sábado, 13 de fevereiro de 2016

TRÊS HERÓIS EM FEVEREIRO

Corro o risco de jogar em  contra-corrente neste fim de semana polvilhado de resíduos multicores. Prefiro pegar na corrente que há oito dias iniciei com a evocação
.do 4 de Fevereiro de 1967, quando o velho “Niassa” transportava urnas  sem identificação para soldados desconhecidos a caminho do “Cabo das Tormentas”, sediado em Cabo Delgado, nas margens do rio Rovuma. Terminei, então, essa memória --- triste memória --- apontando para um outro 4 de Fevereiro, o de 1961, dia em que o (já extinto vespertino) Diário de Lisboa  transcrevia um lacónico comunicado do Governo-Geral de Angola: “Na noite passada, três grupos de indivíduos armados pretenderam assaltar a Casa de Reclusão Militar, o Quartel da Companhia Móvel da Polícia de Segurança Pública e as Cadeias Civis de Luanda, os quais foram detidos e “restabelecida a ordem”.
Começara o longo e fatídico percurso da emancipação total das colónias portuguesas. Não é disso, porém, que me ocupo neste momento. É de um outro enorme “pormaior” que, para alguns, não passará de um mero pormenor, assinalado por dois historiadores luso-angolanos: Carlos Pacheco documenta que “na origem da rebelião de 1961, como seu inspirador, esteve Monsenhor Manuel Joaquim Mendes das Neves, mestiço, natural da vila do Colungo Alto e missionário secular da arquidiocese de Luanda”.  Por sua vez, Emídio Fernando refere o nome do Padre Dr. Joaquim Pinto de Andrade que ouvira da boca do seu colega “ser preciso quebrar o mito de que os angolanos gostavam de ser portugueses … e que não era preciso fazer uma guerra para vencer. Basta fazer um acto que dê brado lá fora e quebre o mito”, dizia.
Quero acentuar essa circunstância suprema e decisiva: dois sacerdotes católicos na vanguarda da libertação de Angola. Faço-o para não perder a sequência do apontamento da semana passada. Faço-o também
para tentar descortinar a luz no meio de tanto negrume e tanto obscurantismo reinante na vaga do devocionismo religioso, amorfo e anémico, que não é capaz de “mexer uma palha” para mudar o mundo, antes mesmo, atira as primeiras e últimas pedras contra os que sentem correr-lhe  nas veias a voz fumegante saída do Monte Sinai: “O clamor do Meu Povo chegou até mim… Vai, liberta o Meu Povo das mãos do faraó do Egipto”.
         É este um mito ainda por desvendar: a seráfica distância dos chamados religiosos e clérigos face às espinhosas lutas  do Povo crente. A abstenção, seja a que pretexto for e com que roupagem se cubra, não deixa de ser o que é --- a máscara do farisaísmo em pleno exercício de auto-defesa. Os crepes das devotas carpideiras da Via-Sacra-espectáculo, tais quais as sotainas nigro-rubras  do clã eclesiástico não são mais que as mãos cobardes mergulhadas na bacia de Pilatos. É muito cómodo, muito do agrado da instituição manter-se quieto, estar de bem com deus e com o diabo, alistar-se na cauda do batalhão dominante.
         Basta abrir, ao acaso, as narrativas bíblicas para nos depararmos com a militância do  “Senhor Deus  Iaveh” delegada nos patriarcas, profetas, juízes e líderes das populações oprimidas. Basta revisitar aquele vigoroso alerta do J:Cristo: “Pensais que eu vim trazer a paz à terra? Não, eu vim trazer a espada”! Basta ver o princípio e o fim de tantos mártires que nos primeiros três séculos do Cristianismo juntaram-se aos escravos para arrancá-los das garras dos imperadores!
         Anda o Papa por terras sul-americanas, onde as ditaduras e a corrupção navegam em águas largas e atravessam o corpo e a alma de milhões de sofredores. Apesar de recebido com honras de chefe de estado (privilégio inconsequente e que espero venha a conhecer seu voluntário empeachment) ele não se coíbe de denunciar os abusos dos magnatas opressores. Lembro a plêiade de lutadores, gente da Igreja da América Latina, que empenharam a própria vida, frontalmente, na defesa do seu Povo: Ernesto Cardenal, Óscar  Romero, Camilo Torres, Hélder da Câmara, De Escoto (este último condenado por João Paulo II e reabilitado por Francisco), enfim, tantos outros anónimos, inscritos no coração das pessoas e no chão térreo onde deixaram o corpo. Não será, pois, de estranhar que os obreiros da emancipação das colónias portuguesas fossem oriundos das missões cristãs, católicas e protestantes, presentes em África. Tive a felicidade de conhecer  os famosos “Padres Brancos”, perseguidos e expulsos  pelo regime salazarista, Sebastião Soares de Resende, bispo da Beira, Manuel Vieira Pinto, bispo de Nampula. Ao contrário, o grosso dos invertebrados bispos do Padroado, os “generais” da Igreja, de mãos amarradas  em profunda oração, mas logo livres e  prontas para assinar a deportação dos eclesiásticos non gratos ao Império, caso, entre outros, de Monsenhor Mendes das Neves e Padre Dr. Joaquim Pinto de Andrade (presidente honorário do MPLA). Depois de várias prisões em Caxias e Peniche, acabaram os seus dias, exilados e esquecidos em Ponte de Sôr e Vila Nova de Gaia. Do mesmo modo, o bispo de Timor,  Martinho da Costa Lopes --- esse, sim, o verdadeiro e único bispo que, sem comendas nem medalhas, entregou a  vida pela libertação do Povo Timorense.

