sábado, 13 de abril de 2019

COM ELE, ENTRÁMOS TODOS NA CIDADE LIBERTADA


                                                           

Não fomos nós, ramos verdes,
Oliveiras em flor palmas e violetas
Que Te tecemos a alcatifa franca dessa manhã
Foste Tu quem nos ergueu mais alto que as estrelas
Porque és Tu o verde da esperança
Que em nós habita cresce e avança

Também não fomos nós, túnicas rubras,
Mantos e mantilhas espalhadas pelo chão
Que te abrimos a entrada triunfal na cidade de Sião
Foste Tu que douraste o nosso traje sem brilho
Porque Tu és o fogo és a paixão
De que se nutre o Povo Teu filho e Teu irmão

As pedras do caminho
Lajes romanas ou basalto roliço
Não fomos só aquela retaguarda
Sentinelas sem farda
Contra os monstros das trevas que Te ameaçavam
Tu é que foste o promontório  que nos defende e liberta
Foste e serás sempre a Pedra Angular
Da nossa luta seguro Avatar

E até o pobre jumento
O mais humilde do seu reino
Não foi ele que Te transportou
Tu é que o transfiguraste e a todos seus iguais
Pássaros  répteis  peixes  marsupiais
A todos sublimaste mais alto que os dromedários de Sabá
E mais nobres que as carruagens imperiais

Não foste apenas Tu
Que entrastes na Cidade Santa
E afrontaste a sacra ditadura de Jerusalém
Fomos nós
O Povo frágil e triste das terras de ninguém
Entrámos todos na Terra Prometida
Onde correm o leite e o mel,  a Paz e a Vida
Contigo
A terra voltou a ser nossa
E o sonho antigo
Fez-se mundo novo
Hossana Hossana´
Domingo de Ramos - Vitória de Cristo
E Vitória do Povo!

13.Abr.19
Martins Júnior


quinta-feira, 11 de abril de 2019

PARADOXOS PUBLICITÁRIOS




Se os homens não se medem aos palmos e se o espírito não tem peso,
Como podem os livros vender-se a metro e a cultura avaliar-se ao quilo?

11.Abr.19
Martins Júnior

terça-feira, 9 de abril de 2019

O PERDÃO EM RITMO BINÁRIO


                                                                

                               
Com o coração se o dá
e com a mente se o pede

Para perdoar
basta um gesto um olhar
sem sair do seu lugar

Para pedi-lo e alcançá-lo
hás-de sair do teu sossego
subir a pulso sem corda nem bordão
rasgar os pés no estreito vão
onde ele mora
o doce fogo do perdão

Talvez aí à tua porta
talvez colada a ti
ainda geme quase morta
a alegria de alguém
que não deixaste crescer

Ficando - perdoas
Saindo - alcanças
O perdão das horas boas
O sabor das águas mansas

09.Abr.19
Martins Júnior    

domingo, 7 de abril de 2019

SENTENÇA ‘ESCANDALOSA’: A MULHER INFIEL; OS ACUSADORES ADVOGADOS, BANQUEIROS E HIERARCAS, TODOS CORRUPTOS; UM JUIZ FORA DE LEI


                                                                   

