vicent, na última coluna da edição de cada domingo, no El País, enaltece a estatura moral e profissional dos médicos e enfermeiros que, estoicamente, desinteressadamente, morreram vítimas da luta contra o ébola e considera-os superiores ao esforço, também heróico, dos missionários que o fizeram apenas por inspiração religiosa ou para ganhar uma recompensa divina.
Saber realizar o nosso orçamento participativo enquanto inquilinos do planeta, do continente, da cidade ou da aldeia  que habitamos --- sabê-lo e senti-lo --- eis a chave do sucesso e a arte de manter sempre aceso o facho luminoso da vida, para derrubar todas as muralhas do medo, tal como os homens e mulheres que, há 25 anos, varreram, a pulso e a golpes de montante, o vergonhoso muro de Berlim.  


9.Nov.14

Martins Júnior

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

EM QUE TERÁ PENSADO BRITTANY MAYNARD ? E TU TAMBÉM?



                            Quanto vale o sofrimento?
                            Quanto pesa uma vida?
                            Quanto mede uma Pessoa?


Este corredor electrónico que nos oferece a tecnologia, considero-o um momento privilegiado para deambularmos de forma intimista, de mão dada,  pelas mais diversas paisagens do mundo e da vida. E para nos demorarmos onde acharmos útil e oportuno, seguindo a inspiração de Sebastião da Gama: “O poeta em tudo se demora”.
Pois bem, debruçámo-nos anteontem sobre aquele instante, a um tempo fatídico e heróico, protagonizado por essa jovem sedenta de vida, Brittany Maynard, em Portland, Estado do Oregon. Como ela, queremos a vida e não nos  deixamos paralisar pela eventual contemplação dos nossos fins. No entanto, o suicídio assistido que escolheu põe-nos problemas que todos os dias batem à nossa porta e que se apresentam como oponentes à decisão que ela tomou:   
1.:
Então o sofrimento não tem valor? E por que razão se apresenta como exemplar o caso de Jesus que sofreu tanto?

É este um dos estereótipos que têm modelado a mentalidade cristã e ocidental. Mas não será bem assim. O sofrimento, a dor, não são valores autónomos. Nem sempre Alfred de Musset terá razão quando escreveu: L’homme est un apprenti et la douleur est son maître  ( “o homem é um aprendiz e a dor é o seu mestre”).  Todo o sofrimento terá de possuir dentro de si o gérmen da esperança, a conquista de um bem maior, a felicidade. De contrário, não passa de dolorismo inútil, masoquismo estéril que conduzem à mais deplorável depressão. Frei Bento Domingues, com a lucidez dos seus oitenta anos, não se cansa de dizer: “Quem se deleita com  o sofrimento gratuito está precisando de um psiquiatra”.
O sofrimento, terá, pois, teleologicamente uma marca predominantemente  instrumental. Para os cristãos, incutiu-se-lhes durante séculos o estigma da Eucaristia como um Sacrifício. Nada de mais errado: A Eucaristia é um banquete, a Última Ceia, numa edição constantemente renovada, reveladora da magnânima personalidade de J:Cristo que, sabendo que iria ser traído e assassinado no dia seguinte, convidou os amigos para comer à sua mesa o pão da terra e o vinho novo da videira. Já no Velho Testamento, profetas houve que incarnaram esta convicção quando atribuíam a Deus esta máxima: “Eu prefiro a misericórdia ao sacrifício. Mais quero o Amor que os holocaustos”. E o próprio Maomé inscreveu no Corão este desiderato que poucos conhecem: ”Levar alegria nem que seja a um só coração vale mais que construir mil altares e mil sacrifícios”.   

2.
Não é a vida um dom sagrado que ninguém pode tocar, muito menos atentar contra ela?
Sem dúvida. Mas dela se hão-de deduzir as mesmas conclusões que acabei de explanar sobre o sofrimento. Ela há-de estar sempre ao serviço da Pessoa. Por mais paradoxal que possa parecer, tenho para mim que, ontologicamente, mil vidas não valem uma Pessoa. Mas uma Pessoa vale mil vidas. A interpretação de Vida como conceito autónomo pode desembocar numa exaltação do mais requintado egoísmo, nem que para isso tenha de sacrificar muitas outras vidas. Só vale a pena a existência enquanto força propulsora, central de energias renovadas projectando luz e sonho à nossa volta, ainda que, para tal, mirradas e vazias fiquem as nossas mãos. A esta luz e a este sonho, uma outra Pessoa, de nome Fernando, chamou “utopia e loucura”, há mais de cem anos, quando abriu a torrente do génio e definiu que sem elas,
                            Que é o homem
                            Mais que a besta sadia
                            Cadáver adiado que procria.