         Com este apontamento, completo o filão inspirador da semana passada --- o 4 de Fevereiro --- e atiro para cima da mesa da reflexão comum a grande incógnita: a que estranha classe pertence um cristão institucionalizado para dispensar-se da militância directa na luta dos Direitos Humanos ?  Direitos Humanos que mais não são que Preceitos Divinos!
          Ficaria escassa esta página se não depositasse uma mancheia de cravos na memória intemporal da campa do General Sem Medo, Humberto Delgado, hoje, 13 de Fevereiro, dia em que se comemora o seu bárbaro assassinato, em 1965. Embora morto, a bandeira da sua luta flutua nos céus de Portugal. E do Mundo!

13.Fev.16
Martins Junior
           

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

ATÉ QUE ENFIM! COMEÇA A ESCREVER-SE A VERDADEIRA HISTÓRIA DE “MACHICO - TERRA DE ABRIL”


Um dia novo está rasgar o mítico horizonte das terras de Tristão Vaz. Chamo-lhe mítico, porque a sua história tem andado encoberta na névoa de um passado longínquo, desde os alvores da Descoberta, relativamente ao qual os fazedores de estórias nem sempre têm dignificado a inteireza da História desta que foi a primeira capitania da Madeira. E se isto se diz de seis séculos de transcorrência no tempo, com maioria de razão se pode e deve afirmar sobre as quatro décadas nascidas no “25 de Abril” de 1974.         
         Por isso, foi hoje um dia novo, um dia exaltante aquele que, entre as quatro paredes da reitoria da secular “Universidade Jesuíta”, viu nascer “a primeira luz do sol sereno” (diria o “Nosso Camões”, Francisco Álvares de Nóbrega) sobre a verdadeira História de Machico na construção e consolidação da Revolução dos Cravos em Machico e na Madeira, através da apresentação, defesa e classificação da tese de mestrado do Dr. Lino Bernardo Calaça Martins, intitulada “O CENTRO DE INFORMAÇÃO POPULAR–CIP” e o seu lugar de charneira no processo revolucionário das suas gentes, enquanto polo aglutinador das reivindicações de um Povo que, desde muito longe, almejava libertar-se das amarras do absolutismo monárquico e, mais recentemente, da repressão  fascista do, malogradamente chamado,  “Estado Novo”.
         Deixarei para outra oportunidade e outro local a qualidade da prestação do “Candidato a Mestre” para tão-só (e julgo ser tudo o que ele mais anseia) acentuar a amplitude do periscópio através do qual Bernardo Martins capta a realidade dos factos, a diversidade e a riqueza das lutas populares, as muralhas da nova ditadura pós-25 de Abril impostas pelos poderes governamentais e pelos reaccionários do bombismo, enfim, toda a conjuntura  socio-económico-cultural que foi preciso enfrentar e ultrapassar, quase sempre pela iniciativa dos vários sectores profissionais de então, com especial menção para os camponeses, as bordadeiras, os pescadores e operários da construção civil, dando especial relevo à população do Caniçal e da Ribeira Seca.
         Esta é a obra que faltava para a compreensão do fenómeno chamado Machico na alvorada de Abril. Para não desdourar o seu brilho e para não obviar à natural curiosidade dos muitos madeirenses que desejarão tomar contacto directo com o exaustivo e proficiente  trabalho de investigação  do Dr. Bernardo Martins,  (que esperamos ver  publicado brevemente em papel impresso e nas redes sociais) concluo esta boa nova com um efusivo abraço de congratulação,  associando-me aos muitos amigos e intelectuais ligados a Machico que, com a sua presença, renderam justa homenagem ao novo Mestre.