           O guião tem todos os ingredientes para tornar famoso, por desconcertante, o filme proposto: para uns será uma almofada de paz no turbilhão do mundo rolante, para outros será o tumulto destruidor da paz dogmática em que vegeta a podridão dos cadáveres ambulantes.
         Estamos no grande tribunal do mundo. Nada lhe falta para a tramitação processual do ordenamento jurídico vigente: o réu, a acusação e a defesa. Neste fórum judicial ganha a defesa, estrategicamente promovida ao estatuto de juiz da causa.
         Oh, tomara haver aí um cineasta de génio (e de uma coragem do tamanho do génio) para projectar nas paredes de todo o planeta o maior, o mais belo, o mais transcendente julgamento da história humana – infinitamente superior às sentenças de Salomão!
         O guião – verídico e não imaginativo – lemo-lo e ouvimo-lo hoje no Livro, mais precisamente em João, o Evangelista narrador. Uma mulher é apanhada em flagrante delito de adultério. O legislador comina o crime com a pena capital, sujeitando-a ao apedrejamento em acção sumária. Apresentam-se, de imediato, a acusação e a defesa. Acusadores e defensores têm entre si um conflito congénito, irresolúvel, sem qualquer hipótese de conciliação, já por força do respectivo estatuto, já e sobretudo porque há uma luta feroz, mais que tribal e assassina, por parte da acusação – os escribas-doutores da lei, os homens do dinheiro - os fariseus – e os titulares do poder religioso – os pontífices Anás e Caifás e seus subalternos. Do lado da defesa, um só: o operário carpinteiro de Nazaré, promotor de um mundo novo, liberto da ditadura e da hipocrisia dos poderes reinantes, consignados aos acusadores.
         É preciso assentar a visão certeira no único móbil motivador da sanha dos acusadores: servir-se da ré para incriminar o Defensor, o Nazareno. “Era uma armadilha perfeita”, esclarece o próprio narrador, ao transcrever a pergunta capciosa e peçonhenta dos acusadores, seus inimigos figadais: “Mestre, o que é que dizes a isto? Aplicam-se os normativos da Lei de Moisés, ou achas que não”?   Que terrível dilema! O vírus fatal da acusação transforma o Defensor em Juiz. O incumprimento da Lei, despenalizando a ré,  conduzi-lo-ia infalivelmente à pena de morte.
         Mas o Mestre, de uma intuição acutilante, conhecedor do íntimo dos corruptos acusadores,  não hesitou em tomar a defesa da pobre mulher. O pó do chão onde a cena se passou foi o código penal mais eloquente e luminoso  para ditar a sentença. Vale a pena o texto citado. “Todos eles foram abandonando o recinto, a começar pelos mais velhos”. Em pleno tribunal a céu aberto, só os dois: a mulher e o Defensor-Juiz: “Eu não te condeno, mulher, vai em paz, mas dá um novo rumo à tua vida”.
         Toda a Jerusalém, casas, terras, pessoas, foram tomadas de sobressalto perante tão estranha sentença. Quanto ao Mestre, cresceram os rancorosos impulsos das classes dominantes, os acusadores, que à uma se acirraram até aquela noite fatídica em que, pelas mãos de um traidor, viram consumados os seus ferozes intentos.
Transpondo literalmente para os nossos dias o guião de há dois mil anos, nem seria necessário o cineasta de génio e de coragem. Basta apenas abrir os olhos e ver aqui e agora a reprise ou a clara reconstituição dos factos descritos: os mesmos legisladores corruptos, os mesmos juízes netos e bisnetos de moura prontos a condenar a mulher, os mesmos hierarcas galopantes carreiristas (como diz Francisco Papa) carcereiros dos templos, dogma numa mão e excomunhão na outra, enfim, os que, em nome da lei mais esquálida e cruel, matam o que de mais nobre e digno tem a psicologia humana. E, de longe a longe, de everest em everest, encontraríamos um argentino emigrante, inquilino romano, viajante sem medo, clamando a todo o mundo que  mais importante que o amor à lei e mais forte que ela é a Lei do Amor.   

