terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

CEGUEIRA SEM EMENDA – O MESMO PENSAMENTO PARA DOIS SUICÍDIOS

                                                                 


“Rapazes

Essa G3 que vocês levam nas mãos, lembrem-se que têm o cano da espingarda voltado para vós próprios. Mais cedo ou mais tarde!... Todas essas    munições que vocês atiram contra os “turras” vão voltar-se contra vós, os vossos filhos e netos. Vão voltar-se contra Portugal”.                                             

                               (Do meu diário na guerra colonial,, em Cabo Delgado, Moçambique, 1968)


 

“Passados mais de 50 anos, os homens ‘civilizados’ ainda não perceberam que toda a bala faz ricochete e volta ao lugar e ao peito donde saiu”.

(Do meu diário, perante os media que exibem os tanques de guerra apontados à Ucrânia)

                        

            15.Fev.22

            Martins Júnior

domingo, 13 de fevereiro de 2022

UMA NOVA CONSTITUIÇÃO NO ALTO DA MONTANHA PARA UMA NOVA NAÇÃO!

                                                                         


Não tem morada exclusiva nem há caminho único para lá chegarmos. É assim o Pensamento, a Ideia motriz que move montanhas e agita oceanos.

Do mesmo pano é o Pregoeiro da Ideia Viva. Não tem casa própria, nem tribuna exclusiva, nem emissor demarcado. Ele consubstancia-se com a Ideia, com a Vida. Vimo-lo, domingo passado, fazendo de uma lancha o púlpito do seu pregão à multidão apinhada ao longo da praia do Lago de Tiberíades. Hoje, apresentou-se na montanha diante de romeiros caminhantes que, famintos da Palavra, vieram de várias regiões da Judeia, Jerusalém, Tiro e Sídon – um viveiro incontável de corpos e almas arrastados pelo “sedutor” que viera lá dos lados de Nazaré.

E aí, no sopé do monte, Ele abriu o LIVRO do Verbo feito carne. Promulgou aos ventos e aos rochedos a Constituição de um Novo Reino, uma Nação Nova, um outro modelo civilizacional, numa palavra, abriu a Revolução. Sem sombra de dúvida, Revolução, porque só fora dos cânones estereotipados e guardados a peso de algemas -  o poder absoluto de então – é que vingaria algum sucesso a Nova Constituição.

Consoante o convite de cada fim-de-semana, proponho a leitura do texto de Lucas (6, 17-25) em paralelo com Mateus (1,1-15), as duas versões da mesma Grande Tábua da Nova Lei. A tradição, os hermeneutas, os poetas, sonhadores de um Mundo diverso, visionários de  um Mundo Melhor,  debitaram-lhe a romântica designação de “Sermão da Montanha” ou das “Bem-aventuranças”. Chamar-lhe-ia também Código da Felicidade Global, ou o mapa circular de um outro planeta dentro daquele que habitamos.

O Nazareno depressa incarnou a irreversível motricidade do tempo. Não havia tempo a perder. Em meia dúzia de normativos compendiou os horizontes da sua Revolução pacífica, mas perturbadora, quase insustentável, porque contraditória aos créditos oficiais. Com efeito, quem acreditaria num Reino onde os desvalores formais da sociedade apresentavam-se como os valores fundacionais desse movimento regenerador, em tudo opostos aos códigos elitistas:  Felizes e Bem-aventurados os pobres, os deprimidos em pranto, os mal-vistos na opinião pública, os perseguidos pelo regime, etc.?”.

As interpretações supervenientes dadas, de forma empírica e distorcida, ao texto das Bem-aventuranças têm ensombrado a beleza e a transparência da Nova Constituição. Jesus de Nazaré, ao ‘promulgar’ a sua Lei Fundamental, impugnava a avareza, a ganância, a exploração e a corrupção que são os vírus geradores da pobreza e do pranto universal.

O “Sermão da Montanha”, de tão sintético e, ao mesmo tempo, tão vasto, figura no topo das mensagens bíblicas de todos os tempos e lugares. Ousarei dizer que se, por trágica ocorrência, se perdessem todos os livros do Velho e Novo Testamentos e só ficasse o texto das “Bem-aventuranças”, pois nada mais seria preciso para instaurar o Novo Reino da Vida, aquela nova ponte, a que se dá o nome de  Religião, não apenas para o século I da nossa era, mas para o século XXI e, daí, para todos os séculos vindouros.