           11.Fev.16
         Martins Júnior
     


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

LENGA-LENGA EM JEITO DE "RAPPER" PARA UM FIM DE CARNAVAL – O CIRCO AMBULANTE




Abram as grades da rua
O circo vai  arrancar
Este é o circo circulante
E o carrossel ambulante
Já começou a rodar
No circo dos mascarados
Toda a gente tem lugar
E quer queiram quer não queiram
Todos  aqui vão entrar

Já chegámos à rotunda                   
E a seguir ao cruzamento
No meio da barafunda
Quem há-de ser o primeiro
A entrar em andamento
No carrossel  ligeiro
Do carnaval embusteiro

Olha ali um sinaleiro
Boa máscara apresenta
Agarra-lhe pelo traseiro
E trá-lo p’rá nossa tenda

Roda roda  carrocel
Passa perto do quartel
Agarra-me  o coronel
Mais aquele general
Eles ’stão mesmo a calhar
Para entrar no redondel
Deste nosso carnaval
A máscara vamos tirá-la
Ninguém mais lhes bate a pala
Nem o mais reles magala
Deste circo saltimbanco

E depois dum solavanco
A carroça entra no banco
Do divino Espír’to Santo
Deixa a pombinha divina
E agarra-se à garganta
Dos gordos e dos salgados
Puxa-lhes  pela gravata
E lá vêm arrastados
Deitar o ouro e a prata
Por eles sempre roubados
E toda a vida guardados
No paiol que a todos mata.
Deixa-os entrar
E dá-lhes um bom lugar

Sem saber onde passava
O circo do carnaval
Deu com a roda da frente
Na barra do tribunal
Era mesmo o que faltava
Ter a ponta do nariz 
Na mão do doutor juiz
Mas quem ali deu a sentença
Foi o chaufeur do “horário”
Destemido e temerário
Trouxe o juiz pela toga
E quase que o afoga
Mais o ruim secretário
Ambos dentro do armário
Dos processos arquivados
E a seguir os meirinhos
Com os doutos advogados
Forrados de calhamaços
Mas lá dentro encadernados
Com notas e cheques falsos
Que  a Justiça não se engana
Quando os trata por palhaços.
Todos bem assentadinhos
Nas poltronas lá do fundo
Mudos como pintainhos
Que mais justinhos não há
Na carcaça deste  mundo

Feita a prisão do juiz
O empresário do circo
Passou-se dos seus carris
Sem travões nem guarda-freios
E sem saber com que meios
Atirou-se aos ministérios
Espojados nos terreiros
Dos Paços de Portugal
Começou o arraial
Entre touros e toureiros
Com D. José cavaleiro
A olhar do seu cavalo
A saída dos ministros
Todos sisudos sinistros
Para a carreta-mistério
Que tanto dá p’rá cadeia
Como dá  p’rao cemitério
Adeus máscara-sereia
Sempre de carteira cheia
Que deixei no ministério

E da Praça do Comércio
Como da Quinta Vigia
Chegou ao adro da Sé
Onde a missa de água-pé
Do Bispo e do Cardeal
Lhes dava aquele ar solene
Do mais sacro lausperene
Em dia pontifical

Lá foi o nosso empresário
Do circo extraordinário
Interrompeu o ritual
Das mitras e solidéus
Meteu Bispo e Cardeal
No carrocel dos réus
Deste estranho carnaval

Lembrou-se de ir até Roma
Mas a viagem era cara
Para arrancar a tiara
Da cabeça que usara
O Papa da cristandade
Porque tão crua  vaidade
Só cheirava a falsidade

Mas lembrou-se de outro homem
Homem chamado Francisco
Que afrontou este risco
De mostrar à humanidade
Que o Vaticano era cisco.
Então o trem carnaval
Poupou a veste  papal
Transparente e natural
Como a flor da humildade
E a brancura da verdade