          07.Abr.19
         Martins Júnior

sexta-feira, 5 de abril de 2019

MALAS-ARTES DA INFORMAÇÃO


                                                    

                                                           

Mais depressa dissesse no último blog que “todos os dias são 1º de abril” – e tão depressa veria escrito na terra e no ar a sua confirmação. No fogo cruzado da opinião pública e publicada, seja ele fogo amigo ou fogo inimigo, elas aí proliferam e multiplicam-se as amibas da informação, da mais rasteira à mais descomunal, até envenenar o chão que pisamos e o ar que respiramos. E o resultado não se faz esperar: o tédio, a anestesia geral, a aversão a tudo quanto destila notícia, mesmo que se apresente como canal, globo, mundo informativo, expresso, correio ou gazeta.
Mais grave e nauseabundo, porém, é quando a contradição estala na própria central de informação. Acontece, não pouco frequentemente, logo a partir da porta de entrada (leia-se, título) da sede noticiosa. Entra-se na casa, sobe-se pelas escadas, percorrem-se as salas e os cubículos, (leia-se, as páginas ou os conteúdos interiores) e, afinal, descobrimos com um misto de surpresa e indignação que o título não corresponde à inteireza da notícia; pelo contrário, elide a verdade dos factos e ilude despudoradamente o espectador ou consumidor da informação. Intencionalmente ou não, refém de ideologias ou subserviente às ordens do dono-capital da casa, o embuste fica a descoberto. Subverte-se a verdade e revolta-se o destinatário. É manifestamente um caso de publicidade enganosa, em que o conteúdo desmente o continente (leia-se, o rótulo, o título).
         Para que não restasse sombra de dúvida, a prova veio logo a seguir ao 1º de abril. O reclame da casa falava de uma “Carta Aberta contra a greve dos enfermeiros” e carregava-a de pretenso peso verídico, acrescentando que “Constantino Sakellarides e Fernando Rosas são alguns dos 120 signatários”. Ora, no desenvolvimento da notícia, lê-se que um dos autores da Carta afirma peremptoriamente que “o principal foco da mensagem é o poder político, para colocar a reforma dos recursos humanos na agenda política”. Eis, portanto, a letra e a interpretação essencial do noticiado, as quais deveriam figurar como título, para evitar leituras contrárias ao seu objecto nuclear. A um leitor comum, a informação redactorial, vista do título de 1ª página, elege como alvo os enfermeiros grevistas e toda a classe. É um facto indesmentível que a Carta também se dirige aos enfermeiros, mas como proposta estratégica de acção, mais precisamente: “Temos de conseguir que as nossas reivindicações sejam vistas como justas e não antagonizar a sociedade”.
         Não importa qual o periódico e quais os jornalistas (os casos repetem-se todos os dias, aqui e além), porque o que está em causa é a subversão do essencial em prol do acidental. Essencial aqui era a luta pelos “recursos humanos” exigidos ao poder político. Acidental e como efeito secundário, o esclarecimento e o respeito pela sociedade envolvente. É o risco perigosíssimo de fazer coabitar a verdade com a mentira, enfim, as meias verdades, claudicadas e incompletas.
         Sirva este breve apontamento de guião para entrar na selva do mundo informativo, disseminada por tudo quanto possui o peso de influenciar-nos pelo papel e por todas as sofisticadas redes comunicacionais.
         Quanto à imprensa escrita (e sem desprestígio de quem a faz) conforta-nos a observação, sábia e mordaz, de Charles Péguy: “O diário de ontem já é mais velho que a Odisseia de Homero”.

         05.Abr.19
Martins Júnior

quarta-feira, 3 de abril de 2019

FARSA E PERIGO: TODOS OS DIAS SÃO 1º DE ABRIL


                                                           

