terça-feira, 28 de janeiro de 2020

AUSCHWITZ-ANO 75




De diamante puro e duro
São hoje as últimas cinzas de Auschwitz
Mas não morreram com elas
As insaciáveis goelas
Do forno crematório

Nem têm princípio nem fim
As chamas e o cutelo de Caim
Não mais secaram as fauces do antropófago Minotauro
Nem se apagaram as fogueiras dos sacros autos

Para cevar a raiva e a sede
Os humanos tribais em jarros lautos
Chamam de novo o lume  de Auschwitz
Dão-lhe outro nome e outra cor
Rompem o céu matam-lhe o fulgor
Cavam secretos subterrâneos
Fundam infernos mediterrâneos
E sempre o mesmo furor… e a mesma dor

Saberá quem e não sabe ninguém
Se dentro de nós também
Em aparente e sereno dormitório
Não restarão sequelas
Das intermináveis goelas
Desse monstro crematório…

27.Jan.20
Martins Júnior

sábado, 25 de janeiro de 2020

OS HOMENS NÃO INVENTARAM OS DEUSES, MAS FIZERAM AS RELIGIÕES

      Aponho-lhe o subtítulo declarativo: Leitura breve do divisionismo religioso. E justifico a opção pelo facto de neste dia 25 de Janeiro ocorrer o encerramento  do já centenário “Oitavário pela Unidade das Igrejas”, uma iniciativa do pastor anglicano Paul Wattson, em 1908, logo partilhada pelo Papa de Roma.
         É de fácil narrativa o historial do “Oitavário”: Confrontado com a manta de retalhos das mais diversificadas religiões, o anglo-americano Wattson decidiu lutar contra este atentado à integridade do seu Fundador, Jesus de Nazaré, “O Nazareno”. Grandes progressos, embora de pequenos passos, conheceu o fenómeno religioso, denominado Cristianismo. No entanto, continuaram as divergências (nalguns locais transformaram-se em discórdias acesas) arvoraram-se supremacias, orgulhos, dogmatismos exacerbados, multiplicaram-se as seitas e templos, salpicadas de   celebrações, sessões e orações conjuntas, permutas ‘diplomáticas’ de visitas segmentadas, ora a um, ora a outro templo das confissões em rede…aparente.
         Sublinho “rede aparente” e mantenho. Porque ajustando o microscópio da ‘razão prática’  lê-se, vê-se a olho-nu onde radica o escândalo do divisionismo religioso – precisamente nisto: os corifeus, donos ou capatazes das religiões pretendem sobrepor-se ao seu Fundador. São eles que expõem a Constituição do “seu” reino. São eles que impõem aos ombros dos outros fardos e sanções que nem com um dedo querem tocar. São eles que moldam usos e costumes sempre ao serviço dos “seus” interesses classistas.
Garantem a segurança dos “seus” interesses, lançam os alicerces dos “seus” tribunais e tipificam os ‘crimes’ e as penas, talhadas à imagem dos Códigos de Processo Penal. E assim se contrói um “reino”. De imediato,  inscrevem no alçado frontal – “este é o Reino de Deus” ou “A Porta do Céu” ou O Império de Cristo”,  com trono e coroa, ceptro e anel, palácio e guarda.
         E aqui começam as dissenções, os ‘ciúmes’ e as rivalidades entre os auto-nomeados representantes do “Chefe” (desculpem a crueza), do Pastor, da Divindade. Matam a alma da religião mas engrossam o corpo, arregimentam o “seu” castelo, enchem-se os cofres e os paióis. Acontece o mesmo nos negócios e agências do mundo:  quando o procurador quer ser mais que o Outorgante. Ou o aprendiz superior ao Mestre. Ou o director do club quando pretende “jogar” para fora mais que os atletas em campo. Ou, ainda, como se a cópia quisesse suplantar o original.
         Tenho para mim que se o verdadeiro Pastor e Mestre voltasse destruiria tantas bancas de cúpulas ditas religiosas, destituiria liminarmente tantos  vendilhões do Seu Nome!  E ao Povo verdadeiramente crente diria o mesmo que à Samaritana confidenciou: ”O Meu Pai só aceita adoradores que o sejam em Espírito e Verdade” (Jo.4,1-24).
Em termos directos e, talvez, sensivelmente contundentes, tentei traduzir o que ao longo dos séculos tem sido expresso por autênticos arautos do Espírito, profetas, teólogos, ascetas e místicos. No entanto, por todos aconselho a Primeira Carta de Paulo que será lida amanhã em todos os templos: (1 Cor.1, 10-13.17).
Em Espírito e Verdade!