Transformando o mundo, não basta sermos “Bem-aventurados”. É preciso sentirmo-nos “Felizes”!

 

13.Fev.22

Martins Júnior

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

E A SERRA ABRIU-SE EM JARDIM… PELA MÃO INVISÍVEL DO PADRE TAVARES

                                                                           


 

    Poucas as palavras e muitas as obras – é o que se pode dizer da tarde de hoje nesse remoto sítio de Câmara de Lobos, de lindo nome Jardim da Serra. Muito se andou para lá chegar, àquela encosta onde, por entre os verdes velho e moço  brilha, solene,  a antiga Escola dos Moinhos. Brilho maior, porém,  tem lá dentro a sabedoria impressa em milhares de novos papiros, os cerca de quatro mil volumes oferecidos à Nova Biblioteca.

         Foi a grande metamorfose que ali se operou. Da raiz do antigo imóvel da instrução primária, ora desactivado, nasceu um novo e viçoso rebento, o repositório de textos, revistas, semanários, suplementos e manuscritos de há várias décadas, generosamente cedidos pelos familiares do homenageado.  Para além do fecundo e primoroso viveiro enciclopédico que ali se guarda, avulta a dedicatória que ostenta a entrada da sala: “Biblioteca e Centro Documental Padre Mário Tavares Figueira”.

         Todos quantos lá se deslocaram – presidentes e autarcas da Assembleia Municipal de Câmara de Lobos, Câmara Municipal, Assembleia e Junta de Freguesia local, associações culturais, clérigos amigos Padre Paulo Silva, Rui Sousa e Martins Júnior, numerosos fregueses do Jardim da Serra – todos sentiram que, mais que uma homenagem ao titular da Biblioteca, o que ali se passou foi um imperativo do subconsciente latente na alma das coisas e das pessoas, a necessidade telúrica de termos o Padre Mário Tavares presente no meio de nós. Ele dispensa quaisquer mausoléus, embora bem merecidos. Nós é que precisamos de revê-lo, senti-lo e todos os dias segui-lo.                                                                   


         E aí está a Biblioteca como monumento vivo da sua presença. Foi com muito emoção que vi e acariciei os manuscritos do Padre Tavares, os exemplares do semanário “O Caseiro”, poderoso instrumento de aculturação e luta dos colonos madeirenses na abolição do ‘leonino contrato’ da colonia, em cujas fileiras ele e eu nos alistámos e vencemos.

Padre Mário Tavares firmou em palavras e factos a legítima definição de Igreja, a verdadeira Universitas de saberes e deveres, ideologia e práxis concreta, justiça distributiva e dignidade no trabalho. A todos estes segmentos  se dirige a autêntica mensagem evangélica e por eles o Padre Tavares deu a vida.

A enriquecer esta efeméride e numa perfeita osmose com o programa, o Padre José Luís Rodrigues, natural do Jardim da Serra, além de ter doado mais de dois mil volumes, apresentou aos seus conterrâneos o seu mais recente romance “A TRAVESSIA REDONDA”.

Brilhante e justo acontecimento, fruto amadurecido das gentes daquele lugar, ao qual o Padre Tavares deu tudo quanto tinha. Por ser tão pura e descomprometida a homenagem (e por não lerem lá posto os pés as proeminências regionais) as nossas agências áudio-visuais também lá não puseram as mãos.

Outras mãos, porém, e outros corações – sob a liderança do Professor Manuel Neto – a partir de hoje, no chão das macieiras luzidias  e das cerejeiras em flor do Jardim da Serra,  plantaram  mais  uma árvore de imarcescível fulgor: a Árvore da Sabedoria!   

 

         11.Fev.22

         Martins Júnior


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

“PROIBIDO DORMIR NA FORMA” !!!

                                                                                


Impossível passar insensível à beira do ‘monstro’. Fazer-lhe ouvidos de mercador é o mesmo que cair-lhe nas garras e deixar-se sufocar sem poder soltar um pio. O ‘monstro’ de que falo é o  Poder Absoluto, de que tanto tem badalado a opinião pública, a propósito da maioria absoluta saída das eleições de 30 de Janeiro p.p.. Por isso, optei por dar continuidade às reflexões do último blog, com particular acento na responsabilidade do cidadão comum em permanecer vigilante e actuante face aos primeiros rebentos de qualquer eventual prepotência governativa. Aqui, é o próprio povo que ministra a receita: “Antes que o mal cresça, corte-se-lhe a cabeça”.