Faltava no carrocel
O longo e negro tropel
Dos que trazem no turbante
Em nome de Maomé
A bomba  a que chamam fé
 Essa máscara fulminante
Pior no mundo não há
Que mata no mesmo instante
O velhinho e o infante
E sempre em nome de Alá

E muitos outros faltavam
Na carreta circulante
Deste circo ambulante
Mas tão depressa se encheu
Como no tempo da crise
Que todo o público restante
Ficou para outra reprise
Quem não foi neste momento
Aguarde o desdobramento

Então o chefe Circão
Já dentro do carroção
Ergueu a voz de trovão
E disse: Tudo em sentido!
E logo tudo seguido:
Tirem roupas e roupão
E mandem tudo p’rao chão
Seja obeso ou marreco
Aqui dentro fica tudo
Como na praia do Meco

O sinaleiro despido
Caíu-lhe o coração
O general abatido
Nuzinho como um anão
O cardeal e o bispo
Mais murchos que um sacristão
Juízes e advogados
Arguidos sem perdão
Salgados e Banifados
Sujeitos a água e pão
E os ministros então
Acabaram na prisão.

E sempre o grande Circão:
Acabou-se o carnaval
Das máscaras da ilusão
Com que enganastes o mundo:
Vós de bíblia e de sermão
Vós de leis de papelão
Vós de cheques ao balcão
Vós de G3 e canhão
Aprendei esta lição:
Só tereis a remissão
Em outra reincarnação
Começai a penitência
Com jejum e abstinência
Na Quarta-feiras das Cinzas
Cinzas do vosso caixão

Tirem já todo o disfarce
Saibam despir-se e amar-se
Despir-se das lantejoulas
Das malas-artes e tolas
Para amar-se  noutra esfera
Onde vos chama e espera
A Marcha da Primavera

09.Fev.16
Martins Júnior


domingo, 7 de fevereiro de 2016

ARCO-ÍRIS EM MACHICO


Falei, falei, quase me insurgi contra a vacuidade do descartável, o limbo escorregadio em que nos balanceamos no dia-a-dia que passa. E eis-me hoje caído de bruços no vaivém dos carnavais. Deixai, então, “passar esta linda brincadeira, que a gente vai-se bailar o entrudo da Madeira”. Em vez de “Madeira”, leia-se “Machico”.  Porque é da produção de cerca de mil e duzentos passeantes que hoje vou ocupar-me. Ligeiramente, como convém ao entrudo ligeiro.
         O que mais admirei nos diversos grupos foi a simplicidade sadia com que desfilaram ,  os volteios populares, o pitoresco  dos figurinos, oriundos da imaginação criativa de todos quantos, vindos das várias  freguesias e associações do concelho, desde crianças até à “terceira idade”, trouxeram um colorido genuíno  às ruas de Machico, enxameadas de milhares de sorrisos  francos, felizes. Parabéns a todos, por igual, e à Câmara e Junta de Freguesia que partilharam a responsabilidade da iniciativa. Perante a descontracção organizada do desfile, só me acudiu ao pensamento aquela canção  nascida em Machico e que aqui corre de boca em boca: Na festa que o Povo organiza / Há mais alegria e verdade / Por isso trazemos a estrela / A estrela da felicidade. Se as entidade promotoras me permitissem --- e sem quaisquer pruridos de regionalismo exclusivista --- ousaria observar que, perante a beleza nativa dos grupos locais, dispensar-se-ia a opulência esmagadora das trupes que ontem, sábado, fizeram as galas do cortejo do Funchal. Mas tudo bem.
         Na impossibilidade de transcrever as letras de todas as colectividades,  algumas delas com o piri-piri adequado ao dia, reproduzo a daquela  que me toca mais de perto, a  Ribeira Seca, sob o lema “ARCO-ÍRIS EM MACHICO ” ,  em que foi visível a mensagem inter-geracional dos seus participantes, muitos deles, pais e filhos, numa simbiose de amor e pedagógica convivialidade. A letra entrosava-se, como luva na mão, com a música, também original.
É Carnaval
Carnavalão
Se tem moleza jogue a moleza p’rao chão
É Carnaval
Já está na hora
Se tem tristeza mande já tristeza embora

