segunda-feira, 13 de maio de 2019

UM LIVRO ABERTO : O BERÇO DE MACHICO – HOMENAGEM AO NOVO “DIA DO CONCELHO” E À FEIRA DO LIVRO EM MAIO MOÇO


                                                         

Entre 1440 e 2019, mais alto que os píncaros da ilha e mais brilhante  que  todas as alamedas de fogos fátuos e lamparinas vãs, eu vi esta baía reencontrar o seu Livro Primeiro. Vi o seu Povo escrito nas pedras do calhau, nos veios das montanhas e nas miríades de estrelas caídas sobre as folhas centenárias dos seus 579 anos de história.
Belo, belíssimo comemorar seis séculos de vivência saboreando o salso perfume dos livros de ontem, de hoje e de amanhã, com Álvares de Nóbrega patrono e talentoso protótipo da criação literária.
Parabéns aos promotores, proveitos longos aos seus dignos usufrutuários.

         13.Mai.19
Martins Júnior   

sábado, 11 de maio de 2019

LÍDERES E PASTORES, MERCENÁRIOS E LADRÕES


                    

O Líder não é aquele que o Povo adora,
mas aquele que ama o Povo.
O Líder não é aquele que arrasta o Povo,
mas aquele que caminha com o Povo.
O Líder não é aquele a quem o Povo entrega a vida,
mas aquele que dá a vida pelo Povo.

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Líder… Procura-se. Vivo ou morto!
No entanto, forçoso é encontrá-lo. Uma, duas, três vezes no ano!
E enquanto centenas e milhares de aprendizes galgam cegamente curvas e socalcos para, a qualquer preço,  tomar o pódio das lideranças  – regional, continental e internacional – recomenda-se-lhes a leitura do texto milenar proposto para este Domingo, em Jo.10,10-11:

“O BOM PASTOR DÁ A VIDA PELAS SUAS OVELHAS.
 QUEM NÃO É PASTOR, É MERCENÁRIO E LADRÃO”