         Se, desde o início da aventura humana no planeta impera a evidência darwinista – a lei do mais forte ou o poder absoluto  – deve também dizer-se que vem de muito longe o primado da Liberdade, a defesa de um direito igualitário, inerente à condição humana, contra o qual nem rei nem deuses conseguem ultrapassar.

Faz bem recordar a Magna Carta de 1215, no Reino Unido, precedida da Lei das Liberdades, de 1100, em que são determinantes, incontornáveis, as linhas vermelhas impostas pelo Parlamento às tentativas absolutistas dos monarcas: “A Carta de todo o homem digno em qualquer tempo e em qualquer lugar”, assim classificá-la-ia mais tarde Winston Churchill. A Carta da Floresta, designada de ‘segunda carta’, exigia que “ os bens comuns – fonte da subsistência da população geral – fossem rigorosamente protegidos do poder externo, impondo limites à sua privatização”.

         Muita luta sobreveio e muitas foram as vítimas que deram a vida pela instauração e desenvolvimentos da Magna Carta, sobressaindo o parlamentar Henry Vane, decapitado em pleno cadafalso, por ter proclamado desassombradamente (na sequência da famosa ‘Petição de Direitos’) que “a origem de todo o poder justo está na sociedade civil, não no rei, nem mesmo em Deus”. Isto em 1628 !... Passaram-se mais de três séculos (348 anos) para que a Assembleia da República Portuguesa inscrevesse na sua Constituição o mesmo inalienável normativo: “A soberania reside no povo”.

         Interrompo esta viagem no tempo (e tão bem que ela sabe!) para insistir na estratégia mais eficaz para subtrair, direi mesmo, minar pela raiz os atávicos instintos do “monstro”-poder absoluto. Para isso, permitam-me citar um excerto do livro “QUEM GOVERNA O MUNDO?”, de Noam Chomsky, precisamente porque vem confirmar o que assinalei em escrito anterior.  Chomsky, ‘o maior intelectual da esfera pública’, perscruta a ‘ânsia de conceber métodos sofisticados de contolo das atitudes e da opinião pública’, por parte dos EUA em 1960. E afirma sem rodeios:

         “Uma das tarefas primordiais do Comité de Informação Pública dos EUA foi sempre manter a população longe dos ‘nossos pescoços’… Uma preocupação em particular tinha que ver com a introdução de melhores mecanismos de controlo sobre as instituições responsáveis pela doutrinação dos jovens: as escolas, as universidades, as igrejas que, aos olhos dos líderes políticos, não estavam a ser capazes de cumprir a tarefa essencial: a exigência de   medidas para impor moderação à democracia”.

         É isto: a tática mais certeira é atacar as bases – o povo anónimo, opinião pública, escolas, universidades, igrejas. Olhem para a Madeira, a já velha ‘Madeira Nova’, e digam se Noam Chomsky não tem razão…

         É do ADN  de todo o monstro absoluto nunca dormir. E o Zé-Povo, os verdadeiros soberanos da Nação, entretêm-se sonâmbulos com as piruetas do mostrengo, na imprensa subsidiária, nos áudio-visuais, nas festas, nas benesses. Apetece trautear a canção do velho regime: “Lá vamos cantando e rindo, Lá vamos pagando e rindo”!

         Volto a propor: o poder do povo não se exerce só de quatro em quatro anos, é de todos os anos, de todos os dias, nunca permitindo que sob o nosso olhar “o sapateiro-mor e seus apaniguados subam acima da chinela”, como bem observou o famoso Apeles da velha Grécia. Quando um colega é prejudicado injustamente e nós nos calamos – é o monstro que alimentamos.  Quando ficamos “longe dos pescoços dos poderosos eleitos” e nos julgamos inúteis, impotentes, aí aguçam-se as garras do “monstro”, cresce o Poder Absoluto. Entendamo-nos: não é o vértice que mexe a pirâmide (do Poder), são as bases que a sustentam, são as bases que a removem.  

         “Quem se cala com o que está torto está entortando cada vez mais” – dizia-me um sábio ancião dos nossos campos.

         Para terminar o rumo reflexivo que não tem termo, apraz-me aplaudir calorosamente a decisão de um importante sector representativo da vida económica regional quando hoje fez constar na comunicação social que pretende intervir, participando presencialmente, na orientação programática do famigerado Plano de Reestruturação e Resiliência (leia-se: ‘bazuca europeia’), de que a Madeira é privilegiada beneficiária.