É Primavera em flor
Juventude em botão
Ribeira Seca avança
Viva o Carnavalão

À frente vai a luz /  A luz da cor do sol
Machico todo canta / A vida é um girassol

A cor branca da paz    /  De todas a primeira
Machico todo canta / Viva a nossa Madeira

E Viva o céu azul / Viva o azul do mar
Machico todo canta / A vida é para amar

Nós somos o amor / Nós somos a paixão
Machico todo canta / A vida é uma canção

E nós somos o verde / Do sonho e da esperança
Machico todo canta / A vida é uma criança

A flor da laranjeira /  E a rosa do jardim
Machico todo canta / Machico é sempre assim

Somos o arco-íris / Somos todas as cores
Machico todo canta / A terra dos amores  (ou a baía dos amores)

Já sabe ao alecrim / Já cheira a manjerico
O Carnaval mais lindo / Está hoje em Machico
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07.Fev.16
Martins Júnior



sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

CARNAVAL A BORDO COM MUNIÇÕES NO PORÃO


Enquanto batucam no ar os tambores das trupes, vem-me ao pensamento uma estranha trupe naval que largou do cais da Rocha em Lisboa, no dia 4 de Fevereiro de 1967. Chamo-lhe estranha trupe, porque na altura era tropa que se chamava. E tinha  no aparato exterior  toda a cor, todo o ritmo cadenciado e triunfante das marchas que enchem as ruas, com os metais a reluzir de espanto sobre o betão do molhe onde estávamos atracados. A encenação era solenemente a mesma. Os figurões lá estavam perfilados como cavalos ajaezados para o festival. Eram brigadeiros e generais, eram ministros, o das Colónias à frente, era o Cardeal ou o Bispo com  seus cónegos de meias vermelhas, religiosamente paramentados a deitar água benta ao casco que nem a via. Era um delírio de lenços brancos brandindo a brisa e a luz multifacetada das oito da manhã.
         Destoando da apoteose malévola da parada em terra, uma multidão incontável de velhos, adultos e até crianças --- os jovens já estavam no convés voltados para terra --- erguia os braços pesados num último adeus que enegrecia o meu olhar. Pareciam-me os lábios trémulos de quem carpia lá dentro a fatídica esperança: “Adeus, meu filho, meu neto, meu pai, meu noivo… será que voltarás vivo aqui à nossa casa”?!
         Fez ontem, faz hoje, durante trinta dias --- os da longa viagem que nos  separava do Norte de Moçambique --- sim, faz cinquenta anos menos um.  Partíamos como cegos para o abismo,  no bojo do velho “Niassa”. E foi lá o nosso carnaval. Passámos o Cabo Bojador, dobrámos o Cabo das Tormentas que, para a maior parte foi da Esperança mas, para outros foi o naufrágio da vida que nunca mais voltou, porque lá ficaram com os ossos mirrados nas sepultas plagas da mata africana.  Ainda hoje, passado quase meio século, aproveitamos (os que éramos jovens garbosos e hoje somos velhos encanecidos)  para enviar mensagens e confraternizar via telefone, recordando o primeiro dia do resto da nossa comissão em Moçambique.
         4 de Fevereiro de 1967! --- Véspera do ímpar dia 5.
         Vou passar adiante e deixar não sei para quando episódios de uma campanha suicida que nos apertaram ao pescoço. Esquecerei, de momento, até as armas e munições que, longe dos nossos olhos, escondiam os porões do navio. Cinco décadas depois, fixo-me apenas na resignada, mais do que isso, quase-entusiástica aceitação desta sentença colectiva de pegar  em centenas, milhares de jovens, no maior esplendor da sua força física e mental, e empurrá-los forçadamente para o matadouro de carne humana. Em terra alheia!  Talvez se pudesse encadernar esta paradoxal contradição na capa do livro de João de Melo Gente Feliz com Lágrimas.
Ao mesmo tempo que se tratava de uma fatalidade inelutável, dou comigo a pensar  nessa passividade a que chamavam patriotismo, amor à bandeira e à Nação. Para isso também  contribuíam Nossa Senhora de Fátima, o bispo-brigadeiro sediado em Santa Apolónia, os capelães que benziam o estandarte do batalhão, coisa que me recusei a fazer e pela qual fiquei desde logo marcado no Índex das altas patentes militares. Como foi possível anestesiar um Povo inteiro até ao ponto de considerar traidores à Pátria os jovens esclarecidos que se recusaram a pegar em armas contra os legítimos possessores das terras africanas e, por isso, se exilaram por esse mundo fora…  Que droga, sobretudo a do medo e da tortura, nos dobrou a cerviz sem um pingo de resiliência?!...
Talvez aqui se assemelhe o 4 de Fevereiro de 1967 (e os de antes e depois) à alucinação colectiva de um entrudo etílico que nos encobre furtivamente a realidade. E aproveito o momento  --- cá está o perene no efémero --- para despertar os ânimos da gente afim de não permitirmos que o decurso dos anos e o deslizar imperceptível de certas  ideologias tomem conta de nós. Ceder um milímetro da nossa identidade é entregar ao carcereiro a chave da nossa liberdade. Quando acordarmos da anestesia global  chegaremos ao degradante cúmulo de  beijaremos as botas cardadas que nos esmagaram a cabeça. A nossa e a dos vindouros.
É por isto, também, que escrevo o SENSO&CONSENSO. É por isto que leio até à exaustão os SENSOS&CONSENSOS que, sob diferentes títulos,  muitos outros mensageiros amigos, como você, semeiam neste campo aberto e fértil das redes sociais.
A terminar: tencionava juntar um outro 4 de Fevereiro, o de 1961, véspera do ímpar dia 5. São intensas as fulgurações que daí emanam. Ficarão para outra oportunidade.
05.Fev.16