11.Mai.19
Martins Júnior
                                          

quinta-feira, 9 de maio de 2019

ENTRE O CANSAÇO DA GUERRA E O TÉDIO DA PAZ


                                          
É mui diversa a interpretação que tenho da Europa. Que outros contabilizem os euros que metem e os euros que tiram da caixa comum. Que muitos mais se pavoneiem da abolição de fronteiras e se gozem da livre circulação de pessoas e bens. Da minha parte, compulsando a trajectória dos 62 anos volvidos sobre o Tratado de Rima, dois momentos decisivos sinalizam esta velho  continente: primeiro, o cansaço da guerra; segundo, o tédio da paz.
Coloco-me na madrugada europeia, aquela em que os visionários de um mundo novo – Jean Monnet, Robert Schuman, Konrad Adenauer, Alcides De Gasperi - soltaram os acordes da Paz entre as nações, emocionalmente expressos  na inspiração beethoveana do Hino da Alegria que hoje encheu a grande abóbada comunitária. O móbil fundamental, direi instintivo, de tão ingente tarefa nós já o sabemos: o cansaço - e mais que o cansaço – o sufoco das guerras, as de 14-18, as de 39-45, as dos Sete Anos, as dos Cem Anos, enfim, a túnica da gloriosa Europa ensopada em sangue e valas comuns. Impunha-se, pois, a necessária catarse de milhares e milhões de inquilinos, fugitivos da hecatombe suicida. Como? Lançando pontes, juntando forças, entrelaçando corpos e almas num mesmo abraço de reconciliação, única trincheira de sobrevivência da “espécie europeia”. Foi o sonho tornado realidade. Aqui, bem poderia Fernando Pessoa esculpir no pedestal de tão alto monumento: “Deus quer, o Homem sonha, a Obra nasce”.
Foi esta, sem dúvida, epopeia maior que a conquista dos mares e as invasões astrais que, antes e depois, empreendeu o génio humano. A livre circulação dos cidadãos europeus terá sido, porventura, o mais expressivo  testemunho simbólico dessa almejada Paz. Em contraste com as antigas “muralhas das cidades” e o pavor de atravessar fronteiras sob a ameaça de cair a inexorável “espada de Dâmcles” sobre as nossas cabeças, abriram-se as portas da liberdade e a paz da confraternização entre povos e línguas. E assim se foi escrevendo uma esteira de luz diante das gerações vindouras.
Mas, paradoxalmente, parece emergir da terra europeia o magro e fatídico fantasma que dá pelo nome de tédio da Paz. O bicho-homem não tem paladar para sorver e fruir por muito tempo o fruto suave e doce que lhe oferecem os seus progenitores. E agora é o que se vê: o regurgitar de pulsões tribais, o ódio traumático aos vizinhos, o cancro da xenofobia! E tudo isto comandado pelo espectro que, feito para a alegria, só semeia guerras e convulsões - o monstro-dinheiro, a avidez insaciável do “vil metal” ou, em termos formais, o capitalismo selvagem
Teremos nós de esperar mais um rio de sangue, teremos nós de crucificar uma ou mais gerações para reaprendermos o saboroso gosto da Paz?...
Aqui fica o apelo dos corajosos visionários, os pioneiros daquela Europa igualitária que sonharam para nós. Descendo, porém, às profundezas do nosso subconsciente, descubramos talvez que dentro de cada um de nós existe essa Europa, a dois tempos e duas velocidades, balanceando entre o cansaço da guerra e o tédio da Paz. Compete-nos educarmo-nos para o genuíno espírito europeu e lançar o repto aos detentores do poder para que não deixem destruir dentro de si e do seu povo as sábias papilas gustativas, doadas a todo o ser humano, que nos fazem rejeitar o vírus da guerra e amar infinitamente as férteis doçuras da Paz.
Que sobre nós não recaia a maldição condenatória do “povo eleito” de Jerusalém: “Ai, povo, povo, que rejeitas as águas puras das nascentes e vais dessedentar-te com a água podre das cisternas rotas”! (Jer.2,13).

 09.Mai.19, Dia da Europa
Martins Júnior

terça-feira, 7 de maio de 2019

REINCARNAÇÃO


                                                    

Voltaste enfim
Ao seio materno de onde partiras
Afortunadas mãos aquelas que te levaram
Ao aquático berço de safiras
Em maio moço e dia do baptismo
Entre rendas de algas e alfaias de abismo

Filho pródigo errante
Outros te abandonaram
Incógnito moribundo
Por desertos seculares mares sem fundo
Até te enlamearem na trágica voragem
Que te amarrou às cruzes do Calvário
Queimado entre archotes e velórios
Encharcado de lágrimas e lutos mortuários

Em vez de repique natalício
E certidão baptismal
Passavam-te atestado
De um óbito antecipado
Prisioneiro de um coval

Mas hoje voltaste
Ao berço e ao trono
Reincarnaste
Capitão Primeiro e Dono
Da Ilha Nova Nação
Desde a Ponta da Oliveira
Até à Ponta do Tristão

Venham amores de Ana e Machim
Toquem sinos carrilhões
Gorjeios silvos andorinhas aos milhões
Encham mares e baías
Cubram os céus da Madeira
 Porque seis séculos enfim
Machico reincarnou
E em seu Dia regressou  
À sua “Casa Primeira”

7..Mai.19
Martins Júnior

Em homenagem aos autarcas que, na comemoração dos “600 anos”, repuseram a verdade histórica do Dia do Concelho, evocando o dia 8 de Maio de 1440, data da instauração de Machico como  1º capitania da  Madeira e da sua doação, pelo Infante D. Henrique,  a Tristão Vaz Teixeira, Primeiro Capitão Donatário da Ilha. Dez anos depois, 1 de Novembro de ,1450,  foi instituída a  capitania do Funchal.


domingo, 5 de maio de 2019

PÉTALAS QUE CAEM, RAÍZES QUE FICAM


                                               
     