Em tudo isto terá pensado Brittany. Até na Última Ceia da letal poção, esquecendo-se de si mesma, deixou um rasto de luz e um redobro de esperança nos que, à sua volta, dela se despediam.
Gostei de ler ontem num dos diários do continente os optimistas depoimentos de António Arnaud, Moita Flores, Mário Zambujal. Vale a pena conferir.  

7.Nov.14

Martins Júnior

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

BRITTANY MYNARD Suicídio assistido: glória ou maldição?


Não é do desemprego, nem é da guerra, nem da fome, nem da inflação, que venho propor o nosso habitual colóquio do  dia ímpar. É de algo aparentemente muito mais ténue, silencioso, mas estremecedor!
Refiro-me à morte assumidamente optada por essa jovem de 29 anos, em Portland, Estado do Oregon, USA. Nem custo de vida, nem fome, nem algemas serão mais impressivas  e dolorosas à sensibilidade humana que este gesto de alcance ilimitado. Que pensar ou que dizer acerca dele? Para começar, talvez seja  útil aproximá-lo de nós, da nossa família, trazê-lo para dentro de casa. Acontecesse a um dos nossos familiares. Ou a nós próprios. Qual a reacção, qual a resposta? Um cancro no cérebro… incurável…já no términus dos seis meses de vida  permitida pelo “monstro” assassino!
Deixemos livremente correr o pensamento, as incógnitas, os palpites. Primeiro, escutar a ciência, a neurocirurgia, a psicanálise, o acervo orgânico em causa. Depois, o sujeito passivo, o seu universo espiritual, depois a morte, o suicídio e o seu contraponto, a vida. Não embarquemos em dogmatismos de cátedra, mesmo que do Vaticano venham:  Será a vida um valor absoluto?  Parafraseando J:Cristo acerca do sábado: estará o Homem ao serviço da vida ou a vida ao serviço do Homem? 
Para o efeito, ajudar-nos-á a monitorização de  casos similares no decurso da História:

+  Na Grécia Antiga. o fundador da filosofia, Sócrates, mestre de Platão e Aristóteles, tomou ele próprio a cicuta letal na Primavera de 399 a.C.. Porquê? Condenado à morte  por irreligiosidade e perversão da juventude a quem ensinava a superioridade do conhecimento e a universalidade das normas morais, não permitiu que as sádicas mãos dos poderosos ditadores lhe tocassem: executou, ele mesmo, a sentença com a dignidade do seu carácter.

+ + Já antes, na história judaica, uma mãe de sete filhos incitou-os a preferirem deixar-se morrer antes que obedecer ao tirano pagão que os queria obrigar a comer carne de porco, o que significaria renegar a religião de Moisés. E todos  (a própria mãe, por fim) entregaram a vida, torturados e queimados. Para defender a dignidade da sua crença. (II Livro dos Macabeus, cap.7).

+ + +  Para definir a morte de J:Cristo, Jacques Paternot escreveu a obra O assassinato de Jesus. Sobre o mesmo facto Pierre-Emmanuel Dauzat  deixou-nos um outro título: O Suicídio de Cristo.  Em que ficamos? Num ou noutro caso,  fica de pé a honra da Palavra e da Mensagem.

+ + + + Na Primavera de Praga, como classificar a atitude de quem assumidamente lançou o corpo, a própria vida, às chamas?

+ + + + +  No romance de Gilbert  Cesbron  Les Saints vont en enfer  (« Os Santos vão para o inferno », alusão aos padres operários que, contra as ordens de Roma,  decidiram viver com os trabalhadores nos subterrâneos das minas) o autor conta que um destes trabalhadores, a quem o padre incutiu a fé em Cristo-Irmão dos mineiros, esgotado pela miséria da família e pelos pulmões já carcomidos, foram encontrá-lo morto numa das cavernas da mina, com um bilhete apertado na mão: “Irmão Cristo, não aguento mais, quero ir já contigo”.  Ao lado, os resquícios da dose fatal.