         Esclarecendo: é meu dever, mais que um direito, estar atento e escrever sobre a paisagem sócio-política, económica e cultural da terra que foi dada como berço e caminho longo!

  

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        

09.Fev.2022

         Martins Júnior

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

A BELA E O MONSTRO: AS DUAS FACES DO PODER ABSOLUTO. QUEM AS VENCE ?

                                                                   


        É talvez o grande enigma que a esfinge do poder coloca, nesta altura, aos constituintes da soberania, os eleitores, o povo português. O Poder Absoluto! – talismã da paz e da alegria de um povo e, paradoxalmente, o rosto monstruoso do terror e da morte de uma nação, de um império. Por isso associei-o ao mito híbrido “A Bela e o Monstro”.

         Precisaríamos da intuição crítica de um ‘Édipo-Rei’ para decifrar o enigma: saber distinguir quando o Absoluto é a expressão do Bem e do Belo ou quando ele se perverte no seu contrário. E mais: possuir a perspicácia para destronar o monstro e fazê-lo regressar ao seu estatuto originário.

         Escusado será repetir aqui os velhos e sábios aforismos de que “o poder é tão sôfrego como um afrodisíaco” e que o “poder absoluto corrompe absolutamente”. Ademais, temos sobejos e repelentes casos de ditadores absolutos, os de ontem, os de hoje e os de sempre – sim, de sempre, porque as mãos que os fabricam são as mesmas, as mãos humanas.

         Com que jogos de cintura ou com que golpes de montante seremos capazes de apear ou estrangular o monstro de sete cabeças, sete chifres, mil tentáculos?... O mundo derrotou os Nero’s, a Inquisição, os Stalin’s, os Hitler’s, os Mussolini´s, os Salazar’s. Hoje, no aqui e agora, são de outro requinte os cultores do deus Pluto, como nos preveniu o nosso Francisco Álvares de Nóbrega (‘Camões Pequeno’). Quando escrevo ‘aqui e agora’, refiro-me concretamente à arquitectura piramidal do Poder Absoluto, ora instaurado em Portugal pelas mãos dos portugueses. São muitos os avatares e pesarosos os maus agoiros vertidos na praça pública contra aqueles a quem foi entregue o Poder Absoluto. Que faremos nós deste tão cobiçado troféu: a Bela ou o Monstro?

         Sabemos que a Constituição criou firmes e bem descriminadas válvulas de segurança para obviar aos desmandos do poder absoluto: o Presidente da República, o Tribunal Constitucional, o Tribunal de Contas, a Procuradoria Geral da República, a Provedoria da República, Ministério Público e, com foros de legitimidade popular expressamente representativa, a Assembleia da República.

         Não obstante a grandeza e a dignidade deste elenco de escrutinadores oficiais, eles ficam distantes, muitas vezes ocultos à visibilidade do vulgo eleitor. Há outras instituições mais próximas, reais locomotivas da soberania popular, dos seus direitos e reivindicações, tais como os sindicatos, as organizações de base, as ONG’s e afins, cujo conteúdo funcional assenta na vigilância actuante sobre as pegadas do poder. Do outro lado, há os aliados naturais do ‘absolutismo’ institucional, quase sempre (raras são as excepções) comportam-se como correias de transmissão do poder, sob pena de perda de privilégios, senão mesmo de extermínio: são órgãos de informação, são igrejas, são lideranças intermédias vigentes nas comunidades, etc.. Os titulares do poder agarram-se com avidez a determinadas corporações (e estas retribuem-lhes como rémoras subservientes  aos tubarões), formando um corpo de tenazes que, mais devagar que depressa, vão comprimindo o povo até sufocar toda a opinião pública.

         São estes os regimes onde prolifera como num charco de répteis o monstro do Poder Absoluto, caracterizado pela sua capciosa longevidade. Assim o ‘Estado Novo’ nacional, de 48 anos. Assim a ‘Madeira Nova’, da mesma idade.

           Há que encontrar um outro caminho, uma outra estratégia para impedir que “A Bela” se torne um “Monstro”. Em termos directos e eficazes, apraz-me formular o óbvio: As mãos que fabricaram o ‘Monstro’ serão as mesmas que o devem destronar! Mais concretamente: a ressonância democrática e a vigilância fiscalizadora do poder deverão ser o status quo da idiossincrasia de um povo.