De Abril e Maio só conta o que perdura além dos dias correntes. E das próprias flores, de tão belas, só ficam as raízes depois de caídas as pétalas. Afinal, a policromia inebriante do cortejo, que inundou  hoje  toda a cidade, depressa se esvai pelas brechas da noite que se avizinha. Tal assim o cortejo da história: só é belo e garantido aquilo que é capaz de permanecer para além da cena episódica de cada vida, por mais fulgurante que se apresente.
Neste domingo primeiro de Maio, a rebentar pelas costuras de tanto evento e tanta comemoração, uma só ideia perseguiu-me todo o dia: a resposta que um escasso punhado de pescadores analfabetos deu ao Juiz do Supremo Tribunal Judaico de Jerusalém, uma instituição precursora da futura Santa Inquisição Romana. Aqueles homens vinham acusados de desobediência reiterada à sentença proferida pelo Presidente do Sinédrio: “Já vos intimámos formalmente  que estais proibidos de falar nesse nome. E vós continuais contumazes desobedecendo à lei”. A resposta – directa, incisiva, provocatória – não se fez esperar: “Fica sabendo, tu. Juiz e Sumo-Sacerdote, que para nós é mais importante obedecer a Deus que aos homens Fica sabendo mais: Não nos vamos calar, pelo contrário, vamos  encher as ruas e praças de Jerusalém, denunciando que tu e a tua classe assassinaram o nosso Líder e Salvador. Nós vimos, somos testemunhas vivas do crime. Ninguém nos há.de calar”! (Act.5, 28 sgs.)
A atitude lapidar desse grupo de pescadores analfabetos veio subverter todos os normativos e toda a Constituição do sacro império da Sinagoga, a oficial religião moisaica, enfim, um crime de lesa-pátria, previsto e punível com pena capital. Mas nem por isso eles se acobardaram. Nem o medo nem a morte  lhes tolheram a voz e o passo.
É isto que faz perdurar a memória e o projecto do seu Líder e Mestre. É com gestos destes que Ele não morre, está sempre vivo, vigilante e interventor. O Mestre Nazareno não veio para anestesiar as mentalidades, nem tão-pouco foi seu propósito imobilizar as pessoas. de joelhos e mãos postas. Ele veio com um projecto definido, claro, absolutamente necessário para mudar a face do planeta. Para concretizar o plano, era preciso acção, dinâmica, coerência e firmeza na sua execução. E uma das plataformas imediatas consistia em desmontar o viscoso aparelho hierárquico do Templo de Jerusalém, esclarecendo o Povo que a maior parte dos mandamentos e preceitos aí proclamados não provinham de Deus ou dos Profetas, ao invés, não passavam de abusivas imposições dos mercenários da religião em proveito próprio.
Algo de idêntico está a passar-se nos tempos que correm. Porque a cobardia e o oportunismo percorrem os penedos e até os seixos da política, dos mercados e mesmo da própria  religião. É de bradar aos quatro ventos o escândalo de bispos e cardeais – sucedâneos hipócritas dos juízes do Sinédrio e da  Inquisição - que têm o desplante de censurar e “condenar” o Papa Francisco pelas atitudes corajosas que tem tomado na luta pela Transparência e pela Verdade limpa e mobilizadora. Aliás, a história informa-nos de tantos homens e tantas mulheres que, na esteira dos valorosos pescadores de outrora, não temem nem tremem diante dos manipuladores sem ética, usurpadores do Poder, civil ou religioso, que sacrilegamente querem fazer passar por leis sagradas códigos e posturas talhadas pelos mais sofisticados e mesquinhos interesses pessoais e classistas.
Tributo e Glória a todos quantos assumem plenamente  o seu mandato de construtores de uma Terra Melhor, ecologicamente saudável de corpo e espírito. “Os que sofrem por amor da Verdade e da Justiça” e em todos dias, no anónimo cenário do seu habitat quotidiano, transformam espinhos e adversidades em positivas oportunidades de realização dos seus ideais.
Neste Dia e nesta Galeria de Honra estão as Mães – as nossas e as do mundo inteiro. Elas guardam as raízes do Dia da Mãe e da Festa da Flor. Elas também fazem perdurar o projecto holístico salvador do Líder e Mestre de todos os tempos.