+ + + + + +  Em 2005, após longo litígio judicial entre os pais de Terri Shiavo (41 anos) e o marido, que pedia o fim daquele  martírio, foi retirado o tubo a que esteve ligada durante 15 anos.

******** Sábado passado, 1 de Novembro, dia da Grande Família Humana, Todos os Santos, foi a data escolhida por  Brittany Maynard, uma jovem esposa, bela, com um sorriso cativante, realizou o seu desejo, despediu-se da família reunida à sua volta: “My life, My death, My dignity”,  foi o seu testamento.

Quid juris?  A vossa opinião.  Cada qual pondere, discuta, interrogue. Para ajuda, podem recorrer ao precioso Livro do Prof.Dr.Pe. Anselmo Borges, Corpo e Transcendência,  (pag. 317 e sgs.)

Tudo para encontrar alguma luz ao fundo destes três túneis:
-  A medida e o objectivo do Sacrifício
-  O Homem ao serviço da vida ou a vida ao serviço do Homem
-  Quem decide que o que é crime num Estado e num outro já não é.

   E mais um  destes desconcertos que a vida tece: No mesmo calendário  em que os 29 anos  do CR7 sobem, triunfantes,  ao podium da 3º bota de ouro,  há (houve) uma jovem bela, olhar transparente, amante  da vida e do futuro, cujos 29 anos a transportam  à imensa  noite do sepulcro.
Para terminar, trago aos meus amigos e amigas o anúncio que o maior teólogo vivo Hans Kung, companheiro de Bento XVI no seminário, na universidade de Tubinga e no Concílio Vaticano II,  exarou no seu III Livro de Memórias, consignando o desejo de que, no momento certo,  pediria ao médico que lhe passasse para a mão e estivesse consigo no seu suicídio assistido.
        
A fragilidade e o heroísmo do ser humano!  Isto não fica por aqui.

5.Nov.14
Martins Júnior

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A evidência científica e o nosso conforto: “SEM MORTE NÃO HÁ VIDA”


         Na roda gigante de todas as vidas, há um repetido stop que no nosso calendário civilizacional se pode definir como “duas em uma”: é o Dia da Apoteose, 1 de novembro, e o Dia da Saudade, o que imediatamente se lhe segue. Reúne-se o grande fórum da família universal, o incomensurável abraço do antes, do agora e, presuntivamente, do depois. Abrindo a necrologia dos jornais, vemos que todos os dias são 1 e 2 de Novembro.
         É neste círculo envolvente que trago esta reflexão sobre o que, sendo tão banal, se nos torna tão estranho. Pelo pavor e pela dor. Há quem lhe chame o último acto da nossa vida, há quem o classifique como a nossa última reforma, e até Fernando Pessoa vê o caso tão normal que até reconhece  que “morrer é só deixar de ser visto”.
         Pois bem, devo confessar que, de entre todas as intuições e definições --- e são tantas para quem, como eu, acompanha vezes sem conta o itinerário final de amigos e conterrâneos --- um dado empírico esboçado por um cientista de renome, o Prof. Dr. Carlos Fiolhais, tocou-me mais intimamente quando lhe ouvi em recente conferência: “Cientificamente, sem morte não há vida”. 
         Tanto basta para serenar os nossos ânimos perseguidos pelo espectro da morte. A nível da física, da química, da biologia, a conclusão é essa.
         Olhei então para o milagre da terra, para as mutilações a que são sujeitas as árvores, a vinha e, colocando-me na “pele” do ramo amputado, gritaria para o agricultor: “Por que me cortas, por que me matas?” . E a resposta está lá na raiz e no tronco. E que beleza maior que o rebento das folhas, as amendoeiras em flor, as cerejeiras mimosas branqueando a paisagem?! Mas a flor terá de cair para dar lugar à plenitude do fruto. E quantos grãos produzirá um grão de trigo entronizado num relicário sacro ou no mais rico guarda-jóias?... Zero. Mas “se morrer e se sepultar na terra dará muito fruto” (Mt. ) brotarão espigas douradas, pão farto para o banquete da vida.
         Transpondo a evidência biológica para o domínio da antropologia e da sociologia, quão diversos seriam os comportamentos e que de transformadoras e reconfortantes partilhas seriam tecidos os nossos dias?... De pais para filhos, de governantes para governados, de empregadores para assalariados, de mestres para discípulos. E que paz interior saber-se que a nossa finitude individual é a factura do inquilino transitório em prol do crescimento global projectado na História futura!  É inevitável dar o lugar a outros. Inevitável, mas glorioso!
         Deixo ao recôndito de cada consciência o fluir personalista deste filão inspirador.
         A este propósito, dei hoje com os olhos numa reportagem  (inquéritos e testemunhos) do “Libération”, edição de 2 de Novembro, intitulada “Mourir et Chansons”,  onde se lê:_”Entre os ateus e os crentes, tanto nos crematórios como nas igrejas, a música pop, rock, electro e demais variedades são cada vez mais convidadas para os ritos fúnebres”. Acrescenta ainda que, normalmente, as músicas são aquelas que o defunto mais apreciava, desde Time to Say goodbye de Andrea Boticelli e Sarah Brightman, Tears in Heaven  de Eric Clapton, Goodbye My Lover de James Blunt até a histórica Candel in the Wind de Elton John.
         Pela minha parte, jamais esquecerei aquele funeral, há muitos anos na igreja da Ribeira Seca, de uma mãe de seis filhos, ceifada por dolorosíssimo e prolongado sofrimento. Antes da cerimónia fúnebre, aproxima-se a filha mais nova, dez anitos, e diz-me ao ouvido: “Sr. Padre. A minha mãe, antes de morrer, disse-nos que ao sair o caixão pusesse o CD “Festa do Povo/ O Povo é que trabalha/ E faz o mundo novo”.  Arrepiei-me, pois nunca tal acontecera e perguntei-lhe o porquê  “É porque  essa canção era a que a mãe pedia, e aliviava-lhe as dores  mais fortes”. E assim se fez, com o espanto e a comoção de todos os presentes.
         “Sem morte não há vida”.
         Quando chegar a hora, não serão apenas os olhos e o coração que vamos doar aos que ficarem. É a vida toda que se transmite como um facho olímpico às futuras gerações. E aí, misturado com o orvalho da saudade, será maior o Cântico do Amor - entrega  total.
   