25.Jan.20 
       Martins Júnior               

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

62 ANOS DE SAUDADE E 36 QUARTOS PARA UM SÓ INQUILINO – A DESERTIFICAÇÃO NA IGREJA


                                                         

Tem aquele gostinho agridoce da saudade e, no mesmo travo, um fio de fel da desilusão escorrendo pelos 34 degraus das escadas do velho Hotel Bela Vista, à Rua do Jasmineiro, Funchal.
Será amanhã o último dia das Jornadas da Actualização do Clero realizadas no Seminário Maior do Funchal. Quanto aos conteúdos - em que participam elementos da Igreja e personalidades da vida social e política regional -  dispenso-me de comentá-los, por hoje. Fixo-me apenas na contemplação daquela velha casa, onde se formaram centenas, talvez milhares, de jovens madeirenses que hoje ocupam lugares de charneira no panorama regional, uns como padres diocesanos, outros nas mais diversas esferas  profissionais e institucionais.
O edifício amplo e de excelente implantação numa zona privilegiada da capital, servido pela envolvente de árvores seculares, desfrutando de uma soberba captação do corpo e da baía da cidade, foi adquirido pela Diocese nos finais da década de 50 do século passado. Até aí, tinha sido uma das mais cobiçadas unidades  hoteleiras da Madeira.
A partir de 1958, instalaram-se os programas e respectiva logística dos Cursos de Filosofia e Teologia do Seminário Maior do Funchal, fase imediatamente mais próxima da Ordenação Presbiteral,  Pertenci ao grupo instalador, isto é, aos alunos de Teologia, que “inauguraram” o prédio. Era uma casa senhorial, a um tempo recatada e buliçosa, amena e dinâmica, onde, além dos estudos clássicos, desenvolveram-se iniciativas culturais de meritória craveira, quer no desporto, na música, no teatro. Lembro-me de termos representado, entre outras, a céu aberto por entre as vetustas árvores de cânfora, as cenas do poema “Finis Patriae”, de Guerra Junqueiro. Memoráveis eram também os “Fogos de Conselho” encenados pelos Agrupamentos do Corpo Nacional de Escutas da Madeira. Em suma, uma mansão de gratas recordações!
Para curtir as saudades, subi os 34 degraus que levavam ao quarto nº 33, onde fui inquilino durante quatro anos. Lobriguei, ainda, as dependências contíguas: uma sala desafogada, um guarda-fato, uma mesa de trabalho, uma pequena estante, uma cama e um lavatório. Ocorreu-me à lembrança o poema “Colegial” de José Régio - “Esta mesa onde estudo e me estudo”… Tudo na mesma. Com uma diferença: Tudo vazio! Perguntei a um dos padres dirigentes o porquê daqueles “desertos” (que eram antigamente “oásis” vívidos) e a resposta saiu espontânea: “Sabe, é que só temos um aluno aqui no Seminário”!
Uma mágoa indescritível. Pese embora a circunstância de haver cerca de 8 a 10 jovens madeirenses candidatos ao sacerdócio na Universidade Católica de Lisboa, o certo é que pesa muito mais ver 35 quartos vazios e apenas 1, ao serviço do aluno único daquela casa. Proporcionalmente, o Seminário tem o dobro de reitores: dois reitores para um só aluno. Paradoxal!
                                                     

Tarefa ingente e não menos inquietante para o recente Prelado que recebeu das mãos dos seus três antecessores uma paupérrima herança, a que se junta um outro monumental edifício, o Seminário Menor, em Santa Luzia, hoje a desfazer-se irremediavelmente!  Quem, como eu,  ali viveu oito anos ininterruptos, não consegue ficar de olhos enxutos perante tamanha degradação. Para mim, considero que a subserviência dos bispos pós-25 de Abril/74 à política governativa regional (em troca de igrejas e casas paroquiais construídas pelo governo) arrastou a Dioceses para o desprezo daquilo que lhe pertencia. Não só o património construído, mas (pior!) o depauperamento da autêntica vivência cristã, espelhada agora na tremenda desertificação vocacional. Não será, sem dúvida, a única causa da presente situação, mas seríamos nós ingénuos se não a contássemos, entre outras.
…”Melhor fora que a mandassem pràs alminhas”… Não direi o mesmo que a Amália disse da “casa de penhores”.  Mas que é um caso – pesado, espinhoso, intrigante – para o bispo e para a Diocese (o Povo Católico da Madeira), lá isso é! Quem ajuda a resolvê-lo?

23.Jan.20
Martins Júnior


terça-feira, 21 de janeiro de 2020

QUEM MEXEU NO QUEIJO DO NOSSO ORÇAMENTO?