Ou seja: o eleitorado, no campo ou na cidade, deveria assumir o seu estatuto, plenamente lavrado na Constituição, Art.3º: “A soberania reside no Povo”. Assim como o governo saído da votação tem o mandato de quatro ou cinco anos, assim também os eleitores deveriam estar atentos, de consciência crítica e esclarecida, durante todo o tempo em que durar a governança do seu país e do seu lugar. A grande derrota do povo não está no dia das urnas, advém da inércia de demitir-se do seu lugar, de costas voltadas, até que chegue o dia de novas eleições.

É este um tema sumamente grato para mim. Gostaria de desenvolvê-lo mais acuradamente. Haverá, ainda, outras oportunidades. De qualquer forma, deixo aqui este apelo: não será nos tsunamis dos tumultos das grandes manifestações de rua (por vezes, necessárias) que se há.de vencer o ‘monstro’ absoluto, venha ele der onde vier. É pela convicção pessoal de cada cidadão na construção do seu país, cortando os instintos megalómanos que surgirem no seu trabalho, no desporto, no ensino, na oficina, na religião, na administração pública. O ‘monstro’ move-se em toda a parte. Alerta total!

Saúdo a nova maioria que vai governar Portugal. E com o mesmo afã convoco os legítimos detentores da soberania nacional – todos nós – a mantermos vivo e autêntico o Poder como a mais Bela produção do ano de 2022,

07.Fev.2022

Martins Júnior        

sábado, 5 de fevereiro de 2022

REGRESSAR ÀS ORIGENS SABE BEM E FAZ CRESCER !

                                                                        


É sempre de um doce encanto e não menos vigoroso impacto viajar até à origem de tudo, mais intensamente do tudo de onde viemos e por onde começámos: o primeiro berço, os primeiros passos, a primeira escola, a entrada na universidade, o estágio do primeiro emprego, o primeiro amor, o primeiro contrato de aquisição de casa própria, tudo.

É o que se chama o regresso às fontes, sobretudo quando estão em causa decisões que terão marcado o futuro, o nosso e o da sociedade a que pertencemos. Cabem aqui as motivações que ditaram uma carreira, os estatutos de uma recém-criada associação, as linhas programáticas de um partido, a escolha de deputados e governantes e, ainda, a ordenação de eclesiásticos e evangelizadores. Para além da saudável nostalgia desse regresso, impõe-se um imperativo recurso às origens para obviar aos desvios e deturpações que as circunstâncias e os embates da vida provocam na rota inicialmente traçada.

Hoje, Sábado - e amanhã, Domingo – cai-nos nas mãos o LIVRO de fim-de-semana, onde nos confrontamos com essa precisa encruzilhada de tomar decisões, fazer opções, chamar colaboradores responsáveis, enfim, pôr em marcha um projecto credível e duradouro, um património imaterial que, volvidos mais de vinte séculos, ainda persiste. Precisamente pela sua longevidade e pelas mais anómalas vicissitudes em que se tem emaranhado, torna-se necessário e urgente, em cada época, remontar ao princípio, à pureza original do primeiro impulso.

Convido-vos a compulsar o texto de Lucas, capítulo V.

Após trinta anos de anonimato numa carpintaria familiar, o Nazareno sente chegar a hora de avançar com o seu projecto tremendamente reformador, manifestamente revolucionário, qual o de fazer caducar as estruturas falaciosas e podres de um regime sacro-ditatorial, para reerguer um mundo novo e uma Constituição regeneradora de toda a sociedade. Onde encontrar, porém, militantes firmes, clarividentes, seguros, da mesma fibra que o seu Fundador?... Aqui refugio-me no horto recôndito da minha introspecção para extasiar-me diante deste Visionário, as ânsias, os avanços e recuos, as expectativas e os previsíveis insucessos, enfim, quantos suores frios e quantas arritmias a bater-lhe dentro do peito!

Mas… fazer-se ao largo – é preciso! Mete-se no barco  (os  ‘valorosos’ militantes eram pobres pescadores) observa-os de perto,  possivelmente ajuda-os na faina das redes, é enorme a sorte da pescaria e, uma vez na praia, não tem dúvidas: “É com estes que eu conto. Vinde comigo. Farei de vós pescadores de algo maior: pescadores de homens, de pessoas, de corpos e almas”!

Além do contacto directo no chão da vida e na partilha do trabalho braçal, que estranha magia teria penetrado naqueles homens de mãos calejadas e pele tisnada do sal marinho, para ‘transtornar-lhes’ a vida e tomarem uma opção radical, irreversível: “Eles logo deixaram as redes, deixaram tudo e seguiram a Jesus”!!!