Martins Júnior

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

“OPERAÇÃO STOP”


Há-as para todos os gostos e (des)gostos. Para controlar a velocidade, para soprar o balão, para apresentação de documentos. Umas com sentido pedagógico, outras como sanção punitiva.
Assim na auto-estrada do pensamento e da vida. No turbilhão inelutável  de todas as vidas, lá estão perfilados em cada esquina agentes de serviço diário, diria horário, “minutário” que nos agarram por inteiro e aos quais nos deixamos entregar, com tanto ou mais prazer consoante a cor da farda e a apetência dos nossos olhos. Em cada dia, em cada hora, em cada minuto somos levados, inconscientemente ou lucidamente, por este facto, por aquela figura, aquela notícia espectacular, os quais tão depressa nos prendem quão vertiginosamente se afastam. E aqui está exactamente a medida de nós próprios: superficiais, inconstantes, comidos e comestíveis numa palavra, descartáveis. Por gosto. Por leviana e quase imperceptível  opção.  Diverte-me e questiona-me o afã dos leitores do café que, no seu primeiro ímpeto,  é desdobrar a página dos desastres e de imediato saltar para o necrológio do dia.
É também o risco de quem escreve: deixar-se tentar pelo periférico, pelo imediato e tangível (sobretudo se tangível  à multidão) e abrir as torneiras do computador, encher as terras de perto ou de longe com os chuviscos e os aguaceiros da estação, do dia, da hora, do minuto.  Com “aquilo” que está a dar.
Ora, não é essa a minha opção. É certo que, segundo o Mestre Filósofo Aristóteles, “nada do que é humano me é estranho”, impõe-se o nosso olhar crítico, o direito (e, nalguns casos, o dever) de opinar. Mas escrever na correnteza do efémero é algo que está condenado às fissuras dos canais de rega, devoradoras de energias que bem mereciam  ser canalizadas para um pensamento constructo e, daí, consistente na sua produção e suficientemente aberto para a síntese de todas as hipóteses. Permitam-me este desabafo: leio avidamente, imperativamente, livros ou artigos de opinião, contanto que não se limitem a seguir o guião de cordel do vulgo indiscriminado, apenas para figurar nas vidraças partidas do calendário.
É a minha “Operação Stop”.
Desde longa data aprendi, em Charles Péguy, aquela máxima imbatível: “O jornal de ontem é mais velho que a Odisseia de Homero”. A voracidade dos “media” anda por aí, desenfreada, como os milhares de espermatozóides à procura de um óvulo, o mais desprevenido que se lhes apresenta. E nós,  por curiosidade congénita ou mau paladar deixamo-nos fecundar pelos batedores do costume, os interesses privados da rádio, da estação televisiva, o açambarcamento por parte dos banqueiros-donos-do-papel impresso. Quem escreve deveria estar atento ao perigo de destilar a diarreia incontrolada do inútil, do efémero. Em tudo. Cito, para amostra entre muitas, determinados programas de literatura em que se dá primazia a textos efémeros em vez de propor, eu diria, impor a leitura dos mestres da Língua Portuguesa. Bem sei que se le style c’est l’homme, também cada época tem a sua marca distintiva, a nossa também. Mas nem por isso deveria relegar-se para o museu de cera o rio vivo que emana das nascentes e mantém a perenidade e a identidade de nós mesmos. “A minha Pátria é a Língua Portuguesa”, sempre Mestre Pessoa, perene, semper vivens.
O segredo é detectar o perene no invólucro do efémero. Mesmo ao tocar a superfície dispersa na chamada “espuma dos dias” é possível fixar o ADN que perpetua o duradouro passaporte do Homem na volta aos mundos de ontem, de hoje e de sempre, afirmando-se como o eterno “operário sempre em construção” .
STOP! 
 Para seguirmos em frente.