                                                   

Não passará, talvez, de um apelo inaudível ou de uma voz sem eco. Mas nem por isso deixarei de sair à rua e agitá-lo na praça pública. Refiro-me à apresentação, debate e aprovação do Plano e Orçamento para a Madeira e Porto Santo/2020, ora em curso no Parlamento Regional.
Partamos de uma premissa genérica, partilhada e propagandeada pelo vento que passa e entra nos ouvidos das pessoas, nas frinchas das janelas, nas prateleiras dos cafés e que, por muitas e variadas formas, diz mais ou menos isto: “Quem é que pode suportar os políticos, os discursos, as mentiras descaradas, as promessas esfarrapadas, quem os atura?... Não há pachorra!”.
Carradas de razão carregam esses ventos! Mas uma coisa é certa, além da qual não podemos ultrapassar: é essa gente que marca os nossos  destinos, o quanto se come, o como se veste, a casa, casebre ou apartamento onde se deve viver, as cartilhas e as notícias que podemos ler, enfim, são eles que estendem os carreiros e os carris por onde devem andar os nossos pés.
Mas há mais: fomos nós que os pusemos lá, somos nós que lhes emprestamos o microfone e a voz e somos nós que lhes oferecemos rádio, televisão, jornalistas e comentadores – um batalhão de serventes, alguns serventuários, cada qual com as suas orelhas, os seus aparos e as papilas gustativas do sabor e da cor das suas simpatias.
E para quê todo este teatro hemi-circular? Que ali fazem os actores e figurantes?... Mexem no nosso dinheiro, jogam “ao montinho”, pataco para aqui, pataco para acolá (não raro, ‘pataca a mim, a mim pataca’), estes comem carne e peixe, aqueles espinhas e ossos, tu comes o bolo-rei, aquele contenta-se com ‘o pão que o diabo amassou”, senão engoles pó e alcatrão.
Quando constatamos que é a nossa causa e o nosso mundo que estão em jogo, é caso para nos interpelarmos:  Será assim tão inútil, despiciendo, tão afónico ou inaudível aquele combate concêntrico na sala redonda?... De todo!
Para lá do garfo ou do navalhão com que mexem e cortam o “bolo” que é de todos, a minha mensagem tem por objectivo sensibilizar os constituintes pagantes do Orçamento (e esses somos nós!) para a forma como os ‘talhantes’ oficiais exercem a função: os instrumentos que usam, o como afiam ou desafiam as pontas da língua e a cárie dos dentes, a ‘literatura’ rasca ou erudita com que mimam os comparsas do lado, em último remate, como tratam o Povo que lhes deu o voto e, com ele,  poltrona, garganta, computador e gravata a preceito.
Sei que é impossível à imensa maioria da população seguir em directo, via rádio ou TV, todos os conteúdos da “Ordem de Trabalho”, mas desejável seria que tal acontecesse. Tal como o Voto, deveria ser um direito e um dever!... Permitam-me um desabafo, reforçado por décadas de experiência naquela Casa das Leis: Quantas vezes – muitas, muitas – perante atitudes de certos deputados em quem votaram certos aglomerados populacionais, dizia eu no meu íntimo: “Quem me dera que aqui estivessem essas pessoas! Tenho a certeza que nunca mais os escolheriam!”.
É pelo alheamento dos eleitores nos debates relevantes para a comunidade (o Plano e Orçamento/2020) que proliferam a inércia e, no limite oposto, os extremismos populistas, os oportunistas que descredibilizam a nobre missão política de, etimologicamente, ordenar, governar a cidade.
Parafraseando alguém, na voz de um deputado eleito estão os milhares de vozes que nele votaram. O meu respeito e homenagem a todos os que, na Maioria ou na Oposição, exercem dignamente o seu estatuto!

21.Jan.20
Martins Júnior    
   


domingo, 19 de janeiro de 2020

“RIDICULE, MAIS CHARMANT”


                                                        