  Por mim, preferia ficar por aqui, na contemplação deste quadro tão solto e emocionante (digno de uma aguarela romântica) quanto avassalador nas suas consequências se fizermos o paralelo com os tais “desvios e deturpações” que a Instituição tem protagonizado ao longo de vinte séculos.

Até onde levar-nos-ia o interminável filão deste episódio, elemento fundacional do verdadeiro Cristianismo que faz de todo o cristão parte essencial do “corpo sacerdotal”, do “sacerdócio real”!... E é justamente  nessa direcção que segue a linha evangelizadora dos actuais teólogos, inspirados nas fontes originárias do Evangelho. Como tal e porque nada melhor que apoiar-se nos Mestres, recomendo vivamente os capítulos finais do último Grande Livro do Professor Padre Anselmo Borges – “O Mundo e a Igreja, Que Futuro?” – onde se afirma, com sólida fundamentação histórica, que Nem Jesus nem os Apóstolos ordenaram sacerdotes”.

Entender a simplicidade e a profundidade do projecto de Jesus de Nazaré não se compadece com meros espectáculos pios, fogos fátuos da ribalta social, decalcados da aristocracia burocrática dos impérios mundanos. É preciso regressar ao Mar da Galileia, ouvir  chamar os colaboradores militantes e fixar a voz do narrador: Eles deixaram tudo e seguiram-nO”!

 

05.Fev.22

Martins Júnior

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

UM EIXO DO BEM…MAL!

                                                                      


Laconicamente (para não cair no logro que hoje sinalizo) permitam-me concluir o arrazoado do último blog, concretamente a dualidade de critérios e opiniões ou a capacidade mimética do ser humano - leia-se: a “tribo jornalística” (Nelson Traquina) e a galeria de comentadores - no “Antes” e “Depois” do acto eleitoral de Domingo, 30 de Janeiro de 2022.

         O logro, talvez o fosso, onde não quero cair chama-se dogmatismo, radicalismo, infalibilidade doutoral. Detesto tudo quanto tresanda a prepotência dogmática, onde quer que ela surja, sobretudo no teatro fácil do ‘agorá’ dos debates abertos, qual destemperada Torre de Babel da opinião pública.

         Acabei de ver e rever a edição do Eixo da Quinta-Feira. Comparei-a com a da semana anterior. E, respeitando quem julgue o contrário, reconfirmei tudo quanto escrevi no último  Dia Ímpar. Limitar-me-ei aos contornos de uma simples descrição:

         A abertura do pano de cena é de uma eloquência intraduzível. Os rubros vaticínios, estampados no rosto e nos olhos exuberantes dos intervenientes sobre a “impossível maioria absoluta”  metamorfosearam-se de repente num sorriso-riso (o riso é, de facto, amarelo, viu-se clarissimamente) o qual ficou mais notório nos olhos que se iam fechando em bico.

         Falou-se da “maioria absoluta”, gesticulando com os habituais trejeitos de Mefistófeles à-portuguesa, que ela foi o ‘resultado de uma série de tragédias’; aludiu-se ao ‘abraço do urso’; culpou-se o sarilho das sondagens e que tudo fora “uma anomalia”, quase-inconstitucional  - ‘a Constituição está feita para que não aconteçam maiorias absolutas’ ou só raríssimamente. Mais fulgurante foi a representação da Deusa do Templo de Delfos – “o que me surpreendeu não foi a maioria absoluta de Costa, mas a derrota do PSD” – a mesma que antes tinha escrito: ‘no fatídico 31 de Janeiro, Costa pode ter perdido tudo, depois de perder a cabeça”.

         Sem esquecer a breve alusão à “vitória retumbante” e à eventual “comédia romântica” de Domingo, espraiaram-se os intervenientes pela praia do futuro, por exemplo,  que “a maioria iria apodrecer daqui a dois anos”. O resto do espectáculo foi dedicado à esquerda perdedora e à força  das direitas no futuro parlamento.

             Laconicamente: respeitando opinião contrária, como é difícil no reino do fundamentalismo dogmático aceitar a transparente e inexorável verdade dos factos!

         Para não cair no aludido logro fundamentalista, tenho sempre presente a filosofia popular que deixo aqui expressa textualmente, mesmo com o desvio da concordância verbal: "As falas da nossa boca é a nossa condenação”.

 

         03.Fev.2022

         Martins Júnior