3.Nov.14
Martins Jr.

sábado, 1 de novembro de 2014

118º ANIVERSÁRIO DA BANDA MUNICIPAL DE MACHICO

NO 118º ANIVERSÁRIO
DA BANDA MUNICIPAL DE MACHICO

Homenagem aos fundadores e antigos e actuais
directores, maestros e executantes



Oh marcha triunfal
Tão pura e virginal
Como a primeira
Recém-nascida
Da alma aventureira
Povo enorme, geração de outrora
E de quem sois agora
A geração herdeira

Que de sonhos
Ambição desassombrada
Desfilaram
Pelas ruas e vielas
Pelas praças em calçada
Na secular madrugada
Da novembrista alvorada

Como das Fontes Vermelhas
Brotou cantante
A ribeira transbordante
Que hoje corre aos nossos pés
Assim
Da antiga Fonte de Orfeu
Lá onde a Banda nasceu
Jorraram torrentes
Melodias movimentos
Os sons e os instrumentos
Que hoje tendes na mão.

Aí tendes o pregão
O tom
A clave a  canção:
Cumprir a marcha
É preciso
E é urgente
O “Da capo” do passado e do presente

Onde houver guerra
Desespero
Onde faltar o amor
Tragam a magia da trompa
E o saxo alto e tenor

Quando a noite teima em ficar
E prender-nos
Nos subterrâneos sem luz
Venha o sorriso infantil
Da flauta primaveril
Assobiem  clarinetes
Como  pássaros de Abril

E se chegar
A hora do combate
Pela Paz e pela Vida
Toquem depressa a rebate
Trombetas
Percussões
Trombones e contra-baixos
Mais acima
Mais acima
Até alcançar a colina
Onde há uma chama de todos
Que a todos aquece e anima

Linha a linha nasce a pauta
Nota a nota faz-se a parte
Parte a parte a sinfonia
E dela se faz a orquestra
Estrada longa
Infinita, musa e mestra.

Seja um de vós
Ou linha ou nota
Ou pauta ou parte
Todos fazeis a Grande Instrumental
Erguendo na alvorada de Novembro
Ontem, hoje, agora e sempre
A Marcha Triunfal
De Machico renascido
A Banda Municipal

1.Nov.14
Martins Jr.