Noite das bruxas só há uma, dia das petas é todo o ano.
Passada a ponte, chegámos à outra margem, onde a mentira é boba e rainha. Os jornais que se ataviaram com as mais azougadas ‘chinesices’ saíram logo no dia seguinte para deslindar e confessar a originalidade das mentiras que aos quatro ventos espalharam no 1º de Abril. Uma delas (ridicule, mais charmant) foi a do matutino que tirou do bestunto o “atumbarão” que uma traineira despejou no estuário do Curral das Freiras. E o zé-magala diverte-se, comove-se até ao tutano.
Mas o que poucos descobrem na gargalhada das petas é que elas são pedidas e servidas à nossa mesa com o ‘papo seco’ de cada manhã. Parece que dia sem petas não é dia. Logo de madrugada, ajuntas o maço de papel tipografado a que chamamos jornal e tens de engolir na mesma xícara de café as mais pedregosas charadas que te querem impingir os escribas-pitonisas falidas de Delfos. Seja verdade ou mentira, não há filtro que nos valha. Depois lavamos os tímpanos e arregalamos os olhos para deixar entrar as rajadas mais desconexas do pivot de serviço.
Mentem-nos  (e nós agradecemos)  os boletineiros do tempo, os boateiros polidores de esquina, as vizinhas do lado, os camaradas de ofício, as pagelas horárias dos comboios e aeronaves. Mentem-nos e riem-se de nós os fazedores de leis, os palradores, roedores de queijo fresco, as araras de gaiola dourada e os periquitos charlatães, pica-paus intermitentes nos paços dos terreiros do povo.
Mentem-nos os tribunais pela boca de testemunhas sem freio. Mentem-nos os menus da feira do tecido e da tesoura, os curandeiros oficiais e os clandestinos de trazer-por-casa. Mentem-nos os DDT (os Donos-Disto-Tudo) da finança, da banca deles e da enxerga nossa, os salvadores das pátrias, os “vampiros” encapuzados do poder,  que dão com uma mão e roubam por outra. Também os beneméritos cavaleiros da égua de Tróia que traz na juba ouro e prendas de Ofir, mas no bojo um paiol de metralhadoras letais. Até nos mente a Bíblia, quando atesta que a mulher só vale uma costela do homem ou que o sol é que anda à volta da Terra. E mentem as religiões (todas!) quando vendem, por decreto, o mundo do além e a sua felicidade pelo couto de um vela e pela monotonia autista de uma missa.
Em suma, gostamos de ser enganados, fintados, mordidos todos os dias pelos caninos ‘amigos’, os de perto e os de longe. E até pagamos e pomos ao seu serviço as deslumbrantes conquistas da ciência e da tecnologia, face-book’, twitter, instagram, enfim, as armas poderosíssimas do talento inventivo dos humanos. O mais grave, senão mesmo criminoso, é deixarmos deliberadamente uma criança ou  um jovem na rua do embuste, na cova dos leões da tecnologia, serventuária da mentira generalizada.
Se há datas que dispensam a entronização de um dia, uma delas é o “1º de Abril”. É como se diz do Carnaval ou, paradoxalmente, do Natal. Eles são sempre e quando os quisermos. E, para nosso escárnio e nossa vergonha, o vulgo quere-o todos os dias, o 1º de Abril.      
  Um voto final: Que fique um dia, só um, para o ‘populucho’  regabofe grotesco do 1º de Abril. E que em mais nenhum dia e nenhuma hora do ano se franqueie a porta aos fabricantes de petas que depois se transformam em fabricantes de petardos.

03.Abr.19
Martins Júnior

segunda-feira, 1 de abril de 2019

AS CHARADAS DO PRIMEIRO DE ABRIL


                                                    


Em dia de mentir, não há outro remédio senão fazer greve à palavra.
Melhor ainda será cruzar o rasto das palavras ditas, palavras vistas, palavras encriptadas – via imprensa, rádio, ou televisão – pois que este é o dia de expor ao sol a originalidade de “fintar” os seus crédulos consumidores.
Só amanhã sabê-lo-emos. Enquanto isso, resta pôr à prova a capacidade interpretativa desses fiéis clientes  e a cada um deles formular a ‘pergunta da ordem’:
Quantas mentiras  (vulgo dictu pêtas) te enfiaram no dia delas os diários, os microfones, os televisores?
É um exercício charadístico de longo alcance, como demonstrarei amanhã, depois de passar a ponte quebrada sobre os rios que separam a verdade da mentira. Até lá.
01.Abr.19
Martins Júnior