05.Mai.19
Martins Júnior    


sexta-feira, 3 de maio de 2019

DIA DA LIBERDADE DE IMPRENSA… ou… DIA PARA A LIBERDADE DE IMPRENSA?


                                                                

     Canta-se o “25 de Abril” porque foi aí que o Povo Português conquistou a Liberdade. Ergue-se gloriosa a bandeira do “1º de Maio” e nela brilha a efectiva Vitória dos Trabalhadores que, desde Chicago em 1886, arrancaram decididamente para as “oito horas” de trabalho diário. Mas quanto ao “3 de Maio”, é legítimo perguntar: a Imprensa – digna desse nome – terá alcançado o pódio da verdadeira Liberdade?
         Rios de tinta e vendavais de protesto têm-se desencadeado por tudo quanto corre mundo sobre este mesmo tema. A minha percepção navega por entre esse mesmo turbilhão de opiniões, idêntica a muitas outras que acabam nas cinzas da desilusão, enfim, nos crematórios da Liberdade. Os caminhos e atalhos para lá chegar aí andam à vista desarmada: a inflação da palavra, os interesses classistas, a ditadura dos regimes e, por todos,  a concêntrica absorção por parte dos detentores do capital. No quadro deste  emaranhado de cordas asfixiantes da Imprensa Livre, o primeiro impulso ao pegar num jornal é o de um cepticismo visceral não só perante títulos e desenvolvimentos das narrativas do dia, mas sobretudo pelo teor tendencial e tendencioso dos artigos de opinião. Nalguns casos, chega a causar tédio e náusea extrema o despudorado batente das impressoras com que certos articulistas-escribas obrigaram a inundar a folha branca de um jornal. Isso acontece, não raras vezes, quando o escriba sem escrúpulos usa e abusa de um mensageiro público, a folha de jornal, e faz dela arma de arremesso para vingança pessoal.
         Essa e uma outra razão – a proliferação desenfreada das redes sociais – têm afastado milhares de leitores, deixando a Imprensa no plano inclinado da sua própria extinção. Mas é imperativa e obrigatória a sobrevivência, aliás, a plena vivência da Imprensa, como sentinela vigilante e transformadora da sociedade. Pela minha parte e não obstante todos os constrangimentos aqui denunciados, continuarei  consumidor da Imprensa, fiel mas assumidamente crítico, no sentido de estimular o crescimento saudável do trigo bom, mesmo no meio do joio que aqui e além infesta o terreno diário da nossa convivialidade.
         Uma palavra, a única verdadeiramente grande deste texto, consiste na Homenagem a todos os jornalistas que têm exposto e até perdido a vida, às mãos de ditaduras assassinas, só para que o “3 de Maio” de cada ano seja a corporização plena daquilo que significa: a Liberdade de Imprensa.

         03.Mai.19
         Martins Júnior    

quarta-feira, 1 de maio de 2019

A ESCULTORA-MADRE PARTIU!



A nave de pinho que a levou
Bordada a linho rosa e gerbera
Foi ela quem a fez e plantou
Dobrada sobre a terra que o pai lhe dera

Contadas pelos dedos
As estátuas que fizera
Davam oito vezes dez
Quantos os anos que vivera
Mortiças as mãos calejados os pés
Ao sol talhante do estio
E ao frio gretado dos invernos

A enxada ao ombro a foice a tiracolo
Eram o maço e o cinzel
Mais a agulha e a lareira
Com que esculpia  ao colo
Os anjos-filhos que hoje a levaram
À materna alcova derradeira


No seu cortejo e com ela
Em Maio dia primeiro
Eu vi todos os homens e todas as mulheres
Operários do mundo inteiro
Na marcha triunfal ao Arquitecto-Escultor
Do futuro em construção
O Povo Trabalhador

 Modelo e artífice
Escultora Madre
A nau de pinho te levou
Mas a alma-projecto que tu foste

Para sempre aqui ficou

01.Mai.19 – Dia do Trabalhador
À querida Balbina da Encarnação que foi hoje a sepultar