Em fim de domingo faz bem e até serve para arejar não só o ambiente circundante mas também  o cérebro pensante de quem viveu em directo ou em diferido aquele coro canoro,  superpolifónico, inigualável, dos animais no anfiteatro exterior das igrejas, seguido do cortejo processional sempre com a mesma banda sonora, briosa e livre, desde os metálicos galos-palheiros até aos roncados e cavos carneiros atrás do santo protector, insensível a tão ruidosa manif.. Os felizardos, porque abençoados, bípedes e quadrúpedes faziam a publicidade dos seus dedicados proprietários, vestidos à domingueira para exibir os seus forçados “pupilos” de companhia.
   Dado o palco aos “homenageados”, demos a palavra aos donos, mais divertidos e orgulhosos que os próprios protagonistas domésticos:
“Como a gente, os animais também merecem a bênção de água benta”!
“Os bichos têm direito a ser benzidos, porque é a nossa tradição. E “Eu cá sou católica”.
“Eu vim de longe, porque na minha freguesia só dão missa, não deitam água benta ao meu cão”!
“Como nós, eles também têm o direito a ser baptizados. Para Deus lhes dar mais saúde, mais tempo de vida e mais juízo”. Esta do ´”mais juízo”,  é a cereja em cima do bolo!
Ridicule, mais charmant! – não me ocorre outro sublinhado, que nem chega a ser comentário…
E em que estaria pensando Santo Antão, do alto do seu andor, com aquele “jardim zoológico" ambulante atrás de si? …
Saberá o povo crente que o porquinho e os restantes animais que figuram aos pés do santo eremita representam os demónios que o atormentavam no deserto para onde ele fugiu, apavorado com as tentações mundanas que o perseguiam, noite e dia?...
Mas é tudo tão carinhoso, comovente, enternecedor. E o povo gosta…
Ridicule, mais charmant!

19.Jan.20
Martins Júnior    

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

UM PASSADO COM OLHOS DE FUTURO


Em algum tempo Campos Júnior deu à estampa um prestimoso romance a que deu o titulo: “Pedras Que Falam”. Do livro de Francisco Cantanhede deverá dizer-se que são páginas que falam (as páginas são corpos curvados sobre a terra, mas que resistem), a tinta negra é sangue de inocentes que sofrem (mas que gritam pelo seu lugar ao sol da liberdade) e todo o volume que nos cai nas mãos sabe à terra que o “Cavador”  desbrava. O volume traz-nos também a escura e cruel noite do fascismo salazarista e, sobretudo rasga os horizontes de uma nova madrugada através da leitura enquanto ciência,  informação e vida. Tanto basta para que a tarde de sábado, 18 de Janeiro, o povo libertado se sinta reproduzido e feliz na fruição do “Cavador Que Lia Livros No Tempo De Salazar”.
         Em nome do autor tomo a liberdade, o prazer e a responsabilidade de convidar todos quantos amam e constroem no seu habitat natural o Mundo Novo que está na palma das nossas mãos.

17.Jan.20
Martins Júnior

Hora - 17,30
 Local- Solar do Ribeirinho  


quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

VENTOS SAUDAVEIS!


                                               
Privilégio – ocasional e gratuito, é certo mas é sempre um privilégio estar de perto dos promotores deste acontecimento notável. O jornal Le Fígaro e a editora La Fayard  descerraram ao mundo  o pano de cena que encobria aquilo que, para uns é um escândalo, para outros uma verdade libertadora, ou seja, a aparente polémica entre Papas, Cardeais, Secretários do Vaticano  acerca do celibato obrigatório, opcional ou excepcional dos eclesiásticos.
         Enquanto grande parte, talvez a maioria, dos comentadores se ocupa dos pormenores e adereços secundários desta “novela” limito-me a enaltecer o sumo precioso que se extrai deste episódio, volto a sublinhar, notável. Até que enfim, o debate aberto começa a ganhar o seu lugar ao sol numa  Igreja que se diz fraterna e democrata, mas na verdade não o é.
         Quando se vêem Papas, Cardeais, a “Ínclita Geração Vaticana” a divergir publicamente sobre questões consideradas intocáveis ao longo de séculos, aí está aberto o caminho custoso mas dignificante que todo o cristão tem direito a percorrer é em busca da Verdade. E para aqueles que vêem neste projecto galvanizador um motivo escandaloso de  guerras, então deverá citar-se o lapidar  veredicto  do Mestre: “penseis que  vim trazer a paz à terra; Não vim trazer paz, mas  espada.  Pois Eu vim para ser motivo de discórdia entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra. Assim os inimigos do homem serão os da sua própria familia (Lucas 10 34-36). Não admira, pois, que o mesmo cenário se repita entre Papas, Cardeais, Arcebispos e afins.
         O episódio presente já alguém o comparou aos preocupantes acontecimentos da Reforma e Contra-Reforma. Felizmente com uma diferença: hoje ninguém é Lutero para cair-lhe em cima a pena capital da excomunhão papal.
         Se “da discussão nasce a luz” a fortiori   da procura serena e corajosa da Verdade alcançar-se-ão as pistas seguras para chegar às fontes, isto é, o pensamento e à vivência do fundador do Cristianismo.

15.Jan.20
Martins Júnior