03.Fev.16
.Martins Júnior


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

1º de FEVEREIRO – DE SANGUE SE FEZ A PONTE


Estaria dispensado quem me lê, porque hoje, sendo ímpar o dia, acaba por ser dia par. Se em linguagem matemática “menos com menos dá mais”, também aqui se pode agregar que “ímpar com ímpar dá par”.
         E porque a história do 31 de Janeiro ficaria incompleta sem o 1 de Fevereiro, eis-me hoje aqui sentado a folhear convosco os anais de um país sempre em evolução. E componho assim a tríplice gradação do saber: se  o último do mês ficaria incompleto sem o segundo, os dois  ficariam vazios sem um terceiro, o 5 de Outubro. Nestes três patamares desperta desde logo o método científico: tese – antítese – síntese. O 31 de Janeiro foi a tese, o 1 de Fevereiro a antítese e o 5 de Outubro a síntese. De modo que o 1 de Fevereiro --- hoje --- surge como a ponte decisiva entre  dois pilares. Mas que ponte!  Em vez de pedra romana aparelhada --- ossadas régias.  E em vez de agua dos rios --- golfadas de sangue azul derramado na praça pública. E foram precisos  19 tumultuosos  anos para  fechar o círculo paradoxal, a um tempo vicioso e virtuoso.
         Decerto que já chegastes à decifração desta metáfora encadeada. Mas tenho o dever de  torná-la transparente. Em 1891,  o  31 de Janeiro foi o primeiro clarão da República a haver, clarão depressa entenebrecido pela prisão, degredo e morte  dos que afrontaram a monarquia vigente. Em 1908, 1 de Fevereiro, é assassinado às portas de Lisboa o símbolo maior do poder absoluto, o rei D. Carlos I, regressado do Palácio Ducal de Vila Viçosa. O rumo silencioso mas inexorável da Ideia, como diria Antero de Quental!...   Digamos que a tese  imperial (os escorraçados de ontem)  encontra  agora  a sua antítese com a morte do Rei que (como a História se repete!) tinha assinado no dia anterior a prisão dos novos revoltosos  anti-monárquicos, gente de primeira água, como António José de Almeida,  Afonso Costa, Egas Moniz  e, entre outros,  o visconde da Ribeira Brava.
         A ponte, argamassada de sangue real, deu lugar, dois anos depois, à descoberta e  à conquista da outra margem. o 5 de Outubro, a gloriosa metamorfose do poder de um homem só (que é o que significa Monarquia) no poder como emanação pública de algo que é bem, coisa, comum, Res Pública. Terríveis tempos esses da mudança de uma mentalidade secular para  o miradouro de um tempo novo!...
         Ficar-me-ei por aqui, deixando para quando for oportuno (e sê-lo-á sempre  imprescindível) um olhar atento sobre  as convulsões sociais, políticas e culturais que marcaram os primórdios da República. Hoje quis tão-só assinalar o 1 de Fevereiro, neste que é o 108º aniversário da ponte, sangrenta mas decisiva,  construída entre 1891 e 1910.
         E porque em 25 de Abril de 1974 redescobriu-se uma Nova República  em Portugal --- a passagem de nível entre a ditadura e a Democracia --- não  pode deixar de marcar-se  em letras de oiro o processo de transição sem derramamento de uma só gota de sangue, símbolo do crescimento evolutivo de um Povo que procura, em cada socalco da caminhada, alcançar o cimo da montanha, a sua plena realização. Nós somos também desse Povo!

                1.Fev.16
Martins Júnior